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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Aluno universitário descreve sua educação em casa

A educação fora do comum de Alex Dowty

Fui educado em casa dos 8 aos 18 anos. Não fiz o 11º nem o 12º ano e nunca me candidatei a exames mas estou no 3º ano do curso de direito na Universidade de Oxford. Uma das universidades a que me candidatei enviou-me um e-mail dizendo: "Você não preencheu as formas correctamente."

Para quem estuda em casa, fazer os exames do 11º e 12º ano pode ser caro e complicado, especialmente quando o objectivo é fazer vários exames. Cada exame pode custar mais de £100 e as escolas não têm incentivos para ajudar os jovens que não estão matriculados nelas. No entanto, Oxford foi maravilhosa - muito aberta, muito flexivel, aceitou as minhas qualificações da Open University.

Educar em casa nunca foi o plano. Quando eu tinha 8 anos a minha escola fechou durante uma altura desfavorável do ano. Sabendo que tinham de organisar uma alternativa, os meus pais perguntaram-me se eu gostaria de experimentar o ensino doméstico. Eu concordei e gostei desde o princípio. O meu pai é advogado e é ele quem traz o dinheiro para casa. A minha mãe dirige uma organização que protege os direitos das crianças mas trabalhava a partir de casa e tinha muito tempo para nós. Ela tinha dado aulas mas não tinha formação em pedagogia.

A educação domiciliar é muito menos drástica do que as pessoas imaginam. Não ficamos em casa o dia inteiro sem ver ninguém. As outras crianças só estão na escola 6 horas por dia. A única diferença é que durante essas 6 horas não estamos na escola, mas por aqui e acolá - é um estilo de vida muito menos sedentário.

Meus pais deixaram-nos, a mim e ao meu irmão, seguir uma abordagem autónoma. A orientação que nos davam era muito irregular - éramos supervisionados, mas de uma maneira muito informal. Nunca tivemos prazos, exames, trabalhos de casa ou horários; no entanto, não tenho problemas de auto-disciplina. Podia não fazer nada na quarta-feira mas trabalhar sem parar durante o fim de semana. Tive fases em que fazia caminhadas na Snowdonia e fases em que passava 2 semanas lendo sossegadamente num cantinho. No início, passei alguns meses assistindo programas de televisão sem qualidade nenhuma e jogando no computador. Se tivesse continuado, os meus pais teriam agido mas depressa me fartei disso. A minha capacidade de ver televisão tem os seus limites.

A certa altura fiquei fascinado com a Antártica e a minha mãe convenceu-me a investigar com mais profundidade. Ela também nos levava a museus. O currículo nacional só é obrigatório nas escolas e os meus pais certamente não o seguiram, embora me tivessem estimulado a aprender matérias que iria precisar, como francês e matemática. Nós tivemos, por exemplo, um professor de francês que nos deu aulas semanalmente durante muito tempo. Educar é muito mais do que obrigar as crianças a estarem sentadas numa secretária e despejar nelas uma série de coisas. Para os meus pais, educar era observar quais eram as áreas dos meus interesses e depois ajudarem-me a encontrar livros, sites na internet ou museus.

Aprendi que as instituições acadêmicas - a British Antarctic Survey e o Museu da Ciência, por exemplo - estavam sempre dispostas a responder às perguntas de um miúdo de 10 anos. Adorei a liberdade - estou interessado em política e tive a oportunidade de estudar com muito mais profundidade do que o currículo nacional permitiria. As crianças educadas em casa nunca se sentem entediadas porque estão fazendo as coisas que mais lhes despertam o interesse. A minha falta de conhecimentos avançados em física não é algo que me entristeça.

A minha aprendizagem nunca ocorreu em completo isolamento – eu fazia parte de um grupo de 10 ou 15 jovens que se reuniam para fazer experiências científicas e visitas a museus. Estima-se que entre 50.000 e 80.000 crianças britânicas são educadas em casa e há um serviço de apoio, Education Otherwise, que organiza grupos em várias localidades e tem uma linha de aconselhamento. Depois dos 16 anos, para me facilitar a entrada na universidade, passei 2 anos fazendo cursos da Open University, que não exige quaisquer qualificações. Eu tinha escrito para várias universidades, dizendo: "Estas são as minhas qualificações. Vale a pena candidatar-me?" Algumas universidades disseram que não mas Oxford foi entusiástica. Trataram-me como a qualquer outro candidato; fiz um teste de aptidão e ofereceram-me um lugar.

As pessoas que nunca tiveram contacto com o ensino doméstico parecem pensar que não temos competências sociais. Eu nunca tive dificuldades em relação à socialização. Moro numa cidade e fiz vários amigos no meu bairro. Também frequentei uma escola de música onde fiz várias amizades. Socialmente, temos que ser mais activos; não nos servem amigos num prato, por isso a nossa vida social é mais como a dos adultos.

As pessoas ficam surpreendidas se não somos um gênio matemático ou musical, ou julgam que a opção pela educação domiciliar foi motivada pela firme postura política dos pais - que provavelmente serão uns hippies -, mas esse não foi o meu caso. O objectivo dos meus pais nunca foi o de ir contra o sistema. Como já disse, frequentei uma escola Steiner até aos 8 anos, onde nunca fiz testes nem avaliações. Aos 18 anos, o único exame que tinha feito tinha sido o do 5º ano de teoria da música - mas agora não tenho quaisquer dificuldades em passar exames. Em Oxford habituei-me bem depressa a eles porque fazemos exames todos os trimestres. Aqui, temos um tutorial e mandam-nos embora por uma semana para escrever um ensaio. Tirando o tutorial, era assim que a minha educação domiciliar funcionava. Em casa, eu fazia redações porque queria, não por me mandarem.

Há algumas desvantagens em não se ter as qualificações convencionais e algumas universidades, obviamente, não viram a minha candidatura com muito bons olhos, mas tenho muita experiência de trabalho, porque tinha a liberdade de sair e trabalhar. Eu não acho que a educação em casa seja perfeita mas é um modelo válido e eu dei-me muito bem com ele. Tive uma educação muito boa, que me levou a uma boa universidade e que não me causou sofrimento no caminho.

Original aqui.

6 comentários:

Costa disse...

Adorei a clareza com que ele expõe as vantagens de ter sido educado em casa. Mas sinto que a formação dos pais talvez condicione as escolhas dos filhos educados em casa... Obrigada pela tradução.
Dulce

Paula disse...

Olá Dulce,

Concordo que a formação dos pais talvez condicione as escolhas dos filhos, sejam eles educados em casa ou na escola.

Os pais e não só, se calhar somos condicionados por tudo e todos à nossa volta. Eu, por exemplo, se não tivesse morado ao lado de uma professora de piano provavelmente nunca teria ido parar à Escola Superior de Música e a minha vida teria sido totalmente diferente!

É um tema interessante, o que nos leva a fazer as escolhas que fazemos, o que nos leva a dar valor a certas coisas e não a outras, por que somos atraidos por umas coisas e não por outras...

Isabel de Matos disse...

Também adorei a exposição do rapaz. Está muito clara, de facto.
E concordo contigo, Paula, há muitos pais que condicionam as escolhas dos filhos, mesmo quando eles frequentam a escola e outros não e há muitos outros factores que nos levam a determinadas escolhas.
Este tema "dá pano para mangas", podia ser um tema interessante para os nossos bate-papos no Ning... :)
Beijinhos
Isabel

Paula disse...

Que boa ideia, é realmente um bom tema para um bate papo!

*Lisa_B* disse...

Amiga,
que bom irem aparecendo estas revelações.
Lamento sempre não nos deixarem dar a educação aos nossos filhos desde que estejamos aptos e capazes mas enfim...hoje sinto que o Estado nos rouba os filhos e se dizemos algo contra ou não dizemos "sim" a tudo somos ameaçados.
Alguém disse que TODOS nascemos livres e iguais?......
Beijinhos bom fim-de-semana

Paula disse...

Lisa_B,

Não estás sozinha. É uma tristeza ver tantas famílias sofrendo devido a abusos de poder. Aqui no Reino Unido é a mesma coisa - o Estado é culpado de sequestrar as crianças?

O que dizes é verdade. Às vezes basta não concordar e/ou não consentir para corrermos o risco de sentir na pele a força bruta deste sistema-bully.