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sábado, 28 de março de 2009

Conversa intencional na aprendizagem

Como esta semana tenho mencionado Roland Meighan e a importância do diálogo no ensino doméstico, resolvi traduzir este artigo. É um bocado longo, mas espero que gostem.

"Vivemos numa era em que a mudança é contínua e a revisão de conhecimentos constante. Por isso é preciso que os pais pesquisem e investiguem constantemente, para que se mantenham a par dos últimos livros e ideias. Vou partilhar três ideias que desafiam, informam e desenvolvem novas interpretações sobre a educação.

Embora estas ideias sejam, à primeira vista, sobre o ensino doméstico, elas levantam questões fundamentais sobre a educação em geral. E já que, enquanto pais, todos nós educamos os nossos filhos em casa, pelo menos a part-time, quando eles não estão na escola, estas ideias dizem respeito a todos nós.

A mais recente aparece no livro Educating Children at Home por Alan Thomas (Cassell, 1998), um psicólogo interessado em métodos de aprendizagem personalizada. Como as escolas têm grandes dificuldades em implementar estes métodos, ele voltou-se para famílias australianas e britânicas que optaram pelo ensino doméstico, onde a aprendizagem personalizada é a norma.

Observou uma quantidade enorme de conversas surgindo espontaneamente, e o que mais lhe impressionou foi o grau de aprendizagem que ocorria através do diálogo com um adulto. Eu, pessoalmente, prefiro a expressão "conversa intencional" para a distinguir da conversa corriqueira. Thomas fala de uma pesquisa que demonstrou que a educação das crianças superdotadas inclui muita atenção individualizada e aprendizagem através do diálogo intencional, factores considerados cruciais no desenvolvimento intelectual acelerado.

A pesquisa de Alan Thomas, baseada em 100 famílias que educam os próprios filhos, demonstra que em casa as aulas são concentradas e intensas. Pouco tempo é desperdiçado com o tipo de distrações que absorve tanto tempo nas salas de aula. Com o aumento da eficiência, as lições são curtas e muitas vezes limitadas às manhãs, o que deixa bastante tempo livre para conversas intencionais. Mas nem todas as famílias dão aulas formais aos filhos; essas têm ainda mais tempo para o diálogo intencional.

Assim, aprender em casa torna-se um processo interactivo, em vez de uma série de trabalhos a completar. Deste modo, os erros, em vez de bloquearem a aprendizagem, tornam-se passos no caminho para a iluminação. Nessa interacção, conceitos são adquiridos, competências são melhoradas e novos conhecimentos são obtidos no decorrer das actividades quotidianas ou através de temas que capturaram o interesse dos filhos.

Pais e filhos podem não estar conscientes da eficácia e do poder dos seus métodos de aprendizagem. Os pais observaram que era só quando, depois de algum tempo, olhavam para trás - ou quando mantinham um registro minucioso -, que conseguiam ver o volume e o alto nível de aprendizagem que havia ocorrido.

Thomas diz-nos que "as preocupações iniciais que os pais-educadores têm sobre o desenvolvimento social dos filhos vão desvanecendo gradualmente à medida em que observam o aumento da sua auto-confiança, os vêem relaxados na companhia de adultos e capazes de se relacionar com crianças de todas as idades." Os pais apercebem-se que na realidade é a escola quem está afastada do mundo.

A conclusão da sua pesquisa é que os pais-educadores oferecem-nos uma visão da educação que, em vários aspectos, é muito diferente da educação escolar. A sua abordagem tem o potencial para provocar a mudança mais radical na educação desde o advento da escolarização universal, no século XIX. Mas, para que isso aconteça, precisamos que um novo tipo de instituição substitua as escolas.

O segundo livro é Strengths of Their Own: home schoolers across America, por Brian D. Ray. Em 139 páginas repletas de informação e análise, o Dr. Brian Ray, director do Instituto Nacional de Pesquisa do Ensino Doméstico nos E.U.A., apresenta os resultados do seu recente estudo sobre o ensino doméstico. Usou uma amostra à escala dos E.U.A., de 1.657 famílias e seus 5.402 filhos, com os 50 Estados representados. Os resultados confirmaram as suas descobertas anteriores: que o ensino doméstico é a melhor opção disponível, e que a escola, seja pública ou privada, passou para segundo plano. Segundo a Associação de Apoio Legal ao Ensino Doméstico, o Dr. Brian Ray disse que:

"... os pais que assumem pessoalmente a responsabilidade pela educação e socialização dos filhos acabam com crianças excepcionais e bem preparadas para conduzir este país para o próximo século."

O crescimento do ensino doméstico nos E.U.A. parece ser imparável. Inicialmente estimava-se que os números iriam parar em 1% da população de idade escolar. Agora que ultrapassou os 5% em vários Estados já há quem pense que há-de chegar aos 10%. Mas as boas notícias contagiam e agora já se prevê que dentro de uma geração a aprendizagem de metade das crianças há-de ser baseada em casa, pelo menos durante metade do tempo da escolaridade obrigatória.

A pesquisa identifica os resultados positivos do ensino doméstico em áreas tão variadas quanto o desempenho acadêmico, desenvolvimento social e psicológico e o desempenho dos adultos que haviam sido educados em casa. Normalmente, estes estão empregados em vez de desempregados, têm um espírito independente e empresarial, e pensam positivamente sobre a sua experiência do ensino doméstico.

O estudo arrasa com o mito do "problema da socialização". As crianças estavam envolvidas numa grande variedade de actividades sociais, passando uma média de 10 horas por semana em coisas como aulas de música, actividades lúdicas fora de casa, actividades desportivas, grupos organisados pela igreja, escuteiros e guias.

Num estudo anterior, 58% das famílias tinham computadores em casa. No estudo mais recente, por Ray, a percentagem atingiu os 86%. As crianças utilizam os computadores para fins educacionais mas a única área em que havia uma significativa diferença positiva era a da leitura, pois os que utilizam computadores obtiveram melhores resultados nos testes de leitura.

Um currículo personalizado e auto-concebido foi utilizado por 71% dos alunos (em vez de um currículo fixo e pré-determinado). Tal como Thomas, Ray examinou os métodos de aprendizagem e também identificou a conversa intencional como uma das principais razões para o sucesso do ensino doméstico.

Ray sugere que o ensino doméstico pode eliminar, ou pelo menos reduzir, a potencialidade dos efeitos negativos do background de certas crianças. Ele demonstra que o baixo salário familiar, baixo nível académico dos pais, falta de formação pedagógica por parte dos pais, raça ou etnia, sexo, ausência de computador em casa, começo tardio da educação formal, pertencer a uma família numerosa... nenhum destes factores afecta o sucesso das crianças educadas em casa. Assim, destrói outro mito - o mito de que o ensino doméstico é para os ricos. A média do salário das famílias que optam pelo ensino doméstico situa-se abaixo da média nacional.

Finalmente, demonstra que "as famílias que aprendem juntas permanecem unidas"; como resultado da prática do ensino doméstico as famílias mostram sinais de maior estabilidade, satisfação pessoal e felicidade.

O terceiro livro é The Art of Education: reclaiming your family, community and self, por Linda Dobson, (Home Education Press, 1995). Para Linda Dobson, a escola destrói capacidades essenciais, como a curiosidade, imaginação, criatividade, paz interior, humor, talentos, auto-motivação e intuição. Em contrapartida, oferece "doutrinação em ideias feitas".

A escola desenvolve maus hábitos: tornando-nos, por exemplo, dependentes de especialistas para a resolução dos nossos problemas. Para Dobson, o ensino doméstico é centrado na família, onde todos desenvolvem a auto-suficiência e um cepticismo saudável em relação a profissionais e especialistas.

O ensino doméstico usa os princípios da educação natural, requerindo apenas um orientador para encorajar, apoiar e orientar quando os filhos estiverem prontos para a descoberta de valores e a criação de metas que lhes são pessoalmente significativas. No apêndice A do livro, a lista de adultos famosos que foram educados em casa inclui sete presidentes dos Estados Unidos e vários cientistas, inventores, autores, exploradores e empresários.

Dobson propõe que o ensino público é inadequado e que a educação centrada na família é superior, e destrói vários mitos sobre o ensino doméstico ao descrever um dia na vida de um pai-educador. A riqueza da aprendizagem que enumera é "atingida no ambiente seguro, afectuoso e terno do lar. Sem campaínhas, sem testes, sem pressão de grupo, sem competição! Atenção individual, progresso individual, escolha individual! A educação como arte - pura , sem stress, ocorrendo naturalmente ... "

Lendo, aprendemos como a família Dobson resolveu optar pelo ensino doméstico. A breve estadia do filho mais velho num jardim de infância público depressa revelou uma série de aspectos preocupantes. Primeiro, o stress de iniciar a aprendizagem formal cedo de mais. Depois, os efeitos da pressão de grupo no comportamento do filho. A seguir, os efeitos da disciplina escolar na sua personalidade. Finalmente, o efeito desmorecedor do tédio e da irrelevância.

O ensino doméstico resultou não só para os filhos mas também para ela:

"À medida em que os meus filhos foram adquirindo as competências básicas - leitura, escrita, aritmética - os seus interesses expandiram. E os meus também. O seu sentimento de admiração floresceu. O meu também. As suas habilidades multiplicaram. As minhas também. A confiança deles aumentou. A minha também."

"Alguns dos meus amigos ficaram impressionados mas dizem que não aguentariam estar com os filhos dia após dia. Não percebem que o comportamento irritante deles é causado pelo processo de escolarização.

Tenho outros amigos que gostariam de praticar o ensino doméstico mas preocupam-se com os custos. No entanto, os custos são flexíveis, especialmente agora que vivemos numa sociedade tão rica no que toca à informação, onde temos à nossa disponibilidade, gratuitamente, uma quantidade enorme de recursos."

Outra vantagem são os fortes laços familiares que se desenvolvem. "As nossas instituições continuam com palavras ocas, dizendo que a família é o alicerce mais importante da sociedade. Mas, ao destruirem o ciclo natural de amor e respeito inerente à vida de família com as suas exigências que as crianças 'socializem' em ambientes institucionais artificiais cuja importância é incrivelmente exagerada, estão contribuindo para a destruição da própria sociedade."

Linda acredita que os seres humanos são capazes de tomar decisões inteligentes quando não são paralisados por hierarquias autoritárias ou estruturas impessoais que diluem a responsabilidade individual.

Segue-se a ideia radical de que a educação poderia ser melhorada através de uma simples reforma - acabar com as escolas. Em vez de escolas, podíamos estabelecer centros de aprendizagem dedicados a satisfazer as necessidades únicas de todas as crianças e jovens que aceitaram o convite de participar. Vários exemplos destes centros de aprendizagem são descritos: Paris, Lexington Virginia, Providence Rhode Island, Kansas City e o Centro de Educação Personalizada, que está apoiando o estabelecimento de centros deste tipo no Reino Unido."

6 comentários:

Magic Moments disse...

Olá!

Nestas últimas semanas tenho estado fascinada com as coisas que tenho aprendido sobre o ensino doméstico, que sinceramente desconhecia ser possível em Portugal, nem sequer me tinha questionado sobre isso, como acredito que a maioria das pessoas.

Tenho acompanhado o Blog da Isabel (A Escola é Bela), o da Pequete e agora este.

De entre muitas dúvidas da forma como poderei ensinar o meu futuro filho (ainda não tenho nenhum), mas que acredito que venha a aprender muito com a leitura dos vossos posts, tenho duas questões mais "burocráticas":

- a Isabel num comentário a um outro post falava que após o 4º ano (da "nossa" primária) o Alexandre teria que ir fazer um exame à escola. Este exame prende-se com a matéria que leccionam na escola? Como temos acesso aos conteúdos programáticos? Teremos então que ensinar também (mas não só) os nossos filhos de acordo com aquilo que os outros meninos dão na escola?

- Até que idade (ano escolar) é possível fazer ensino doméstico?

- é necessário ir à escola ou outro local, entregar alguns papéis, informando da nossa opção pelo ensino doméstico?

Obrigada!
Carla

Isabel de Matos disse...

Olá Carla!
Bem, estou aqui a ver se respondo às tuas perguntas mesmo no blog da Paula, mas penso que ela não se importa, pois já nos tinha pedido num post atrás que gostava de conhecer melhor como funciona a lei sobre o ensino doméstico em Portugal...
Quem melhor te poderá responder é a Pequete e a Lara, ambas com filhas já no 2º ano em ensino doméstico. Eu ainda estou no início desta parte burocrática, pois o Alexandre vai fazer os 6 anos no Verão e começar "oficialmente" o 1º ano em ensino doméstico em Setembro! Então também me surgiram várias dúvidas que andei a ver se esclarecia através da experiência destas duas meninas.
Mas sim, como em Portugal a escolaridade é obrigatória até ao nono ano (ainda, porque querem mudar para o ser até ao 12º), a lei existente que permite a possibilidade do ensino doméstico remete para que inscrevamos os nossos filhos na escola da nossa área de residência e, na inscrição, assinalemos com uma cruzinha o espaço a isso destinado no boletim. Em relação à pergunta do até que idade, até sempre, desde que se cumpram as regras estipuladas na lei. A outra é que eles terão que fazer os exames ao final de cada ciclo, ou seja, no final do 4º ano, do 6º ano, do 9º... e isso implica, claro, que eles saibam os conteúdos sujeitos a exame.
A parte de eles saberem o que consta dos programas, não me preocupava muito, através da internet baixei o programa do 1º ciclo e fiquei surpreendida, ao ler o programa do 1º ano, em dois aspectos: O Alexandre já sabe pelo menos metade dos conteúdos programáticos do 1º ano, sem seguirmos qualquer programa, só guiados pelos seus interesses, e mesmo antes de ter a idade de estar no 1º ano, ou seja, não será muito difícil que ele aprenda os conteúdos mesmo sem estarmos preocupados com isso; o segundo aspecto é que o programa remete para inúmeras actividades ao ar livre, os alunos irem ao campo e à montanha fazer observações directas,manusearem máquinas fotográficas e coisas que tais e não vi ainda nenhuma escola a fazer isso, fazem muito poucas visitas de estudo por ano e a forma como as fazem não tem nada a ver com o que está implícito no espírito do programa. Está certo que conforme está o sistema, com turmas de muitos alunos não seria assim viável, se bem que eu pense que com um bocadinho de criatividade até seria, mas então, porque é que ninguém, face ao que está escrito no programa, faz barulho e pressiona cãmaras e ministério para que se proporcionem as condições necessárias por forma a que se cumpra o que está tão explicitamente escrito?

Bom, mas aquilo que me levou a escrever o outro comentário de que falas é que me comecei a aperceber que, para além de eu não concordar nem sequer com os exames a as avaliações, o meu filho rejeita-as completamente e não queria desvirtuar isso; foi quando me lembrei do blog Pipocasland em que a Pipocas nos contou que inscreveu os seus filhos na Clonlara que está creditada internacionalmente e se destina às crianças em ensino doméstico (se fores lá ao blog ficas esclarecida, através dos posts Clonlara I, II e III).
Então estamos a equacionar essa opção, talvez só a partir do 3º ano, ainda não sabemos bem como vamos fazer.

Espero ter respondido às tuas perguntas, mas como te disse, a Pequete e a Lara estão muito mais dentro do assunto.

Na Inglaterra, como já deves ter percebido aqui pelo blog da Paula, não há necessidade de inscrições em alguma escola nem de exames... Se lá o tempo fosse mais como o nosso ainda pensávamos em mudar-nos, mas eu adoro sol e praia e o Pedro também, até já equacionámos ir viver para o Algarve (e até para o Brasil, mas depois percebemos que no Brasil o ensino doméstico ainda não é legalmente permitido :) )!

Beijinhos
Isabel

Mário Relvas disse...

Olá,

Eu que ando nisto há algum tempo desconhecia os apoios para a educação em casa. Eles existem, noemadamente quando temos crianças especiais.Na sexta-feira passada a corrdenadora do Ensino Especial da DREN, numa reunião com pais de uma associação onde estive presente, penso que o abordou, mas tenho que saber mais...
cumpts

Gostaria de

Paula Peck disse...

Olá Carla,

Prazer em "conhecer-te"! Que bom que a Isabel respondeu às tuas perguntas porque, como ela disse, no que toca à lei sobre o ensino doméstico eu estou muito mais familiarizada com a do Reino Unido.

Mas podes sempre juntar-te ao grupo do ensino doméstico ou tentar este link...

Paula Peck disse...

Olá Mário,

Adorava saber o que a coordenadora do Ensino Especial da DREN disse sobre o ensino doméstico nessa reunião com pais a que foste, e que tipos de apoio existem em relação ao ensino doméstico para crianças especiais em Portugal.

Obrigada pela visita e pelo comentário que me parece ter ficado "cortado" no final :-(

Pequete disse...

Muito obrigada, Paula, por mais um post cheio de informação e por todo o trabalho a que te dás em traduzir todo este material para português.
Em relação às perguntas da Carla, penso que a Isabel já respondeu muito bem a todas, mas se tiveres mais dúvidas, é só perguntar. No grupo de discussão do yahoo também podes encontrar a legislação, e se deres uma vista de olhos pelas mensagens do forum, vês que estes assuntos básicos são discutidos ciclicamente (tens o link na barra lateral aqui do blog da Paula, e também no www.pesnarelva.wordpress.pt, onde alguns pais que fazem ensino doméstico em Portugal escrevem regularmente).