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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

"Escola em Casa" no Médio Oriente

Mais uma tradução, livre e parcial, de um artigo sobre a "escola em casa" publicado ontem no Arab News.

Natalie Komitsky vive na Arábia Saudita há 6 anos. Dos E.U.A., foi viver para Riade com o marido, nascido em Meca, e mais tarde mudaram-se para Jidá. Além de educar os 3 filhos, com idades entre os 4 e os 11, Natalie é escritora, revisora de textos e coach de aprendizagem.

Querendo proporcionar-lhes uma das melhores opções possíveis em termos de uma educação que possa ser adquirida em qualquer parte do mundo, ela, tal como outros, optou pela "escola em casa" - regime em que os pais ou tutores ensinam currículos credenciados aos filhos em vez de enviá-los para a escola. Ela tomou esta decisão quando vivia ainda nos E.U.A. para poder incluir estudos islâmicos no currículo mas decidiu continuar neste regime depois de ter ido viver para a Arábia Saudita.

Em muitos países existem opções credenciadas de ensino domiciliar que oferecem aos pais a liberdade de explorar interesses individuais e áreas de estudo específicas, e a oportunidade de dar atenção individual aos filhos e transmitir os valores da família durante todo o processo de aprendizagem. Outra vantagem é o fortalecimento dos laços familiares e o acompanhamento da educação dos filhos. Mas na Arábia Saudita os pais têm dificuldade de encontrar este tipo de recursos porque esta forma de ensino ainda não é reconhecida.

"Os expatriados sentem-se muito frustrados", disse Natalie. "Eles gostariam de educar em casa mas sentem-se frustrados com a falta de recursos e oportunidades educacionais e acabam por ter que pesquisar bastante para preencher essa lacuna".

Natalie tomou esta difícil decisão por um número de razões. A primeira é que é a situação ideal. Há um professor por aluno (ou por 2 ou 3 alunos, dependendo do tamanho da família). Além disso, outra vantagem é que quando o professor conhece muito bem os alunos, sabe se compreendem determinados conceitos suficientemente bem ou se é preciso recuar e/ou tentar novamente numa data posterior.

"Se necessário, podemos utilizar um tutor para certas disciplinas. É assim que as pessoas foram educadas durante a maior parte da história da humanidade", diz Natalie.

Além disso, a "escola em casa" é considerada a melhor opção pelas famílias muçulmanas dos E.U.A. que querem dar aos filhos uma boa base em inglês e árabe e, mais importante, uma aplicação prática do Islão - especialmente em partes dos Estados Unidos onde o número de muçulmanos que querem ter essa oportunidade não é suficiente para sustentar um sistema ensino primário islâmico, privado e credenciado. Outras razões que levam os pais a optar pela "escola em casa" é quando os filhos têm necessidades especiais ou quando não ganham o suficiente para poderem pagar os custos do ensino privado.

Quando Natalie e o marido retornaram à Arábia Saudita ela continuou a educar os filhos em casa e incentivou outros a fazerem o mesmo. Começou a organizar reuniões semanais com outras crianças que também aprendem em casa para proporcionar actividades de grupo.

"Eu criei uma conta de e-mail chamado KSA home-schoolers e outra chamada Muslim home-schoolers worldwide. A dada altura tinha uma livraria em casa que incluía livros infantis de ficção e não-ficção."

Michael Smith, presidente da Home School Legal Defense Association dos E.U.A., relatou recentemente no Washington Times que os alunos que estudam em casa superam os que frequentam a escola pública.

"O estudo mais recente, Home-school Progress Report 2009 [abre pdf], realizado por Brian Ray do National Home Education Research Institute, examinou mais de 11.000 alunos que aprendem em casa e demonstrou que a média dos home-schoolers em testes padronizados é 37 pontos percentuais superior à média da escola pública", escreveu Smith.

Com base em estudos, Smith afirma que os estudantes educados em casa, além do sucesso académico alcançam também sucesso como membros da sociedade.

"As famílias que praticam a educação domiciliar estão liderando o caminho na educação canadense e americana, e este novo estudo demonstra claramente que os pais que educam os filhos em casa estão no caminho certo", escreveu ele.

Mas na Arábia Saudita este caminho pode levar a um beco sem saída. Uma mãe de três filhos, que pediu para permanecer anônima, retirou os 2 filhos da escola durante um ano quando eles manifestaram interesse no ensino doméstico. Após um ano de escola em casa ela decidiu matriculá-los de novo na escola mas a escola recusou-se a aceitá-los.

"Não os queriam aceitar porque o nosso ano em regime de ensino domiciliar não estava registrado oficialmente em lugar nenhum. Tivemos de ir ao Ministério de Educação buscar uma carta que autoriza os meus filhos a regressar à escola. O ministério nem sequer sabe o que o ensino doméstico é, quanto mais reconhecê-lo! Foi extremamente difícil", disse esta mãe.

Natalie diz que a disponibilidade de materiais educativos para educação em casa é outro dos desafios enfrentados na Arábia Saudita.

"Muitas famílias vêm para a Arábia Saudita com a intenção de viver sob um governo islâmico, onde as crianças possam aprender árabe e observar a aplicação diária do Alcorão e Sunnah pelo povo. Infelizmente, juntam-se a outros na sua frustração depois de tentativas falhadas de encontrar escolas que se adaptem às suas necessidades".

Para que a escola em casa seja reconhecida na Arábia Saudita e para que o processo se torne mais suave para os pais, Natalie sugere a criação de um posto cuja função seria a de supervisionar o ensino domiciliar.

"Eles podiam administrar testes padronizados para avaliar o nivel acadêmico dos estudantes, dar uma prova certificada do seu progresso ao Ministério da Educação e facilitar a vida das famílias que optam por educar os filhos de forma independente".

Isto, acrescenta Natalie, levaria provavelmente ao desenvolvimento de empresas locais cujo objectivo seria o fornecimento de recursos educacionais para as famílias e o estabelecimento de centros de actividades educativas, onde as famílias poderiam aprender de uma maneira divertida e com entusiasmo.

"Com a situação extrema que o Ministério está enfrentando por causa do aumento populacional, estou confiante que soluções alternativas quanto à educação terão de ser consideradas e que estas irão beneficiar todos os estudantes da Arábia Saudita, elevando-a aos mais altos niveis, assegurando a prosperidade económica da nação ", conclui Natalie.

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