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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Pesquisa sobre o ensino domiciliar

Os argumentos a favor do ensino domiciliar IV

Os argumentos dos acadêmicos: Conclusão (1ª parte aqui)

Pesquisa sobre o ensino domiciliar no Reino Unido

Pesquisas acadêmicas e independentes, baseadas no Reino Unido, foram realizadas por Blacker (1981), Webb (1990, 1999); Lowden (1993), Paterson (1995), Brunton (1996), Bates (1996), Page (1997), Thomas (1998 ), Petrie, Windrass, e Thomas (1999), Taylor e Petrie (2000) Rothermel (2002), Arora (2002), Gabb (2004), Kendall e Atkinson (2006), Hopwood, O'Neill, Castro e Hodgson ( 2007), Thomas e Pattison (2008), Yusof (2009) Eddis (2009) e Barson (2009).

Thomas (1997, 1998) descreveu um estudo sobre os processos de aprendizagem informal das crianças. A pesquisa utilizou a educação em casa como o veículo sobre o qual basear teorias da aprendizagem informal das crianças que obviamente não poderiam ser tão bem testadas em alunos das escolas. Thomas desafiou a ideia de que as crianças em idade escolar, para aprender, precisam de ser ensinadas. Foram realizadas uma centena de entrevistas com home educators (pais que educam os filhos em casa) da Austrália e do Reino Unido nas quais os pais descreveram como ensinavam os filhos e como estes aprendiam.

Thomas descobriu que com o passar do tempo a maior parte das famílias que praticam o ensino domiciliar começava a adoptar padrões de aprendizagem menos formais do que os que haviam estabelecido no início. Ele atribuiu essa mudança a uma manobra das crianças, possivelmente sem intenção consciente, a fim de orquestrar um programa de aprendizagem que fosse ao encontro das suas necessidades: assim como os pais respondem aos sinais de seus bebês, observou que os pais que educam os filhos em casa respondem aos sinais dos filhos já em idade escolar e em situações de aprendizagem mais avançadas, evitando a necessidade de ensino formal. Thomas colocou a hipótese de que, ao entrarem para a escola, as crianças perdem a arte da aprendizagem informal, pelo menos ao nível experienciado pelas crianças que nunca frequentaram a escola.

O tipo de aprendizagem que ocorre naturalmente é muito diferente do que ocorre na escola; em casa, as crianças têm liberdade para seguir correntes de pensamento ligadas à vida quotidiana e embora este estilo de aprendizagem possa ser lento e nem sempre aparente, conexões são feitas progressivamente que se revelam em datas posteriores.

Thomas observou que mesmo quando a aprendizagem em casa é formal, temas de interesse não necessariamente relacionados com a lição a ser abordada no momento vêm à superfície e são debatidos. Desta forma, as crianças desenvolvem uma motivação para a aprendizagem independente. Thomas não negou que na escola os alunos também aprendem desta maneira, mas propõe que se calhar as crianças não precisam de submeter-se ao estilo de aprendizagem normalmente associado às escolas. Thomas concluiu que, principalmente durante os primeiros anos, o desenvolvimento intelectual pode ocorrer de maneira natural e incidental sem nenhuma aprendizagem formal e que se esse tipo de educação não é melhor do que a aprendizagem escolar é pelo menos do mesmo nível.

As descobertas de Thomas parecem expor as teorias construtivistas de Bruner e Vygotsky. Thomas acredita que a aprendizagem natural que observou não ocorria de forma isolada mas que era o resultado de interacções, sendo necessário algum nível de intervenção pelo menos para facultar a aprendizagem que, por sua vez, permitia o desabrochar e a maturação do desenvolvimento. Este ponto de vista é ecoado, por exemplo, em Thomas (1998 pp 71, 129) e trabalhos mais tardios de Thomas e Pattison (2008).

Webb (1999) entrevistou 20 adultos que haviam sido educados em casa, com o objectivo de determinar como o seu desenvolvimento havia ocorrido. Nenhum dos jovens adultos estava desempregado e 3 tinham obtido licenciaturas da Universidade de Oxford. Apenas cerca de 30% contemplavam a ideia de educar seus filhos em casa. Este achado contrasta com o de Knowles (1991), que constatou que dos 10 adultos (educados em casa em crianças) por ele entrevistados os que já eram pais (n = 7) tinham escolhido educar os filhos em casa [7 dos adultos educavam em casa cerca de 20 crianças].

Os netos de um participante estavam sendo educados em casa, criando uma terceira geração de homeschoolers. Webb, porém, explicou que muitos acreditavam que os pais tinham feito «sacrifícios» que eles não gostariam fazer. Foram positivos sobre a educação em casa, acreditando terem beneficiado da experiência. Socialmente, Webb, tal como Knowles (1991), descobriu que os educados em casa estavam à vontade com uma vasta secção da comunidade e descreveu suas competências sociais como "em geral altamente excepcionais" e que, além disso, eram pensadores independentes.

A pesquisa mais extensa do Reino Unido é a de Rothermel (2002). Este estudo envolveu a disseminação de cerca de 5.000 questionários através da internet, organizações de apoio e autarquias locais. Os destinatários foram convidados a fornecer os seus pormenores para que pudessem ser contactados mais tarde mas não receberam informações sobre o que lhes poderia ser solicitado. Assim, embora houvesse um elemento de auto-seleção, como acontece com qualquer pesquisa sobre um grupo desta natureza, as famílias não se auto-selecionaram sabendo que iriam ser convidadas para um programa de avaliação. Com efeito, os inquiridos não faziam ideia deste aspecto da investigação. Mais de 1.000 respostas foram recebidas e destas 419 foram analisadas, sem nenhuma ordem em particular.

A intenção era analisar todas as respostas mas limitações de tempo e os custos envolvidos limitaram a amostra a 419 famílias e 1099 crianças. Rothermel analisou as respostas ao inquérito e, após esta fase, implementou um programa de avaliação envolvendo 238 avaliações de 196 crianças. Para cada avaliação, todas as crianças que caíram na categoria da idade apropriada foram convidadas a participar e, de todas estas, apenas uma família se recusou a continuar a participar.

Os resultados quantitativos mostraram que 64% das crianças educadas em casa com idade escolar para a pré-primária (n = 35 testadas duas vezes) obtiveram mais de 75% em seus PIPS Baseline Assessments (obtido por 5,1% das crianças a nível nacional). Os resultados das avaliações do Projecto de Alfabetização Nacional revelaram que 80,4% das crianças educadas em casa estavam ao nível dos 16% do topo (de uma curva bell de distribuição normal) (n = 49), e que 77,4% das crianças educadas em casa avaliadas com o PIPS Year 2 alcançaram esse nível (n = 19).

Resultados dos instrumentos psicossociais confirmaram que as crianças educadas em casa são competentes a nível social e não apresentam problemas de comportamento significativamente acima do normal (n = 136).

No todo, a amostra demonstrou níveis elevados de sucesso e boas competências sociais. Comum a todas as famílias envolvidas era a sua abordagem flexível e Rothermel concluiu que as crianças beneficiam da atenção dos pais e da liberdade de desenvolver as suas capacidades ao seu próprio ritmo. Ela observou que estas famílias têm laços fortes e que os pais estavam empenhados em proporcionar um ambiente de carinho aos filhos.

A análise dos dados do questionário não revelou nenhum 'tipo' específico de home-educator, com famílias provenientes de diversos backgrounds sócio-econômicos.

Independentemente da motivação inicial (havia mais ou menos uma divisão igual entre as crianças que haviam sido retiradas da escola e as que nunca tinham frequentado a escola), a educação em casa tendia a transformar-se numa opção de estilo de vida, em vez de uma posição sobre o ensino público. Rothermel descobriu que as crianças de grupos sócio-econômicos mais baixos superavam suas contrapartes mais ricas, enquanto que as diferenças de desempenho entre meninos e meninas eram insignificantes.

Ela colocou a hipótese de que as famílias mais pobres tendem a sucumbir às pressões da família e que por isso estavam mais propensas a seguir o currículo nacional, em contraste com as famílias em melhor situação, que tendiam a não se preocupar se os filhos atingiam "a tempo" objectivos relacionados a certas idades. Contudo, Rothermel conclui com isto que diferenças onde é esperado que as crianças mais pobres tenham um aproveitamento mais fraco e que as meninas superem os meninos são, muito mais provavelmente, o resultado da escolarização.

Outras pesquisas (por exemplo, Hanna e Quinn 2004; Sylva, Melhuish, Sammons, Siraj-Blatchford e Taggart, 2003) descobriram que o nível de escolaridade dos pais e seu estatuto sócio-económico são dois dos principais indicadores dos resultados dos alunos. No entanto, na pesquisa sobre a educação domiciliar, nenhum destes factores desempenham um papel tão central no sucesso. Assim, parece que o estatuto sócio-económico e as qualificações dos pais são indicadores de sucesso apenas para as crianças que frequentam a escola e que a importância do seu papel, por si só, na aprendizagem das crianças, não deve ser presumido.

Dos resultados mais elevados do que o normal alcançados pelas crianças em idade da pré-primária, Rothermel conclui que nesta altura a aprendizagem pode ser maturacional e que a escola pode até deprimir o desejo natural de adquirir novas informações. Isto, argumenta ela, prova os benefícios de começar a escola mais tarde, como fazem em algumas partes dos E.U.A. e na Suíça.

Pesquisa Internacional
A nível internacional, o interesse e actividade na pesquisa sobre o ensino domiciliar é grande. O International Home Education Research Network reúne acadêmicos de todo o mundo que utilizam o fórum de discussão on-line para compartilhar e divulgar suas pesquisas. Acadêmicos envolvidos vêm da Colômbia, Espanha, México, África do Sul, Afeganistão, Índia, França, Estónia, China, Austrália, Suécia, Noruega, Dinamarca, Alemanha, Suíça, para citar apenas alguns exemplos.

Conclusão
Alguns críticos estão prontos a rejeitar imediatamente o considerável corpus de pesquisa acadêmica com crianças educadas em casa e suas famílias no Reino Unido. No entanto, os resultados dessas pesquisas não são especialmente surpreendentes e, em geral, encaixam bem com os resultados de pesquisas com crianças que frequentam a escola. Que as crianças que frequentam a escola beneficiam do tempo passado com os pais é geralmente um dado adquirido, que as pessoas aceitam facilmente. No entanto, quando exactamente a mesma conclusão é obtida a partir de pesquisas sobre a educação em casa, ela carrega consigo um elemento de desconfiança para o qual não existe justificação óbvia.

Da mesma forma, quando as crianças aprendem ao seu próprio ritmo e com os pais a seu lado durante os anos pré escolares, poucos questionariam a sua capacidade e motivação para aprender. No entanto, quando pesquisadores como Thomas e Rothermel descobrem que as crianças continuam a aprender produtivamente depois desta altura, dúvidas são lançadas sobre a qualidade do seu trabalho apesar de muitos outros acadêmicos e cientistas em vários campos de conhecimento por todo o mundo apoiarem o valor da aprendizagem motivacional, maturacional e informal.

Continua aqui.

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