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sábado, 22 de maio de 2010

Quando a escola é em casa

Há famílias que optam por ensinar os filhos em casa, sem a obrigação de cumprir horários e currículos rígidos. A lei portuguesa reconhece aos pais o direito de educarem os próprios filhos e a modalidade do ensino doméstico está a ganhar adeptos. A Notícias Magazine mostra o dia-a-dia de quatro famílias e dá conta das motivações que as levaram a assumir as rédeas do ensino nos primeiros anos de escolaridade. Alexandre, Catarina, Ísis, Merlin e Malte não escutam o toque da campainha para entrar ou sair da sala de aulas. Aprendem «ao ritmo da vida».

Podem ler o artigo, por Gabriela Oliveira e Eduarda Sousa, aqui.
[se o link estiver quebrado podem ler o resto nos comentários]

6 comentários:

Paula disse...

«Dizem que sou sortuda!»
Ísis, 9 anos, frequenta o 3.º ano na quinta dos pais: Sandra Gonçalves e Vítor Rodrigues
Um emaranhado de ruas em terra batida conduz-nos à Quinta da Troca, a poucos quilómetros de Évora. Cruzamos o portão e o som dos badalos tornou-se mais forte, com ovelhas a correrem ao longo da cerca, curiosas com a nossa presença. É sábado à tarde. Ísis está a brincar com um grupo de crianças que participam num atelier de filosofia e culinária, dirigido pela mãe, psicóloga, e mal se apercebe da nossa chegada. «Este é o nosso reduto, entrem», convidam. «Eu até ia para a escola, se não fosse uma seca ir todos os dias», adianta Ísis. Do que viu e do que lhe contam, não lhe agrada a ideia de «estar horas sentada à secretária a dar matérias que já domino». Prefere passar as manhãs na biblioteca de casa, na companhia da mãe, e desfrutar da liberdade do campo e das travessuras do cão Puk, o seu fiel aliado. Quando está bom tempo, aproveita para trepar às oliveiras e subir às pedras onde gosta de ficar a ler. «Ainda agora, estou a acabar um livro do Geronimo Stilton e A História Interminável, de Michael Ende», sublinha. Apesar de estar inscrita no 3.º ano em ensino doméstico, tem explorado muitos conteúdos de anos mais avançados. «Não limitem as minhas capacidades!», reclama, quando a tentam demover de alguma incursão audaz para a idade.
O consultório do pai, que é psicoterapeuta, também fica na quinta, num espaço reservado para a Casa do Futuro ? uma associação que criaram e que promove «experiências educativas diferentes das que habitualmente as crianças recebem no sistema escolar formal». Por isso, Ísis relaciona-se com várias crianças e diferentes grupos, seja nos ateliers organizados na quinta, seja nas aulas de karaté, onde é cinturão amarelo, seja nas danças hip hop ou na natação. «Eu até costumo ir mais cedo para ficar na conversa com as minhas amigas.»
«A escolha do ensino doméstico nada tem que ver com a ideia de retirar a Ísis do contacto com outras crianças. Pelo contrário, o que nos motivou foi a possibilidade de ela ter uma socialização mais transversal, com experiências variadas, em que pode aprender com tudo e com todos, e não cingir-se a um grupo restrito de miúdos da mesma idade como acontece nas escolas», explica Sandra Gonçalves. «Individualizar a aprendizagem e flexibilizar os temas e os ritmos de aprendizagem não são, afinal, o sonho de qualquer pedagogo?», interroga o pai.
Ísis mantém a ligação com a turma onde está inscrita, numa das escolas da cidade. Já passou lá algumas horas numa sessão de leitura, que apresentou com a mãe, e a curiosidade dos colegas foi enorme: «Fartaram-se de me fazer perguntas, disseram que tenho imensa sorte por poder baldar-me à escola e até se autoconvidaram para vir à quinta!» Os progressos são comunicados à escola trimestralmente, como ficou combinado, e a mãe vai fazendo um registo informático pormenorizado do percurso escolar da filha «para orientação própria».
«Observo no terreno as matérias de Estudo do Meio», diz Ísis. Não precisa de dar muitas voltas à quinta para encontrar toupeiras, ouriços, cobras e quase todo o tipo de bichos rastejantes que gosta de fotografar. Sete quintas circundam a área e as ovelhas e cabras dos vizinhos são uma das suas distracções predilectas. A máquina fotográfica também a acompanha nos percursos pelo Centro Histórico de Évora, onde a avó materna é guia, ou nas visitas a Lisboa, onde moram os avós paternos e os primos. «Posso estudar e fazer o que gosto e isso sabe bem!», remata, correndo para junto da sua amiga Inês, 7 anos, que vive do outro lado da cerca.

Paula disse...

«Aprendo a inventar brincadeiras»
Alexandre, 6 anos, frequenta o 1.º ano em casa, com os pais: Pedro Laia e Isabel Matos
Como é habitual, o chão da sala do apartamento foi tomado de assalto pelas construções em lego do pequeno Alexandre. Tem 6 anos mas não se atrapalha a montar um navio, seguindo um longo esquema enquanto assiste à conversa. «Ele é um aficionado por transportes e por construções complexas», explica o pai, Pedro Laia. A um canto, está um baú de madeira repleto de locomotivas, barcos, pistas, pontes, torres e outras peças de trabalho. E nas estantes não faltam livros, jogos de computador e DVD alusivos à temática dos transportes, tal é a paixão do pequenote. «Sim, tentamos orientar o ensino em função das preferências do Alexandre, para o motivar e não soar a algo forçado», acrescentam.
Há muito que Isabel e Pedro são adeptos do movimento unschooling, fundado pelo norte-americano John Holt, e decidiram, desde o início, proporcionar uma educação «mais natural e espontânea» ao filho. Não o inscreveram na creche nem no jardim-de-infância e quando se aproximou a altura de entrar no 1.º ciclo, já tinham reunido a informação necessária para requererem o ensino em casa. Aliás, desde há um ano que Isabel dirige um blogue dedicado ao ensino doméstico ? A Escola é Bela (http://escolabela.wordpress.com/) ? e a decisão foi inevitável. «Queríamos dar uma atenção individualizada à aprendizagem do Alexandre. Nas escolas, as turmas são enormes, os professores não têm capacidade para dar atenção a cada uma das crianças, há um nivelamento e isso preocupa-nos», conta Isabel, que tem a experiência de ter dado aulas no ensino básico e na universidade. As palavras do pedagogo John Holt são levadas a sério pelo casal: «As crianças não necessitam que as obriguem a aprender, que lhes digam o que aprender ou que lhes mostrem como. Se lhes dermos acesso ao mundo, incluindo as nossas próprias vidas e o nosso trabalho, verão com clareza quais as coisas verdadeiramente importantes», escreveu no controverso livro How Children Fail (Como Aprendem as Crianças, da Editorial Presença).
É a partir das várias situações do quotidiano, que Isabel e Pedro introduzem o programa do 1.º ano, tentando que «a aprendizagem seja despertada e assimilada de uma forma espontânea». Ainda antes de o ano lectivo começar, repararam que o filho já tinha assimilado quase metade do programa de matemática «e só das brincadeiras». Uma ida ao supermercado pode desencadear uma aula de operações de somar e subtrair, ou um passeio no Pavilhão do Conhecimento pode sugerir uma aula intensiva de ciência. Embora não sejam sistemáticos nos horários e nas tarefas, fazem questão de organizar pelo menos uma «saída didáctica» por mês. Vão trabalhando os conteúdos «respeitando o ritmo da criança» e seguem a recomendação dada pelo agrupamento de escolas do concelho de Sintra, onde o Alexandre está inscrito: completar um portfólio que, se não for antes, será entregue no final do 4.º ano, altura em que o aluno terá de fazer um teste presencial.
Até lá, os dias são passados, sobretudo, na companhia do pai: «Quando decidimos algo, arranjamos uma solução.» Depois de o filho nascer, Pedro Laia, técnico de informática, despediu-se do emprego e passou a trabalhar em casa, por conta própria. Driblando as dificuldades de sono, acorda muitas vezes de madrugada e fica colado ao computador «a despachar o trabalho entre as duas e as seis da manhã», para depois estar livre para acompanhar o Alexandre. A mãe não consegue sair do serviço antes do meio da tarde e quando chega a casa continua a missão de «orientar a aprendizagem». As irmãs Celine e Catarina, que frequentam o ensino superior, também alinham nas aulas domésticas e em proporcionar «grandes aventuras nas saídas» ao pequeno irmão.
O som da campainha anuncia a chegada da vizinha Mariana, 8 anos, que depois da escola vem brincar com o Alexandre. A construção do navio fica adiada para outra altura.

Paula disse...

«Tenho mais tempo para dançar»
Catarina, 8 anos, está no 3.º ano, com os pais: Lara e João Serôdio
Quase todos os dias, quando Lara se cruza com alguém na rua, o assunto do ensino doméstico é chamado à conversa e ouve muitas vezes dizerem: «Que horror!» É assim desde que a filha, agora com 8 anos, passou para este tipo de ensino no 1.º ano de escolaridade. Os amigos mais próximos ainda tentaram demover o casal mas não conseguiram. «Diziam que estávamos malucos», recordam.
A ideia começou a esboçar-se quando Catarina, com apenas 3 anos, dizia que não compreendia porque tinha de ir para o jardim-de-infância brincar com aquelas crianças. Pouco antes de entrar no 1.º ciclo, a mãe descobriu um fórum português dedicado ao ensino doméstico que se revelou decisivo: «Troquei mensagens com outros pais e dias depois já estava tudo tratado.» Para tomarem a decisão, o casal não pesou apenas o desejo da filha: «É mais fácil transmitir certos valores se estiver em casa do que numa escola com vinte crianças». O actual estado do sistema de ensino também os preocupa: «Para aumentar as estatísticas, nenhuma criança reprova até ao 4.º ano. Quando comunicámos à escola que a Catarina podia transitar de ano, responderam-nos para nem pensarmos o contrário porque mesmo que não estivesse pronta, passava.»
Para acompanhar a filha, Lara teve de interromper o trabalho de tradução que fazia a partir de casa. O marido é técnico de manutenção na EDP e passa os dias a viajar pelo país. Durante a semana, Catarina fica no período da manhã à secretária a estudar com os manuais escolares que utilizam na escola onde está matriculada. «Não retiramos todo o proveito do ensino doméstico porque ela vai ter de realizar exames no 4.º ano e restringimo-nos ao programa.» Ainda assim, procuram organizar as tardes com actividades mais livres, que podem passar por uma ida à biblioteca ou uma saída cultural: «Estive quatro dias com a minha mãe a tomar conta de uma exposição, aprendi a pintar figuras de gesso e agora peço sempre ao meu pai que me traga anjos para pintar», conta Catarina. O pai lá vem carregado de anjos das viagens e alinha nas pinturas: «Incentivamos a desenvolver as suas capacidades. Em casa as crianças não estão sujeitas a tanta pressão.»
Os pais deparam-se, no entanto, com alguns obstáculos. «Na escola não a deixam assistir às actividades extracurriculares. Gostávamos que ela fosse pelo menos às aulas de música.» É a única disciplina que, para já, não conseguem ensinar. No início, tiveram dificuldade em comprar alguns materiais didácticos nas livrarias: «Foi preciso apresentar uma carta do Ministério às editoras para conseguirmos obter os manuais de professor», relembra João, que entretanto decidiu guiar-se pelos manuais da filha, sempre com a ajuda da internet. Têm pena que não haja mais intercâmbio entre as crianças que praticam o ensino doméstico em Portugal: «Quando saímos para alguma actividade, raramente conseguimos levar outra criança porque estão todas na escola. Uma associação portuguesa do ensino doméstico seria óptima para organizar actividades extracurriculares, à semelhança do que acontece em outros países.»
Catarina acaba por conviver com outras crianças nas aulas de dança e de ténis, na igreja onde está inserida, ou quando os vizinhos começam a chegar da escola. No carro existem duas cadeiras de criança para as eventualidades e em casa há sempre um prato a mais ao jantar, à espera de algum amigo que possa aparecer. Os pais preferem não fazer planos a longo prazo: «No final de cada ano, analisamos a situação e voltamos a ponderar todas as hipóteses.»

Paula disse...

«É diferente, temos mais liberdade»
Malte, 10 anos, e Merlin, 8 anos, vieram da Alemanha e aprendem com a mãe, Caren Horn
«Andei na escola três anos e não gostei nada», conta Malte. Para além da sonoridade dos nomes, os cabelos loiros dos irmãos Merlin e Malte, de 8 e 10 anos, denunciam que não são portugueses. Há três anos, a mãe Caren decidiu trocar a Alemanha por Portugal. Na decisão pesou muito a educação que queria dar às crianças. «O ensino doméstico é proibido na Alemanha, se decidirmos ensinar em casa podemos ser presos», explica em inglês. Malte começou por frequentar o ensino regular no seu país de origem e passou o 3.º ano numa escola com métodos mais alternativos. Ainda assim, Caren reparava que as matérias ensinadas «não iam ao encontro dos interesses das crianças» e que o ensino praticado nas escolas «categoriza as crianças como boas e más e baseia-se num sistema de recompensa e punição, que promove a competição», o que não lhe agrada. «Quando as crianças estão verdadeiramente motivadas, aprendem mais depressa e não se limitam a memorizar fórmulas e conceitos que depois esquecem.»
Malte só chegou o ano passado mas o irmão Merlin acompanhou a mãe desde o início. Instalaram-se numa pequena aldeia perto de Sintra, em plena serra. «Gosto muito de artes circenses», revela o mais velho, que apesar da chuva e das baixas temperaturas, trepa com destreza pedras enormes que desafiam o sentido de equilíbrio. Merlin interessa-se mais pela construção de miniaturas de casas e de outros objectos de madeira. «Aqui temos mais liberdade», reconhecem.
Caren levou alguns anos até conseguir abandonar o emprego de conselheira fiscal em Hamburgo: «Sentia que não tinha nada que ver comigo, não podia continuar a fazer aquele trabalho.» Hoje dedica-se não só à educação de Malte e Merlin, mas também à confecção de pão integral que depois vende aos vizinhos. Viver em comunidade parece ser o lema do grupo de amigos que conheceu por cá, que, como ela, são maioritariamente estrangeiros e optaram por ter os filhos em «homeschooling». Costumam reunir-se numa pequena quinta onde organizam workshops para adultos e crianças. Flauta, permacultura, trabalhos manuais, danças de roda, inglês, marionetas, teatro, tricot, aguarela, desenho e ioga são algumas das actividades que ocupam as manhãs dos mais pequenos durante a semana. Todos os pais dão uma ajuda e vão trocando entre si, ensinando as matérias que melhor dominam.
«Foi difícil aprender português, mas depois de aprender inglês as coisas começaram a correr melhor», conta Malte, que em pouco tempo teve de adaptar-se a duas novas línguas. O irmão já domina melhor o idioma luso e é com algum à-vontade que mostra o saco de lã que anda a tricotar, para logo de seguida conversar com a mãe em alemão. «Também trouxemos manuais da Alemanha para eles continuarem a treinar a língua materna.» Mais do que ensino doméstico, Malte e Merlin dispõem de «um ensino familiar e internacional. Em Portugal as pessoas são mais espontâneas, não há tantos formalismos, gostamos muito de cá viver.»

Paula disse...

Movimento crescente
O ensino doméstico ainda causa estranheza e são poucos os que conhecem o direito de educar os filhos em casa. Se é certo que o ensino é obrigatório a partir dos 6 anos de idade, o mesmo não se aplica à frequência da escola. A «liberdade de aprender e de ensinar» está consignada na Constituição Portuguesa e, pelo menos, desde 1949 que alguns diplomas regulamentam esta modalidade, a par do ensino individual. A lei define o ensino doméstico como «aquele que é leccionado no domicílio do aluno, por um familiar ou por pessoa que com ele habite». Distingue-se do ensino individual em que a criança tem aulas com um professor, noutro espaço que não a escola, no máximo com mais três colegas.
Não são muitas as famílias que arriscam, mas nos últimos anos o número de crianças a frequentar o ensino em casa tem vindo a aumentar, principalmente nos primeiros anos de escolaridade. Este ano lectivo, estão inscritos 75 alunos em ensino doméstico e individual, quando no ano lectivo anterior eram 67 e apenas 44 no ano lectivo de 2007/2008, de acordo com os dados fornecidos pelo Ministério da Educação. Estes dados não espelham as entradas e saídas, isto é, o número de alunos que de um ano lectivo para outro transitam do ensino doméstico e individual para o ensino formal, ou vice-versa, pelo que o número de crianças envolvidas é superior. Também não estão incluídos os dados relativos à Madeira e Açores. A prática do ensino doméstico e individual não é uma novidade. Na realidade, a tradição de ensinar em casa tem uns largos séculos e antecedeu a criação das escolas e da escolaridade obrigatória. Em muitas zonas do país, há ainda quem se recorde de ter tido essa experiência na infância, quer de um modo organizado ? como sucedia nas famílias abastadas que contratavam um tutor ? quer de um modo informal, no seio da comunidade onde as crianças aprendiam «os números e as letras» a par dos ofícios que teriam de exercer. A primeira lei do ensino obrigatório surgiu em plena Revolução Industrial, em Massachusetts, nos Estados Unidos, com a intenção de acabar com a exploração das crianças. Mas o verdadeiro movimento do ensino doméstico, tal como o conhecemos hoje, só aparece na década de 1960 e teve como um dos principais impulsionadores o pedagogo John Holt.
É possível praticar legalmente o ensino doméstico em vários países. Os maiores movimentos de apoiantes encontram-se na Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos. Há uma intensa discussão sobre o tema em países como o Brasil, Alemanha e Grécia, onde a modalidade é proibida. O sistema português, comparado com outros que admitem o ensino doméstico, é considerado «flexível» e «aberto», embora haja diferenças nas exigências reclamadas por cada estabelecimento de ensino.

Paula disse...

Ir à escola ou não
Se apresenta algumas vantagens em relação à aprendizagem nas escolas, o ensino doméstico também comporta alguns «mas». Uma das maiores críticas apontadas é a aparente falta de socialização das crianças que podem passar muito tempo em casa. Contudo, este argumento é rebatido: «As crianças que passam os dias fechados nas escolas também têm uma socialização deficitária, convivem apenas com crianças das mesmas idades e, muitas vezes, dos mesmos estratos sociais, quando o desejável seria contactarem com pessoas de idades, profissões e estratos diferenciados», defende o psicólogo Vítor Rodrigues. «Em vez de um contacto de manada, as crianças em ensino doméstico podem usufruir de um contacto mais intenso e profundo com alguns pares, reforçando ao mesmo tempo os laços com a família.»
Outro reparo apontado é a possível confusão de papéis filho-aluno, pai-professor, que pode atrapalhar a aprendizagem, e a preparação insuficiente dos pais para ensinar todas as matérias. No entanto, Vítor Rodrigues lembra que «existe uma tradição gigantesca na transmissão de conhecimentos aos filhos» e que o ensino doméstico vem «contrariar a tendência crescente da demissão e do desinteresse dos pais pela educação dos filhos, que são entregues às escolas logo desde muito cedo, e que tem tido efeitos perversos». Embora não seja adequado a todas as crianças e famílias, o ensino em casa permite explorar formas alternativas de aprendizagem e pode dar resposta a situações de inadaptação à escola.
Que impacte poderá ter este tipo de ensino? Em Dezembro de 2009, o Centro Canadiano do Ensino Doméstico publicou o estudo Fifteen Years Later: Home-Educated Canadian Adults que derruba alguns receios. Partindo de um estudo de 1994, os investigadores seguiram centenas de crianças canadianas educadas em casa para determinarem os resultados que esta modalidade teria nas suas vidas adultas. Em relação aos pares que frequentaram escolas tradicionais, os adultos educados em casa são actualmente mais activos e estão mais envolvidos na comunidade. Também não revelam desvantagem no mercado de trabalho, estando a exercer as mais variadas profissões, como se pode ler na edição online do jornal The Washington Times.
«Agradar aos professores, obter boas notas por causa dos pais, ou competir para se sentir superior aos colegas» são motivações dadas aos alunos nas escolas para se tornarem bons alunos. «A longo prazo, qualquer destas motivações ensina que aprender não é, em si mesmo, algo que valha a pena, a menos que exista qualquer tipo de recompensa final», reflecte Ana Ferreira no blogue Ensino Doméstico (http://ensino-domestico.blogspot.com/). Talvez a marca distintiva do ensino doméstico seja essa: a capacidade de despertar a curiosidade e o gosto de aprender pelo prazer de aprender. Individualmente, em pequenos grupos ou nas escolas, a aprendizagem é crucial e ninguém duvida que o conhecimento que realmente perdura não é o que vem «enlatado» nos manuais mas aquele que é «tocado, sentido e interiorizado». Para lá se chegar, há mais do que um caminho.



Como requerer
Para solicitar o ensino doméstico, os passos a dar são idênticos aos que precedem o ingresso no ensino regular, com a inscrição da criança numa escola da zona de residência. Como o encarregado de educação assume a função de tutor e é responsável pela avaliação do aluno, tem de entregar comprovativo das habilitações mínimas exigidas. Para ensinar os filhos até ao 4.º ano, basta ter o diploma do ensino secundário e, de um modo geral, os pedidos são aceites. É possível requerer o ensino doméstico até ao 12.º ano, à excepção dos Açores, onde apenas é permitido até ao final do 1.º ciclo de escolaridade. Conforme as escolas e as Direcções Regionais de Educação a que estão afectas, poderá ser exigida a entrega trimestral de fichas de trabalho, de acordo com o programa curricular, ou apenas um portfólio no final de cada ano lectivo. Os alunos terão de fazer testes presenciais para poderem transitar para o 2.º ciclo e seguintes, bem como as provas nacionais.