Este blog partilha informação sobre o homeschooling e o unschooling - ensino doméstico ou educação domiciliar. Para navegarem o site, usem os links acima e, para os posts de 2011, o botão da pesquisa na barra direita. Facebook: Aprender Sem Escola Email: aprendersemescola@gmail.com

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Como capturar a aprendizagem informal?

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

É óbvio que não vai ser fácil ver progresso no dia a dia, ou até de mês a mês. Como Cullen et al (1999) observou em relação à educação informal dos adultos: "capturar a aprendizagem informal com a pesquisa exige muito esforço e perseverança. É, pela sua própria natureza, difícil de capturar e não se dispõe facilmente a ser escrutinizada e medida"(p. 7). Henze (1992) também comenta sobre as "qualidades evanescentes da aprendizagem informal e as dificuldades de capturá-la no seu contexto natural [de modo que], é raramente documentada ou estudada" (p. 4). Os pais que seguem a abordagem informal concordariam certamente com isto.
Comecei com muito pouca estrutura, mas com uma ideia do que eles deveriam fazer. Eu tinha um caderno bem espesso onde, durante uns tempos, escrevi o que fazíamos todos os dias. Queria provar que era boa naquilo que estava a fazer e para isso precisava de um registro. Mas foi muito difícil manter o diário. Começávamos num tema, cobríamos um montão de coisas e acabávamos numa outra matéria completamente diferente (p. 70).
Na escola, isto seria, justamente, considerado um descuido e até não-professional. Mas em casa, de algum modo, este "montão de coisas", como descreve a mãe acima, acaba eventualmente se unindo, tal como as peças de um puzzle.

Na escola, o currículo determina o processo de ensino-aprendizagem. Estruturado de forma lógica e sequencial, cada passo fácil de digerir, para facilitar a aprendizagem. Essencialmente, a tarefa do aluno é seguir uma sequência de aprendizagem predeterminada.

Mas quando as crianças aprendem informalmente, elas parecem fazer o contrário pois impõem a sua própria sequência ao que aprendem. A lógica do currículo não corresponde à lógica das crianças e dos jovens. A lógica das crianças e adolescentes é individual e determinada pela complexa e dinâmica interacção entre o nível actual de conhecimentos e a informação que vão recebidas, mediada pelas àreas de interesse, pela motivação, curiosidade e desejo de lidar com desafios. É como se cada criança tivesse a sua própria teoria de aprendizagem. Isto é muito eficiente porque novos conhecimentos e entendimentos só são assimilados quando expandem os conhecimentos existentes.

O oposto também contribui para a eficiência da aprendizagem informal - quando as novas matérias não encaixam no conhecimento existente ou não o expandem elas são ignoradas. Isto contradiz totalmente a aprendizagem escolar convencional, onde a expectativa é que os estudantes perseverem quando não compreendem; estes geralmente acabam por adquirir nada mais que um nível superficial de compreensão, que tem sido denominado aprendizagem superficial (Biggs, 1987).

A aprendizagem informal, portanto, segue uma espécie de lógica fuzzy e não-linear, específica a cada criança. Encontra um paralelo na aquisição da linguagem, que é aprendida pelas crianças de forma semelhante a esta, e igualmente individualizada (Crystal, 1976). Talvez a aprendizagem informal esteja mais adequada às inúmeras ligações e redes no córtex cerebral. Seja qual for o caso, ela funciona, e sem todos os esforços associados à aprendizagem formal, como estes pais descobriram.

[Ele] chega a um certo nível e depois desliga. Depois, quando volta a essa matéria, está num nível superior, sem nada visível ter acontecido (p. 71).
Eles aprendem um monte no dia a dia, com a vida, com o estar na companhia dos outros. Às vezes parece impossível como é que aprenderam tanta coisa. (p. 72)

Isto não significa que os pais nunca tenham momentos de dúvida, pois vivem sem o conforto de saberem que os filhos estão obtendo um curso acreditado formalmente, como nos diz esta mãe:

Ontem à noite dei comigo a pensar que o ensino doméstico não nos está levando a lado nenhum, que tudo que fazemos não passa de um monte de arranques falsos que depois não seguimos, um monte de peças que não estão formando nada em concreto (p. 81).
Continua aqui.

14 comentários:

P e M disse...

"É óbvio que não vai ser fácil ver progresso no dia a dia, ou até de mês a mês. Como Cullen et al (1999) observou em relação à educação informal dos adultos: "capturar a aprendizagem informal com a pesquisa exige muito esforço e perseverança."

Olha que não sei, eu já me interessava por estas questões (de consumo de energias, casas ecológicas, etc), mas desde que me esforcei um pouquinho mais à procura de informação que tenho aprendido muito num curto espaço de tempo. Parece-me que "vesti um vestido de seda, finíssimo" como uma segunda pele...

Com a minha filha, aquilo que noto é que ela ainda aprende aos saltos e depois "esquece", para depois fazer uso do que havia aprendido...

Quanto ao resto do post, estou de acordo!

;o)

Paula disse...

Pois, é a questão da (in)utilidade das avaliações. Assim como ninguém fica mais alto ao ser medido, ninguém adquire mais conhecimentos ao ser avaliado.

Nós sabemos que estamos aprendendo e sabemos que os nossos filhos estão aprendendo, porque estamos acompanhando esse processo de aprendizagem, o nosso e o deles, dia após dia.

E mais, estamos aprendendo o tempo todo, quer estejamos conscientes ou não dessa aprendizagem.

Alan Thomas, que escreve esse estudo, refere-se ao problema que se põe aos que fazem pesquisa sobre a educação, que não têm disponibilidade de tempo para acompanhar o processo de aprendizagem das crianças educadas em casa.

O que eu acho interessante é a compulsão de avaliar os miúdos. No início, o motivo era avaliar a qualidade das escolas. Os pais, delegando a responsibilidade da educação dos filhos a terceiros, têm o dever de se assegurar que as escolas estão proporcionando aos filhos uma educação adequada.

Por outro lado, como as escolas são públicas, ou seja, pagas pelas contribuições financeiras dos cidadãos, estes têm o direito de saber se esse dinheiro está sendo bem gasto.

Mas em vez de se avaliar a "performance" da escola e dos professores, avaliam os alunos, que infelizmente passado uns tempos começam a acreditar que o seu valor como ser humano corresponde ao valor que lhes é dado pela instituição.

E de qualquer maneira o sucesso das escolas não devia ser medido pelos resultados de testes feitos pelos alunos mas pela felicidade e bem estar físico, emocional e espiritual destes. E quem diz dos alunos diz dos professores e de todo o pessoal que lá trabalha...

Sei que testes, exames, notas são uma ilusão por experiência própria. Quando, por exemplo, fiz a licenciatura aqui na Inglaterra obtive um "first class degree"; vim mais tarde a saber que só 4% conseguem obter essa distinção. No entanto, a verdade é que isso não significa nada. Se fosse fazer os exames amanhã chumbava de certeza. O mesmo aconteceria com a maioria das pessoas (já fizeram estudos sobre isso) e com quem estuda para passar exames e não por querer aprender.

Agora a aprendizagem auto-direccionada é outra coisa. Aprendemos porque algo dentro de nós foi despertado, como o teu interesse por questões de consumo de energias, casas ecológicas, etc. Aprendemos com gosto, com prazer, com sede de saber. Aprendemos ao nosso ritmo, quando queremos, da maneira que queremos. E essa aprendizagem sim, é significativa, mesmo que difícil de capturar por um observador externo...

Isabel de Matos disse...

Adoro os vossos comentários!
Que mais dizer? Ao lê-los, aos dois, senti esse finíssimo vestido de seda...

Beijinhos às duas...
Isabel

Paula disse...

Olá Isabel,

Adorei ver as fotos do vosso encontro, ainda que poucas. Têm planos para um outro encontro?

Isabel disse...

Sim, temos...
Estamos a pensar em Outubro encontrarmo-nos em Peniche e vamos ver se fazemos mais um ou dois piqueniques antes do tempo começar a arrefecer muito. Também surgiram umas ideias agora neste primeiro encontro, de arranjar umas "visitas de estudo" (visitar alguma fábrica que interesse ver fazer como se faz determinado produto, ou ver os aviões de perto numa visita acompanhada e algo assim), em conjunto, alguns de nós que desse para nos juntarmos.
Isto aos poucos vai tomando forma. É o que eu digo à Amparo quando ela diz que em Espanha se juntam muito mais: nós somos poucos e cada um em seu sítio e depois é uma questão de escala: num país maior, fazer 200 Km psicologicamente, não é muito, num mais pequeno... :)

Beijinhos
Isabel

P e M disse...

Paula,

eu depois lei os outros posts como mais atenção, mas...

"Assim como ninguém fica mais alto ao ser medido"

Fizeste-me lembrar a última vez que fomos à médica de família, aos 2 anos... A médica bem que tentava medir e pesar a minha filha e ela não ia de modas... não queria...

Quando estávamos para vir embora lá consegui eu que ela subisse para a balança...

Infelizmente, ainda temos de ir à médica de família... fazia-me imensa confusão ir lá e a miúda sempre a chorar para a medir/pesar... saída de lá com "uma nuvem negra" por cima da cabeça...

"Aprendemos ao nosso ritmo, quando queremos, da maneira que queremos. E essa aprendizagem sim, é significativa, mesmo que difícil de capturar por um observador externo..."

E parar?! Como é que se para?!

;o)

Paula disse...

Isabel,

Fico tão feliz ao saber dos vossos planos e de acompanhar, embora à distância, o progresso do ensino doméstico em Portugal! Quem sabe, talvez um dia coincida eu estar aí por altura de um desses encontros!

Beijinhos

Paula disse...

P e M: "E parar?! Como é que se para?!"

Pois é, porque será que ninguém faz essa pergunta? É impossível, nem ao dormir o cérebro pára!

Estórias na internet:

Uma noite, o fisiólogo Otto Loewi adormeceu pensando na sua teoria sobre a transmissão de impulsos do sistema nervoso. Nessa noite ele sonhou com uma experiência, que no dia seguinte realizou no seu laboratório, exactamente da mesma maneira como tinha sonhado. Sua invenção passou de teoria a realidade concreta, podendo ser provada, o que o levou a ser laureado com o Prêmio Nobel.

Outro exemplo é o de Thomas Edison. Depois de mais de mil tentativas descobriu o elemento final que permitiu a lâmpada ficar acesa mais de alguns segundos. Esse filamento é usado até hoje. Foi durante um sonho que Edison visualizou esse filamento, fazendo uma das maiores descobertas dos tempos modernos.

Albert Einstein atribuía a origem da famosa teoria da relatividade a um sonho que teve na adolescência.

P e M disse...

"Pois é, porque será que ninguém faz essa pergunta? É impossível, nem ao dormir o cérebro pára!"

Quando eu perguntava como é que parava... estava-me a referir a ter tempo para outras coisas... como dormir, que já são horas... Os meus interesses (e os vossos, digo eu) são tantos e tão dispares (apesar de estarem todos interligados de alguma forma) que teria-mos de viver (7 vidas como os gatos?) várias vidas...

E agora passou-me uma ideia pela cabeça... e como é que os génios encaram e gerem esta questão... como é que eles encaram a morte... cada dia que vivem é menos um dia que falta para acabarem o seu tempo neste mundo e com este corpo...

Ideias!!!

Paula,
o que tu foste fazer com a minha cabeça...

As duas últimas estórias eu já conhecia...

;o)

Paula disse...

Bem, isso iria dar muito que falar!

Já ouviste falar das pesquisas do Dr Brian Weiss e do Dr Ian Stevenson?

P e M disse...

"Já ouviste falar das pesquisas do Dr Brian Weiss e do Dr Ian Stevenson?"

Eu conheço o Dr Brian Weiss (tenho alguns livros dele cá em casa: Muitos corpos, uma só alma (não me recordo de ter lido, apesar de morar cá em casa à algum tempo); Meditação com o Dr. Brian Weiss e Encontre a Sua Paz Interior). O outro cavalheiro não sei quem é...

Qual é a pesquisa que estás a falar?

Podes escrever um post sobre isso ou preferes enviar-me por mail?

'bigada

;o)

P e M disse...

Fiz uma pesquisa rápida no google e este foi o primeiro que apareceu: http://www.forumespirita.net/fe/biografias-espiritas/dr-ian-stevenson/

"Com efeito, em muitos casos acontecia haverem crianças que, ao identificarem as suas vidas anteriores, contavam que as respectivas mortes tinham ocorrido devido a doenças, golpes, tiros, etc, que incidiam exactamente na parte do corpo que, na vida actual, mostrava marcas, sinais ou defeitos de nascença."

A minha filha tem um destes sinais de nascimento a meio das costas, bem na coluna... não quero nem pensar...

:|

Eu, quando estava a ter a minha filha, a Catarina Pardal (que foi minha Doula) sugeriu-me que eu a tivesse abaixada (pois estava indecisa com a posição) e eu disse-lhe que não podia ser... que o meu joelho direito não ia aguentar e ela perguntou-me como é que eu sabia e eu disse que não sabia. A verdade é que pouco tempo passado estava com a perna direita a abanar de tal forma e tinha o joelho direito com uma dor tal que tive de mudar de posição...

Dá que pensar, não dá?

Paula disse...

Se quiseres dar uma olhada na edição portuguesa do livro dele, clica aqui.

P e M disse...

Obrigada, quando tiver um pouco mais de tempo leio.

;o)