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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Leo Tolstói - a escola

"As crianças, em todos os lugares do mundo, são obrigadas, pela força, a frequentar a escola.

Na verdade, os pais são obrigados a enviar os filhos à escola, seja pela severidade da lei, seja porque se lhes prometem vantagens, seja por uma retórica que os ludibria.

Fora da escola, as pessoas, em geral, em todos os lugares do mundo, aprendem e estudam por vontade e iniciativa própria e consideram a educação como algo bom. Como é que isso se dá?

A necessidade da educação é sentida por todos os homens. As pessoas adoram aprender, amam a educação e a buscam, da mesma forma que amam e buscam o ar que respiram. O governo e a sociedade têm enorme desejo de educar o povo. E, todavia, a despeito do uso da força, da persistência do governo e da sociedade, e de todas tentativas de ludibriar o povo a aceitar a importância da escola, as pessoas do povo constantemente manifestam insatisfação com a educação que lhes é fornecida na escola e só se submetem a ela pela força, quando a escolarização é tornada obrigatória.

É possível provar a justiça do método actual da escolaridade compulsória? É difícil descobrir se existem métodos melhores, porque até aqui as escolas nunca foram realmente livres. É verdade que no nível mais alto do processo de escolarização – a universidade – tenta-se implantar um regime mais livre. Será que, talvez, nos níveis inferiores a escolarização deva ser realmente obrigatória? Será que, talvez, a experiência um dia ainda nos vá provar que escolas de frequência compulsória são boas? Vamos examinar essas escolas, não pela consulta às tabelas estatísticas que nos são fornecidas, mas tentando descobrir o que elas realmente são e fazem e qual o seu real impacto sobre as crianças do povo.

Quando examinamos as escolas de frequência obrigatória, é isto que a realidade nos mostra: as escolas apresentam-se às crianças como uma instituição destinada a torturá-las – uma instituição em que elas são privadas do seu principal prazer e necessidade: a movimentação livre; em que obediência e silêncio são exigidos como condição de permanência; em que elas precisam de autorização especial para ‘sair um minutinho’ da sala de aula; em que qualquer acção errada é imediatamente punida.

Quanto aos resultados da acção da escola sobre as crianças do povo, se atentarmos para a realidade e não para as tabelas estatísticas, somos forçados a concluir: nove décimos da população escolar retiram da escola apenas um conhecimento mecânico da leitura e da escrita; por outro lado, saem da escola com uma aversão tão grande em relação aos caminhos do conhecimento que foram obrigadas a trilhar que nunca mais na vida põem as mãos num livro.

A escola consegue não só inculcar nos alunos uma aversão à educação, como também os induz a praticar a hipocrisia e a trapaça, em decorrência da posição não-natural em que os coloca.

A educação deve ser apenas uma busca de resposta às questões que a vida nos coloca. Mas a escola não só não permite que os alunos ali levantem questões que lhes interessam como se nega a tentar ajudar os alunos a responder às questões que a vida fora da escola os força a confrontar. Ela fica eternamente respondendo às mesmas questões – mas essas são questões que não são levantadas pela mente das crianças.

Basta olhar para as crianças em casa ou na rua, e na escola. Em casa ou na rua vemos crianças vivazes, curiosas, sorrindo, explorando e tentando aprender tudo, da mesma forma que exploram e buscam prazeres, expressando os seus pensamentos com as suas próprias palavras, com clareza e, frequentemente, com força e eloqüência.


Na escola, observamos seres como que aposentados da vida, cansados e com expressões de fatiga, tédio, enfado e por vezes terror, repetindo palavras estranhas numa língua estranha – seres cuja alma, como nos caracóis, se esconde dentro da própria casa.

Basta comparar estas duas condições em que observamos as crianças para constatar, sem sombra de dúvida, qual delas é mais vantajosa para o seu desenvolvimento. A natureza compulsória da frequência à escola impede que a criança ali se eduque."

[Leo Tolstoi, "Sobre Educação Popular", em Artigos Pedagógicos, 1862, traduzido do Russo para o Inglês por Leo Wiener (Dana Estes & Co., Boston, 1904), passagens retiradas das pp. 7-18 (ênfases acrescentadas). Citado apud Daniel Greenberg, Announcing a New School: A Personal Account of the Beginnings of the Sudbury Valley School (The Sudbury Valley School Press, Framingham, MA, 1973, p. 175)]

1 comentário:

Paulo Jorge disse...

Gostei muito do texto, obrigado por partilhar!

Osho Rajneesh também defende princípios muito parecidos em alguns dos seus discursos, quem gostar deste texto penso que também gostará de ler Osho, lembrei-me dele mal li este texto.

Abraço fraterno, passei pelos comentários só para deixar um obrigado e desejo de bom dia!