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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Um exemplo de aprendizagem informal no ensino doméstico

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

Uma das mães que participou na minha pesquisa era fora do comum: tinha tentado manter um diário detalhado dos “bocados e pedaços” de aprendizagem da filha durante 5 anos, dos 7 aos 12. Fiz uma análise detalhada dos “bocados” de matemática, que ocupam menos de 5% do diário. A maioria deles são parte integrante das actividades diárias, como cozinhar, descobrir quanto tempo é preciso esperar para se ver determinado programa de televisão, ler os números dos autocarros, calcular distâncias rodoviárias, economizar dinheiro, fazer compras, jogar jogos.

O único ensino formal que a mãe tentou foi o da tabuada, e teve muito pouco sucesso. No entanto, a filha aprendeu a tabuada dos 20 antes da dos 2 porque coleccionava entusiasticamente moedas de 20 centavos que encontrava nos carrinhos abandonados nos parques de estacionamento dos supermercados, especialmente quando estava a chover.

Mesmo com a sua assiduidade em relação ao diário, apesar de ter incluido os “bocados” de matemática mais pequenos, como dizer os números dos autocarros e encher “meia chávena com farinha”, a aprendizagem informal é tão elusiva que ela esqueceu-se de registar o progresso de aprender a dizer as horas. Fez apenas uma breve referência a tal. No entanto, de uma maneira ou outra, a filha aprendeu a dizer as horas no decurso das actividades do dia a dia.

À medida que ela foi crescendo a matemática tornou-se mais sofisticada, mas continuou a decorrer das actividades quotidianas; por exemplo, durante os saldos, calculava as percentagens de redução dos preços, nos supermercados comparava os preços diferentes do mesmo produto (os preços dos vários pacotes de arroz, por exemplo), vendendo produtos numa barraquinha para uma organisação sem fins lucrativos, medindo uma série de coisas em actividades de artesanato, cozinhando, e assim por diante. Aos 12 anos o seu nível de matemática foi avaliado independentemente como acima da média.

Muitas crianças que aprendem informalmente embarcam na aprendizagem formal ou iniciam / voltam para a escola quando atingem a idade do secundário ou dos exames a nível nacional. Mas não são todas. Eis o exemplo de uma rapariga cuja educação foi, na sua grande maioria, informal: ela entrou directamente para o 12º ano e depois foi para a universidade. Sua mãe reflete sobre o período quando a filha tinha 17 anos e começou a escola:

A educação dela foi muito informal e teve muito pouca estrutura. Quando penso nisso, fazíamos coisas, mas não eram planeadas... Então entrámos em pânico na altura do 10º ano. Todo o mundo dizia que para se arranjar emprego é preciso isto e aquilo. Fiquei preocupada, mas a verdade é que continuámos praticamente na mesma. Trabalhávamos a sério durante uns dias mas depressa voltávamos à aprendizagem informal. Não conseguíamos manter o estudo formal. E continuamos a não conseguir... disseram-me que devia escrever no diário tudo o que ela fazia. Mas não mantive um diário; o mais importante, para nós, era o fazer.
Sua filha acrescentou:
Na escola, existe uma pressão para se saber tudo o que é ensinado; aprende-se tomando apontamentos. Com o ensino doméstico, aprende-se um montão de coisas sem se ser ensinado (p. 78).
Acaba aqui.

5 comentários:

Ipe disse...

Gracias por esta serie sobre el aprendizaje informal. Es muy esclarecedor y además aporta luz sobre la practica de otras familias.

Paula disse...

Ipe,

Gracias por tu visita e pelo comentário.

Sabes, faço estas traduções porque em Portugal a maioria das pessoas nunca ouviu falar do ensino doméstico e, entre a minoria que está ciente da sua existência, a maior parte dessa minoria tem uma ideia completamente errada da educação em família.

Ainda ontem encontrei 2 artigos na internet escritos por um tal António Nóvoa, que pelos vistos é reitor da Universidade de Lisboa, que mencionavam o ensino doméstico.

O facto de mencionar a sua existência acho positivo, o problema é que fala de crianças em "clausura social", associações religiosas e "empresas privadas que elaboram programas de formação... e lhes fornecem materiais curriculares e didácticos".

Sei que nos EUA houve em tempos uma percentagem elevada de famílias optando pelo ensino doméstico por razões religiosas mas essa não é a realidade actual.

Aqui no Reino Unido muito menos! Ainda estou para conhecer uma família que encaixe nessa descrição. Muito pelo contrário! A quantidade de unschoolers é enorme, fazendo do mundo lá fora a sua escola e da vida o seu "currículo".

O problema é que as pessoas lêem coisas dessas e ficam a pensar que essa é a realidade do ensino doméstico quando pura e simplesmente não é.

Isabel de Matos disse...

Bem que nós temos divulgado este teu blog, pela preciosidade da informação que contém! A ver se essa ideia sobre o ensino doméstico se transforma!!!

Obrigada, mais uma vez

Beijinhos
Isabel

Paula disse...

Obrigada pelo feedback, Isabel.

Um abraço grande para ti.

Paula disse...

Queria só deixar bem claro que não tenho nada contra as famílias que adoptam o ensino doméstico por motivos religiosos ou por quererem transmitir certos valores aos seus filhos.

Também não tenho nada contra as famílias que querem proteger os filhos da violência escolar, do bullying e de más companhias. E não tenho nada contra as famílias que seguem uma abordagem estruturada e gostam de seguir um currículo.

Gostaria é que a diversidade do ensino doméstico fosse reconhecida, que o ensino doméstico fosse descrito na sua inteireza, riqueza e complexidade e que o direito que os pais têm de escolher a educação a dar aos filhos fosse respeitado e protegido.