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terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Desescolarizar os pais: Aprender a confiar

"É natural que os pais sintam uma certa tensão e incerteza ao contemplarem, para os seus filhos, um rumo diferente daquele que seguiram.

Nós, que decidimos seguir a abordagem da não-escola (unschooling), mesmo quando convencidos que essa é a melhor opção para os nossos filhos, temos de desaprender uma série de pressupostos sem fundamento sobre a aprendizagem, pressupostos que fomos, durante tantos anos, condicionados a acreditar. Se conseguirmos fazer isto conseguiremos redescobrir o amor, inato e natural, pela aprendizagem.

A maior parte de nós aprendeu, na escola, a ver uma falsa dicotomia entre "aprendizagem" e "diversão". Aprendemos que se é "educacional" não pode ser divertido, e se é divertido não pode ser aprendizagem! As crianças não-escolarizadas desde o início, como o meu filho Jason, apreciam a vida sem tais preconceitos e vêem a aprendizagem como uma experiência maravilhosa e gratificante.

Em contraste, as escolas funcionam à base de um pressuposto muito diferente, de que a aprendizagem pode ser imposta, de fora para dentro da criança, através de vários tipos de coação, manipulação e de recompensas e castigos, e que há várias etapas que todas as crianças "têm de" alcançar a certa idade ou nunca lá irão chegar (devemos perguntar: chegar aonde e porquê?). Estes pressupostos são falsos, mas podemos sentir dificuldade em abandoná-los, pois foram tão arraigados na nossa própria infância.

Enquanto o meu filho sempre compreendeu naturalmente o verdadeiro espírito da aprendizagem, eu tive de desaprender muitos desses pressupostos. Nesse sentido, Jason foi o meu mentor, lembrando-me continuamente que a aprendizagem não se limita a um currículo específico, a um certo edifício, horário ou à presença de um "professor". Jason aprendeu sozinho aquilo que agora usa no seu trabalho como webmaster e revisor do nosso Projecto Criança Natural.

De certa forma, somos a geração com a tarefa mais difícil, porque estamos literalmente forjando novos caminhos e obtendo novos entendimentos. A não-escolarização (unschooling) vai ser muito mais fácil quando as crianças que não foram escolarizadas optarem por esta via para os seus filhos. Para elas, a não-escolarização (unschooling) vai ser a norma, e não terão necessidade de desaprender tantas crenças bem-intencionadas mas prejudiciais. Irão ter uma compreensão muito mais simples e verdadeira: que todas as crianças têm o seu próprio ritmo natural de crescimento e, como jardineiros de flores, os pais apenas precisam de confiar no processo de desenvolvimento dos seus filhos.

Tal como confiamos que a rosa vai florescer na altura própria, devemos confiar que os nossos filhos irão florescer na altura adequada para eles e da sua própria maneira. Há tanto tempo para crescer! Se aprenderem a ler aos três, seis ou aos doze anos, que diferença isso faz a longo prazo? A única diferença que poderá fazer é positiva: a criança que confiamos que vai aprender a ler quando estiver pronta tem a melhor chance de gozar o prazer de uma vida inteira de leitura. Mas como nós andámos anos e anos nas escolas, pode ser que para nós isso seja difícil de entender. É natural que os pais que não escolarizam os filhos se sintam, em certas alturas, intimidados e inseguros. Não-escolarizar (unschooling) é um salto de fé para os pais que passaram a sua infância na escola.

Jason é agora um jovem adulto. Quando olho para trás, vejo que tive, ao longo dos anos, o privilégio de partilhar uma aprendizagem alegre e entusiasmada. Foi uma experiência feliz. Não poderia ter sido mais diferente do que as seis horas de labuta que tinha imaginado! Jason gosta de aprender uma série de coisas e vê a aprendizagem como parte integral e interessante da vida, não como uma actividade separada, confinada a locais, dias ou horários específicos. Nesse sentido, ele ainda é não-escolarizado e continuará a ser. Para Jason, este caminho foi muito mais do que uma simples alternativa à formalidade da escola - preparou-o para viver uma vida cheia de curiosidade e admiração.

Como John Holt uma vez escreveu, "viver é aprender". Esta afirmação surge numa colecção de cartas que Holt chamou "uma vida digna de ser vivida". Da experiência que tive, penso que unschooling é um salto que vale a pena dar e que pode conduzir a uma vida digna de ser vivida. Mas esse salto não precisa ser dado isoladamente. Amigos que seguem o mesmo rumo, grupos de apoio, livros, artigos e sites podem ser muito esclarecedores. Mas, acima de tudo, podemos deixar que os nossos filhos nos ensinem a alegria e naturalidade da aprendizagem. Para aprendermos sobre a não-escola (unschooling), os nossos filhos são a melhor fonte de estímulo, inspiração, e de resseguro que poderíamos encontrar."

Podem ler o original de Jan Hunt, em inglês, aqui. Este artigo foi traduzido e publicado com permissão da autora. Alguns artigos foram traduzidos para português do Brasil por Helena Bolzan Batista; encontram-se aqui.

2 comentários:

Isabel de Matos disse...

Ana Paula, estas tuas fantásticas traduções, dão-me muito jeito!
Muito obrigada pelo teu generoso trabalho-divertimento, porque sei que gostas muito de escrever sobre tudo isto, também devia haver o unworking!...
Não sei como, a uns dias do casamento, ainda tens tempo :)
Gostei muito deste texto, é mesmo o que se passa, é um testemunho valioso.
Beijinhos
Isabel

Tibetan Star disse...

Ainda bem que dão jeito. Obrigada pelo feedback porque quando estava a fazer a tradução perguntei-me a mim mesma: "será que alguém está para ler isto? será que isto irá beneficiar alguém? São tão poucos os que praticam o ensino doméstico e os que sabem que isso existe... estou a traduzir para quem, e para quê?"

Talvez precisamente por isso! Porque gostaria que houvesse mais informação disponivel em português sobre o ensino doméstico e suas variadas abordagens. E como dizes, é um prazer, uma espécie de divertimento...

Sabes, o unworking, ou unjobbing, também já existe! Ainda hei-de escrever sobre isso, ou traduzir alguma coisa sobre o tema... Entretanto, se tiveres curiosidade, podes ver aqui e aqui.

Quanto ao casamento, já tenho o vestido, os anéis e as testemunhas. O resto há-de ser à última da hora!