Este blog partilha informação sobre o homeschooling e o unschooling - ensino doméstico ou educação domiciliar. Para navegarem o site, usem os links acima e, para os posts de 2011, o botão da pesquisa na barra direita. Facebook: Aprender Sem Escola Email: aprendersemescola@gmail.com

terça-feira, 21 de abril de 2009

O ensino doméstico na sociedade do conhecimento

Tenho andado a ler "O Sistema de Ensino em Portugal", um livro que reune textos de palestras dadas em 1996 num Curso de Verão organisado pelo Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Num dos textos, Roberto Carneiro fala da questão do ensino, dos seus desafios actuais e da emergência de um novo paradigma. O que achei engraçado é que o ensino doméstico daria resposta a muitos destes desafios, embora não tivesse sido mencionado.

A páginas tantas, por exemplo, o autor diz-nos que o Prof. Agostinho da Silva costumava dizer que "o ideal de uma escola é uma instituição que está aberta 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Para quê? Para eu poder lá ir perguntar, a qualquer momento, aquilo que eu não sei."

Pensei imediatamente na internet: qualquer criança ou adolescente que aprenda em casa (e aqui tenho de clarificar que no ensino doméstico a sala de aulas não se limita à casa, ao lar - no ensino doméstico "o mundo é a sala de aulas") e que tenha acesso ilimitado à internet andaria na escola ideal do Prof. Agostinho da Silva!

Mas voltemos ao texto, que fala também da sociedade do conhecimento (ou sociedade cognitiva) em que vivemos e da necessidade de novas competências. A escola actual não ajuda ninguém a desenvolver estas competências porque é baseada no modelo fabril.

"Na sociedade cognitiva, abre-se definitivamente a crise do modelo fabril inspirado na sociedade industrial e na seriação fordiana, em que há uma matéria prima que passa por uma linha de montagem, para se inculcar valor acrescentado."

Os nossos filhos são a matéria prima a ser transformada em capital humano.

"Em termos metafóricos é esta a nossa herança. Trinta crianças numa sala de aula, altamente disciplinadas, passivamente aprendendo aquilo que o professor, senhor da autoridade do conhecimento e do saber, lhe transmite... esta era a forma mais hábil e consentânea com as necessidades da sociedade fabril e industrial, onde o modelo de produção era essencialmente assente numa rotina de trabalhos para a qual se pretendia que as pessoas fossem disciplinadas e obedientes."

A escola tradicional visava formar trabalhadores obedientes. Mas com a globalização as necessidades são outras. O mercado de trabalho exige trabalhadores inovadores e criativos, capazes de imaginar novas possibilidades e alternativas, capazes de resolver problemas, de analisar situações complexas, de fazer mediação de conflitos, de comunicar com pessoas de outras culturas, de desaprender modelos obsoletos e tornar a aprender ao longo de toda a vida.

"Como é que estas novas competências são adquiridas num mundo mergulhado na informação, onde a escola não tem mais o monopólio da sua transmissão? Na verdade, a informação chega hoje por todos os lados: pela TV, pelos novos media, pelos CD ROM's, pelos jornais, pela comunicação global e total que tem lugar no nosso mundo, onde muitas competências são adquiridas individualmente por métodos totalmente não formais. Não estará longe o dia em que qualquer pessoa, pela internet, pode estudar línguas, desenho de máquinas, história, ou qualquer outra disciplina do conhecimento."

Bem, para nós, e para muitas famílias, esse dia já chegou! Através da internet, de grupos de trocas de conhecimentos e recursos educacionais, de redes sociais, de encontros com outras famílias que optaram pelo ensino doméstico, e assim por diante, o acesso à aquisição dessas competências é fácil. Não que o objectivo seja que os filhos venham a ter sucesso trabalhando para corporações multinacionais, pois muitas famílias que optam pelo ensino doméstico estão plenamente conscientes da insustentabilidade da sociedade de consumo e colocam as suas energias, como dizia Gandhi, "sendo a mudança que querem ver no mundo".

Seguidamente, o texto fala do problema da ausência de sistemas de reconhecimento e de acreditação dessas competências porque as instituições académicas e escolares têm o monopólio na emissão de diplomas. Para mim, como para vários outros, a falta de acreditação não é necessariamente um problema. Mas isto dava muito que falar e hoje já não tenho tempo. Está um dia bonito demais para ser desperdiçado na internet! A campainha está a tocar e a sala de aulas para onde vou é a praia!

Sem comentários: