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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Críticas ao homeschooling

Mais um trecho de
EDUCAÇÃO NÃO OBRIGATÓRIA
por FILIPE RANGEL CELETI

Críticas ao homeschooling

1. O ensino doméstico possui diversas críticas. Tentaremos apontá-las e superá-las. A primeira crítica aponta o homeschooling como um limitador da socialização. As crianças perderiam a ideia de pertencentes a algo maior do que o círculo familiar. Isto ocorre porque a família pertence apenas à primeira esfera de socialização. É preciso que a criança também tenha contato com uma esfera secundária de socialização. É por este motivo que,
como uma agência socializante, a instituição escolar propicia tanto a transmissão do acúmulo de conhecimentos por meio do desenvolvimento de capacidades cognoscitivas quanto a transmissão de normas, valores, atitudes relativas à vida social (CURY, 2006).

Que a escola seja um ambiente socializante não há dúvidas. Entretanto, os críticos do homeschooling parecem tomá-la como o único ambiente socializante. Mesmo que a escola não seja o único ambiente possibilitador de socialização, não é claro o motivo de este ser o melhor e mais desejável. A ideia existente é que crianças de famílias adeptas do homeschooling são menos socializadas ou possuem dificuldade de comunicação. Pensa-se na prática do ensino doméstico como sinônimo de prisão doméstica. Contra esta visão, Richard G. Medlin pesquisou o tema da socialização. Para o professor
crianças de homeschooling estão participando do cotidiano de suas comunidades. Elas certamente não são isoladas, na verdade, elas se associam – e sentem de perto – todos os tipos de pessoas.
Existem inúmeras atividades na sociedade e
os homeschoolers participam de várias atividades externas - jogos desportivos (existem inúmeros times de homeschoolers), programas de escotismo, igrejas, serviços comunitários ou empregos de meio expediente (LYMAN, 2008).

Além disto, o comportamento da criança de homeschooling é diferente. O crédito deve ser dado, de acordo com Medlin, em grande parte aos pais. Afirma isto pois,
com o desenvolvimento social de seus filhos a longo prazo em mente, eles ativamente incentivam os filhos a tirar proveito das oportunidades sociais fora da família. Crianças ensinadas em casa adquirem as regras de comportamento e sistemas de crenças e atitudes que precisam. Elas têm boa autoestima e tendem a apresentar menos problemas de comportamento do que as outras crianças. Elas podem ser socialmente mais maduras e têm melhores habilidades de liderança do que outras crianças também. E elas parecem estar atuando efetivamente como membros da sociedade adulta.

O mesmo foi observado por Larry Shyers já em 1992. Em sua tese de doutorado,
crianças de 8 a 10 anos eram filmadas brincando. O comportamento de cada uma delas foi observado por orientadores psicológicos que não sabiam quais eram as crianças que frequentavam escolas convencionais e quais eram as que estavam sob homeschooling. O estudo não encontrou qualquer diferença significativa entre os dois grupos em termos de assertividade, que foi medida por exames que avaliavam a evolução social de cada criança. Mas as filmagens mostraram que as crianças educadas em casa por seus pais presentavam menos problemas comportamentais (LYMAN, 2008).
Torna-se muito simples criticar o homeschooling a partir de uma definição arbitrária de socialização. A socialização, entretanto, pode ser constatada pela observação feita pelas pesquisas de Shyers e Medlin.

Apesar disto, as crianças que recebem ensino em casa são socializadas se entendermos socialização como o processo pelo qual as pessoas adquirem as regras de comportamento e sistemas de crenças e atitudes que preparam a pessoa para atuar efetivamente como um membro da sociedade (DURKIN, 1995, p. 614). Sob este aspecto, o ensino doméstico é um processo também socializante. Não há, evidentemente, em seu âmago, a função de impedir o desenvolvimento social das crianças.

2. Outra critica para com o homeschooling afirma que é mais fácil perceber maus tratos em crianças matriculadas em escolas. Não é claro como a escola pode ser efetivamente eficiente no controle dos maus tratos dos pais. Conseguem, no máximo, acionar um conselho tutelar para separar a criança da família, sendo melhor protegida pelas instituições do governo. Se há maus tratos dentro dos lares, não podemos concluir que retirar, obrigatoriamente, as crianças de dentro de suas casas, pelo período de seis horas diárias, irá diminuir a violência doméstica. Pais violentos continuam violentos, seja num dia escolar ou durante as férias. Ademais, o crime existente é o do uso de violência para com terceiros. O crime é a agressão para com a integridade corporal da criança. Já existem penas determinadas para este tipo de delito. Se o governo deseja tomar uma atitude para com a violência doméstica, certamente que a escola obrigatória não é a melhor.

Além disto, supõe-se que a escola seja o ambiente perfeito para o desenvolvimento da criança. Porém, muitas vezes os professores tomam para si determinados papéis que contribuem para outras formas de maus tratos. Dentro deste rito escolar o professor pode assumir, de acordo com Ivan Illich, três papéis, o de juiz, o de ideólogo e o de médico.

Enquanto juiz, o professor-guardião
é árbitro da observância das normas e ministra as intrincadas rubricas de iniciação à vida. No melhor dos casos, coloca os fundamentos para a aquisição de alguma habilidade, à semelhança daquela que os professores sempre possuem. Sem pretensões de conduzir a uma aprendizagem profunda, treina seus alunos em algumas rotinas básicas (ILLICH, 1995, p. 46).
Como ideólogo, o professor-moralista substitui os pais, Deus ou o Estado. Doutrina os alunos sobre o que é certo e o que é falso, não apenas na escola, mas também na grande sociedade (ILLICH, 1995, p. 46).

No papel de médico,
o professor-terapeuta julga-se autorizado a investigar a vida particular de seus alunos a fim de ajudá-los a tornarem-se pessoas. Quando esta função é exercida por um guardião ou pregador, normalmente significa que persuade o aluno a domesticar sua visão do verdadeiro e seu senso do que é correto (ILLICH, 1995, p. 46).
Não parece que uma criança aluna de tais professores tenha sua integridade preservada. Na conclusão de Illich (ILLICH, 1995, p. 47),
um professor que reúne esses três poderes contribui muito mais para a distorção da criança do que as leis que determinam sua minoridade legal e econômica, ou que restringem seu direito à livre reunião e residência.

Diferente das agressões sofridas em casa, o que há no escopo de leis do estado para evitar tal distorção na criança? Neste ritual da escolarização, o professor é o sacerdote. Tua fala é a verdade e a verdade é a lei. O controle dos pais sobre o que é inculcado a seus filhos ou de como se dá a liberdade de cátedra dos professores torna-se difícil. Nesta relação de controle da escola pelos pais e dos pais pela escola, o aprendizado da criança é que fica no prejuízo.

3. Outra crítica feita ao homeschooling é a falta de formação dos pais para educar os filhos. Certamente que nem todos os pais possuem formação adequada para educar seus filhos, porém não implica dizer que nenhum seja capaz de exercer a função. Além disto, existem diversos grupos de pais e instituições, bem como material didático e instrutivo, que podem ajudar aos pais se tornarem professores. Se o processo de ensino-aprendizagem não é uma mera transmissão de conhecimentos, mas uma dialética entre professor-aluno, então os pais são os verdadeiros professores que ensinam aprendendo. O homeschooling também é um espaço no qual quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender (FREIRE, 1998, p.25).

1 comentário:

F. Celeti disse...

Infelizmente neste dia a Câmara dos Deputados rejeitou dois projetos de leis para legalizar o ensino domiciliar no Brasil.

http://www.midiasemmascara.org/artigos/educacao/12509-legalizacao-do-homeschooling-dois-projetos-rejeitados.html