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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Aprendizagem & crianças em idade escolar

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

Quando os miúdos atingem os 5 anos de idade vão para a escola e embarcam na aprendizagem formal “como deve ser”.

O conteúdo do que aprendem, o currículo, é planejado em detalhe e cuidadosamente sequenciado. O professor despeja este currículo e as crianças aprendem o que lhes dizem que têm de aprender. O progresso é monitorado constantemente de várias formas, desde respostas às perguntas que os professores fazem na sala de aula, à realização regular de exercícios escritos. Podem haver muitas e boas razões - a nível institucional, organizacional e prático - para que a aprendizagem estruturada seja necessária na escola. Mas isso não significa que esta seja a única forma de adquirir uma educação.

Não há nenhuma base científica para o pressuposto quase universal de que este método tradicional de educar as crianças é essencial para o seu progresso depois de atingirem a idade escolar. É simplesmente que estamos tão acostumados à aprendizagem do tipo escolar que é muito difícil imaginar qualquer alternativa.

É verdade que a educação informal, às vezes denominada educação centrada na criança, foi supostamente praticada nas décadas “permissivas” de 1960 e 1970, embora tenha pouco em comum com o tipo de aprendizagem informal aqui descrito (Entwistle, 1970; McKenzie & Kernig, 1975).

Pesquisas incluindo observação directa em salas de aula, feitas no início de 1980, demonstraram que mesmo este tipo de aprendizagem informal limitada não tinha ido muito além da retórica (Bennett et al, 1984; Galton, Simon & Kroll, 1980). A única aprendizagem informal que ocorre nas salas de aula diz respeito à forma de agir enquanto estudante e de desempenhar seu papel da forma aprovada pela instituição e pelos colegas; ao que tem sido chamado currículo oculto.

Então como é que podemos estudar a aprendizagem informal nas crianças e jovens em idade escolar se eles passam os dias na escola?

Bem, em primeiro lugar, eles não estão na escola o dia todo, embora a aprendizagem informal fora da escola ainda não tenha sido estudada em profundidade. Uma excepção fascinante é a pesquisa sobre a "aprendizagem de rua". Por exemplo, Carraher, Carraher & Schliemann, (1985) compararam o que os estudantes brasileiros aprendiam nas aulas de matemática com aquilo que aprendiam manipulando dinheiro durante seu trabalho part-time nas barraquinhas do mercado. Os pesquisadores foram ao mercado e compraram colecções de itens. As crianças não tiveram dificuldade em somar o custo dos itens e calcular o troco. Mas quando estes mesmos cálculos lhes foram apresentados nas lições de matemática, as mesmas crianças acharam-nos difíceis e fizeram muitos erros.

Uma meia dúzia de escolas, tais como Summerhill School, no Reino Unido, onde as aulas não são obrigatórias mas voluntárias, e as escolas Sudbury Valley, estabelecidas pela primeira vez nos E.U.A., onde as aulas não seguem um horário, oferecem oportunidades de aprendizagem informal, principalmente devido à sua proporção muito boa de adultos-alunos, mas até agora têm atraído pouco interesse de investigação séria sobre este aspecto das suas actividades.

É provável que a melhor fonte de conhecimento existente sobre a aprendizagem informal das crianças em idade escolar seja o ensino doméstico. Isto porque muitos pais que educam os filhos em casa descobrem que a aprendizagem informal desempenha pelo menos uma parte, em alguns casos uma grande parte, no crescimento intelectual dos seus filhos.

Continua aqui...

3 comentários:

P e M disse...

"As crianças não tiveram dificuldade em somar o custo dos itens e calcular o troco. Mas quando estes mesmos cálculos lhes foram apresentados nas lições de matemática, as mesmas crianças acharam-nos difíceis e fizeram muitos erros."

Verdadeiramente fascinante! Portanto, muda-se o cenário e as coisas deixam de fazer sentido...

;o)

Isabel de Matos disse...

Ainda ontem li algo no "Teach Your Own" de John Holt, onde ele diz algo que hei-de transcrever também par'"A Escola É Bela".

Algo como, se as crianças querem aprender a fazer potes de barro, concerteza que é muito melhor pô-las a fazer potes de barro em vez de lhe mostrar em livros como é que se faz.

Mas ainda melhor que isso, é se alguém necessitar de um pote de barro e ele seja feito pela criança, porque lhe pediram ajuda e vendo ela qual a sua utilidade e a necessidade para alguém.

Colocámos a aprendizagem numa redoma isolada da Vida e agora queremos o quê? Intelectualidade pura, parece-me...

P e M disse...

"Mas ainda melhor que isso, é se alguém necessitar de um pote de barro e ele seja feito pela criança, porque lhe pediram ajuda e vendo ela qual a sua utilidade e a necessidade para alguém."

É exactamente isso que eu faço com a "piquena", é ela a "fiel" dos babetes (pois eu e o pai quando cá vem comer temos de pôr também), dos pratos dela e das colheres pequeninas (entre outras coisa)...