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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Distúrbios de Aprendizagem

Uma Rosa com Outro Nome, por Jan Hunt, Psicóloga e Directora do "The Natural Child Project"

Imagine por um instante que está visitando um viveiro de plantas. Você percebe uma agitação lá fora, vai investigar e encontra um jovem assistente lutando contra uma roseira, tentado forçar as pétalas da rosa a se abrirem, e resmungando insatisfeito. Você lhe pergunta o quê está fazendo e ele explica: "meu chefe quer que todas estas rosas floresçam nesta semana, então na semana passada eu cortei todas as precoces e hoje estou abrindo as atrasadas". Você protesta dizendo que cada rosa floresce a seu tempo, que é absurdo tentar retardar ou apressar esse processo, que não importa quando a rosa vai desabrochar pois as rosas desabrocham sempre no momento mais oportuno para elas. Você olha novamente para a rosa e vê que ela está murchando, mas quando você o alerta, ele responde: "Ah, isso é mau, ela tem um problema de desabrochamento congênito. Vamos ter que chamar um especialista". Você diz: "Não, não! Foi você quem fez a rosa murchar! Você só precisaria satisfazer as exigências de água e luz da planta e deixar o resto por conta da natureza!" Você mal consegue acreditar no que está acontecendo. Por quê o chefe dele é tão mal informado e tem expectativas tão irreais em relação às rosas?

Essa cena nunca teria se passado num viveiro, é claro, mas acontece todos os dias nas nossas escolas. Professores pressionados por seus chefes seguem calendários oficiais que exigem que todas as crianças aprendam no mesmo ritmo e da mesma maneira. No entanto, as crianças não diferem das rosas em seu desenvolvimento: elas nascem com a capacidade e o desejo de aprender, e aprendem em ritmos diferentes e de modos diferentes. Se formos capazes de satisfazer suas necessidades, proporcionar um ambiente seguro e propício e evitar nos intrometer com dúvidas, ansiedades e calendários arbitrários, aí então - como as rosas - as crianças irão desabrochar cada uma a seu tempo.

Meu coração gela quando penso nas crianças diagnosticadas com 'ADHD' (sigla norte-americana para 'distúrbio de hiperactividade e falta de atenção'), o tipo mais recente de "distúrbio de aprendizagem". Muitos educadores e pesquisadores acreditam que as crianças e suas famílias têm sido cruelmente enganadas por esse diagnóstico. O Dr. Thomas Armstrong, que já foi especialista em dificuldades de aprendizagem, mudou de profissão quando começou a ver "como essa noção de distúrbios de aprendizagem estava prejudicando os nossos filhos, colocando a culpa da dificuldade de aprender em misteriosas deficiências neurológicas, em vez de apontar para as necessárias reformas no nosso sistema educacional".

O Dr. Armstrong voltou-se então para o conceito de diferenças de aprendizagem e escreveu "In Their Way" ("Do modo deles"), um guia prático e fascinante para os sete "estilos pessoais de aprendizagem" inicialmente propostos por Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard. O Dr. Armstrong nos instiga a abandonar rótulos convenientes mas nocivos tais como "dislexia" e prestar atenção ao problema real do "disensino". Ele adverte que "as nossas escolas estão desvalorizando milhões de crianças ao taxá-las de insuficientes quando na realidade elas estão sendo incapacitadas por métodos de ensino ruins". Como Armstrong explica, "as crianças são sobrecarregadas com diagnósticos tais como dislexia, disgrafia, discalculia e assim por diante, dando a impressão de que sofrem de doenças muito raras e exóticas. Embora o termo dislexia seja apenas uma expressão latina para 'dificuldade com palavras', centenas de testes e programas se propõem a identificar e tratar tais 'disfunções neurológicas'. Mas os médicos ainda não conseguiram determinar qualquer tipo de lesão cerebral detectável na maior parte das crianças com esses "sintomas". Parece evidente para mim, depois de quinze anos de pesquisa e prática no campo da educação, que as escolas são as principais culpadas pelo fracasso e pelo tédio enfrentado por milhões de crianças..."

As classificações de distúrbios de aprendizagem seriam "as novas roupas do imperador" das escolas? Os filósofos têm um recurso interessante chamado "Navalha de Occam", um expediente prático para liquidar com teorias absurdas: "para resolver um problema, deve-se escolher a teoria mais simples que explique os factos". Quais são os factos? É facto que muitos escolares, principalmente do sexo masculino, têm dificuldades de aprendizagem. Mas também é facto que existem centenas de milhares de crianças no mundo, meninos e meninas, entre os quais esse defeito "genético" está ausente: são as crianças educadas em casa. Nesse grupo, praticamente não existem dificuldades de aprendizagem.

Se os "distúrbios de aprendizagem" estão presentes apenas no ambiente escolar e ausentes em outros lugares, o problema deve estar no ambiente de aprendizagem das escolas e não em algum "distúrbio neurológico" misterioso e não-detectável das crianças, ou estariam igualmente presentes nas crianças que optam pelo ensino doméstico / educação domiciliar. Afinal não é segredo que as escolas não estão conseguindo cumprir sua tarefa: em muitas regiões, os níveis de alfabetização caíram e não chegaram a atingir os níveis prévios à existência de escolas públicas (nos Estados Unidos). Quando John Gatto, eleito Professor do Ano do Estado de Nova York, chama a escolarização obrigatória de "sentença de doze anos de prisão", percebemos que algo está muito errado e que o erro não é das crianças.

Será que as classificações de "hiperactividade", "fobia escolar" e "dificuldade de aprendizagem" são na verdade uma cortina de fumaça para a incapacidade da escola de entender e aceitar o verdadeiro processo de aprendizagem? Uma especialista do porte de Mary Poplin, ex-editora de uma revista sobre distúrbios de aprendizagem ('Learning Disabilities Quarterly'), concluiu recentemente que "apesar de toda a pesquisa quantitativa... não há provas de que os distúrbios de aprendizagem possam ser identificados objetivamente... as tentativas de se estabelecer critérios objectivos para avaliar problemas humanos são uma ilusão que serve para encobrir nossa incompetência pedagógica".

O educador John Holt relata em 'Teach Your Own' ('Ensine a Si Mesmo') que o presidente de uma importante associação para tratamento de distúrbios de aprendizagem admitiu que há "poucas provas para confirmar os diagnósticos de distúrbios de aprendizagem". John Holt alerta os pais de crianças em idade escolar para serem "extremamente cépticos em relação a qualquer coisa que as escolas e seus especialistas digam sobre a condição e as necessidades de seus filhos". Acima de tudo, eles devem compreender que é quase certo que a própria escola, com todas as suas fontes de tensão e ansiedade, esteja causando as dificuldades e que o melhor tratamento provavelmente seja tirar o filho da escola de uma vez por todas.

As famílias que fazem isso ficam aliviadas ao descobrir que seus filhos recuperam o interesse que tinham pela aprendizagem quando eram mais novos. Ao contrário dos professores escolares, que têm apenas uma visão parcial de várias crianças, os pais que educam em casa observam a aprendizagem dos filhos ao longo de vários anos, aprendendo assim a respeitar o estilo singular de aprendizagem de cada filho, a confiar no ritmo do desenvolvimento de cada filho e a reconhecer que os erros são uma componente normal e passageira do processo de aprendizagem de qualquer pessoa. (Não há pressa, de qualquer forma: muitas crianças educadas em casa que começam a ler aos 10 ou 12 anos e saíram-se muito bem na faculdade).

Essa atitude descontraida dos pais que educam em casa mantém intacto o valor próprio da criança, torna os diagnósticos e rótulos insignificantes e permite que a aprendizagem seja tão fácil quanto entre os pré-escolares: crianças educadas em casa costumam superar aquelas que frequentam a escola em termos de desempenho acadêmico, socialização, confiança e auto-estima. John Gatto afirma que "em termos da capacidade de pensar, as crianças educadas em casa parecem estar cinco a dez anos adiante daquelas que frequentam a escola".

Durante alguns anos John Holt desafiou várias escolas a "explicarem a diferença entre uma dificuldade de aprendizagem (que todos nós temos numa ou outra ocasião) e um distúrbio de aprendizagem". Perguntou aos professores como é que distinguem entre causas inerentes ao sistema nervoso do aluno e factores externos - o ambiente escolar, o modo de explicar do professor, o professor em si ou o material didático. Ele relata: "nunca recebi uma resposta coerente a essas perguntas... [apesar disso,] essa distinção é tão fundamental que não sei como podemos falar de modo construtivo sobre os problemas de aprendizagem de uma criança sem ela".

Mas como é que os professores têm tanta certeza da existência tão disseminada de distúrbios neurológicos? Talvez eles estejam apenas confundindo causa e efeito: como John Holt observa, "os professores dizem que deve ser difícil ler, ou não haveria tantas crianças com dificuldade de ler". John Holt argumenta que "as crianças têm dificuldade de ler porque partimos do pressuposto que ler é difícil... com nossa preocupação, 'simplificação' e pedagogia, tudo o que conseguimos é tornar a leitura cem vezes mais difícil para a criança do que deveria ser... quando estamos nervosos ou com medo temos dificuldade ou ficamos até impossibilitados de pensar e até de perceber... quando amedrontamos as crianças, bloqueamos totalmente a sua aprendizagem".

De facto, algumas pesquisas mostram que as expectativas do professor sobre a capacidade de aprendizagem da criança influenciam muito o seu desempenho acadêmico. Outras pesquisas mostram a relação entre a ansiedade da criança e sua dificuldade de percepção - e ainda que o alívio da ansiedade (e o tratamento de alergias alimentares, quando elas existem) reduz em muito a incidência dessas dificuldades. Mas não precisamos que especialistas e pesquisadores nos digam o que está errado. Precisamos apenas de ouvir as crianças e jovens, que estão há anos tentando expressar sua dor, frustração, confusão e raiva. Quando as crianças se voltam para as drogas, auto-mutilação e suicídio, é evidente que estão tentando comunicar algo muito importante.

Será que as dificuldades de aprendizagem são uma reacção compreensível de crianças normais obrigadas a conformar-se às condições anormais das salas de aula convencionais? Por outras palavras, será que as escolas são incapazes de perceber a diferença entre simples relatos de erros de aprendizagem passageiros, agravados pelo estresse, e uma conclusão científica? Embora as supostas anomalias neurológidas nunca tenham sido identificadas, não é difícil detectar condições anormais no ambiente escolar: competitividade feroz, inactividade física (particularmente difícil para os meninos), matérias fragmentadas que têm pouca relação com os interesses e as experiências individuais da criança, frequentes avaliações e testes do progresso da aprendizagem, falta de tempo para o convívio familiar, pouca oportunidade de conhecer pessoas de outras idades, falta de sossego para a privacidade e a reflexão, pouca oportunidade de receber a atenção exclusiva dos professores, desencorajamento de compartilhar ideias e trabalho com os colegas (uma oportunidade valiosa sendo desperdiçada), crianças frustradas caçoando das outras, o desencorajamento de atitudes de auto-valorização e acima de tudo a indignidade de ser um incapaz, uma "não-pessoa", cujas necessidades legítimas e tentativas de expressar essas necessidades são abafadas pela defensiva institucional. Todas essas dificuldades podem ser evitadas com a educação domiciliar - desde que o governo permita autonomia suficiente.

Classificações são incapacitantes, porque as crianças acreditam no que lhes dizemos. Se tivermos de classificar algo, que seja o ambiente de ensino e não o aluno: em vez de "criança hiperactiva", vamos nos preocupar com as escolas "restritivas de actividade"; em vez de alunos com "falta de atenção", deveríamos pensar nas aulas "sem inspiração"; em vez de "criança com fobia escolar" deveríamos usar palavras mais honestas como "ansiosa" e "amedrontada", e ter o cuidado de pesquisar o motivo da ansiedade.

Usando a Navalha de Occam, vamos procurar a teoria mais simples que explique os factos e não a mais complicada e obscura. Um ambiente estressante, punitivo e ameaçador é mais do que suficiente para explicar os problemas de aprendizagem. Não precisamos nos confundir com termos técnicos, teorias sem comprovação científica e bodes expiatórios para preservar uma instituição social que falhou com nossos filhos.

Como devemos agir então? Norman Henchey, professor da Universidade MacGill, recomenda "repensar totalmente a escolaridade obrigatória". Norman Henchey defende o regresso ao ensino doméstico e a "outras vias de amadurecimento... programas de formação de aprendizes, serviços de ensino formais e informais, servico público". Talvez assim possamos honrar o estilo individual de aprendizagem de cada criança e, como pede o Dr. Armstrong, "dar às crianças a motivação de que necessitam para se sentirem seres humanos competentes e bem-sucedidos".

As crianças nasceram para aprencer. Elas merecem ter um ambiente de aprendizagem seguro e estimulante, onde possam aprender numa atmosfera de paciência, respeito, delicadeza e confianca, sem ameaças, coerção ou cinismo. Como Einstein nos alertou muitos anos atrás, "é um grave erro acreditar que o prazer de observar e pesquisar possam ser incutidos pela coerção".

Todas as crianças são dotadas.

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