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segunda-feira, 30 de março de 2009

A superstição da socialização

Mais um artigo de Roland Meighan.
Podem ler o original, em inglês, aqui.

H G McCurdey realizou, na Universidade de North Carolina, E.U.A., um estudo sobre os factores que contribuem para o desenvolvimento das pessoas de maior sucesso. O estudo foi relatado no livro Education and Ecstasy, de George Leonard. São pessoas que chegam a ser conhecidas como gênios. Três factores foram identificados. O primeiro foi um elevado grau de atenção individual dado pelos pais e outros adultos, expresso em actividades educativas acompanhadas por muito afecto. O segundo factor foi umambiente que valoriza a imaginação e a fantasia. O terceiro foi o contacto limitado com outras crianças, mas muito contacto com adultos genuinamente interessados.

McCurdey concluiu que a escolaridade obrigatória, uma escola de massas baseada em métodos formais e organização rígida, é o mais prolongado experimento na maior redução possivel destes 3 factores: o resultado é a supressão do alto desempenho.

Bertrand Russell, que havia sido educado em casa, fundou a sua própria escola em Beacon Hill quando se apercebeu que nenhuma das escolas disponíveis tinha o tipo de ambiente que queria não só para os seus filhos mas também para os filhos dos outros. Em retrospecto, porém, disse que a escola não tinha alcançado o sucesso que esperava pois havia seriamente sobre-estimado a quantidade de tempo que as crianças precisam de passar na companhia umas das outras.

15,000 é o número de horas que as forçamos a passar na companhia de um número seleccionado de colegas; no entanto, os adultos continuam a insistir que essa socialização vale a pena. Pode ser socialização, mas a sua qualidade é altamente suspeita.

Aqui estão alguns artigos que apareceram recentemente (os 4 exemplos seguintes foram modificados para reflectirem a realidade portuguesa):

1) Pais preocupados com violência nas escolas - Os alunos agora consideram o bullying como parte integral da vida escolar. De acordo com um estudo conduzido pela psicóloga Sónia Seixas e divulgado na 4ª Conferência Internacional sobre Violência Escolar e Políticas Públicas, o bullying envolve 65% dos alunos.

2) Ministério da Educação tem conhecimento de armas nas escolas - ASPP confirma que já foram apreendidas armas nas escolas: “Já aconteceu a apreensão de armas de fogo em alguns adolescentes”. Sete armas são apreendidas por cada dez dias de aulas. Já em 2005, o relatório da PSP alertava para a dimensão crescente deste fenómeno.

3) Escola Segura: apreendidas 20 mil doses de droga - Há escolas que decidem ignorar o problema e não informar a polícia para proteger a sua reputação. Para os meninos da escola primária, a fonte de informação sobre as drogas são os coleguinhas. Mais tarde, ao crescerem, são eles quem os iniciam no tabaco, álcool, drogas, junk food e a última moda.

4) Professor lança petição para responsibilizar os pais nos casos de absentismo e abandono escolar - A luta contra o absentismo escolar chegou a Portugal. Campanhas deste tipo são muitas vezes vistas como medidas para combater a exclusão social. "Exclusão de quê?", somos tentados a perguntar. "Armas, drogas ou bullying?"

Um dos grandes defensores da escola como meio de socialização foi o pedagogo americano John Dewey, mas ele queria escolas democráticas com elevados níveis de participação e partilha de poder, e não escolas com regimes totalitários baseados na coersão e imposição. O modelo obrigatório das nossas escolas não fazia parte do seu plano.

No entanto, a maior parte da população surpreende-se quando os pais retiram os filhos da escola e começam a educá-los em casa! "E a socialização?" perguntam imediatamente. A resposta, baseada em factos em vez de superstições, é a seguinte: "Exatamente! O melhor é evitá-la!" Porque se surpreendem tanto? Será que somos uma nação de cegos e surdos incapazes de compreender o significado de notícia após notícia após notícia sobre a socialização negativa das escolas?

A verdade é que, ao praticarem uma educação centrada na família, as famílias que optam pelo ensino doméstico proporcionam aos filhos uma vida social de maior qualidade. Como? De três maneiras:

Em primeiro lugar, usam o lar apenas como base para a interacção com a comunidade em que vivem, usando bibliotecas, museus e locais de interesse, seja na cidade ou no campo. No processo, interagem com pessoas de todas as idades enquanto que nas escolas os alunos estão fechados dentro de salas de aula com um número limitado e pouco diversificado de colegas e adultos.

Em segundo lugar, juntam-se aos escoteiros, guias e Woodcraft Folk, vão a aulas de artes marciais e natação, participam em grupos de história natural, e assim por diante.

Em terceiro lugar, entram em contacto com outras famílias que praticam o ensino doméstico, organisam encontros ocasionais ou, como é cada vez mais o caso, actividades semanais. Em Londres, por exemplo, estabeleceram The Otherwise Club, aberto duas vezes por semana a todas as famílias que lá querem ir.

Mas outra questão relacionada com a superstição da socialização é a discriminação contra os introvertidos. Quando vou a festas acabo muitas vezes num canto falando com alguém que também acha a procura de atenção social cansativa e o interminável fluxo de conversa corriqueira cada vez mais chato. Tenho verificado que geralmente os introvertidos são pessoas muito mais interessantes, compostas e reflexivas e que, na verdade, alguns dos mais prolíficos contribuintes de novas ideias têm este temperamento.

Portanto, se os vossos filhos se sentem bem sozinhos, na sua própria companhia e na vossa, isso não é automaticamente motivo de preocupação. Com efeito, a política habitacional do Reino Unido não teve outro remédio senão aceitar o facto de que são cada vez mais as pessoas que decidem viver sozinhas e que a procura de pequenos apartamentos é cada vez maior.

Na escola, os introvertidos tornam-se muitas vezes vítimas de bullying, pois normalmente a expectativa gerada pela superstição da socialização é a de que nos devemos juntar ao grupo. Isto pressupõe que o grupo de colegas criado artificialmente pela escola é um grupo que realmente vale a pena aderir. No liceu em que andei achei que esse grupo não valia a pena e preferi ter o meu círculo de amigos fora da escola. No entanto, o meu jeito para o desporto manteve-me em contacto com o grupo da escola mas sem ser submergido por ele. Outros não tiveram tanta sorte.

Um amigo meu, director de uma escola, oferece uma perspectiva sobre a socialização. Ele diz que o principal motivo que leva os pais a pedir que a escola mantenha o uso obrigatório do uniforme escolar é porque os protege contra a combinação letal das forças do mercado com a pressão dos colegas, que leva os filhos a pedir que os pais comprem os ténis mais caros e as roupas da última moda!

2 comentários:

*Lisa_B* disse...

Paula, excelente dou os meus parabéns por teres colocado este post uma vez mais muito pertinente.
Aqui há dias houve um autocarro de alunos finalistas de 12º ano a caminho de viagem para Espanha onde foi apreendida muita droga...os filhos de outros que lá vão e forem mais recatados e tímidos iam levar dose em cima com certeza ainda bem que a policia os descobriu...
é para isto que Portugal está preparado a ensinar de valores a quem força andar na escola "vivo ou morto " é a palavra de lei por cá.
Estou farta de Portugal, estou farta da politica portuguesa, estou com vergonha de ser Portuguesa que me desculpem os portugueses mas sinto assim...pelas crianças, por nós pela forma como gerem e investem no país na formação pela força, e o mais triste é vermos quase todos a sair da escola sem nada terem aprendido de válido, poucos são os que nos dias de hoje saem a saber algo de jeito.
Há pouco tempo um rapaz da idade do meu filho ainda com 14 anos suicidou-se por causa da escola, ninguém lhe deu ouvidos e o inevitável aconteceu pena que estas mortes passem por cima dos governantes e dos gestores das escolas ministros etc...talvez tenham de fazer como as baleias suicídio colectivo para serem notados e mudarem estas leis obsoletas e ultrapassadas nada de acordo com os tempos em que vivemos.
Continuam a pressionar-me em tribunal e fora dele na integração do meu filho na escola ...onde ele tentou o suicídio...caso continuem e eu seja forçada pela lei a leva-lo de volta à escola, abdicarei perante as televisões portuguesas do meu poder de Mãe.
Não aguento mais isto!

Continua Paula nessa busca de informação e divulgação que ajudas muita gente,a mim muito tens ajudado.
Obrigada.
Beijinhos

Paula Peck disse...

Pois é, há muitas crianças a sofrer nas escolas mas pelo menos nós duas sabemos disso muito bem.

Mas sabes, não é só em Portugal.

No Reino Unido, todos os anos pelo menos 16 alunos suicidam-se devido ao bullying escolar;

todas as semanas 450,000 alunos são vítimas de bullying na escola;

todos os anos mais de 360,000 crianças e jovens são magoadas nas escolas;

A estimativa é que 1 milhão de alunos se balda às aulas.

E todos os anos mais de 1 em cada 6 alunos deixa a escola sem saber ler, escrever ou adicionar!

Espero que tenhas força para continuares a lutar.