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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

As causas do bullying

De onde vem a mentalidade bully?

Este artigo de Roland Meighan foi publicado na revista Parentalidade Natural em Junho de 1998. Podem ler o original aqui.

"O problema com a maioria dos debates sobre o bullying é que se concentram no problema imediato de como lidar com a última crise. Como agora já existem muitos livros, folhetos e artigos sobre essa questão, pretendo ir além dos sintomas e examinar as causas desta doença.

As causas do bullying são normalmente ignoradas ou disseminadas como alguma fraqueza de carácter. Contudo, Alice Miller, em livros como For Your Own Good, propõe que a mentalidade bully é aprendida.

Ela conclui, a partir da sua pesquisa, que "todos os perseguidores foram, no passado, vítimas", e demonstra como todos os membros do Terceiro Reich tiveram o mesmo tipo de educação, uma educação baseada na constante dominação (relação dominante-dominado), a que ela chama “pedagogia venenosa”.

Não pretendo analisar o regime de Hitler mas o que se está passando actualmente. A escola, baseada no actual modelo de centros de confinamento obrigatório, é, ela própria, uma instituição bully. Numa democracia ninguém deveria ser detido contra sua vontade a não ser que tenha cometido um crime. Que crime cometeram as crianças para justificar a detenção? O único “crime” parece ser a sua tenra idade.

Tendo detido as crianças por compulsão, excepto os que optaram pelo ensino doméstico, as escolas utilizam um currículo bully – um Currículo Nacional obrigatório ou outro programa qualquer que impõem de igual modo. Poderíamos usar um currículo democrático, se quiséssemos; o currículo-catálogo, por exemplo, proporciona um leque mais-ou-menos ilimitado de possibilidades na aprendizagem e permite que os alunos sigam os seus próprios interesses.

A noção da imposição, por parte dos adultos, daquilo que consideram como "boa" educação, está tão enraizada que quando uma escola decide operar de outra forma a reacção é enorme. Os alunos de Sudbury Valley High School, nos E.U.A., não têm horários nem lições até as pedirem ou decidirem organizá-las. A escola usa currículos direccionados pelos alunos.

O currículo bully é imposto pela pedagogia bully, cada vez mais preferida, do ensino formal dominado pelo professor. Muitos concordam com Alice Miller, que este tipo de pedagogia é venenosa.

Rosalind Miles intitulou o seu livro As crianças que merecemos. Paul Goodman escolheu o título de Deseducação Compulsória e Chris Shute usa o conceito da Síndrome da Escolaridade Obrigatória. Noutro livro, Emburrecendo-nos cada vez mais: O Currículo Oculto da Escolaridade Obrigatória, John Taylor Gatto, diz o seguinte:

"Comecei a perceber que as campainhas e o confinamento, as sequências sem sentido, a segregação etária, a falta de privacidade, a vigilância constante e todo o resto do currículo nacional e do sistema escolar foram planeados como se alguém tivesse decidido fazer tudo para que as crianças não aprendessem a pensar e agir a fim de as tornar dependentes."

Decidiu mudar o seu estilo de ensino, dar às crianças espaço, tempo e respeito e ver o que aconteceria. O que aconteceu foi que as crianças aprenderam tanto que ele foi nomeado professor do ano em Nova Iorque várias vezes.

Gatto apercebeu-se que estava a ser pago para ensinar um currículo oculto, não explícito. Viu que este currículo oculto é composto por sete ideias. A primeira é a confusão. Era obrigado a ensinar factos desconectados em vez de significados, fragmentação em vez de coesão, ferramentas de jargão superficial em vez de entendimentos genuinos. A segunda ideia é a classe. Ao forçar os alunos a participarem na competição manipulada pelo sistema escolar estava ensinando-os a aceitar o seu lugar . A terceira lição é a da indiferença. Apercebeu-se que era pago para ensinar as crianças a não se interessarem por nada.

A quarta lição é a dependência emocional pois, através de notas e avaliações, certos e errados, estrelinhas e autocolantes, sorrisos e más caras, era obrigado a ensinar as crianças a submeterem a sua vontade à autoridade. A ideia seguinte é a dependência intelectual. Os alunos têm de aprender que as boas pessoas esperam que os especialistas lhes digam o que fazer e o que acreditar. A ideia seguinte vem daqui - ensinar que a auto-estima é dependente dos outros. A auto-estima é determinada por aquilo que os outros dizem sobre nós nos relatórios e avaliações. Os jovens habituam-se à ideia de que o seu valor equivale ao valor que os detentores do poder lhes dão; aprendem desse modo a ignorar qualquer auto-avaliação. A última, a sétima lição, é que não se podem esconder. São vigiados constantemente por professores, pais e outros alunos, e a privacidade é desaprovada.

As respostas à sua análise são previsíveis, diz Gatto, afirmando que “não poderia ser de outro modo”: "O grande triunfo da escolarização pública, obrigatória e em massa, é que, mesmo entre os meus melhores colegas professores, e entre os pais dos meus melhores alunos, apenas um pequeno número é capaz de imaginar uma maneira diferente de fazer as coisas. "

A escola, conclui Gatto, é uma sentença a 12 anos de prisão onde maus hábitos são a única coisa que realmente se aprende. A escola 'escolariza' muito bem, mas na prática não educa nada. Toda essa escolaridade, no entanto, é a preparação ideal para acreditarmos nas outras instituições que nos controlam, como por exemplo a televisão.

O actual sistema de ensino é reforçado por um agressivo sistema de avaliação e inspecção obrigatória. A mensagem não explícita mas poderosa deste sistema é a de que os adultos obtêm o que querem através do bullying. Há pelo menos três tipos de resultados deste modelo de escolaridade. Os alunos de 'sucesso' tornam-se os bullies oficialmente sancionados em posições dominantes de autoridade; tornam-se os políticos, médicos, professores, funcionários, jornalistas e afins, seguindo agressivamente as suas carreiras.

A maioria dos "menos sucedidos" aprende a aceitar a mentalidade de vítima – a atitude mental submissa e dependente. Essas pessoas precisam que alguém lhes diga o que pensar e fazer, porque o sistema fez com que nunca aprendessem a conectar os factos.

O terceiro resultado é a produção de grupos de bullies free-lancer que se tornam problemáticos e acabam em situações problemáticas. Até substituirmos este modelo de dominação por um modelo diferente, as causas do bullying continuarão. Como Jerry Mintz relata dos EUA: "Os miúdos americanos gostam de ver violência na TV e nos filmes, porque são vítimas de violência, tanto na escola como em casa. Isso cria uma raiva enorme... O problema não é a violência na TV. Esse é um sintoma ... O verdadeiro problema é a violência dos lares punitivos e sem carinho, e da escolaridade obrigatória, arrasante e destrutiva, ambas apresentadas, incompreensivelmente, com um sorriso."

Nós podemos fazer melhor do que o ensino baseado na dominação; eu aplaudo o trabalho de professores como John Taylor Gatto, que começam a afastar-se da dominação em direcção à participação, partilha do poder e relacionamentos democráticos. Eles organizam grupos que funcionam democraticamente. A participação dos pais é genuína. Elaborarem lições e aulas com base em princípios de cooperação. Fazem com que as crianças, como disse o meu filho, consigam "encontrar pedaços do tesouro nos destroços." Mas a consciência de que este sistema é um destroço é crucial para que as crianças e os jovens consigam sobreviver à experiência e encontrar algo de positivo nela. Como disse um jovem, depois de ler um livro de citações sobre a educação: "Agora que sei que existem outras pessoas que vêem que a escola não vale nada, consigo lidar com isto."

2 comentários:

Luisa_B disse...

Amiga

Excelente, magnifica matéria.
Parabéns uma vez mais.
Beijinhos

Tibetan Star disse...

Olá Luisa,

Que bom ver-te por aqui outra vez. Eu também gosto muito deste autor.

Beijinhos e obrigada pela visita!