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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Testemunho de uma adolescente educada em casa

Este testemunho deve ser lido no contexto da actual tentativa por parte do governo britânico de mudar a lei no sentido de limitar a autonomia do ensino doméstico usando toda uma série de pretextos disputados pela grande maioria das famílias que praticam a educação domiciliar no Reino Unido. Aqui vai:

Olá, eu sou a Mirna, tenho 14 anos e aprendo em casa. A minha mãe é tradutora e o meu pai é quem fica em casa tomando conta de nós. Quando eu tinha 7 anos viémos viver para a Inglaterra porque na Holanda é muito difícil educar os filhos em casa.

A escola nunca foi a opção certa para mim. Para o meu irmão mais velho, que tem a síndrome de Asperger, era uma opção ainda pior. Devido a essa forma ligeira de autismo, ele era ignorado ou ameaçado pelos outros alunos e tornou-se o bode expiatório dos professores, que nunca tentaram conhecê-lo nem compreendê-lo. A minha mãe retirou-nos da escola principalmente por essa razão.

Continuámos a viver na Holanda durante uns tempos mas a nossa situação tornou-se difícil. A maior parte das pessoas não concordava com a nossa opção e assim resolvemos vir viver para a Inglaterra, a terra natal do meu pai.

Nos 5 anos que morámos em Penton a minha irmã mais velha começou a trabalhar num hotel aqui perto. Eu e o meu irmão praticámos tiro com arco. O meu irmão praticou judo e juntou-se aos cadetes. Eu comecei a ter aulas de música e a fazer teatro. Através destas actividades e das reuniões semanais das famílias que educam os filhos em casa conhecemos um monte de pessoas incríveis - algumas delas tornaram-se os meus melhores amigos - e através delas vim a conhecer ainda mais pessoas, todas elas maravilhosas.

Depois, há 2 anos, fomos viver para Carlisle, mais perto dos nossos amigos e de várias actividades, e mais fácil para a minha irmã arranjar um bom emprego. Ela já acabou a faculdade e agora trabalha para a Mencap e já tem casa própria.

O meu irmão está estudando Jujitsu com o meu pai. Passou os exames do 11ºano com muito boas notas (com a ajuda de explicações de ciência, biologia e matemática) e vai-se juntar ao exército. Eu já canto (música clássica) há 5 anos e estou a preparar-me para fazer o exame de canto (grau 7) e de educação musical (5º ano). Além disso, também toco flauta e violão. Cantei num casamento e sou frequentemente convidada para cantar em concertos. Os meus dias são passados com aulas de música, canto coral, arte, convivendo com amigos e o meu namorado. Quero começar a estudar japonês e fazer jiujítsu com o meu pai e o meu irmão, e também quero fazer os exames do 11ºano quando me sentir preparada.

Como vêem, somos uma família normalíssima. Não podia ter desejado melhor família, amigos e namorado. Claro que também temos períodos difíceis e que eu também tive experiências desagradáveis na vida, mas quem é que não as tem? A vida não pode ser vivida sem arrependimentos, só quem é muito ignorante e arrogante é que poderia dizer que nunca se arrependeu de nada.

Portanto, ó funcionários públicos, antes de virem para aqui, com os vossos preconceitos sobre a aprendizagem autónoma, invadir a privacidade das pessoas nas suas casas, interrogar as crianças para saber se elas querem realmente ser educadas em casa, por que não pensam nos motivos que vos levam a fazer isso? Porque não vão para as escolas perguntar aos miúdos se eles querem realmente lá estar? Eu tenho montes de amigos que frequentam a escola e não me dizem nada de positivo sobre o ambiente escolar. O que eu ouço sobre a escola é que os professores não têm gosto pelo que fazem, os alunos estão cheios de tédio, não aprendem nada e tornam-se rebeldes e agressivos, agredindo e estereotipando os outros, dividindo-se em grupos fechados a todos que não adoptam as suas maneiras.

E isso tem um efeito no modo como se comportam fora da escola. Alguns dos meus amigos são vistos como "emos" ou "goths" e por causa disso são insultados e agredidos - apenas por se vestirem de certa maneira e gostarem de certo tipo de música. Às vezes até eu sou agredida por ser cantora clássica.

E é isso que o governo está fazendo em relação aos educadores-domésticos, fazendo deles o bode expiatório, tratando-os como se houvesse algo de errado com eles, apenas por terem decidido educar os filhos fora da escola, e apesar dessa decisão ter sido tomada devido à violência escolar que os filhos sofreram na escola, como no caso do meu irmão. E, assim, somos tratados de forma diferente e... muito mal. O governo está esteriotipando as famílias que optam pelo ensino doméstico porque têm o poder; em vez de usarem o poder que têm para intimidar as famílias que se dedicam à educação dos filhos poderiam usá-lo para coisas muito mais construtivas, como ajudar os sem-abrigo, os doentes e as crianças que estão sendo realmente maltratadas?

Nós continuaremos a lutar pelos nossos direitos, como qualquer outra pessoa faria. Lutaremos para manter as coisas como estão. Não há necessidade de mudar a lei porque já existem leis que protegem aqueles que realmente precisam de protecção. E vamos proteger as leis que protegem o nosso direito de aprender em casa e de aprender de forma autónoma.

Governo, gastem o vosso dinheiro em coisas que que mudam as coisas para o melhor, em coisas construtivas, em vez de destrutivas.

Tradução livre e parcial. Original aqui.

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