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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Educação domiciliar: Perguntas e Respostas

Estas foram as minhas respostas às perguntas de uma estudante do curso de Pedagogia. Resolvi publicá-las aqui pensando que talvez possam ser úteis a mais alguém...

Como é que este movimento se iniciou?


Esse movimento sempre existiu. A escolarização em massa é que é um fenómeno recente - 150 anos na história da humanidade é um abrir e fechar de olhos. Este artigo fala um pouco sobre este tema.
Antes da criação da escolaridade obrigatória e subsequente criação de instituições públicas de ensino, a maioria da educação em todo o mundo decorria no seio da família ou comunidade, e apenas uma pequena proporção da população se deslocava a escolas ou empregava tutores.

[Em Portugal,] por exemplo, no ano de 1900, já após a Reforma de João Franco e Jaime Moniz (Decretos de 22/12/1894 e 14/8/1895), o "ensino liceal" português contava ainda 247 dos 4606 alunos (5%) em ensino doméstico.

Em relação ao Brasil, estas 2 páginas mostram o número de pessoas matriculadas no ensino doméstico entre 1933 e 1944.

Quais os verdadeiros objectivos da educação em casa?


Isso depende de cada família, mas diria que comum a todas elas está a convicção da importância da liberdade de educação e de que "aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos." (artigo 26° da Declaração Universal dos Direitos Humanos).

Há várias abordagens ao ensino doméstico, desde a "escola em casa" ao unschooling passando pelo eclético. Cada família tem a sua filosofia de educação.

Falando em termos gerais, os educadores domésticos dividem-se em três grandes grupos: os que são motivados por razões religiosas e morais, os que têm razões filosóficas ou pedagógicas e os que optam pelo ensino doméstico devido aos problemas que os filhos experienciaram na escola, tanto a nível académico como social ( van Galen & Pitman, 1991; Thomas, 1998).

As motivações são muitas: várias famílias acreditam que os filhos podem adquirir uma educação de muito maior qualidade em casa do que na escola. Outras viram-se para o ensino doméstico ao verem os filhos sendo destruidos pela escola e agressividade do meio social escolar devido a uma série de problemas como o bullying / violência escolar, a resultante fobia escolar, escolas sem capacidade de lidar com as suas necessidades educativas especiais, alunos dotados passando o tempo entediados na escola, etc. Enfim, as razões são inúmeras...

Há famílias que querem colocar a ênfase no desenvolvimento moral e ético dos filhos, outras que trabalham no estrangeiro em países onde a qualidade de ensino é fraca, e assim por diante. As razões que levam os pais a optar pelo ensino doméstico são tantas quantas as famílias. Embora às vezes as pessoas pensem que a educação domiciliar seja apenas para cristãos evangélicos, essa não é a realidade.

Estão fundamentados em quê?

Depende da filosofia de educação e do método que seguem. Para os unschoolers, por exemplo, a inspiração vem do trabalho de John Holt, Ivan Illich, Raimond e Dorothy Moore.

Os métodos usados pelas famílias revelam seus fundamentos. Esses métodos incluem, entre outros, "escola em casa", educação clássica (trivium e quadrivium), o método Montessori, método de Charlotte Mason, método Waldorf, unschooling, eclético, ensino à distância, etc, etc.

Como é que os pais que não têm um bom nível de instrução podem aderir a essa modalidade educativa?

Como dizia Ivan Illich
, somos frequentemente “escolarizados” a confundir ensino com aprendizagem, progresso nos níveis com educação, e diplomas com competência. Há pessoas sem instrução formal que têm muito mais conhecimentos do que pessoas com cursos superiores. Não há melhor escola que a vida.

Já várias pesquisas demonstraram que, ao contrário do que se passa no sistema de ensino tradicional, no âmbito da educação domiciliar o nível de instrução dos pais não afecta os resultados académicos dos filhos. Traduzi algumas pesquisas neste blogue...

Futuramente essas crianças não se sentirão segregadas? Diferentes?

Geralmente tornam-se adultos capazes de trabalho independente, de espírito crítico e com capacidade de inovação. Pessoas com capacidade de liderança e que trabalham por vocação, capazes de criar - e não apenas encaixar - no mundo em que vivem.

Há um livro interessante que entrevista mais de vinte adultos educados em casa nas décadas de 1970 e 80, quando o movimento do ensino doméstico ainda era pequeno e pouco conhecido no Reino Unido: Those unschooled minds - Home-educated Children Grow Up, por Julie Webb, demonstra que as crianças educadas em casa tornam-se adultos bem ajustados, flexiveis, interessados na educação contínua e capazes de desempenhar uma vasta gama de papéis no mundo do trabalho. Kate Cayley é um exemplo - visualizar aqui.

Há muita informação na internet. Podem visualizar, por exemplo, o National Home Education Research Institute.

Como poderei contactar com famílias que praticam o ensino doméstico?

Associem-se a estes 2 grupos

http://ensinodomestico.ning.com/

http://groups.yahoo.com/group/ensinodomestico/

Na barra direita deste blogue também encontrarão uma lista de blogues em português sobre o ensino doméstico / educação domiciliar.

9 comentários:

Claudio Oliver disse...

Adorei seu Blog. Você está aonde? Em portugal ou na INglaterra?
Integro o movimento de Educação Domiciliar no Brasil e ante-ontem fui um dos palestrantes em uma audiência pública no Parlamento Brasileiro sobre esse tema. me interessaria muito conhecer mais sobre você. E escrevi minha tese sobre a relação da amizade na formação humana baseado em um triálogo crítico entre Ivan Illich, Leo Tolstoy e Freire. Se interessar, te envio.

Paula disse...

Olá Cláudio. Obrigado pela visita e pelo comentário. Nós estamos na Inglaterra mas acompanhando o desabrochar deste movimento em Portugal e no Brasil, pelo menos tanto quanto possivel...

As coincidências são interessantes pois neste preciso momento várias pessoas estão dando feedback ao parlamento britânico sobre a educação domiciliar.

Aqui está um dos documentos enviados ao parlamento britânico por famílias que educam os filhos em casa no Reino Unido.

Adorava ler a tua tese e saber o que se passou durante a audiência pública no Parlamento Brasileiro.

Claudio Oliver disse...

Oi Paula
Obrigado pelo link. Te mando um email com o resumo do que aconteceu no congresso e minha fala inicial lá. Posso mandar minha tese também. Me mande instruções sobre como te enviar isso.

Paula disse...

Obrigado Cláudio, já recebi!

Isabel de Matos disse...

Obrigada Paula por partilhares as respostas que deste e por teres colaborado com a estudante de pedagogia!

Beijinhos
Isabel

Paula disse...

Olá Isabel!

Pensei em colocar, mas depois não coloquei porque não queria dar-vos "trabalho", um parágrafo extra neste post do tipo:

"Isabel, Ana, Lídia, etc (o grupo de mães e pais que já faz a educação domiciliar), que respostas teriam dado? Será que me esqueci de algum ponto importante?" - Enfim, um convite para adicionarem os vossos pensamentos...

Que achas da ideia de começarmos a fazer um Carnaval de Blogs do ED, em português? Talvez um post por mês ou coisa assim...

Isabel de Matos disse...

Acho uma muito boa ideia... se organizares eu participo ! :)

Beijinhos
Isabel

411Turma2007 disse...

Olá Paula! Estava procurando me interar sobre esse assunto quando encontrei este blog! Meu nome é Giselle, sou estudante de pedagogia e vou iniciar um estudo sobre o Ensino domiciliar para a minha monografia... Gostaria muito de entrar em contato com você para saber mais informações!

Obrigada!
Abraço

simone disse...

Olá Paula, tenho muito interesse em educação domiciliar. Como posso conseguir autorização aqui no Brasil ara ensinar meus filhos em casa?