Este blog partilha informação sobre o homeschooling e o unschooling - ensino doméstico ou educação domiciliar. Para navegarem o site, usem os links acima e, para os posts de 2011, o botão da pesquisa na barra direita. Facebook: Aprender Sem Escola Email: aprendersemescola@gmail.com

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O currículo oculto da escolaridade obrigatória

O Prolongamento da Infância - John Taylor Gatto


Houve, desde o início, um propósito por trás da escolaridade obrigatória, um propósito que não tinha nada a ver com o que os pais, os filhos e as comunidades queriam. Em vez disso, este grande propósito foi forjado a partir das necessidades de uma economia corporatizada altamente centralizada e de um sistema financeiro resoluto na sua internacionalização; nisso, e também no que era necessário a um Estado político altamente centralizado. A partir da primeira década do século XX a escola passou a ser vista como um ramo da indústria e uma ferramenta de governança. Durante bastante tempo, provocados provavelmente por um clima de ódio e desprezo oficial dirigido contra imigrantes durante o maior deslocamento de pessoas na história, os gestores sociais da escolarização foram muito sinceros sobre o que estavam fazendo. Num discurso que deu perante empresários antes da Primeira Guerra Mundial, Woodrow Wilson fez esta ousada afirmação:

Queremos que uma classe tenha uma educação liberal. Queremos que outra classe, uma classe por necessidade muito maior, abra mão do privilégio de uma educação liberal e seja formada para o desempenho de difíceis tarefas manuais.

Em 1917, os principais postos administrativos da escolarização americana estavam sob o controle de um grupo referido pela imprensa da época como "Education Trust". A primeira reunião desse grupo incluiu representantes dos Rockefeller, Carnegie, Harvard, Stanford, da Universidade de Chicago e da Associação Nacional de Educação. Benjamin Kidd, o evolucionista britânico, escreveu em 1918 que o objectivo principal era "impor na juventude o ideal de subordinação".

No início, o principal alvo era a tradição do trabalho por conta própria nos Estados Unidos. A não ser que o empreendedorismo americano fosse extinto, pelo menos na população comum, os enormes investimentos de capital que a indústria de produção em massa necessitava não seriam justificáveis. Os alunos deveriam aprender a verem-se como empregados competindo pelos favores da gestão. Não como Franklin ou Edison outrora se haviam considerado, como agentes livres e auto-determinados.

Só se poderia conter a ameaça de excesso de produção na América através de uma enorme campanha psicológica. A capacidade dos norte-americanos de pensar como produtores independentes tinha de ser reduzida. Certos escritos de Alexander Inglis contêm uma dica do papel da escolarização neste projecto bem sucedido de redução da tendência das pessoas competirem com as grandes empresas. De 1880 a 1930, entre as classes gerenciais, a superprodução tornou-se uma metáfora de controle e esta ideia teria uma influência profunda no desenvolvimento da escola de massas.

Eu sei como é difícil para a maioria de nós que cortamos a nossa relva e levamos os nossos cães a passear compreender que a engenharia social a longo prazo existe mesmo, muito menos que começou a dominar a escolaridade compulsoria há quase um século. No entanto, a edição de 1934 de Public Education in the United States Ellwood P. Cubberley é explícita sobre o que aconteceu e porquê. Nas palavras de Cubberley:

Agora é desejável que as crianças não se devam envolver em trabalho produtivo. Pelo contrário, todo o pensamento recente... [é] oposto a que o façam. Tanto os interesses do trabalho organizado como os interesses da nação estão contra o trabalho infantil.1

A declaração ocorre numa secção de Educação Pública intitulada "Um Novo Prolongamento do Período de Dependência", onde Cubberley explica que "a vinda do sistema fabril" ​​fez necessário o prolongamento da infância, privando as crianças da formação e da educação que a fazenda e a vida nas vilas e aldeias costumavam proporcionar. Com o colapso das indústrias caseiras e locais, a morte das tarefas e a extinção do sistema de aprendizes pela produção em grande escala com a sua extrema divisão do trabalho (e a "marcha conquistadora das máquinas"), surgiu um exército de trabalhadores que, de acordo com Cubberley, não sabem nada.

Além disso, a indústria moderna necessitava desse tipo de trabalhadores. Não se podia permitir que o sentimentalismo entravasse o caminho do progresso. De acordo com Cubberley, com "muito ridículo da imprensa pública", o antigo currículo foi posto de lado e substituído pela mudança de objectivos e "uma nova psicologia de instrução que veio até nós do estrangeiro." Essa última referência misteriosa a uma nova psicologia refere-se a práticas de emburrecimento através da escolarização, práticas comuns na Inglaterra, Alemanha e França, as três principais potências mundiais de carvão (com excepção dos Estados Unidos), cada uma das quais já havia convertido sua população comum num proletariado industrial.

Em 1919, Arthur Calhoun, na História Social da Família, notificou os acadêmicos da nação, sobre o que se estava a passar. Calhoun declarou que o maior desejo dos escritores utópicos estava se tornando realidade, que as crianças estavam deixando a família para ficarem "sob a custódia dos especialistas da comunidade". Ele ofereceu uma previsão importante, que com o tempo podemos esperar ver o ensino público "planeado para monitorizar o acasalamento dos inaptos." Três anos mais tarde, John F. Hylan, o prefeito de Nova York, disse num discurso público que as escolas tinham sido apreendidas como um polvo se apodera de sua presa, por um "governo invisível". Ele estava referindo-se especificamente a determinadas acções da Fundação Rockefeller e outros interesses corporativos em Nova York que precederam os motins escolares de 1917.

A decada de 1920 foi um período de bonança para escolaridade obrigatória, bem como para o mercado de acções. Em 1928, um volume bem conceituado intitulado A Sociological Philosophy of Education declarou: "A função dos professores é gerir não só as escolas mas o mundo". Um ano depois, o famoso criador da psicologia educacional, Edward Thorndike, do Columbia Teachers College, anunciou: "as disciplinas académicas são de pouco valor". William Kirkpatrick, seu colega no Teachers College, vangloriou-se em Education and the Social Crisis que a educação tradicional das crianças e dos jovens estava sendo modificada por peritos.

1Este é o mesmo Ellwood P. Cubberley que em 1905 escreveu na sua Dissertação para o Columbia Teachers College que as escolas iriam ser fábricas "onde as matérias-primas, as crianças, serão moldadas e transformadas em produtos acabados... fabricadas tal como pregos, e as especificações para a fabricação virá do governo e da indústria. "

Original

www.johntaylorgatto.com

Sem comentários: