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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A criação do ensino obrigatório

O que se segue é uma tradução livre de um texto por Thom Hartman, cuja versão original podem ler aqui.

Nos finais do século XIX Napoleão começou a avançar pela Europa, alcançando finalmente a Prússia, onde o seu exército voluntário de agricultores conseguiu derrotar os soldados profissionais do rei da Prússia. Esta humilhante derrota levou o rei da Prússia a criar, em 1819, pela primeira vez na história, o ensino obrigatório a nível nacional - e a fazer com que ele permanecesse.

A teoria dele, atribuída ao filósofo alemão Fichte, era que forçar as crianças a irem à escola desde pequeninas as tornariam mais leais, e receosas, ao poder do Estado do que à autoridade dos pais. Se não fossem à escola, pessoas armadas viriam-nas buscar; se elas, ou os pais, tentassem resistir, a polícia podia aprisioná-las ou matar os rebeldes pais. Os miúdos não eram parvos: sabiam que os pais não tinham outra escolha senão mandá-los para a escola e que, consequentemente, o Estado era mais poderoso que as suas próprias famílias. Fichte e o rei raciocinaram que estas crianças se iriam tornar bons soldados, respeitando o poder estatal.

Além disso, o rei queria soldados que não questionassem as suas ordens mas que imediatamente fizessem o que lhes era dito. Assim, o sistema escolar prussiano instituiu um sistema de “proibição de interrupções”. As crianças nem sequer podiam fazer uma pergunta sobre o tópico que estavam aprendendo a não ser que antes perguntassem, “posso fazer uma pergunta?”, pondo o dedo no ar e esperando autorização. Deste modo ficavam “correctamente socializadas”, ou seja, aprendiam a respeitar e a não questionar os detentores da autoridade.

O sistema foi criado para eliminar ou remover as ervas daninhas que hoje chamaríamos de comportamentos e perspectivas alternativas do cidadão comum. E, como resultado, todas as crianças - os produtos deste sistema escolar - teriam as mesmas opiniões sobre as “matérias consideradas importantes pelo Estado”. Isto agradou muito ao rei, que deste modo poderia decidir que matérias eram essas, e que opiniões deveriam as crianças formar.

Contudo, o rei não queria que os seus filhos, os futuros governantes do país, fossem sujeitos a esse tratamento. Eles iriam liderar e precisavam de adquirir competências como a liderança, a criatividade e a independência, e não a cega obediência. O rei também se apercebeu que os filhos dos comerciantes e dos funcionários públicos precisariam dessas capacidades, e que seriam menos eficazes se fossem processados pelo sistema do ensino público que ele tinha criado.

Assim, mandou criar um segundo sistema, um sistema paralelo ao ensino público. Ao primeiro sistema chamou “a escola do povo” (Volkshochschule), enquanto que ao segundo, onde a verdadeira instrução ocorreria, chamou simplesmente de "a verdadeira escola" (Realschule). Noventa e três por cento dos estudantes atenderiam a escola do povo, e os sete por cento que representavam a elite da nação e os futuros líderes atenderiam a verdadeira escola.

A Realschule foi originalmente criada de um modo que seria provavelmente muito simpático. Havia uma ênfase na interacção, na participação, na expressão de opiniões e ideias, no pensamento crítico e no treino para a liderança. Assemelhava-se em muitas maneiras a algumas das mais progressivas escolas “experimentais” que existem nos Estados Unidos e noutros locais.

Hoje em dia, o sistema da escola do povo e da verdadeira escola ainda existe na Alemanha.

No início, muitas comunidades americanas se juntavam, empregavam um professor e abriam uma escola. Contudo, não eram nem obrigatórias nem do Estado. Os pais pagavam o salário do professor e essas escolas seriam actualmente consideradas escolas privadas.

Com o crescimento e a industrialização da América, e com a partida de muitos trabalhadores para os campos de batalha da guerra civil, foram precisos trabalhadores obedientes para as fábricas. Horace Mann foi à Prússia para ali observar o funcionamento das escolas (que tinham sido tão eficazes que o rei da Prússia lutou contra os franceses e retomou o seu país), e foi-lhe concedido um “doutoramento”, outra invenção prussiana.

Mann achava que o sistema prussiano do ensino público era a solução ideal para o aumento dos problemas sociais na América: pensava que através dele conseguiria criar uma população mais homogênea, de trabalhadores obedientes com opiniões e valores semelhantes. Começou a fazer uma campanha para a criação de um sistema de ensino público obrigatório, especialmente entre os líderes industriais, sugerindo que se eles pudessem usar a sua influência política poderiam ajudar a resolver os problemas sociais e, ao mesmo tempo, obter trabalhadores melhores para as suas fábricas.

Contudo, o primeiro grupo a aceitar a ideia de Mann não estava interessado em fazer obras de caridade. Era uma organização protestante que andava muito alarmada pelo influxo de católicos irlandeses em Boston. Algo tinha de ser feito para introduzir o Estado nessas comunidades, ou um dia poderiam vir a adquirir bastante poder político para ameaçar a matriz protestante do poder político e econômico. Assim, a cidade de Boston adoptou o primeiro sistema de ensino público obrigatório nos Estados Unidos.

Ao trazer o sistema de ensino prussiano para os Estados Unidos, Horace Mann prestou um grande serviço ao governo e à indústria. Negligenciou, contudo, o sistema da verdadeira escola. Era suposto que as famílias com poder e posição teriam dinheiro para mandar os filhos para as escolas privadas, e por isso não havia necessidade de um sistema público de verdadeira escola. Também não queriam correr o risco das crianças espertas “das classes mais baixas” virem a ser educadas como colegas dos filhos da elite.

E assim temos hoje um sistema de ensino público cujo objectivo principal é a socialização dos nossos filhos. A obediência, a conformidade do rebanho, a submissão à autoridade do sistema e do professor são mais importantes do que a inteligência, a curiosidade ou a criatividade. Os que se deixam moldar são recompensados com boas notas. Aqueles que não submetem a sua vontade aos detentores do poder, os professores, são frequentemente esmagados.

Esta é uma área onde - conscientes da história do sistema escolar - podemos começar a mudar as coisas. Hoje, muitos pais mandam os filhos para escolas privadas; mas nos Estados Unidos, mais de um milhão de famílias escolhem o ensino doméstico. A aprendizagem está disponível na internet. Com a proliferação destas alternativas seguir outro caminho é possível.

Copyright o © 1999, 2000, 2001 por Thom Hartmann, todos os direitos reservados.

5 comentários:

Isabel de Matos disse...

Nunca tinha lido um texto tão completo sobre a origem da "escola do povo". Obrigada!
Isabel

Tibetan Star disse...

Acho incrível que tão poucas pessoas estejam conscientes da história do ensino obrigatório e dos objectivos que levaram à sua criação!

Luisa_B disse...

Está de parabéns pelos post’s que tem escrito.
Essas pesquisas sobre a matéria devem ser extenuantes mas compensam pelo conteúdo.

No meu caso, pedi o ensino doméstico e foi recusado pela escola.
Estou a ser acusada à protecção de menores porque o meu filho foi vítima de bulliyng na escola e foi á beira do suicídio.
Está de baixa psiquiátrica que apresento mensalmente à escola e estes ainda pouco satisfeitos do que me fizeram ao miúdo resolveram acusar à protecção de menores e jovens em risco que o aluno estava em "abandono escolar".
Estou com problemas porque mesmo tendo apresentado provas de que a psicóloga dele e psiquiatra não estão de acordo que ele regresse à escola , eles estão todos convictos que eu não estou a optar pelo melhor para o meu filho.

Deram-me um documento para eu assinar onde aceitaria todas as suas medidas incluindo o regresso á escola e sua inclusão sem me mencionarem nem saberem ainda como se iriam processar as aulas nem sala nada...nada me sabem dizer e querem que eu assine algo assim comprometendo os direitos do meu filho e sobretudo sua saúde mental

Ele é muito inteligente mas com lacunas normais nos autistas de alto funcionamento que eu preenchia dando novamente todas as aulas á noite até 1h manhã ou mais sendo que o seu repouso era menos de 8h de sono.

Fiquei revoltada com tudo isto porque sei de casos de famílias em Portugal que têm os filhos em regime de estudo em casa e a mim recusaram.
Penso que só após o meu filho ficar completamente destruído psicologicamente é que se darão conta do mal que lhe fizeram.
Infelizmente para ele e para mim que depois terei de o acompanhar assim pelo resto da sua vida.

Penso que no caso do meu filho das duas uma: ou ele consegue suicidar-se ou acabará esquizofrénico, psicopata ou algo dentro desse quadro e não seria para menos dado o sofrimento que lhe provocaram na escola e que agora continuam de outra forma, tal como o” Rei e os soldados dele” que tinham de obedecer e calar.

Sinto uma revolta muito grande pois dizem que eu sou protectora e não o deixo crescer. Quem me conhece sabe que a minha filha está na Universidade no ultimo ano com sucesso e sempre foi excelente aluna, bem acompanhada por mim e nunca se queixou de protecção mas sim elogia os meus cuidados de mãe e conselhos que lhe fui dando ao longo da vida e ensinamentos vários.

No caso do meu filho que tem 14 anos e está no 8º ano o médico que está como gestor do processo na protecção de menores respondeu-me que: se ele tiver um ataque de pânico ou outro na escola, não morre!

Paralelamente com a síndrome de asperger ele desenvolveu também há pouco tempo síndrome de Gilbert, provavelmente devido à situação de muito stress em que viveu na escola e desencadeou esta doença, que é genética. Estes devem ser poupados a situações de stress e ansiedade.
A escola que nada fez para protecção do meu filho, durante mais de um ano em que foi vitima de abusos de toda a ordem: psicológica, física verbal e moral, ele deve aguentar tudo e regressar á escola vivo ou morto!

Anónimo disse...

Verdadeira vertente do ensino que conhecemos atualmente.

Henrique Bonaspetti disse...

Sensacional.