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domingo, 16 de agosto de 2009

Adaptação da aprendizagem formal

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

Ensino doméstico e educação domiciliar - adaptação da aprendizagem formal

Muitos factores influenciam o afastamento, por parte dos pais, de tentativas de imitar a escola. Em primeiro lugar, como em casa as aulas formais são um-a-um, elas tendem a ser muito intensas. Por isso um dia inteiro de ensino-aprendizagem seria demais. Normalmente a primeira alteração é a redução do tempo dedicado às lições, geralmente a cerca de 2 horas, no período da manhã.

A flexibilidade da aprendizagem em casa significa também que os horários são desnecessários. As lições podem ser tão curtas ou longas quanto for necessário. Se, por algum motivo, a criança não estiver aprendendo porque está cansada, não se consegue concentrar ou não se sente bem, os pais não precisam insistir. Não há nada tão improdutivo como ensinar alguém que não está aprendendo nada. A lição pode ser abandonada e retomada mais tarde. Pelo outro lado, se a criança estiver concentrada e entusiasmada, a lição ou actividade pode continuar durante o tempo que o entusiasmo durar, e isso podem ser horas, dias ou semanas.

Outro aspecto da aprendizagem formal que depressa desaparece é a pesada dependência de exercícios e testes como prova de aprendizagem. Na escola, esta dependência é, obviamente, necessária. Sem ela o professor não seria capaz de acompanhar o progresso ou dar feedback. Em casa é simplesmente desnecessária porque a aprendizagem é muito interactiva. Isso significa que os pais sabem exactamente onde os filhos estão. Não é uma questão de fazer exercícios para verificar o que já foi aprendido e o que ainda não foi compreendido, mas de ultrapassar dificuldades no momento em que estas surgem, como estes pais observaram:
Nós não fazemos testes. Eu fico observando o tempo todo. Se fizerem algo errado eu digo-lhes imediatamente. Se corrigisse mais tarde eles não se iriam lembrar (p. 45).
As pessoas têm a ideia de que os alunos têm de vomitar a matéria. Mas nós não precisamos de fazer testes para ver se a matéria foi compreendida. Alguém me perguntou se nós fazíamos testes. Ao pensar nisso apercebi-me que fazer testes em casa seria uma farsa (Thomas, 2002).
Se pensarem nas diferenças entre o ambiente de casa e o da escola, as adaptações que descrevi até agora fazem sentido. Até aqui, tudo bem. Mas elas podem ir muito mais além. Depois de terem feito estas alterações, os pais parecem tornar-se conscientes de que os métodos escolares não são sagrados mas abertos à mudança.

Tomem o exemplo de um pai-educador bastante típico que reduziu a aprendizagem formal a umas 2 horas no período da manhã. Os filhos estão relativamente livres durante o resto do dia. Mas isso não significa que não estão fazendo nada. Podem ler por prazer, debater todo tipo de coisas com os pais, ir passear, participar em actividades, ajudar nas tarefas domésticas, seguir seus interesses e passatempos, utilizar o computador e assim por diante. À primeira vista, estas coisas não parecem ser mais do que umas “férias” agradáveis das lições “a sério”. No entanto, muitos pais começam a perceber que nessas actividades estão incorporadas oportunidades de aprendizagem. Esta mãe descreve a sua experiência quando ela começou a educar sua filha de 7 anos de idade, que havia retirado da escola:
Depois dos primeiros dois meses ficámos estoiradas. A pressão não era brincadeira... Era praticamente impossível ensiná-la num ambiente formal. Começámos então a dar passeios e a fazer uma série de outras coisas... Seis meses depois elaborei um gráfico em preparação para a próxima visita do inspector. Fiquei boquiaberta com a quantidade de aprendizagem que havia ocorrido através, por exemplo, de conversas e de andar por aqui e ali (p. 76).
Continua aqui.

4 comentários:

P e M disse...

"Sem ela o professor não seria capaz de acompanhar o progresso ou dar feedback."

Eu até acho que o professor tinha capacidades de acompanhar os alunos, mas para isso as turmas teriam de ser drasticamente reduzidas e as matérias também. É completamente inconcebível único dar conta do recado actualmente...

;o)

Paula disse...

Sim, dessa maneira talvez seja possível.

Mas imaginando um professor do ensino secundário, dando aulas a uns 150 - 200 alunos por dia... Não sei, mas penso que nem sequer devem ter tempo de conhecer os alunos como seres humanos que são, de saber o que lhes vai na alma, o que lhes inspira, o que lhes magoa...

Talvez o problema seja o da impossibilidade de "servir a dois senhores" porque acabamos sempre por nos dedicar a um e negligenciar o outro.

Como professores, ou nos dedicamos às crianças e jovens ou a quem nos paga o salário.

P e M disse...

"Como professores, ou nos dedicamos às crianças e jovens ou a quem nos paga o salário."

E o dinheirinho no bolso fala mais alto, pelo menos para a maioria...

;o)

Isabel de Matos disse...

Esta fez-me lembrar de quando eu comecei a dar aulas... como a "minha disciplina" (Educação Visual, na altura) "só" tinha uma carga de 2h semanais eu tinha 11 turmas de cerca de 30 alunos cada. Eu e os outros professores com o mesmo nº de turmas como era o caso dos professores de Biologia, por exemplo, só lá para o início, meio do 2º período é que começávamos a "conhecer" (caras associadas a nomes..., nunca conhecê-los como os seres que são com as particularidades de cada um, claro) todos os alunos.

A coisa mais caricata foi num ano termos numa turma duas gémeas e na reunião do final do 1º peródo para dar as notas, uma professora (daquelas que tinham mais aulas com eles) falar nas gémeas e eu pensar "Gémeas? Onde é que temos gémeas aqui? Queres ver que são tão diferentes que eu não dei por serem gémeas?". Era ao contrário, precisamente iguais e eu pensava que eram sempre a mesma, nem os nomes sendo diferentes me tinham feito perceber... Pensei "Sou mesmo distraída... isto tem que melhorar!". O mais engraçado ainda foi quando de repente, estava eu a pensar tudo isto, a professora de Biologia diz alto: "Gémeas? Temos gémeas nesta turma? Como é que eu não tinha dado por nada?"

Estão a ver... ;)