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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O ensino domiciliar na casa moral

Introdução aqui.

À medida em que o século 19 foi avançando, o Reino Unido, líder mundial do poder industrial e imperial, foi-se tornando cada vez mais urbano, industrializado, densamente populado e poluido. Mas o lar permanecia o centro moral, o infantário da próxima geração de cidadãos, e a educação em casa não era para brincadeiras.

A educação, para todos nós, começa em casa mas até ao final do século 19 a casa era a única sala de aulas para a maior parte das crianças, especialmente se fossem raparigas.

"A história da educação limita-se à história do triunfo da escola e tende a ignorar o treinamento básico e informal que as raparigas podiam obter em casa."


Mas será que a aprendizagem doméstica era fraca e superficial? Será que era inferior à escolaridade formal, como muitos parecem pensar?

As mães foram, desde sempre, as primeiras e as melhores instrutoras dos filhos. Rapazes, assim como raparigas, aprendiam ao colo de suas mães, embora os rapazes escapassem o poder pedagógico delas por volta dos 7 anos, quando muitos íam para escolas residenciais. Era suposto que a escola os iria transformar em homens. Mas para as raparigas, as escolas eram muito mal vistas, consideradas um meio repleto de artíficios e vícios.

"A virtude feminina é uma planta demasiado delicada e não devemos arriscar a expô-las a esse método destrutivo. A mãe é, por natureza, a única governanta. Como as raparigas estão destinadas a uma vida doméstica e privada, a sua educação deve corresponder ao seu destino."

Este tipo de comentário levou à ideia errada de que a educação em casa era descuidada, superficial e inadequada. Mas o que é que o ensino doméstico realmente envolvia?

Os escritos pessoais de várias mulheres demonstram que o ensino domiciliar era altamente regulamentado e sistemático, e que a aprendizagem era muitas vezes uma disciplina auto-imposta. No século 18 esta tradição já estava fortemente embutida.

Lady Mary Montague estudava latim na biblioteca de seu pai às vezes durante 8 horas por dia e Jane Austin, aos 11 anos, depois de um ano e meio numa escola, regressou a casa para adquirir uma educação clássica e informal.

Jane Austin era excepcional, claro, mas todas as raparigas podiam receber uma educação sistemática em casa.

Na biblioteca de Lancastershire foram encontrados os diários de uma jovem, que revelam perspectiva das próprias crianças, mais dificil de encontrar.

Maria, filha de um comerciante quacre, foi educada em casa com sua irmã na década de 1770. Tinham aulas 6 dias por semana: metade do tempo era passado em aulas e o resto em tarefas e na brincadeira. Aos 10 anos Maria começou a aprender história, geografia, biologia, lógica, e aritmética. Lia também textos romanos traduzidos.

"Estamos a ler a biografia de Cáio Mário. Oh, que nobre general ele foi, e com que nobreza enfrentou os problemas que surgiam durante as suas campanhas."


Maria parece ter sido uma menina muito dócil e fácil de ensinar. Mas escrever o diário era, em si, um exercício educacional dado pela tia, que o lia regularmente. Por isso Maria tinha que prestar atenção à ortografia até no seu diário privado!

Algumas mulheres dedicavam-se à instrução dos filhos com admirável diligência e competência profissional.

Ana era esposa de um funcionário público. Em Londres, ela tinha a seu cargo o enteado Simão e 2 filhos mais novos, João e Jorge. Através dos seus diários, escritos a partir de 1790, descobertos numa biblioteca da Califórnia, ficamos a conhecê-la.

Nessa altura Ana tinha 34 anos e os filhos 14, 7 e 4. Ela considerava um dever, e até um prazer, educar os filhos como cristãos na tradição clássica mas estava aberta à aprendizagem moderna.

Antes de terem ido para a escola eles receberam lições diárias de sua mãe mas mesmo depois de terem ido para a escola eles continuaram a aprender em casa nas férias durante a adolescência.

"Segunda feira, 27 de Fevereiro de 1790. Rosa, como era de esperar, fez alguns trabalhos domésticos, tomou o pequeno almoço e ensinou João e Jorge, fazendo com que eles lessem, repetissem estórias das escrituras e as memorizassem.

Geografia: ir buscar o mapa da Inglaterra; aprender as cidades, distritos, produtos, etc. Em conversa, João repete o trabalho de gramática inglesa e latina.

Terça feira, 5 de Janeiro de 1790 (durante as férias): Passei 2 horas a ler sobre a história da França e li um livro de Shakespeare mas o Simão não entendeu o humor, bocejou e foi-se embora."


Jorge respondia melhor à educação. A 1ª descrição que temos é a de Ana ouvindo-o ler aos 4 anos. Dois anos depois:

"Quinta feira, 19 de Janeiro de 1792: Ensinei Jorge a ler e escrever e um pouco de Latim. João leu sobre os israelitas , o êxodo do Egipto, travessia do mar vermelho, etc. Depois foram buscar o mapa da Ásia e nele traçaram a rota dos israelitas, os vários países que atravessaram, o Egipto, o mar vermelho, etc. Para a alegria das crianças a aula durou 1 hora! Temos de saber tanto p
ara ensinar os outros!"

Nesse verão, Ana ensinou multiplicação e a história da Inglaterra. Em 1793, com 7 anos, Jorge foi para uma escola em Surrey mas Ana continuou a dar aulas diárias durante o Verão: ortografia, gramática, latim e vocabulário francês.

Aos 11 anos os conhecimentos do filho ultrapassaram os da mãe mas ela persistiu:

"26 de Julho 1797. Instruí Jorge da seguinte maneira: primeiro, ouvi os verbos em grego, depois traduziu 4 frases do inglês para o latim. Agora, eu não entendo nem grego nem latim mas consigo, devido ao hábito e por observação e reflexão, reconhecer os caracteres do primeiro. Ele precisa manter-se ocupado. Averiguar exercícios em línguas que não compreendemos é devoção para além do dever!

Ana também usou a ideia do Iluminismo da aprendizagem através de conversas.

"Terça feira, 30 de Outubro de 1792. Buscar o mapa da Europa, encontrar o nome dos locais. Todo o tempo foi ocupado com conversas sobre o mapa em geral, talvez mais produtivamente do que com a nossa rotina usual."

Embora mencionadas no diário cada vez menos, as lições de Jorge continuaram durante anos, até que finalmente, em 1804, elas terminaram. Jorge tinha agora 18 anos e entrou no mundo dos negócios. Foi lançado numa gloriosa carreira como futuro político e baronete.

Os diários são uma prova da fantástica educação holística que Ana tentou dar aos filhos. Em casa, ensinou-lhes gramática, línguas, os clássicos, história, ciências, matemática. Além disso, ajudou-os a desenvolver a sensibilidade artística e a devoção cristã. Passava pelo menos 3 horas por dia cumprindo seu dever pedagógico. Lia e analisava todas as últimas teorias educacionais, estruturava planos de aulas, lia o que as crianças iriam ler, tomava apontamentos detalhados do progresso dos filhos e dos métodos de maior sucesso. Enfim, orientava todos os aspectos da aprendizagem em casa.

Não há como fugir ao facto de que a inspiração por trás da educação domiciliar para raparigas era conservadora. As escolas tinham a função de produzir cidadãos activos, masculinos, capazes de participar no debate público, em instituições, no comércio, no governo e no império, enquanto que o ensino doméstico era mais pacífico, preparando para um destino arrecadado, centrado na família e nas crianças.

Mas, na prática, o ensino domiciliar podia ser incrivelmente impressionante. Liberto da aprendizagem do tipo repetição-memorização e do restrito currículo clássico da escola, a educação em casa podia ser muito mais abrangente em matérias, métodos imaginativos e alegre em espírito. Não era necessariamente inferior a nível intelectual, especialmente com professoras como a formidável Ana para manter os meninos na linha!

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