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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Ensino doméstico na Jamaica II

Enquanto a grande maioria das crianças na Jamaica veste seus uniformes e corre para as suas respectivas escolas, umas quantas vão calmamente do quarto para uma sala de aulas improvisada.

Essa é a rotina normal de Kuti e Ruwenzori Ra, de 9 e 7 anos, respectivamente. Para eles a escola é em casa, onde são ensinados por sua mãe, Kamau Mahakoe.

Mahakoe, professora particular, jornalista e autora, e o marido, Omari Ra, conhecido pelos amigos por "African", decidiram educar os 4 filhos em casa, pelo menos durante a primária. African é artista e professor de artes cênicas e visuais.

A opção de educar os filhos em casa é reforçada pelo sucesso de Tchakamau, a filha mais velha que também foi educada em casa antes de entrar para Escola Secundária da Imaculada Conceição, uma prestigiada instituição para raparigas onde ela agora é uma estudante de honra.

Tchakamau entrou para a prestigiada escola devido aos excelentes resultados que teve nos exames a que se candidatou. Para entrar na Escola Secundária da Imaculada Conceição os estudantes têm de ter uma média de 90% nos exames.

"O sistema de ensino não tem qualidade nenhuma. Os miúdos têm de ter aulas extras aos sábados e domingos", disse Mahokoe, que é uma das professores particulares que dá aulas extras de preparação para os exames. Depois de completar o secundário em 1993, Mahakoe, uma verdadeira autodidacta, trabalhou no Banco Comercial Nacional por um ano e deu aulas na pré-primária antes dos filhos nascerem.

A educação domiciliar é apenas uma das várias opções não-convencionais da família, que escolheu nomes africanos para os filhos, tem uma dieta vegetariana e resolveu não aderir a nenhuma religião organizada. Mahakoe, no entanto, descreve-se como uma pessoa muito espiritual.

A família também está perturbada pelo nível de violência e mau comportamento que os jovens estão expostos na escola. Dizem que o ensino doméstico permite-lhes proteger os filhos da obscenidade nos meios de comunicação, transportes públicos e amizades destrutivas.

"A escola de hoje é um lugar perigoso. Há jovens que são mortas e violadas na escola", disse Mahaoke.

Ela não está preocupada com a possibilidade dos filhos estarem a perder oportunidades para participar em actividades artísticas, culturais e desportivas:

"Acho que as escolas colocam demasiada ênfase no desporto, que pode tornar-se uma grande distração. Embora seja importante que os nossos filhos conheçam a sua cultura, os meus filhos não perdem oportunidades disso. O pai trabalha na área das artes, eles entram em várias competições e lêem muito", disse ela.

Uma impressionante colecção de troféus que ganharam em competições de leitura e outras áreas reforça o seu ponto.

"Nós promovemos a ciência de uma maneira muito prática. Por exemplo, em vez de nos limitarmos a mostrar-lhes fotografias de instrumentos que aparecem nos livros, tentamos obtê-los para que eles os possam utilizar. Temos microscópios, telescópios e várias outras coisas para eles ligarem a teoria à prática", disse a mãe.

Africano, que estava no trabalho quando o inspector educacional visitou sua casa, deixou um relatório onde explicou:

"Introduzimos ciência, tecnologia e história bem cedo. Queremos que as crianças negras saibam que podem inventar, criar e transformar as suas vidas através da mobilização de recursos naturais e humanos para a sua sobrevivência. Como povo, não podemos escapar a marginalização sócio-cultural pelo desporto e entretenimento que são, na melhor das hipóteses, subprodutos dos ricos e ociosos, e na pior, um obstáculo ao desenvolvimento do povo negro."

Esta rejeição de desporto e entretenimento está bem enraizada na família. As crianças quase não assistem televisão e usam a internet apenas para fazer pesquisas.

Kuti e Ruwenzori mostram-se interessados em demonstrar o que sabem e deram ao inspector uma breve mas detalhada palestra sobre répteis antigos e dinossauros, os seus tamanhos, dietas e os períodos em que viveram.

"A minha ambição é ser paleontólogo, zoólogo, biólogo marinho ou um arqueólogo", disse Kuti, antes de se sair com definições precisas de cada uma dessas opções.

Achamos que temas importantes como a matemática, as ciências e a história negra não são adequadamente investigados, principalmente nos primeiros anos de escola. O sistema de ensino tem muito poucas expectativas das nossas crianças", opina African, depois de explicar que nestes últimos 15 anos o homeschooling cresceu imenso nos Estados Unidos precisamente porque o sistema de ensino público está em crise.

Quanto à falta de interacção social, cooperação e aprendizagem em grupo, Mahakoe diz que os filhos interagem com as crianças e jovens que vêm ter aulas extras e, claro, "têm-se uns aos outros".

O Ministério da Educação está ciente de que a educação domiciliar existe na Jamaica e actualmente não está acompanhando o processo.

O porta-voz do Ministério de Educação disse que na Jamaica não existe nenhuma política em relação ao homeschooling; a política do governo é assegurar que todas as crianças recebam uma educação. Observou também que a Convenção sobre os Direitos da Criança e outras leis relacionadas falam do direito que as crianças têm à educação mas que não há nada contra a educação domiciliar.

"Desde que as crianças não sejam vítimas de abusos e maus tratos e não precisem de cuidados e proteção especiais, o governo deve evitar intervir na vida privada da família. A não ser que as crianças manifestem comportamentos desviantes que possam estar directamente relacionados à sua educação, nós não podemos interferir. Os pais são os responsáveis pelos filhos e o Estado só interfere em casos de negligência e abuso", disse ele.

Embora o ministério não disponha de dados sobre o número de crianças educadas em casa, o porta voz disse que "ficaria surpreendido se houvesse mais de 50 jovens" ao nível do secundário, mas que o número de crianças educadas em casa ao nível da primária é maior, embora se tenha recusado a sugerir uma estimativa.

Mahakoe e African admitem prontamente que a educação domiciliar não é para todos; muitos pais podem não ter condições por causa do empregos, outras responsabilidades e recursos. Mas dizem que o cepticismo inicial dos familiares e vizinhos depressa se transformou em admiração.

"Nós não acreditamos em fazer as coisas de uma maneira normal. Os nossos objectivos têm de ser excepcionais", disse Mahakoe.

Tradução livre e parcial. Original aqui.

2 comentários:

Isabel de Matos disse...

Ainda bem que te lembraste desta "volta ao mundo-ensino doméstico em 80 dias"! :)

Obrigada. Beijinhos
Isabel

Paula disse...

É verdade! Até eu que já ando nisto há uns anos e sempre a pesquisar fico surpreendida ao me aperceber que o ensino doméstico está mesmo em todo o lado.

Tinha a ideia errada que era mais nos EUA e na Europa mas quanto mais pesquiso mais vejo que não. É um fenómeno a nível global! E amanhã vai ser a vez da China!

Beijinhos