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quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Sincronicidade, transdisciplinaridade e o ensino doméstico

Engraçado o que se passou ontem. Estava jantando e reflectindo em como o processo da aprendizagem autónoma (é assim que traduzo o termo unschooling) leva naturalmente à compreensão da interligação entre todas as coisas.

Em particular, estava olhando para a sopa e pensando: "hmm, que sopa tão gostosa e saudável!" Aí comecei a abservar o funcionamento da mente, saltando rapida e naturalmente de uma perspectiva para outra, em associação livre de ideias, do estilo: sopa, sabe bem, papilas gustativas, 5 sentidos, ciência, corpo humano, processo digestivo, biologia, nutrição, saúde, produtos alimentares naturais, biodiversidade, sustentabilidade, ecologia, geografia, agricultura, pesticidas, toxinas, influências na escolha da alimentação, poder de compra, economia, política, sociologia, ética... e assim por diante!

E pensei: "Não é incrível como uma troca de pensamentos durante uma refeição depressa se transforma numa sessão de exploração do mundo em que vivemos? De um mundo em que a parte não está separada do todo, em que a parte contém o todo, em que o todo é muito mais do que a soma das partes?"

Depois, com certa tristeza, pensei em como nas escolas o conhecimento é compartimentalizado em disciplinas diferentes. Como as mentes dos alunos se tornam escolarizadas e perdem a visão do dinamismo das interrelações que existem entre as coisas. E pior ainda, como perdem a visão de si mesmos enquanto seres humanos.

Lembrei-me do professor e autor John Taylor Gatto, que diz: "A primeira lição que ensino é a confusão. Ensino que tudo está fora de contexto ... Ensino a não-relação entre tudo. Ensino a não-conexão. Ensino em demasia: a órbita dos planetas, a matemática, a escravatura, adjetivos, dança, ginástica, canto coral, computadores, línguas, programas de orientação com estranhos que você nunca mais verá, avaliações, segregação etária como nunca é vista no mundo lá fora... o que tem qualquer destas coisas a ver com as outras?"

Ter a liberdade para aprender de uma maneira natural, orgânica, holística, transdisciplinar, para além da separação entre sujeito e objecto, entre mente e coração... que maravilha! Ando entusiasmada com esta ideia da transdisciplinaridade.

Video: O que é a transdisciplinaridade?

Da separação artificial do conhecimento em disciplinas todos nós sabemos. Essa foi a nossa experiência escolar. Mesmo no ensino superior, quando finalmente obtemos o direito de estudar aquilo que melhor se adequa à nossa motivação intrínseca, essa compartimentalização continua. Eu, por exemplo, que passei 9 ou 10 anos estudando várias disciplinas da música clássica, não me lembro de nenhuma tentativa de convergência desses saberes por parte dos professores. O que aprendia em história da música era uma coisa, o que aprendia em composição era outra, e assim por diante.

Mais tarde, quando fiz uma licenciatura combinada aqui na Inglaterra, em Música e Gestão, as duas áreas estavam completamente separadas, e eu passava metade do tempo no departamento de música e metade no departamento de gestão de negócios. Embora essa combinação, essa multidisciplinaridade de estudos fosse permitida, ainda deixava muito a desejar...

A transdisciplinaridade vai além dessa separação; ela é "a busca do sentido da vida através de relações entre os diversos saberes numa democracia cognitiva. Nenhum saber é mais importante que outro."

E a transdisciplinaridade não se limita à noção de que a matemática não é mais importante do que a música. Ela vai além, abraçando a ideia de que o conhecimento adquirido pela razão ou intelecto não é mais importante do que o conhecimento adquirido através das multiplas dimensões humanas, como as emoções e a espiritualidade.

E nós, que praticamos o ensino doméstico, estamos na posição ideal para a pôr em prática, permitindo que os nossos filhos sejam seres humanos na sua inteireza. Como já dizia Ricardo Reis,

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.


O mais engraçado, e é aqui que a sincronicidade entra, é que logo a seguir a estas reflexões, cliquei no blogue Pés na Relva e li Ensino Doméstico é como as Cerejas. Fascinante!

Vídeo: Trans o quê?

5 comentários:

Lara Gisela disse...

Que «post» fantástico! É realmente assim que a aprendizagem deve ser.

Pequete disse...

Realmente, as coincidências são fantásticas. Mas num mundo em que tudo se relaciona com tudo o resto, não é de espantar. Obrigada por mais um belo post.

Tibetan Star disse...

Pois é, estava agora a sentir, seguindo o tema da gratidão que vi no blogue da Lara, que bom que é estarmos em contacto umas com as outras!

Isabel de Matos disse...

Partilho o mesmo sentimento, Paula, que bom é estarmos em contacto umas com as outras! Parece que já vos conheço há anos e no entanto... :)
Também gosto muito deste tema da transdisciplinaridade!
E já agora, quanto à sincronicidade: a minha filha do meio entrou este ano para a universidade e tem tido muitos testes, quase nem a vejo; hoje trouxe-a para casa e a um colega dela que conheci hoje (vieram estudar) e durante a viagem, no carro ele começa a dizer-me que não concorda nada com o sistema de ensino existente, inclusivé o universitário, que deviam aprender as coisas "por projectos"!
Ri-me e contei-lhe (ele não sabia) das minhas convicções em relação à educação e da nossa prática mais recente do ensino doméstico.

Beijinhos, obrigada pelos teus posts!

Isabel

Tibetan Star disse...

Confesso que os projectos foram aquilo que mais gostei de fazer na universidade, pois proporcionam maior liberdade de escolha em relação à área de estudo.

Lembro-me por exemplo de ter feito um sobre o poder curativo da música, que era exactamente aquilo que mais me interessava na altura...