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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Ensino doméstico nos E.U.A.

Nos Estados Unidos, dois milhões de crianças não frequentam a escola; em vez disso, aprendem em casa e são educadas pelos pais. É o homeschooling, um fenômeno em forte crescimento. A educação domiciliar não é praticada apenas por agricultores que vivem em áreas remotas ou por cristãos evangélicos que desconfiam dos programas governamentais - está se tornando cada vez mais popular com a classe média urbana.

Se é verdade que o conhecimento nos traz a liberdade, a verdadeira liberdade só existe quando somos livres de escolher o que queremos aprender. De facto, a experiência diz-nos que o conhecimento adquirido sob compulsão depressa é esquecido. Mas será possível libertarmo-nos do aspecto coercitivo do saber? Para muitos americanos, o mero conceito de escolaridade obrigatória é visto como uma ameaça às liberdades individuais garantidas pela constituição: na “terra da liberdade” o direito à autodeterminação é parte da psique nacional.

Foi precisamente nos Estados Unidos, na década de sessenta, que nasceu o movimento da educação domiciliar, onde a instrução é dada em família e não em escolas, e que é agora um fenómeno social com mais de dois milhões de estudantes e com uma taxa de crescimento anual entre os 7 e os 15%.

Historicamente, nos Estados Unidos e no resto do mundo, sempre houve crianças educadas em casa: os ricos aprendiam com tutores, muitos aprendiam com uma professora contratada por um grupo de vizinhos, e a maioria sob a orientação dos pais (os comerciantes ensinavam matemática e assim por diante).

O ensino obrigatório foi aprovado em Massachusetts em 1852, em plena revolução industrial, para acabar com a exploração das crianças, mas a prática de educar os filhos em casa nunca desapareceu: em zonas como o Alasca, em que as famílias moram longe dos centros urbanos, o ensino doméstico tem sido, desde sempre, a única opção disponível.

No entanto, não há dúvida que a curva dos adeptos do ensino doméstico se acentuou imenso nos anos sessenta e setenta, após a publicação de várias obras sobre pedagogia centradas nos aspectos negativos do ensino compulsório e da agressividade na dinâmica social do ambiente escolar.

Entre os vários autores da época, John Holt continua a ser considerado como o maior defensor da liberdade no campo da educação e do autodidatismo. Segundo este ex-professor, as crianças que frequentam a escola não aprendem porque o medo as paralisa (medo de dar a resposta errada, de ser atacado pelos colegas e/ou professores, etc). Holt argumentou que a curiosidade é sufocada quando tentamos controlá-la e que “a aprendizagem não resulta do ensino, a aprendizagem resulta da actividade dos alunos. " Milhares de famílias seguiram o seu conselho: retiraram os filhos da escola e dedicaram-se ao unschooling, um método em que os jovens tomam responsabilidade pela sua educação, em que o mundo e a vida é a sala de aulas e, acima de tudo, onde as crianças/jovens decidem o que aprender, quando aprendem e como aprendem, sob uma supervisão que é o mais discreta possível.

Durante os anos oitenta deu-se uma reviravolta quando as escolas "cristãs" (na sua maioria pertencentes à corrente evangélica) viram os seus subsídios desaparecer. Centenas de instituições religiosas fecharam as portas e grande parte da população resistente à educação secular (que inclui a teoria da evolução e a educação sexual) optou pela “escola em casa”. Quem fez essa escolha por razões de fé tende, ao contrário dos unschoolers, a instaurar um regime semelhante à escola, com horários, disciplinas, testes e avaliações: a diferença está apenas na orientação do conteúdo.

No entanto, como afirmou Brian Ray, presidente da National Home Education Research Institute, "muitas pessoas pensam que o homeschooling é para fundamentalistas que andam sempre agarrados à Bíblia ou para libertários do tipo 'vamos para o campo pastar cabras' com sandálias nos pés. Em vez disso há de tudo, desde cristãos que vivem no campo e fazem criação de cabras a libertários que crêem que eles, e não o Estado, devem doutrinar os filhos. Os estereótipos são falsos, mesmo que contenham alguma "verdade".

Entre estes dois extremos existe de facto uma grande parte da população que não está satisfeita com as escolas públicas e privadas e que chegou à conclusão que o ensino doméstico é a melhor opção para os filhos, muitas vezes superdotados. Cada família escolhe a abordagem que mais lhe agrada: o mercado de currículos pré-embalados (com montes de cadernos, lápis e fichas de avaliação) está mais próspero do que nunca, mas muitos pais combinam livros didáticos para as disciplinas consideradas principais com livros produzidos em casa pelos filhos sobre temas que lhes despertam o interesse, desde a história da música à classificação de todas as plantas da zona em que moram.

Quanto à socialização, eles são rápidos a defender a educação domiciliar: as famílias que praticam o ensino doméstico estão conectadas umas às outras através de incontáveis redes sociais, boletins, reuniões, excursões, etc. Muitas têm blogues onde oferecem ou pedem ajuda prática ("sabem onde poderei encontrar olhos de vaca para a minha filha, que quer ser veterinária quando crescer, dissecar numa experiência de anatomia?"), camaradagem (anedotas do tipo quantos educadores-domésticos são precisos para mudar uma lâmpada? Consulte a página anterior") ou para apoio moral ( "acham que deveria fazê-lo estudar trigonometria em vez de deixá-lo fazer origami o dia todo?"). E porque não defenderiam a aprendizagem em família? Afinal, estão a par das estatísticas que comprovam que 80% das crianças educadas em casa estão acima da média obtida pelas que frequentam a escola.

De acordo com as projecções actuais, 2% da população de idade escolar nos E.U.A. é educada em casa, e a tendência é para aumentar. Helen Hegener, fundadora da Home Education Magazine, revista de referência a nivel internacional, lembra àqueles que pretendem empecilhar o movimento com decretos-lei e regulamentos intrusivos que cada homeschooler é legalmente inocente até prova em contrário", e que não têm que dar satisfações a ninguém.

Original aqui. Tradução livre e parcial.

3 comentários:

*Lisa_B* disse...

Saber classificar a informação e matérias que os nossos filhos necessitam saber em cada familia consoante o futuro que pensamos poder conseguir para eles e proporcionarmos isso é muito bom...queria eu que me tivessem dado essa chance mas penso que a mim tudo foi vetado e ao meu filho evidente.
Cheguei hoje mais que arrasada do tribunal.
Como a obrigatoriedade escolar já terminou pela idade que ele tem, pegam pela única parte que podem "negligência na prestação de cuidados adequados de saúde" mas que é falsa e mentem na minha cara.MPublico e tribunal a mentir isto é demais para alguém aguentar.
Os advogados que eu tinha a aconselharem-me no outro processo, um foi assassinado há dias e outra agora é deputada.
Amanhã vou tentar descobrir outro bom advogado de garra e desejar que nada lhe suceda para não ter de andar a contar esta historia vezes sem fim.
Estou de rastos.
Ter consultado e seguido com o meu filho os melhores especialistas de Portugal e ser acusada de "negligência".Portugal vai muito mal...muito mal.
Desculpa o desabafo :-(
Beijinhos

Paula disse...

Lisa_B,

Nem sei o que dizer, fico sem palavras ao ler o que se está a passar com vocês.

Aqui também há casos desses, em que os "profissionais" e "especialistas" unem forças e atacam as famílias que deveriam proteger. Em vez disso protegem-se uns aos outros.

Leandro Matias Deon disse...

A Miss America 2011, Teresa Scanlan, é uma homeschooler.
Trata-se de uma grande vitória desse sistema de ensino.