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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Aprendizagem informal II

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

Schaffer (1996) descreve a forma como os pais facilitam essa aprendizagem sem estarem conscientes disso, através da "articulação", que Lloyd (1990) chama de "sistema de apoio comunicativo", indo ao encontro do que a criança está fazendo ou dizendo.

Schaffer propõe que "o crescimento cognitivo ... durante a primeira infância é transmitido mais eficazmente no contexto de "episódios de envolvimento mútuo' [que] implica a cooperação mútua de uma criança participante e um adulto sensível" (p239).

Ainda mais informal é o tipo de aprendizagem que ocorre apenas ao estar "na companhia de", até na aquisição de conhecimentos de matemática - "... no decorrer da vida quotidiana são dadas, às competências cognitivas de lidar com os números - ainda em desenvolvimento nas crianças -, todas as oportunidades de se interligarem com a maneira em que a sociedade utiliza a aritmética" (p. 239).

Este tipo de aprendizagem tem sido descrito como um aprendizado cultural informal, através principalmente da "participação guiada" (Rogoff, 1990), e corresponde bem com os conceitos de "aprendizagem situada" e "participação periférica legítima" aplicados na aprendizagem informal dos adultos (Lave & Wenger, op cit).

Na altura em que atingem a idade escolar, a maioria das crianças está no bom caminho para aprender a ler, tendo sido estabelecida a familiarização com as formas das letras, seus próprios nomes, outras palavras que as rodeiam na sua vida quotidiana e em livros que lhes são lidos.

Elas já têm pelo menos um entendimento básico dos conceitos essenciais da matemática, por exemplo contar, adicionar e subtrair, embora não tenham, obviamente, as habilidades computacionais que irão adquirir posteriormente. Além disso, elas estão constantemente expandindo os seus conhecimentos gerais sempre que ouvem, vêem, fazem perguntam que nunca mais acabam, brincam, participam em actividades domésticas, vão às compras, vão visitar outras pessoas e assim por diante. Essa é uma parte tão normal da vida quotidiana em família que os pais estão raramente conscientes da enorme quantidade de aprendizagem que está ocorrendo.

Um estudo muito famoso, baseado em crianças de 4 anos de idade que frequentavam a pré-primária em part-time (Tizard e Hughes, 1984), compara especificamente este tipo de aprendizagem informal em família com a aprendizagem na escola. Gravaram conversas entre as crianças e suas mães em casa e, para comparar, entre os adultos (professores e trabalhadores infantis) na escola.

Para sua surpresa descobriram que, independentemente do background sócio-econômico das crianças, o lar proporcionava um ambiente de aprendizagem informal muito rico e que ... o contexto em que a aprendizagem era mais frequente era o da vida quotidiana. Simplesmente ao estarem perto de suas mães, conversando, discutindo e fazendo perguntas sem fim, as crianças estavam recebendo uma quantidade enorme de informações relevantes para o crescimento dentro da sua cultura (p.250-251).

Pelo contrário, no infantário ou na creche, bastante informal em relação à escola:
As crianças que havíamos observado, curiosas e cheias de perguntas quando em suas casas, eram totalmente diferentes... em “conversas” com adultos, limitavam-se a responder às perguntas deles em vez de lhes fazerem perguntas e participarem em diálogos ... (p. 9)
A aprendizagem informal é, obviamente, fundamental para o desenvolvimento intelectual durante a infância e tem um papel importante na educação de adultos. Mas o que acontece nos anos intermédios, quando as crianças estão em idade escolar?

Continua aqui.

3 comentários:

P e M disse...

"Schaffer propõe que "o crescimento cognitivo ... durante a primeira infância é transmitido mais eficazmente no contexto de "episódios de envolvimento mútuo' [que] implica a cooperação mútua de uma criança participante e um adulto sensível""

Exactamente!!!

;o)

Paula disse...

E eu até acho que não é só durante a primeira infância mas durante a vida toda.

Esse diálogo e essa cooperação mútua ajudam-nos a desenvolver as nossas posições sobre determinados assuntos.

Conversando, os nossos pontos de vista são desafiados. Quando conseguimos defender a nossa posição contra todos os criticismos e objecções sem entrarmos em contradições então a nossa convicção torna-se mais firme.

E conversando, dialogando, torna-se muito mais fácil manter a concentração. Quando a única coisa que podemos fazer é ficar calados a ouvir o professor falando das coisas que o Estado lhe manda falar e nos força a ouvir, o mais comum é desligar e entrar em desvaneios mentais.

Além disso, essas conversas e diálogos também nos ajudam a desenvolver como pessoas, porque desafiam a nossa timidez e nos encorajam a exprimir o nosso modo de ver as coisas.

E, claro, o objectivo nunca deveria ser tentar convencer os outros dos nossos pontos de vista, mas partilhar a nossa curiosidade natural, as nossas tentativas de compreender o mundo que nos rodeia, o mundo interior e a relação entre esse mundo lá fora e este mundo cá dentro...

P e M disse...

"Além disso, essas conversas e diálogos também nos ajudam a desenvolver como pessoas, porque desafiam a nossa timidez e nos encorajam a exprimir o nosso modo de ver as coisas."

Exactamente! Tenho de promover diálogos (nem que seja com o espelho) para acabar com a minha timidez e exprimir-me da melhor forma... É que por vezes tenho a nítida sensação de que falo chinês...

"E, claro, o objectivo nunca deveria ser tentar convencer os outros dos nossos pontos de vista, mas partilhar a nossa curiosidade natural, as nossas tentativas de compreender o mundo que nos rodeia, o mundo interior e a relação entre esse mundo lá fora e este mundo cá dentro..."

Exactamente!!!

;o)