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sábado, 15 de agosto de 2009

Pesquisa sobre o ensino doméstico / educação domiciliar

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

O que me levou a pesquisar o ensino doméstico foi o meu interesse pelo ensino individualizado (Thomas, 1992). A minha introdução à aprendizagem informal surgiu quando fui convidado a passar uma semana "vivendo" com uma família que educa em casa.

O que mais me impressionou durante essa semana foi que, pelo menos à primeira vista, nada de especial parecia estar acontecendo, especialmente comparando com o senso de trabalho propositado que tipicamente observamos nas salas de aula. Não havia um horário nem um programa de actividades educativas programadas sequencialmente dentro de um currículo planejado. Fomos a passeios. É certo que os dois miúdos, com 11 e 13 anos de idade, liam muito e passavam algum tempo trabalhando nos seus próprios projectos. Havia várias actividades fora de casa, incluindo participação numa banda musical. Um deles estava fazendo um projecto sobre desenvolvimento infantil e ajudando uma vizinha com o seu bebé recém-nascido. Amigos vinham visitá-los depois das aulas e um deles participou num musical em uma escola [...] Estas crianças estavam certamente aprendendo, embora, obviamente, não através do tipo de ensino individualizado e organizado que eu esperava observar.

Durante a semana, o que mais me surpreendeu foram as constantes oportunidades de aprendizagem informal, muitas vezes incidental, principalmente através das conversas em grupo. Quer estivessem dando um passeio, sentados à volta da mesa da cozinha, participando em qualquer actividade, desenhando, construindo algo, trabalhando num projecto, comendo, viajando de carro ou lendo, havia uma quantidade incrível de conversas espontâneas e incidentais.

Um dia, por exemplo, estávamos todos sentados ao redor da mesa da cozinha empenhados nas nossas actividades distintas. Temas de conversa, na maioria das vezes não relacionados ao que estavamos fazendo, não paravam de surgir. Entre outras coisas, falámos sobre a escravatura, Nelson Mandela, crocodilos de água salgada e os níveis das águas subterrâneas ... e se havíamos de ir à loja comprar uns bolos. As crianças provavelmente viam isto um mero bate papo. Mas comecei a perguntar-me até onde este tipo de aprendizagem incidental poderia contribuir para a sua educação em geral. Com ou sem ela, eles estavam certamente fazendo progresso. Ambos acabaram estudando part time em escolas pós-ensino-obrigatório para adultos e tendo sucesso em exames públicos (Thomas, 1998, p.4).

Com o objectivo de estudar os processos envolvidos na aprendizagem em casa, eu fiz um estudo investigatório, baseado em entrevistas e num número limitado de observações de 100 famílias, na Austrália e no Reino Unido (Thomas, 1998). As abordagens à educação domiciliar adoptadas por estas famílias eram de uma enorme variedade, desde as do tipo “escola em casa” (uma mãe até tinha uma campainha de escola!) às completamente informais, sem qualquer estrutura que se visse (unschoolers). O que se segue é um breve resumo dessa pesquisa no que toca à aprendizagem informal.

Embora um certo número de pais embarque na aprendizagem informal desde o início, influenciados por autores como John Dewey, John Holt ou pela filosofia libertária, a grande maioria dos pais, certamente durante os primeiros tempos, usam métodos do tipo escolar, como fizeram estes:
No início sentimos a necessidade de seguir a rotina escolar, e ela também. Parecia ser a única maneira. Usámos horários (Thomas, 1998, p. 54).
No entanto, a maioria das famílias que faz no início "escola em casa" descobre que o que funciona na escola não se adapta facilmente ao lar. Por necessidade, os pais-educadores acabam desenvolvendo novas abordagens educativas, quase sempre menos formais. São estes pais, os que mudam de abordagem, que proporcionam a prova mais convincente do potencial da aprendizagem informal, pois descobrem (esse potencial) por si próprios, sem estarem ideologicamente comprometidos a tal. Longe disso:
No princípio eu era muito rigorosa e regimentada, com um horário para o período da manhã. Comprei todos os livros necessários, mas depois apercebi-me que estava sufocando as crianças. Agora sou muito mais flexivel. Aprendemos que "educação em casa" não é “escola em casa”. Tive que abandonar tantos métodos usados na escola ... (p. 55)
Convém salientar que em casa tanto a aprendizagem formal quanto a informal têm significados diferentes em comparação com a da escola. A aprendizagem formal em casa seria provavelmente considerada pela escola como bastante informal. Em contrapartida, a aprendizagem informal em casa é especificamente feita no contexto da família porque pouco ou nada é prescrito (unschooling). As crianças aprendem com a vida, com as experiências quotidianas, tal como haviam aprendido durante a infância. Este tipo de aprendizagem não existe na escola.

Para a maioria das pessoas, a ideia dos pais assumirem o papel profissional do professor e usarem em casa os métodos usados na escola já é bem difícil de aceitar. Quanto mais a ideia de que as crianças possam adquirir informalmente o que a escola ensina de maneira tão formal no ensino obrigatório!

Continua aqui.

3 comentários:

P e M disse...

"As crianças aprendem com a vida, com as experiências quotidianas, tal como haviam aprendido durante a infância. Este tipo de aprendizagem não existe na escola."

Exactamente!!! Desde muito pequenos: aprendem com aquilo que vem e não com aquilo que ouvem dos próprios pais. É por essas e por outras, que muitos "cescidos" têm o hábito de criticar as crianças quando eles mesmos dizem uma coisa e fazem outra...

"Para a maioria das pessoas, a ideia dos pais assumirem o papel profissional do professor e usarem em casa os métodos usados na escola já é bem difícil de aceitar. Quanto mais a ideia de que as crianças possam adquirir informalmente o que a escola ensina de maneira tão formal no ensino obrigatório!"

Pois, essa irá ser uma batalha e tanto...

;o)

Isabel de Matos disse...

Para mim a coisa resolvia-se em parte (ou era uma forma de se começar a resolver...) se deixasse de existir escolaridade obrigatória.
Vivemos ou não em sociedades democráticas?
Mesmo continuando a existir escolas públicas, se deixasse de existir a obrigatoriedade da sua frequência, dava-se um passo na motivação para a sua frequência e outro nas questões da avaliação, pois depressa se encontrariam novas formas de avaliar caso se insistisse na necessidade de avaliar.
O outro passo consequente seria uma maior abertura e compreensão para as outras formas de educação como o Homeschooling e o Unschooling...
Há um medo genérico de se dar esse passo (daí que até andem mas é a pensar em aumentar os anos de escolaridade obrigatória), mas daria resultados muito satisfatórios, sinto bem isso.

Beijinhos
Isabel

P e M disse...

"Vivemos ou não em sociedades democráticas?"

Pois, Isabel, mas a democracia só funciona às vezes... e quando não vai de encontro ao que a sociedade(? talvez fosse mais correcto escrever: governo, estado, nação, etc...) apregoa!