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sábado, 4 de abril de 2009

Como funciona o ensino doméstico I

Tradução livre de um artigo de Katherine Neer sobre o ensino doméstico nos E.U.A.

Introdução

O Centro Nacional de Estatísticas da Educação dos E.U.A. (NCES) diz-nos que em 2003 cerca de 1,1 milhão de estudantes estava no ensino doméstico, aprendendo em casa em vez de frequentarem escolas públicas ou privadas. Várias organizações do ensino doméstico sugerem que na verdade o número é muito maior, chegando a atingir o dobro, pois embora normalmente as famílias tenham de notificar as Direcções Regionais de Educação, em 9 Estados a lei não exige que o façam.

Grupo de ensino doméstico visitando o Serviço Meteorológico

Nos E.U.A., em 2002-2003, 1,1 milhão de alunos era o equivalente a 0,5% da população em idade escolar. A percentagem, embora talvez não pareça, é significativa quando nos apercebemos do que tem vindo a acontecer: há 20 anos o ensino doméstico era ilegal nos Estados Unidos. Em meados da década de 90, graças a algumas famílias muito activas em relação ao ensino doméstico e a alterações na legislação, o movimento acelerou e desde então tem sido uma bola de neve.

No ano lectivo de 1985-1986, o número de alunos inscritos no ensino doméstico em North Carolina era 809. Em 1990-1991 o número aumenta para 4.127, e em 1995-1996 atingiu os 13.801. No ano 2000-2001 já eram 33.860 e em 2003-2004 aumentou para 54.501.

Mas porque é que o ensino doméstico está a ganhar popularidade? Porque é que os pais preferem educar os filhos em casa? Num inquérito ao ensino doméstico realizado pela NCES em 2003, os pais foram questionados sobre os motivos que os levaram a optar pelo ensino doméstico por grau de importância:

31% decisão devido à preocupação com o ambiente das escolas.

30% fazem-no para transmitir valores morais e crenças religiosas.

16% optaram pelo ensino doméstico devido à insatisfação com a qualidade do ensino nas escolas.


Neste artigo vamos falar sobre o significado do ensino doméstico, os vários métodos praticados e o que os pais precisam saber se estiverem a pensar educar os filhos em casa.

O que é o ensino doméstico?


Nos E.U.A., a definição de ensino doméstico, por razões legais, é diferente de Estado para Estado. Em North Carolina, por exemplo, a definição é a seguinte:

"uma escola privada na qual 1 ou mais crianças de não mais de 2 famílias recebe instrução acadêmica dos pais, tutores ou alguém de uma das casas."

Em Portugal, a lei define o ensino doméstico como:

"aquele que é leccionado no domicílio do aluno, por um familiar ou por pessoa que com ele habite."


Como nos E.U.A. a definição muda consoante o Estado, as exigências legais para o estabelecimento de uma “escola privada” para o ensino doméstico também mudam. Essas leis entram geralmente em vigor quando as crianças atingem os 7 ou 8 anos de idade. Por curiosidade, uma pequena lista das coisas que as crianças aprendem no ensino doméstico antes da idade escolar:

falar
andar
correr
brincar
cantar
vestir-se
amarrar sapatos
contar até 10, 20 ou mais
recitar o alfabeto
reconhecer as letras do alfabeto
soletrar o nome

Estas são só algumas coisas básicas. Há muitas crianças que sabem ler, fazer contas, tocar um instrumento musical, nadar, dançar, etc, antes de terem idade para entrar na pré-primária. Geralmente, é um familiar (os pais, avós, irmãos mais velhos) que as ajuda a aprender a fazer essas coisas. Qualquer passeio em contacto com a natureza, mostrando várias plantas, insectos e animais, é uma experiência de aprendizagem. Qualquer ida ao jardim zoológico é uma experiência de aprendizagem. Até as actividades diárias, como fazer compras na mercearia e cozinhar, são experiências de aprendizagem.

Se as crianças aprendem naturalmente em casa, se é em casa que começam a aprender, porque é que há tanta preocupação com a educação? A resposta é simples: o ensino doméstico não é para todos. Mas, para alguns, é a melhor opção.

Jovens em regime de ensino doméstico visitando uma plantação de ananás em Maui

Existem montes de livros na internet demonstrando que o ensino doméstico pode ser uma experiência positiva para toda a família. Porém, como exige um enorme compromisso por parte dos pais e dos filhos, é uma decisão que não deve ser tomada levianamente.

A seguir vamos falar sobre o tipo de coisas que devemos ter em conta se estivermos a pensar seriamente no ensino doméstico.

Continua aqui...

2 comentários:

RUTE disse...

É um grande compromisso sem dúvida mas o pior, em Portugal, é a obrigatoridade de prestar provas.

Como diz a Isabel em Portugal não há unschooling, há homeschooling.

E no caso das crianças especiais, em Portugal é possivel adoptar curriculos alternativos em homeschooling??

Amanhã volto para a parte II.
Beijinhos Paula,
Bom fim de semana.

Paula Peck disse...

Pois é, são boas perguntas...

A Isabel, a Pequete e a Lara estão mais a par da realidade portuguesa do que eu e falaram um pouco sobre isso aqui (se calhar já leste, não sei...).

Lembro-me da Isabel ter observado que o filho já tinha aprendido, naturalmente e sem qualquer esforço, "menos metade dos conteúdos programáticos do 1º ano... sem ter seguido qualquer programa, só guiado pelos seus interesses, e mesmo antes de ter a idade de estar no 1º ano".

A conclusão a que a ela chegou foi a de que "não será muito difícil que ele aprenda os conteúdos mesmo sem estarmos preocupados com isso." A conclusão dela corresponde à de muitas famílias britânicas que decidem fazer as provas nacionais, embora aqui, no Reino Unido, não sejam obrigadas por lei a fazê-lo.

Quando ao caso das crianças especiais, o Mário Relvas deixou um comentário nessa mesma página mas não elaborou, por isso não sei.

Penso que o principal é sabermos o que diz a lei. Aqui no Reino Unido a lei diz que os pais têm de fazer com que os filhos recebam uma educação eficiente e adequada às suas idades, capacidades e aptidões, e a quaisquer necessidades educativas especiais que possam ter, seja através da frequência escolar seja de outra forma."

O ensino doméstico enquadra-se nessa última expressão: "de outra forma".

Em Portugal parece-me que é o Decreto-Lei nº 319/91, artigo 11º, de 23 de Agosto, que fala de currículos alternativos no ensino especial.

Penso que se as escolas podem e devem adaptar o currículo nacional ao grau e tipo de deficiência, ou substituí-los para proporcionar a aprendizagem de conteúdos específicos, não faria sentido que tal não fosse possível para os pais.

A situação no Reino Unido em relação ao caso das crianças especiais educadas em casa varia, dependendo de se foram educadas em casa desde o início ou se foram transferidas para o ensino doméstico após algum tempo na escola.

No primeiro caso os pais têm muito mais controlo e liberdade no que toca à educação dos filhos. São eles que preparam o plano educativo individual e que decidem os objectivos a atingir e as linhas metodológicas a adoptar.

Quando os pais transferem os filhos para o ensino doméstico, se a escola tiver feito um plano educativo especial, geralmente com a ajuda de um psicólogo e da equipe de saúde escolar, aí os pais têm de obedecer a esse plano e passam a ser responsáveis pelos custos. Por exemplo, se o plano diz que a criança deve ter acesso à terapia da fala, os pais terão de assumir responsibilidade por tal.

Bem, este assunto dava para escrever um livro!