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segunda-feira, 23 de março de 2009

Ensino doméstico, economia solidária e moedas locais

Seguindo o tema da prática do ensino doméstico e seu custo financeiro, hoje quero falar do LETS porque, para pais-educadores e filhos que aprendem fora da escola, este é um óptimo sistema para se ter acesso às mais variadas formas de conhecimento sem se gastar um tostão.

Mas então
o que é o LETS? LETS é o acrónimo de Local Exchange Trading Scheme. Não sei bem como traduzir para o português: já vi traduzido como Sistemas Locais de Emprego e Comércio mas não gosto nada dessa tradução. Comércio significa troca de valores ou de produtos com o fim de obter lucro e o objectivo do LETS não é o lucro, muito pelo contrário, trata-se de uma espécie de economia gratuita baseada na generosidade e no desejo que todos temos de contribuir para o bem de todos. E emprego... essa palavra também não se enquadra nada bem aqui.

O LETS é um sistema de trocas a nível local que possibilita a partilha de talentos, produtos, serviços ou conhecimentos em determinada comunidade sem o uso de dinheiro. No Reino Unido há mais de 650 sistemas destes, cada um com a sua moeda local. Estes esquemas fortalecem o espírito comunitário pois aproximam as pessoas umas das outras.

Quando morei em Bath, fiz parte do Bath LETS, e mais tarde, quando fui para Somerset, juntei-me ao Taunton LETS e ao Wellington LETS. Agora que vim viver para Bristol estou no processo de me juntar ao Southville LETS. É muito simples: telefonei à coordenadora (encontrei o contacto dela na internet) e disse-lhe que me queria juntar ao sistema. Perguntou-me o nome e a morada e enviou-me este folheto pelo correio.

Na parte de trás, o folheto explica o que é o LETS e como funciona: depois de preenchermos e enviarmos a ficha de inscrição - nome, morada, contacto, lista de ofertas e pedidos, e seis euros (3 para os desempregados) para cobrir os custos administrativos anuais -, mandam-nos uma "caderneta de cheques" e um livrinho, uma espécie de lista telefónica, onde estão listados os vários membros, aquilo que oferecem e o que gostariam de receber. Eu, por exemplo, posso oferecer aulas de piano, educação musical e português. Em troca, receberei 5 squids por hora.

A moeda local só é obtida através de trocas: só depois de ajudar alguém é que poderei depositar squids na minha conta. Se precisar de algo, por exemplo, aulas de japonês para o meu filho, vou ao livrinho, e se alguém as estiver oferecendo, é só telefonar e negociar o "preço", em unidades locais de troca (ou moeda local) - neste caso, squids. Em Bath seriam olivers... em Somerset, tones...

A minha conta vai começar em zero, mas não preciso de ganhar squids antes de os poder gastar, pois estarei a ajudar outra pessoa a contribuir para o sistema. Quando começar a receber "cheques", terei de os enviar para a coordenadora, que anota as transações entre os membros.

Hoje fico por aqui mas estejam à vontade para fazer perguntas.

Aqui ficam uns links para quem estiver interessado:
A nova economia das redes solidárias
O renascimento de moedas regionais

7 comentários:

Lara Gisela disse...

Será qualquer coisa do género do Banco do Tempo. Já tive vontade de me inscrever mas sabe-se lá porquê, fui adiando. Vou investigar.

Isabel de Matos disse...

Paula! Obrigada por teres respondido ao meu outro comentário com este belo post! Olha lá e como é que isto funciona aí em termos legais? O governo não faz ondas? É preciso algum registo dessa actividade de alguma forma?
Beijinhos
Isabel

Paula Peck disse...

Lara, ainda não tenho experiência do Banco do Tempo, mas acho que tens razão, deve ser semelhante...

Isabel, nunca me dei conta do governo ter criado ondas e nunca ninguém me disse que os membros teriam de fazer um registo das suas actividades. Sei que quem coordena o sistema anota as transações feitas e, de quando em quando, envia essa informação para os membros do grupo.

Há sempre pessoas mais activas do que outras por uma variedade de razões: talvez estejam a oferecer algo que tenha mais procura, talvez estejam desempregadas ou a trabalhar part-time e tenham mais tempo disponível.

As pessoas que entram em "dívida" não são mal vistas: o grupo sabe que estão contribuindo para o sistema criando "crédito" para outros, que a situação é impermanente e há-de mudar.

Mas voltando às tuas perguntas, encontrei este documento, talvez seja útil, não sei... Na prática, funciona como um "clube de favores".

Isabel de Matos disse...

Muito obrigada, Paula, muito esclarecedor!...
Para mim isto é muito mais interessante que o Banco do tempo, onde só se podem trocar horas de prestação de um serviço por horas de prestação de outro serviço... Pode ser que consigamos implementar cá este sistema, o meu marido está muito interessado nisso (eu também, claro, mas tenho andado mais ocupada com o ensino doméstico e os blogs...)
Beijinhos
Isabel

RUTE disse...

É um sistema fantástico Paula. Obrigada por partilhares connosco.

Incrivel como fora de Portugal existem tantos sistemas nesse género! Adorava poder contribuir para um. Mas de certa forma dúvido que funcione.

Isto porque, desde que fiquei com a Administração do Condominio do meu prédio deixei de crer na interajuda.

Se num prédio ninguém se consegue entender e não dão valor ao trabalho gratuito, como é possivel administrar algo maior?

As pessoas em geral não têm noção do que é viver em comunidade e contribuirem para essa mesma comunidade. Os portugueses ainda estão muito atrasados, são muito egoistas!

Para mim é um sonho, um lugar onde todos contribuem para o bem comum sem individualismos, sem ganancia, sem necessidade de andarem sempre em conflito.

A minha esperança é um dia ir para o campo e talvez aí encontre pessoas diferentes... Ou talvez tenha de mudar de país, também é uma hipotese.

Beijinhos e obrigada mais uma vez.

*Lisa_B* disse...

Paula que saudades eu já tinha...
Que ideia fantástica essa...lembra quando se trocavam bens sem moeda ou seja na terra onde nasci de um vizinho dava batatas que tinha acabado de tirar da terra o outro quando tivesse milho tb dava na mesma proporção ou podendo dava mais se quisesse...
Penso que com a crise que se passa em geral mas em Portugal está um caos que as pessoas vão regressar ás aldeias de onde eu nunca saí e cultivarem terras etc para viverem...o que eu sempre fiz...
Para Portugal só isto funcionará no futuro e as pessoas vão reaprender valores e conceitos de viver em comunidade que perderam com as gerações, ambição, individualismo, egoísmo entre outros.
Isto vai acontecer...o regresso ao passado às origens humildes e será um Mundo bem melhor.
Beijinhos meus e que tudo continue a decorrer bem.
Não vou ao post do pão que já fiquei de água na boca :-)

Paula Peck disse...

Olá Lisa_B e Rute, que bom ver-vos outra vez por aqui!

Eu estava a pensar nessa dos portugueses serem egoístas...

Sei o que querem dizer com isso, mas parece-me que já há muitos portugueses com outro tipo de mentalidade. Nós, afinal, somos portuguesas!

Penso que para muitos portugueses a vida não é fácil e, principalmente para as famílias em que os dois pais têm de trabalhar de manhã à noite (que provavelmente será a maioria, embora não tenha a certeza), não há tempo que chegue para trabalhos voluntários, porque é à noite e aos fins de semana que têm de fazer as compras, os trabalhos domésticos e preparar as coisas para a semana seguinte...

Aqui o mercado de trabalho é muito incerto. Muitos trabalham part-time, outros estão desempregados (têm o apoio da segurança social), outros reformados... parece-me que as pessoas têm, em geral, mais tempo livre.

Mas na verdade há, no Reino Unido, uma mentalidade de activismo e empreendorismo social. E são cada vez mais as pessoas optando por uma "simplicidade voluntária", preferindo ter menos dinheiro e mais tempo livre, resolvendo trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar... e dizendo "não, obrigado" à sociedade de consumo e à sedução do status social.