Este blog partilha informação sobre o homeschooling e o unschooling - ensino doméstico ou educação domiciliar. Para navegarem o site, usem os links acima e, para os posts de 2011, o botão da pesquisa na barra direita. Facebook: Aprender Sem Escola Email: aprendersemescola@gmail.com

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Ensino doméstico: alternativa ao sistema público

Aqui fica mais uma tradução livre: desta vez, um artigo de jornal sobre o ensino doméstico no Canadá. Podem ler o original, em inglês, aqui.

Jackie ajudando o filho a aprender os números e as filhas observando

Jackie optou pelo ensino doméstico (educação domiciliar no Brasil) depois de ter observado os efeitos negativos da escola nos amigos de sua filha Jessica.

Dois rapazes de 15 anos foram à sua clínica quiroprática. O primeiro era um cliente recente que passou o tempo olhando para o chão, quase insensível às perguntas de Jackie. O segundo, um adolescente todo entusiasmado sem quaisquer dificuldades de estabelecer contacto visual e iniciar conversa. O primeiro frequentava a escola, o segundo era educado em casa.

Esse incidente, assim como muitos outros, convenceu Jackie, 39, a optar pelo ensino doméstico.

"Observei uma diferença enorma", disse ela. "As crianças educadas em casa são muito mais participativas e eloquentes."

Assim, em vez de mandar a filha mais velha para o jardim de infância, começou a ensinar-lhe na mesa da cozinha, usando a biblioteca e programas da internet.

O tempo foi passando e Jackie tornou-se mais convencida de que o ensino doméstico era a melhor opção. Na escola, os amiguinhos de Jessica estavam desenvolvendo certas atitudes e aprendendo certas coisas que ela não queria para o filho. Isto para não falar dos métodos facilitados de avaliação e da ausência de consequências para erros.

"Não estou nada satisfeita com o sistema escolar", disse ela. "Ninguém se responsibiliza por nada. Deixam os miúdos passar de ano sem terem aprendido nada. Não é assim que as coisas funcionam no mundo lá fora."

Ruth Carpenter optou pelo ensino doméstico por razões semelhantes. Mãe de 3 filhos, sentia-se frustrada com histórias de salas superlotadas e professores com demasiado trabalho e falta de tempo para prestar atenção individual aos alunos.

"Para mim, não faz sentido", disse Ruth, 37.

Sua filha mais velha, Nicole, agora com nove, não estava pronta para o ensino formal. Começou a aprender em casa, ao seu próprio ritmo, e quando tinha idade suficiente para a 1 ª série, Ruth sabia que ela se iria aborrecer com os livros didáticos.

"Pareceu-me cada vez mais fácil seguir o ensino doméstico", disse Ruth.

Embora inicialmente a tomada de responsibilidade pela educação dos filhos parecesse uma tarefa gigantesca, Jackie agora vê que manter os três filhos em casa é mais simples do que enviá-los para outro lado.

"Para mim, o ensino doméstico é menos estressante do que lidar com autocarros, horários e trabalhos de casa", ela explicou.

Ruth explica que todos os pais têm as mesmas responsabilidades, mesmo que não se apercebam disso.

Alguns alunos têm trabalhos de casa que demoram horas a fazer e geralmente precisam da ajuda da mãe ou do pai. A única diferença entre isso e o ensino doméstico é que Ruth acaba as suas funções pedagógicas durante o dia, enquanto as outras famílias estão ocupadas até depois do jantar.

Apesar da sua desilusão com o sistema escolar, a sua filha mais nova não está aprendendo em casa.

Abby, 6, nasceu com um problema de saúde que requer tratamentos semanais, e recebe estes tratamentos no Centro de Tratamento Infantil de Ottawa como parte de um programa de educação especial.

Ruth acha que a escola - com apenas 21 alunos e muitos professores para dar atenção e ajuda às crianças - é, neste momento, a melhor opção para Abby, mas no futuro quer ensinar-lhe em casa.

"Depois do ensino doméstico é a segunda melhor opção", diz Ruth sobre a situação actual, e já decidiu que quando a filha mais nova não tiver idade para continuar a frequentar o centro de educação especial não a vai mandar para a escola.

"Eu não posso fazer isso", disse ela. "Não quero que ela seja prejudicada pelas falhas do sistema."

SOCIALIZAÇÃO

Ensino doméstico não significa estar enfiado em casa com os irmãos e os pais.

Lois Shepherd faz parte do conselho da Associação do Ensino Doméstico de Rideau Valley, um grupo de várias centenas de famílias que optaram por esta alternativa, incluindo as famílias de Ruth e Jackie.

Lois explica que a associação oferece muito apoio aos pais-educadores, como por exemplo a conferência anual realizada recentemente em Kanata. Organizam excursões e aulas, oferecendo aos jovens oportunidades educativas adicionais.

"Elas dão muita ajuda e apoio", disse Lois, referindo-se às outras famílias que seguem o ensino doméstico.

"O perigo do ensino doméstico é o isolamento", afirmou Ruth. "Os pais, mais do que as crianças, que têm sempre vários amigos, se não estiverem em contacto com outras famílias que praticam o ensino doméstico, podem às vezes sentir-se sozinhos."

Assim, as conexões com outras famílias que optaram por esta alternativa são importantes tanto para as crianças como para os pais.

Segundo Ruth, uma das primeiras coisas que as pessoas perguntam sobre o ensino doméstico é a questão da socialização.

A associação oferece muitas oportunidades para as crianças criarem amizades. Actividades organisadas pela igreja e encontros com amigos para brincar também ocupam seus horários.

"Elas dão-se muito bem com todas as crianças", disse Ruth sobre suas filhas.

"Os meus filhos não estão sendo privados de nada", acrescentou Jackie, cujas filhas fazem patinagem, aulas de natação, pertencem aos escuteiros e participam em programas organisados pela igreja.

Jackie diz que a grande vantagem do ensino doméstico em relação à escola é a flexibilidade.

"Transformamos tudo que fazemos numa experiência didática", disse ela, acrescentando que passam umas horitas com livros, mas a maior parte do dia é passado com jogos educativos e / ou excursões. Até uma ida ao supermercado torna-se uma lição matemática.

Lois diz que educar os 5 filhos em casa "é um compromisso de cada hora de cada dia." Mas que os seus filhos adoram a aprendizagem tranquila no lar - e os dias de folga em que fazem snowboard ou trabalho voluntário na igreja.

As pessoas que a conhecem ficam muitas vezes surpreendidas com o bom ajustamento dos seus filhos, educados fora do sistema escolar, embora o seu filho Joel tenha frequentado o liceu durante três anos.

Lois acha que embora acabar com as escolas não seja a solução, existem problemas suficientes com o sistema escolar para a levar a optar pelo ensino doméstico.

"As crianças não são ensinadas eficazmente sentadas em salas de aula com 30 alunos, cada um com seus interesses, experiências e habilidades únicas. Eu acho que isso não funciona. A única coisa que têm em comum é a idade. "

Em vez disso, Lois prevê que os filhos vão desenvolver uma vontade de saber precisamente por não serem obrigados a frequentar aulas padronizadas em horários fixos.

"Eu quero que eles aprendam a aprender, depois não terão limites. Eles possuem muita confiança naquilo que pensam e acreditam."

"Essa é a grande beleza do ensino doméstico" Jackie acrescentou. "Você pode fazer o que melhor se encaixa com a sua família."

No seu caso, isso significa manter um emprego a tempo inteiro na sua clínica de quiroprática. Seu marido, Brent, também trabalha, mas o horário flexivel de Jackie, que trabalha por conta própria, e a babá, permitiu-lhes evitar colocar os filhos em jardins de infância.

Nos dias em que Jackie está no escritório, os filhos lêem e fazem trabalhos, mas também usam livros didáticos quando a mãe está por perto.

Jackie observa as vantagens de deixar os filhos, Jessica, 8, Laura e Christopher (cinco e três), absorverem a informação no seu próprio ritmo, e acha que o ambiente familiar é melhor para a aprendizagem.

"Eles têm muita auto-confiança e um grande senso de quem são. A pressão do grupo não funciona com eles da maneira como funciona com as crianças escolarizadas."

Jackie ainda não decidiu se os filhos vão precisar de um diploma oficial do ensino médio ou pós-secundário, e não os está pressionando.

"Quero dar-lhes a oportunidade de serem crianças. Não acho que isso seja negativo."

2 comentários:

susana disse...

adicionei o seu blog aos meus favoritos há já uns bons meses. Pesquisava sobre educação , e especialment educação alternativa. Que o sietma educacional vai de mal a pior isso já todos sabemos. Eu sonho com a possibilidade de criar uma escola diferente em portugal, já existem algumas com metodologias diferentes mas eu aprecio o modelo da escola da ponte. E seriam precisas muito mais escolas da ponte em Portugal. Vir aqui ao seu cantinho é também buscar inspiração para esse projecto que acredio que heide conseguir concretizar.
Um abraço grande e obrigada pela partilha.
su

Paula Peck disse...

Olá Susana!

Desejo-te todo o sucesso, espero que os teus sonhos se tornem realidade porque iria beneficiar muitas crianças, jovens e famílias.

Precisamos de mais escolas democráticas como a escola da Ponte. Não sei se viste, mas aí há uns tempos partilhei um livro do Rubem Alves, O Desejo de Ensinar e a Arte de Aprender, em que ele descreve a sua experiência na Escola da Ponte (página 44 em diante). Talvez te interesse...

Obrigada pela visita!