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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A vontade natural de aprender

por Jan Hunt, psicóloga e directora do Natural Child Project.
Versão original, em inglês, aqui.

Nós educamos o nosso filho em casa. Às vezes pergunto-me quem mais aprende com o processo, se nós ou ele. O termo "aprender em casa" ou "ensino doméstico" é enganoso. As crianças que seguem este regime não passam a maior parte do tempo fechadas em casa; além disso, os métodos de aprendizagem são diferentes dos usados nas escolas. Na verdade, muitos dos pressupostos do ensino público são opostos aos da auto-aprendizagem.

O elemento mais importante para o sucesso da aprendizagem autónoma é confiar. Confiar que as crianças sabem quando estão prontas para aprender aquilo que querem aprender e confiar que sabem aprender. Embora este modo de pensar possa parecer estranho, todos os pais sabem que é assim que os filhos aprendem nos 2 primeiros anos de vida: eles aprendem a andar, a falar e a fazer uma série de outras coisas importantes e difíceis, sem grandes ajudas de ninguém.

Os pais não perdem tempo preocupando-se que se calhar o bébé é preguiçoso, indisciplinado ou sem vontade de aprender; partem do princípio que nasceu com vontade de aprender tudo que precisa saber para participar no mundo que o rodeia. Estes pequenos especialistas ensinam-nos vários princípios da aprendizagem:

As crianças são curiosas por natureza e a vontade de aprender sobre o mundo que as rodeia é intrínseca.

John Holt, no seu livro 'Como as Crianças Aprendem', descreve como as crianças aprendem naturalmente:

"As crianças são curiosas. Elas querem compreender as coisas, descobrir como é que as coisas funcionam, desenvolver capacidades e obter controle sobre si mesmas e sobre o seu ambiente - querem fazer tudo o que vêem os outros fazer. São receptivas, perspicazes e empíricas. Não se limitam a observar. Não se fecham para o mundo estranho e complexo que as rodeia. São audaciosas e não têm medo de errar. São pacientes e conseguem tolerar níveis incríveis de dúvida, confusão, ignorância e suspense... A escola não é um sítio que ofereçe tempo, oportunidade ou recompensa para o modo de pensar e de aprender das crianças".

As crianças sabem qual é, para elas, a melhor maneira de aprender.

Se as deixarmos à vontade, as crianças sabem instintivamente qual é o melhor método para elas. Pais zelosos e atentos depressa aprendem a confiar nisto. Dizem para o bébé: "Oh! que interessante, estás a aprender a descer as escadas de costas!", em vez de: "Assim está errado". Sabem que há várias maneiras de aprender a mesma coisa e confiam nas escolhas dos filhos.

As crianças precisam de solitude e privacidade.

Pesquisas demonstram que as crianças que mais fantasiam aprendem melhor e têm mais facilidade de lidar com a frustração do que as que perderam essa capacidade de fantasiar. Mas fantasiar requer tempo, e o tempo é um dos valores mais ameaçados das nossas vidas. A programação intensiva do horário escolar e das actividades extracurriculares não deixam muito tempo para sonhar, pensar, encontrar soluções para problemas e enfrentar situações de estresse, e nutrir a necessidade universal de solitude e privacidade.

As crianças não têm medo de não saber nem de cometer erros.

John Holt observou que quando convidava crianças de idade pré-escolar para tocar violoncelo elas aceitavam imediatamente enquanto que as mais crescidas e os adultos recusavam.

As crianças que seguem a abordagem da auto-aprendizagem, livres da intimidação da exposição pública de notas baixas, continuam a querer explorar novas áreas. As crianças aprendem fazendo perguntas e não respondendo às perguntas dos outros. Antes de irem para a escola, e nos primeiros tempos em que lá andam, fazem muitas perguntas mas depressa aprendem o triste facto de que na escola é mais importante protegerem-se, escondendo que não sabem, do que tentarem compreender melhor determinado tema - por mais interessante que seja.

As crianças têm prazer em aprender por aprender.

Não é preciso motivar as crianças com recompensas, como boas notas ou estrelinhas nos cadernos, sugerindo que, em si, as actividades são difíceis ou desagradáveis. Os pais mais sensatos dizem: "Adoras esse livro!" e não "Quando acabares de ler o livro vais ganhar um chocolate".

As crianças aprendem a relacionar-se com os outros convivendo com pessoas de todas as idades.

Os pais não dizem aos filhos: "Só podes falar com crianças da tua idade. Este menino tem dois anos. Podem olhar um para o outro, mas não podem conversar nem brincar!"

John Taylor Gatto, eleito Professor do Ano do estado norte-americano de Nova Iorque, afirma: "É absurdo, é anti-vida... estarem sentados e fechados em salas com pessoas exactamente da mesma idade e classe social. Esse sistema consegue alienar-nos da enorme diversidade da vida".

As crianças aprendem sobre o mundo quando elas próprias o experienciam.

Nenhuma mãe diria ao filho: "Pára de olhar para essa lagarta! Vai já lá para dentro, senta-te na secretária e estuda o livro sobre as lagartas". No ensino doméstico, seguindo a abordagem da auto-aprendizagem, as crianças aprendem em contacto directo com o mundo. O meu filho diz que aprender em casa é "aprender-fazendo em vez de ser-ensinado". Ironicamente, a objecção mais comum ao ensino doméstico, por pessoas que não o entendem, é que as crianças "são privadas do mundo real".

As crianças precisam de tempo com a família.


O professor Gatto alerta: "O tempo das crianças é completamente devorado pela escola e pela televisão. Isso destruiu a família norte-americana". As crianças educadas em casa têm consciência de que o convívio com a família é um dos maiores benefícios dessa vivência. Do mesmo modo que presenciei os primeiros passos e as primeiras palavras do meu filho, também tive a honra de partilhar o mundo das suas ideias. Aprendi mais sobre a vida, a aprendizagem e o amor durante os anos que passei com ele do que poderia ter aprendido de outra fonte.

O estresse interfere com a aprendizagem.

Einstein escreveu: "É um erro gravíssimo acreditar-se que o prazer de observar e pesquisar pode ser desenvolvido através da coerção". Quando, no processo de aprender a andar, um menino de 1 ano cai, dizemos: "Muito bem!!" Os pais mais atentos não dizem: "Um bébé da tua idade já devia saber andar! Quero ver-te a andar antes da próxima sexta-feira!"

A maioria dos pais compreende que é difícil aprender seja o que for quando somos pressionados, ameaçados e nos dão más notas. John Holt alerta que "quando sentimos medo ou ansiedade ficamos bloqueados e até incapazes de pensar e de agir ... quando amedrontamos as crianças, bloqueamos totalmente a sua aprendizagem".

Enquanto as crianças mais pequenas nos ensinam imenso sobre o processo de aprendizagem, as escolas adoptam princípios muito diferentes, devido às dificuldades de se ensinar quantidades enormes de crianças da mesma idade num ambiente coercivo. A estrutura da escola (frequência obrigatória, matérias e livros escolhidos pela escola e frequentes avaliações do desempenho das crianças) parte da premissa de que as crianças não aprendem naturalmente e que precisam de ser ensinadas à força.

Ninguém precisa dessa estrutura. O sucesso da aprendizagem autónoma (crianças educadas em casa superam as que frequentam escola em termos de desempenho acadêmico, socialização, confiança e auto-estima) prova que os métodos padronizados inibem tanto a aprendizagem como o desenvolvimento pessoal.

O ensino doméstico é uma tentativa de seguir os princípios da aprendizagem natural e de ajudar a preservar a curiosidade, o entusiasmo e o amor de aprender que todas as crianças possuem.

A aprendizagem autónoma é, nas palavras de Holt, uma questão de fé. "A fé que somos, por natureza, animais que aprendem. As borboletas voam, os peixes nadam, os seres humanos pensam e aprendem. Nós não precisamos de motivar as crianças a aprender através de subornos, elogios e castigos. Não precisamos de continuar a esmiuçar as suas mentes para nos certificarmos de que estão a aprender. Precisamos apenas de lhes dar a ajuda e a orientação que nos pedem, de ouvi-las atentamente quando querem falar e depois deixá-las à vontade. Podemos confiar que elas farão o resto".

1 comentário:

Pollyanna Souza disse...

oi, Paula! tudo bem? este ano comecei a escrever um blog sobre aprendizado e gostaria muito de publicar este texto lá. eu poderia fazê-lo, alterando apenas algumas coisas em sua tradução para que fique mais claro para os brasileiros?