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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Transformando a aprendizagem em estilo de vida

Os argumentos a favor do ensino domiciliar III

Os argumentos das crianças e jovens educados em casa:

A educação em casa não separa a aprendizagem da vida mas transforma-a num estilo de vida

Kerrin, 17 anos, de Hampshire
A vida é uma sala de aulas e aprender é muito mais do que livros e exames. Uma educação personalizada, relevante e contextualizada é algo que é realmente muito precioso.

Andy, 23 anos, residente na Nova Zelândia
Agora vejo que “escola em casa” é a expressão errada. A educação em casa tem a ver com a remoção da “mentalidade de escola” das nossas mentes e com o abraçar da educação como um simples aspecto da vida, integrando-a na maior parte dos aspectos da nossa vida - sem a necessidade de especificar que horas do dia estão reservadas para a "aprendizagem".

Jazmin, 15 anos, Oxfordshire
Eu adoro ser educada em casa e quero que todos compreendam como é que o unschooling funciona para que possam ver as suas vantagens e compreender como é que a interferência por parte do Estado só levaria a mudanças intrusivas e desnecessárias do nosso estilo de vida.

Chloe, 16, de West Sussex
Sou educada em casa mas este não foi sempre o caso; eu comecei a frequentar a escola aos 4 anos, como a maioria das outras crianças. Contudo, os meus pais retiraram-me de lá um pouco antes do meu 9º aniversário - eu estava muito estressada, ficando muito reclusa e dormindo mal, e os meus pais decidiram experimentar o ensino doméstico.

Para mim, aprender em casa era como se fosse um sonho maravilhoso, cheio de jogos, amigos de verdade de todas as idades que não me batiam nem gozavam comigo, e coisas diferentes para fazer todos os dias.

Eu fazia trabalhos formais - talvez 1 ou 2 horas, de manhã, quando a minha mãe pacientemente me ensinava geografia e matemática. E às vezes também aprendia com o meu pai à noite, embora de uma maneira menos formal: aconchegados no sofá, conversávamos sobre ciência e o sentido da vida.

O resto do tempo era passado lendo livros no meu quarto, ajudando a minha mãe na cozinha, apanhando bichinhos no jardim, convivendo com amigos de todas as idades e backgrounds, trepando árvores, participando nos eventos organizados pelo nosso grupo do ensino doméstico, frequentando clubes (ginástica, danças folclóricas, etc), e fazendo uma série de outras actividades. Posso sinceramente dizer que não passei um momento de tédio!

Porém, depressa voltei para a escola, a tempo parcial, para fazer o último ano da primária. Os meus pais acharam que não me podiam ensinar a nível do secundário e queriam facilitar o processo do regresso à educação institucional.

Fui falar com o director de uma escola perto da nossa casa e chegámos a um acordo em relação aos termos da minha presença - eu iria à escola 3 dias por semana, ajudaria a turma da pré-primária uma vez por semana, só faria os trabalhos de casa que achasse interessantes e usaria o uniforme da escola com a minha bandana (a que estava muito apegada naquela época).

Lembro-me do receio que senti ao pensar que se calhar não iria estar ao nível das outras crianças, pelo menos nas áreas em que não tinha estudado muito. Essas preocupações eram infundadas: eu estava no topo da classe em tudo! Pela primeira vez, também fiz algumas amizades através da escola, embora fossem muito mais inconstantes do que as amizades entre os jovens educados em casa, e um pouco previsíveis por serem todos da mesma idade...

Nos dias em que não ía à escola a minha vida manteve-se inalterada, com o mesmo fluxo de trabalho e lazer. No final do ano fiz os exames e passei com óptimas notas. Ganhei uma bolsa de estudos para uma pequena escola privada só para meninas. Escolhi essa escola porque as turmas eram pequenas - 12 alunas em cada classe.

Assim, comecei a frequentar a escola em tempo integral. Não funcionou. A classe inteira era estritamente cristã e muito mais rica do que eu. Quase todas as meninas já tinham seus grupos de amigos bem estabelecidos e embora inicialmente não tivesse sido vítima de violência escolar não me consegui relacionar com nenhuma das minhas colegas, e as meninas no ano seguinte não queriam ser vistas com meninas mais novas que elas.

Quanto ao ensino, não estava adequado ao meu calibre, nem podia estar - de todas as minhas colegas, só 2 não tinham necessidades especiais, e 3 tinham dificuldades de aprendizagem graves. Tive de suportar lições de uma simplicidade que só me entorpecia a mente: o trabalho era fácil mas, se acabasse depressa só me davam mais trabalhos do mesmo tipo. Aprendi a trabalhar devagar e a manter a minha cabeça baixa, mas não estava feliz.

No final do ano os meus pais deixaram-me pedir a transferência para uma escola diferente e no início do 8º ano entrei para uma escola secundária normal - uma escola grande para raparigas perto de um dos bairros sociais da cidade.

Foi outro desastre. Não reconheceram a minha capacidade e colocaram-me inicialmente num grupo muito fraco. Depois, com grande firmeza, ignoraram as minhas queixas sobre a violência escolar de que era vítima. Eu andava cheia de tédio, mesmo quando me mudaram para o grupo mais avançado, e não tinha amigas porque não estava interessada nas mesmas coisas que as minhas colegas, e elas não gostavam de mim porque eu não encaixava. Depois do 2º período fiquei doente devido ao estresse e a escola ainda não tinha feito nada para acabar com o bullying. Relutantes, os meus pais, uma vez mais, retiraram-me da escola.

Levei cerca de 6 meses a recuperar dessa experiência, a aprender que podia confiar nos outros e a recuperar o amor à aprendizagem. Depois decidi estudar para o exame de ciências do 11º ano e acabei fazendo o de matemática também porque por engano o meu pai inscreveu-me em ambos. Tendo estudado por menos de um ano, fiz os exames numa escola aqui perto e tive notas óptimas nos dois.

Depois decidi começar a estudar física e matemática do 12º ano. Fiz os exames 2 anos mais cedo do que o normal. Ah, e também fiz latim do 11º ano. Paralelo a tudo isso fiz outros estudos menos estruturados, aprendi alemão com uma amiga da nossa família e fui a vários eventos organisados pelo nosso grupo do ensino doméstico. O ritmo da vida era fácil, o espírito era inquisitivo e sociável.

Agora que terminei os exames com excelentes resultados podia continuar a fazer outras disciplinas do 12º ano mas duvido - estou mais interessada nos cursos de curta duração oferecidos pela Universidade Aberta. Além disso, agora tenho dois empregos – ensinando matemática e inglês, e pesquisando para um livro. E também ando muito ocupada com o meu trabalho como presidente do Home Educated Youth Council, com o movimento cidades em transição e com o curso de taquigrafia.

Adicionem a isso os meus estudos não-progressivos - eu escrevo, toco piano, desenho, faço jóias, cozinho, etc. -, os meus amigos (espalhados por todo o país mas ainda visitados regularmente) e todos os projectos para o futuro - experiência de trabalho em duas fazendas leiteiras, um curso de açougue, aprender alfaiataria e a trabalhar o couro, escrever um romance, fundar a minha própria escola e aprender carpintaria - e torna-se óbvio que realmente não tenho tempo para seguir a rota mais tradicional ou planejar o que fazer a seguir.

A minha educação pode não ser a do currículo nacional, mas isso não parece estar a prejudicar as minhas perspectivas. E não tenho que me submeter àquele tédio entorpecedor que experimentei na escola. Tenho interesses demais para seguir um caminho pré-definido e adoro ter uma interacção social variada.

Assim, para mim, a educação em casa é ideal. Permite-me adquirir uma educação excelente apesar da minha vasta gama de interesses. E as qualificações que não tenho? Bem, eu confio que o meu comportamento irá demonstrar a minha competência, e deixarei que as pessoas me julguem pelo que sou e não pelos papéis que acumulei.

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