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terça-feira, 16 de agosto de 2011

A motivação que leva ao ensino doméstico II

Depois do post de ontem - motivação: por desespero ou inspiração? -, fiquei a pensar na relação com a motivação intrínseca e extrínseca. A motivação intrínseca é deflagrada pelas nossas necessidades e interesses individuais, enquanto que a motivação extrínseca vem de fora, de processos exteriores. Promessas de recompensas e/ou ameaças de castigos são exemplos de factores exteriores. É claro, existe sempre uma interação entre a pessoa e o ambiente, mas vou deixar essa questão de lado por agora...

Estava então a pensar que quando os pais são levados a retirar os filhos da escola por desespero, a principal motivação é libertar os filhos de um ambiente prejudicial e de todas as consequências negativas desse ambiente na vida dos filhos. Para estes pais, o ensino doméstico surge como uma solução para um problema causado por forças externas.

Mas muitos pais optam pelo ensino doméstico quando os filhos ainda são bebés. Esta opção é algo que vem de dentro, do íntimo das pessoas, algo que reflete seus valores, suas crenças, sua filosofia de educação, seu propósito de vida. Trata-se portanto da manifestação de uma motivação intrínseca.

Repito, nada é fixo, e o que nos motiva a iniciar o ensino doméstico pode não ser o que nos leva a continuar a praticar esta forma de educação alternativa; muitos pais que decidem retirar os filhos da escola devido ao bullying, por exemplo, depois de pesquisarem as várias metodologias do ensino domiciliar, passam a ser motivados, por exemplo, por um novo paradigma educacional verdadeiramente centrado nas crianças.

Para os unschoolers, esta questão da motivação é crucial. A motivação intrínseca é considerada como algo precioso, algo que devemos proteger. A maioria dos pais que opta pela aprendizagem autónoma está a par do problema da corrupção da motivação. Wikipedia explica a corrupção da motivação da seguinte forma:

Sob esse nome entende-se o fenômeno de que a motivação intrínseca do indivíduo em determinadas situações diminui, em que ele é recompensado pelo comportamento apresentado. Em um experimento clássico, Lepper e seus colaboradores (1973)[1] dividiram um grupo de crianças em três grupos menores: cada um dos grupos recebeu a tarefa de desenhar com canetas coloridas; o primeiro grupo foi informado de que ganhariam um brinde de reconhecimento pelo trabalho, o segundo recebeu um brinde surpresa, sem ter sido informado e o terceiro não recebeu nada. Os autores observaram que todas as crianças desenharam com as canetas - atividade apreciada pelas crianças - mas as crianças a quem havia sido prometido um brinde desenharam muito menos e com menos entusiasmo do que as outras, o que os levou à conclusão de que a promessa de uma recompensa pelo trabalho diminuiu a motivação intrínseca das crianças em fazer algo que elas gostam.

Resumindo
  • a motivação que leva à prática do ensino doméstico pode ser intrínseca ou extrínseca;
  • o que nos motiva a educar os nossos filhos fora do sistema escolar pode mudar com o passar do tempo;
  • a questão da motivação é crucial para os unschoolers;
  • o modo como educamos os nossos filhos pode proteger ou destruir a sua motivação intrínseca, o seu entusiasmo e a sua sede de aprender.

[1] Lepper, M.R., Greene, D., & Nisbett, R.E. (1973). Undermining children's intrinsic interest with extrinsic reward: A test of the "overjustification" hypothesis. Journal of Personality and Social Psychology, 28, 129-137.

2 comentários:

Lara disse...

Olá Paula,
Gostei muito destas duas mensagens sobre as motivações para o ensino doméstico. Fiz ensino doméstico com a minha filha por inspiração mas infelizmente não vou poder continuar. Levei muito tempo a aceitar a ideia, porque a minha vontade era continuar. Só desejo que, se alguma vez voltarmos ao ensino doméstico, que não seja por desespero.

Paula disse...

Oi Lara!
Tudo bem? Obrigada pelo feedback, é sempre bom partilharmos experiências. Eu também gostei de pensar sobre as diversas motivações que nos levam ao ensino domiciliar.

Dizes que infelizmente não vais poder continuar a praticar o ensino doméstico com a tua filha... pena... mas se é impossivel, é melhor mesmo aceitares a ideia. Espero que tudo corra bem, que a escola seja boa, e que ela goste de lá estar.