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terça-feira, 31 de março de 2009

Por quê acusar os pais que educam em casa?

Este artigo apareceu hoje no Guardian e resolvi traduzí-lo. Face à última tentativa de demonização do ensino doméstico, por parte do governo britânico, Dr. Bernard Trafford, (director de uma escola secundária e presidente da Associação de Directores de Escola) vem à defesa dos pais que educam os filhos em casa:

"Hoje em dia já muito se fala sobre a sociedade de vigilância. Organização após organização vai-se tornando parte do mecanismo, por isso não nos devemos admirar que o mais recente instrumento de vigia às famílias sejam as escolas.

Cedendo à pressão que, após a sucessão de casos de maus tratos a menores, pôs os mídia numa grande gritaria, exigindo que algo seja feito e levando por sua vez à criação de mais e mais carradas de procedimentos para a protecção de menores, o governo pediu a Graham Badman - presidente da Comissão de Haringey de Protecção das Crianças que veio substituir Sharon Shoesmith, despedida após o inquérito Bebé P, - para examinar a protecção e apoio às crianças e jovens educados em casa.

Um artigo recente citou a ministra das crianças, Delyth Morgan: "Se existem problemas, temos de analisar os factos. O ensino doméstico é uma parte pequena mas importante na adequada manutenção da protecção de menores."

Na tempestade de indignação que se seguiu à tragédia do Bebê P, a procura de um bode expiatório depressa começou. Inexplicavelmente, dedos estão sendo apontados às famílias que optam pelo ensino doméstico. Neste momento, os 20 000 pais que decidiram educar os próprios filhos estão sendo acusados de motivos que são, na melhor das hipóteses, suspeitos, e, na pior, abusivos.

Porque se tornaram subitamente o alvo não é claro. As mais horríficas alegações são feitas e aparentemente aceites sem a devida análise. The Independent descreve o medo que as Direcções Regionais de Educação têm, de que os pais possam estar a usar o ensino doméstico para mascarar o absentismo escolar, ocultar casamentos forçados ou o trabalho forçado (pondo, por exemplo, os filhos mais velhos a tomar conta dos mais novos). Um porta-voz da NSPCC observou: "Não temos nenhuma opinião sobre o ensino doméstico, mas sabemos que para descobrirmos se as crianças estão sendo mal tratadas precisamos ter acesso a elas." A insinuação é feita. A lama pega.

A sugestão é que só nos podemos assegurar de que as crianças não estão sendo mal tratadas pelos pais se elas frequentarem as escolas, mas esse pressuposto moralista e presunçoso é injusto e incorrecto. Victoria Climbié (uma menina torturada pela tia e pelo amante, que a deixaram morrer de fome em 2000), não frequentava a escola nem estava matriculada no ensino doméstico quando morreu. Eunice Spry foi presa depois de maltratar as crianças de quem tomou conta durante 19 anos: dizem que ninguém notou as nódoas negras das crianças porque eram educadas em casa. Mas Eunice nem sequer era a mãe delas... e onde estavam os trabalhadores sociais?

Os pais que educam os filhos em casa merecem um tratamento melhor. Eu sei porque fui um deles. Entre 1991 e 1996, depois de ter sido nomeado director de uma escola secundária, a minha mulher ensinou as nossas duas filhas em casa. Estes cinco anos foram os mais felizes da nossa vida, cheios da alegria da descoberta e da aprendizagem constante. Mais tarde elas próprias resolveram frequentar a escola secundária e hoje são adultas, felizes, cheias de auto-confiança, com boas qualificações e bons empregos.

Funcionou para nós, mas muitos achavam que nós éramos estranhos. Alguns amigos e colegas de trabalho sentiam-se profundamente incomodados com a nossa decisão. As pessoas têm receio do desconhecido, do diferente, mas muitas vezes os pais voltam-se para o ensino doméstico precisamente porque os filhos são diferentes e, como resultado, facilmente se tornam vítimas de bullying na escola. Outros educam os filhos em casa por princípio ou, como nós, porque estão convencidos de que podem oferecer algo melhor. Para nós, o problema era o currículo nacional, que arrasou o ensino básico.

A imagem muitas vezes pintada, de um certo secretismo, é enganosa: a maioria dos pais que praticam o ensino doméstico fazem-no abertamente e estão em contacto com os mais variados grupos. Talvez alguns "escondam" os filhos; também há uns quantos fundamentalistas religiosos entre eles. Eu não gosto dessas duas abordagens mas acho que ninguém tem o direito de as proibir. Talvez uma minoria muito pequena de pais-educadores maltrate os filhos. Estatisticamente, uma percentagem minúscula de juízes, políticos, médicos, advogados, líderes religiosos, professores e até trabalhadores sociais devem também mal tratar os filhos, mas não banimos essas profissões. E lembrem-se: as famílias que praticam o ensino doméstico já são inspeccionadas.

Paranóia sobre os falhanços do sistema na protecção de menores está a levar a sociedade a demonizar alguns espíritos mais livres. Não nos devemos surpreender. Nós vivemos num mundo onde somos filmados em CCTV onde quer que vamos. Entre a reacção histérica aos grandes fracassos na protecção das crianças, os direitos de algumas famílias que se recusam a seguir o rebanho será visto como um sacrifício aceitável no altar da obsessão pela segurança."

Eis um dos comentários:

"Obrigado, obrigado, obrigado. Alguém com bom senso! Eu, como muitos outros pais-educadores, sinto-me incrivelmente perseguida por causa desta campanha contra o ensino doméstico. É bom saber que há alguém disposto a vir à nossa defesa. Obrigado! Eu educo o meu filho em casa porque ele tem necessidades especiais que não foram satisfeitas na escola, apesar de lhe terem dada o estatuto Acção Escolar Plus. Ele teve um esgotamento nervoso e tornou-se violento contra mim devido à frustração que sentia na escola (ele está no espectro autista). Agora, graças ao ensino doméstico, ele é outra vez a criança feliz, curiosa e confiante que era. Em casa, ele pode fazer as coisas ao seu próprio ritmo e conviver com pessoas quando se sente bem. Se alguém o mal tratou foi a escola!"

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