Este blog partilha informação sobre o homeschooling e o unschooling - ensino doméstico ou educação domiciliar. Para navegarem o site, usem os links acima e, para os posts de 2011, o botão da pesquisa na barra direita. Facebook: Aprender Sem Escola Email: aprendersemescola@gmail.com

sábado, 14 de maio de 2011

A escola como religião, John T Gatto

Nada sobre a escola é o que parece, nem mesmo o tédio. Demonstrar o que quero dizer é o propósito deste longo ensaio. O meu livro representa uma tentativa de organizar os meus pensamentos, a fim de descobrir o que cinquenta anos de confinamento em salas de aula (como aluno e professor) significam para mim. Esta é uma investigação pessoal das razões que fazem da escola um lugar perigoso. Não é que o pessoal da escola tenha a intenção de magoar as crianças; mas que todos nós, associados à instituição, estamos presos, tal como moscas, na mesma teia de aranha que os vossos filhos estão. Tentamos freneticamente cobrir o nosso próprio pânico, mas temos muito pouco poder para ajudar as moscas mais pequenas.

Olhando para trás, para uma carreira docente de trinta anos cheia de prêmios e recompensas, custa-me a acreditar que passei a maior parte da minha vida completamente institucionalizado; é inacreditável que a escolarização centralizada, essa máquina gigantesca de doutrinação e triagem que rouba os filhos aos pais, seja permitida. Será que foi mesmo assim? Foi esta a minha vida? Que Deus me ajude!

A escola é uma religião. Sem entender a sua faceta de sagrada missão, poderíamos chegar à conclusão errada de que o que acontece é o resultado da venalidade ou estupidez humana ou até da luta entre classes. Estas estão presentes na equação, mas nenhuma delas tem muita importância pois mesmo sem elas a escola seguiria na mesma direção. A seguinte afirmação, do Credo Pedagógico de Dewey (1897), dá-nos uma pista para o zeitgeist:

Cada professor deve perceber que ele é um servo social cuja função é a manutenção da ordem social adequada e a asseguração do correto desenvolvimento social. Desta forma, o professor é sempre o profeta do Deus verdadeiro e o introdutor do verdadeiro reino do céu.

Qual é a ordem social "adequada"? O que significa "correto" desenvolvimento social? Se não sabes, és como eu e não como John Dewey, que sabia, ou como os Rockefellers, seus patronos, que também sabiam.

Acontece que, da confusão industrial que se seguiu à Guerra Civil, homens poderosos e sonhadores decidiram o tipo de ordem social que a América precisava, uma muito semelhante à do sistema britânico de que a América tinha escapado cerca de cem anos antes. Essa decisão não foi o resultado de um debate público, como deveria ter sido numa democracia, mas de uma destilação de discussões privadas. Suas ideias contradizem a "carta original americana" [Constituição dos Estados Unidos?] mas isso não os perturbou. Tinham um objetivo fantástico - a racionalização de tudo. O fim da imprevisibilidade histórica, e a sua transformação numa ordem previsível.

A partir dos meados do século, foram implementados certos esquemas utópicos para adiar a maturidade no interesse de um bem maior, seguindo mais ou menos o modelo que Rousseau havia estabelecido no livro Emile. Pelo menos retoricamente. O primeiro objectivo, a ser alcançado por etapas, era uma sociedade ordenada e cientificamente gerida, em que as "melhores pessoas" tomam as decisões sem interferências da tradição democrática. Depois disso, a reprodução humana, o destino evolucionário da espécie, seria possivel. A escolaridade universal, institucionalizada, formal e obrigatória era a prescrição, prolongando a dependência dos jovens para o que antes era tradicionalmente considerado o início da vida adulta. Os indivíduos seriam impedidos de ocupar postos importantes de trabalho até uma idade relativamente avançada. A maturidade seria adiada.

Durante o período pós-Guerra Civil, a infância foi prolongada cerca de quatro anos. Mais tarde, um termo especial foi criado para descrever as crianças mais velhas: a adolescência, um fenômeno até então desconhecido pela raça humana. A infantilização dos jovens não terminou no início do século XX; as leis do trabalho infantil foram estendidas para cobrir cada vez mais tipos de trabalho, e a idade do final da escolaridade obrigatória foi aumentando gradualmente. A maior vitória deste projeto utópico foi fazer da escola a única forma de entrar em certas profissões. A intenção era, em última análise, enredar todos os tipos de trabalho na teia escolar. Na década de 1950 já não era incomum encontrar alunos graduados já com os seus trinta anos continuando a executar recados, continuando à espera de começar suas vidas.

Fonte

www.johntaylorgatto.com

Sem comentários: