Este blog partilha informação sobre o homeschooling e o unschooling - ensino doméstico ou educação domiciliar. Para navegarem o site, usem os links acima e, para os posts de 2011, o botão da pesquisa na barra direita. Facebook: Aprender Sem Escola Email: aprendersemescola@gmail.com

quinta-feira, 31 de março de 2011

O Mito dos Especialistas

Trecho do artigo de Jan Fortune Wood

Recentemente, num debate de rádio, uma professora de educação da Alemanha opôs-se à ideia do ensino doméstico com o argumento de que os pais não têm conhecimentos suficientemente especializados para ensinar os seus próprios filhos. O argumento não é novo e persiste apesar da quantidade de pesquisas credíveis que demonstram bons resultados para as crianças educadas em casa independentemente do nível educacional dos pais.

Quando começámos a educar os nossos filhos fora da escola, as pessoas que nos viam nos cafés e supermercados perguntavam quase sempre sobre a legalidade do ensino doméstico. Hoje em dia praticamente todos que nos questionam já ouviram falar da educação em casa e a maioria acha que é uma óptima ideia, dizendo muitas vezes que o teriam feito se se sentissem suficientemente confiantes para "ensinar todas as disciplinas". Os pais que educam os filhos fora do sistema sabem que verdadeira educação não é ser capaz de "ensinar" tudo e que a sua suposta falta de especialização não os impede de ajudar os seus filhos a aprender o que querem, seja culinária ou física.

O mito dos especialistas é enfatizado pela educação convencional. A escolaridade obrigatória remove a aprendizagem não só do controlo do aluno, como também da esfera de influência dos pais. Ambos pais e filhos são desqualificados por um sistema que perpetua o mito de que professores especializados são vitais para a aprendizagem. O conceito de família competente é substituído pela noção de famílias que se conformam ao sistema (e são consequentemente vistas como "boas") ou não se conformam (e são consequentemente vistas como 'más' ou disfuncionais). Por sua vez, a noção de crianças autónomas e racionais é substituída pela ideia de sub-humanos dependentes, com pouca ou nenhuma consciência das suas próprias necessidades e metas de aprendizagem.

Há, sem dúvida, um papel para a especialização na vida moderna. Nós não podemos saber tudo. A especialização de competências e áreas de conhecimento e a interdependência advinda delas são a base para a prosperidade e o progresso humano. Em si, contudo, isso não justifica a falsa 'profissionalização' da aprendizagem. A aprendizagem é uma actividade da vida e a introdução da compulsão e da motivação extrínseca nesta actividade impede o crescimento intrínseco do conhecimento e dificilmente obtem os resultados que os educadores pretendem uma vez que os "produtos" não são passivos mas pessoas humanas, complexas e autónomas.

Pode ser que a escolaridade tenha sido estabelecida no "melhor interesse" das crianças. No entanto, por mais louvável que seja essa intenção, ela é derrubada pelo próprio acto de definir o que é o "melhor interesse" para outro ser humano, e desmorona completamente quando a esse erro-base segue-se o acto de forçar as crianças a frequentar a escola.

Dizer que os especialistas servem um propósito útil e devem ser ouvidos com seriedade é uma coisa; afirmar que as crianças não podem aprender sem professores é outra. A lógica desta ultima asserção simplesmente não é aparente, e esta não é a experiência de milhares de crianças educadas em casa nem a de seus pais.

A maioria dos pais, por mais inseguros que sejam, partem do princípio que (excepto em casos de deficiências insuperáveis) os seus filhos vão aprender a andar, falar, desempenhar um número cada vez maior de funções complexas e demonstrar uma enorme variedade de aprendizagem muito antes da idade escolar. No entanto, surpreendentemente, os pais receiam que estas mesmas crianças vão deixar de aprender e transformar-se em bárbaros ignorantes se não forem obrigados a ir para a escola cada vez mais novinhos para ali aprender o que os supostos especialistas decidem.

A ideia de que a escola e os seus professores são os pré-requisitos essenciais da aprendizagem é tão falsa como generalizada. Todos nós sabemos que a aprendizagem ocorre numa escala muito maior e mais imprevisível do que as escolas podem atender; no entanto a sociedade insiste no culto da especialização dos professores. Por quê?

Continua aqui.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Vídeo: perseguição aos homeschoolers na Galiza

Na sequência deste post, aqui ficam estas duas entrevistas.



Mónica é uma mãe que assume responsabilidade pela educação dos seus filhos. Neste vídeo ela explica a situação em que se encontram os homeschoolers galegos.



Neste vídeo, Marta, mãe de 3 filhos educados fora da escola, fala sobre os problemas causados pela falta de distinção na lei entre o absentismo escolar e o ensino doméstico.

Ler também: Educar em família não é negligência

terça-feira, 29 de março de 2011

O significado de unschooling para nós

Traduzido daqui.

O ensino doméstico é diferente para cada família. Temos amigos que seguem um currículo pré-definido durante todas as manhãs, das segundas às sexta-feiras durante o período lectivo e não fazem nada deliberadamente educacional durante o resto do tempo. Outros insistem em fazer pelo menos uma hora de "aprendizagem", e depois fazem outras coisas com o resto do seu tempo. Também é muito comum vermos famílias fazendo a maior parte da "educação em casa" fora de casa, com vários grupos, participando em actividades temáticas que planejam uns com os outros. Aqui na Inglaterra, em West Yorkshire, há pelo menos um evento destes todos os dias da semana - alguns regulares, outros não. Normalmente todos os pais-educadores são bem-vindos.


Nós fizemos tudo isso, mas ultimamente estamos mais centrados no lar e na família. Descobri, ao longo dos anos, que os meus filhos aprendem melhor quando os deixo assumir a liderança. Por isso ontem fomos ao Royal Armouries. Uma das minhas filhas pediu-me para ir, e então fomos. Quando lá chegámos, dividimo-nos em dois grupos: um adulto para cada criança. Depois seguimos as crianças pelo museu, e não ao contrário. Eu estava com a de 4 anos e, surpreendentemente, ela não se limitou a entrar por um lado e sair pelo outro: ela queria respostas para as suas perguntas, queria saber de onde eram as coisas, e o que estava acontecendo aqui:


Ele está matando o tigre.

Ir ao seu ritmo não é facil - a tentação é ver as coisas que acho que talvez lhe interessem e chamar-lhe a atenção para essas coisas, mas se fizer isso ela deixa de fazer perguntas, e eu sei que as perguntas são vitais para a sua aprendizagem. Assim:


Uau, espadas. Para que servem?

Fez-me baixar para ler a placa, antes de continuar. E só quer uma ou duas palavras: ainda só tem 4 anos. Se ela quiser podemos voltar quando for mais velha. Talvez quando conseguir ler as placas sozinha. Em casa, o método ou estilo de vida é semelhante. Há muitas coisas para fazer. Ao longo dos anos acumulámos uma enorme coleção de coisas, muito bem organizadas e armazenadas de uma maneira visível e acessível. Eu sempre gostei da ideia de Montessori, de preparar o ambiente (embora o nosso não seja estruturado rigidamente), e também, suponho, daquilo que os unschoolers chamam strewing.

Ontem à noite, por exemplo, a velha caixa de livrinhos saiu do armário:


Fiquei surpreendida quando ela quis fazer esta página de acordo com as instruções.

E às vezes apenas querem fazer um bolo:


e colocar a cereja no topo do bolo :-)

Ou fazer desenhos:


Neste momento adoram desenhar casas

Ou pesquisar qualquer coisa no Wikipedia:


enquanto comem uma pizza...

Ou trabalhar nos manuais


ajoelhadas em cima da mesa de jantar.

Ou muitas outras coisas, como ver amigos, conversar com amigos ao telefone, construir / fazer coisas, ler coisas, desmontar coisas para ver como funcionam, fazer perguntas intermináveis, brincar no campo:


O novo baloiço para as "crianças".

A lista de possibilidades é interminável. O principal é que eu nunca pergunto: "O que é que vocês querem fazer agora?" Porque não preciso. Eles mesmos decidem, tirando ideias de livros, amigos, família, TV, internet, jogos ou simplesmente do ambiente e dos seus próprios pensamentos. E eu não proibo nem limito nada: se quisessem, poderiam jogar no computador o dia inteiro, mas nunca querem. E tento não sugerir actividades porque quando sugiro eles deixam de ser criativos e donos da sua aprendizagem.

Isso não significa que eu não faço nada. Eu possibilito tudo o que querem fazer, tentando nunca dizer "não". Mantenho a casa relativamente limpa e arrumada, para que possam estar protegidos e terem o espaço livre que necessitam. Eu organizo o meu tempo e dinheiro para que eles possam obter o que querem, ir onde querem e fazer o que querem quando querem. Eu respondo todas as perguntas que fazem ou ajudo-os a encontrar a resposta (e as perguntas nunca param, graças a Deus!) E leio muito com eles. Ajudo-os a aprender e até os ensino quando me pedem, embora com moderação.

sábado, 26 de março de 2011

A mentalidade unschooler

The Unschooling Mindset - Blake Boles.

Blake organisa unschool adventures, aventuras internacionais e programas de liderança para unschoolers adolescentes. As viagens oferecem aos adolescentes a oportunidade de fazer novos amigos, enfrentar novos desafios e explorar o mundo.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Educar em família não é negligência


As famílias da Galiza precisam do nosso apoio. Ajudem por favor a divulgar o que se está a passar. A Madalen publicou este post, explicando a situação, que passo a traduzir. Espero que a minha tradução esteja correcta; em dúvida consultem por favor o original. Aqui vai, então.

***

[...] a Xunta, em maioria absoluta, aprovou recentemente um projeto de lei que altera a situação das famílias homeschoolers com menores desescolarizados, agravando a sua situação com potenciais acusações de negligência.

A diferença entre este projeto de lei e o Plano de Absentismo Escolar de Barcelona, ​​mencionado anteriormente neste blog, é que não faz distinção entre a situação de absentismo escolar causada por negligência e a situação das crianças que aprendem em regime de ensino doméstico, e isto apesar dos argumentos de representantes da ALE apresentados à Consellería de Trabajo e Benestar de la Xunta, resumidos no site oficial da ALE da seguinte forma:

Em 21 de Julho, a vice-presidente da ALE, Marta García, juntamente com Malvina Sellanes, Laura Mascaró, advogada e mãe que educa em casa, e mais duas famílias galegas, foram recebidas pela Secretaria-Geral do Consellería de Traballo e Benestar de la Xunta de Galicia, Susana López Abella.

O motivo desta reunião foi transmitir ao executivo galego a profunda preocupação sobre o projeto de lei (...) que coloca a "habitual não-escolarização de um menor" na categoria de "negligência", agravando este suposto que até agora permanecia na lei em vigor como um simples "risco". A ALE transmitiu a informação ao despacho da secretária, deixou um pacote de informações sobre esta opção educativa, juntamente com um livro da ALE, e encorajou-os a considerar os argumentos apresentados por registro a fim de salvaguardar os interesses das famílias que educam os filhos em casa.
A diferença entre os dois textos legais, o que ainda está em vigor e o que está em vias de aprovação parlamentar, representa um agravamento da situação em que os homeschoolers se encontram. De acordo com a lei ainda em vigor a desescolarização do menor não se encontra na lista de situações que indicam negligência.

No entanto, a nova proposta introduz a desescolarização no repertório de casos de negligência que pode levar a Junta a assumir a custódia das crianças.

Artigo 52. Situações de negligência. Consideram-se situações de negligência as seguintes:

j) A falta de escolarização habitual da criança ou adolescente com o consentimento ou tolerância dos pais ou pessoas que exerçam a guarda.

O texto torna-se mais grave quando se tem em conta que algumas das outras situações de negligência incluidas no mesmo artigo contêm atenuamentos do tipo "sempre que esta situação envolva danos físicos ou psíquicos ao menor", como c) A negligência grave no cumprimento das obrigações alimentares, higiénicas ou de saúde, sempre que cause um prejuizo grave para a integridade da criança ou adolescente. (...) No entanto, na redacção da alínea j) que pune como situação de negligência a desescolarização do menor, não se estabelece nenhuma situação de moderação, dificultando assim a diferenciação entre o absentismo escolar por negligência de quem exerce o poder paternal e as situações em que a não-delegação da educação [dos filhos] para o sistema escolar oficial é uma decisão fundamentada por parte dos pais, tomada sempre no interesse do menor.

Marta Gracia, ao comparecer perante a Consellería de Traballo e Benestar de la Xunta, apresentou em seus argumentos esta proposta de formulação alternativa:
"I) A falta de escolarização habitual do menor, sempre e quando a dita falta de escolaridade não tenha sido uma decisão voluntária por parte dos pais a fim de educar seus filhos em casa ou em sistemas alternativos que garantem o direito à educação."

Além disso, sendo naquela altura vice-presidente da ALE, colocou na também ALE en red a notícia da mudança legislativa iminente. Posteriormente, lançou-se uma campanha no Facebook para informar e denunciar o perigo da situação para as famílias homeschoolers galegas caso o projeto lei for aprovado, e fóruns como Crianza natural fizeram eco da mudança legal. Mais recentemente Homeschooling Spain partilhou informações sobre a aprovação do projecto-lei acima mencionado pela Xunta na sexta-feira passada.

Além disso, existem pelo menos três famílias galegas que estão a ser investigadas pela administração, sendo duas delas objecto de diligências de investigação em tribunal. Para elas, esta situação adiciona motivos de grande preocupação à angústia causada pela intervenção em si.

Links
Educar en familia non é desamparo, apoio ás familias galegas
La educación en familia en Galicia, amenazada por ley
Se aprueba la "Lei de apoio á Familia e á Convivencia de Galicia"

quinta-feira, 24 de março de 2011

A Opressão da Infância

Depois de publicar este post sobre Teresa Graham Brett, unschooler e autora, resolvi traduzir outro artigo dela sobre a opressão da infância. O apelo parece ser o seguinte

tratem os vossos filhos
como gostariam de ser tratados


***

À medida que comecei a investigar as dimensões da nossa experiência como crianças num mundo dominado por adultos, comecei também a perceber a semelhança das nossas experiências de infância.

Podemos vir de diferentes backgrounds e vivências sociais mas, no entanto, a esmagadora maioria de nós, agora adultos, teve experiências comuns durante a infância.

É esta nossa experiência em comum que cria a base para a desigualdade e dominação na nossa sociedade. À medida que fomos crescendo e sendo socializados por indivíduos e instituições, o impacto dos outros factores sociais, tais como o status sócio-econômico, raça, etnia, gênero, orientação sexual, status de habilidade e/ou religião foram se tornando muito mais acentuados.

Podemos ter tido pais e professores amorosos. No entanto, na nossa cultura e sociedade, o paradigma dominante é um em que os adultos controlam as vidas das crianças. Mesmo feito "por amor", esse controle e dominação fundamentalmente destrói o poder das crianças.

Nosso paradigma ensina as crianças a duvidarem de si mesmas e a aceitar que as "autoridades" tomem decisões por elas e lhes digam o que é certo/correto. A necessidade de autonomia e auto-determinação é sacrificada à necessidade de ordem e produtividade. Doutrinação para este tipo de perspetiva é mais fácil se o poder das crianças for negado e ignorado.

A perda da nossa voz e do nosso sentido de autoridade interior durante a infância cria um terreno fértil para as nossas instituições nos ensinarem que o uso do poder sobre os outros é a única forma em que a nossa sociedade pode florescer, ser produtiva e ter sucesso.

Nas margens da nossa sociedade sempre houveram indivíduos e movimentos sociais que desafiaram o paradigma dominante. Isso também está ocorrendo relativamente ao adultismo e ao tratamento das crianças.

As crianças têm um poder pessoal tremendo. Quando elas se mantêm conectadas a esse poder e essa conexão é honrada pelos adultos, elas são capazes de criar vidas autênticas e saudáveis sem sentirem necessidade de usar o seu poder sobre os outros.

Isto não significa que as crianças que estão conectadas à sua autoridade e poder pessoal não vão ficar zangadas, tristes, bater no irmão ou gritar. Mas a necessidade de readquirir a sua voz e autonomia não será satisfeita à custa dos outros à medida que vão crescendo e tornando-se adultas.

Se estamos dedicados a melhorar o mundo é importante contestarmos as injustiças que vemos ao nosso redor. Se fizermos isso mas continuarmos a ignorar a discriminação da infância perderemos a melhor oportunidade para criar uma verdadeira mudança social.

Como mãe, sei que desperdicei essa oportunidade nos quatro primeiros anos de vida do meu filho Martel. Minha vida profissional era dedicada a tentar resolver a desigualdade; no entanto continuava (e por vezes ainda continuo) a perpetuá-la em casa com os meus próprios filhos.

A um nível muito fundamental, se nós criarmos um mundo onde as crianças são empoderadas desde o nascimento, iniciaremos uma revolução em cada criança que irá mudar a sociedade.

Original

Não faças às crianças e aos jovens
o que não gostarias que te fizessem a ti!


Ver também: O Adultismo

Publicado com permissão da autora

quarta-feira, 23 de março de 2011

O Adultismo

Publiquei recentemente este post sobre Teresa Graham Brett, unschooler e autora. Estive a dar uma olhada no site dela e resolvi traduzir o artigo sobre o adultismo.

Fiquei a pensar que o unschooling, especialmente o unschooling radical, é provavelmente uma das poucas formas de educação não-adultista! Aqui vai então o artigo, espero que gostem.

***


O adultismo é um produto do sistema de opressão. Como o relacionamento pai-filho e adulto-criança define a nossa existência e o nosso mundo desde o nascimento, eu diria que o adultismo permite a perpetuação de todas as outras formas de opressão (sexismo, racismo, heterossexismo, etc).

Em seu artigo Adultos como aliados, Barry Checkoway define o adultismo como "... todos os comportamentos e atitudes que partem do pressuposto de que os adultos são melhores do que as crianças e têm o direito de agir de várias formas sobre elas sem obterem o seu consentimento."

Ele continua, dizendo que,

Excepto os prisioneiros e uns quantos grupos institucionalizados, a vida das crianças e dos jovens é mais controlada do que a de qualquer outro grupo da sociedade.

Além disso, os adultos acham-se no direito de punir, ameaçar, bater, retirar 'privilégios' e ostracizar as crianças e os jovens a fim de os controlar ou "disciplinar".

Se esta fosse a descrição da forma como um grupo de adultos é tratado, a sociedade depressa reconheceria este tipo de comportamento como uma forma de opressão. No entanto, os adultos geralmente não consideram o adultismo como opressivo porque esta foi a maneira como foram tratados durante a sua infância; o processo foi internalizado.

A essência do adultismo é que as crianças e os jovens não são respeitados. Em vez disso, são consideradas menos importantes e, de certa forma, inferiores aos adultos. Os adultos não confiam nas suas capacidades de se desenvolverem corretamente e por isso acham que as crianças devem ser ensinadas, disciplinadas, castigadas, orientadas e preparadas para o mundo dos adultos.

A libertação das crianças e jovens requer a participação activa dos adultos. Um bom ponto de partida é analisar e compreender como nós - os adultos de hoje - fomos maltratados e desvalorizados quando éramos crianças e jovens, e como isso agora nos faz agir de uma maneira adultista.

Geralmente não se escreve muito sobre o adultismo no contexto da parentalidade. Quando o conceito é debatido, o termo adultismo é frequentemente utilizado em artigos que descrevem formas de empoderar adolescentes e jovens adultos. Raramente é usado em relação às crianças mais novas. Quando as crianças atingem a adolescência geralmente já passaram por uma década ou mais de dominação e controle por parte dos pais, professores e dos sistemas sociais que reforçam esse paradigma autoritário.

A natureza da relação entre as crianças e os pais (ou adultos) requer muitos cuidados por parte dos adultos. Muitas vezes, esta função de cuidar obscurece as formas em que nós, pais, perpetuamos o adultismo. Desde tenra idade vemos o nosso papel como o de assegurar a segurança e a saúde dos nossos filhos. Para sobreviver e crescer, as crianças precisam de nós. O facto de que elas podem não ser verbalmente hábeis pode interferir com a nossa capacidade de ver os nossos filhos como sendo plenamente humanos e fazer-nos pensar que precisamos de os controlar para seu próprio bem.

As formas em que perpetuei o adultismo foram (e às vezes ainda são) variadas e geralmente subtis. Eu certamente não as reconheci como tal durante os primeiros 5 anos da vida do meu filho e mesmo agora, quando sou opressiva, nem sempre vejo que isso está acontecendo. Rotular esta relação de controlo em termos que nos desafiam a ultrapassar as nossas suposições de que os adultos são melhores ou superiores às crianças pode ajudar-nos a entender a forma como usamos o nosso poder para controlar e, ultimamente, magoar as crianças.

Original
Ver também: A Opressão da Infância
Publicado com permissão da autora

***

Para refletir


O que é o adultismo?

Quais são as consequências do adultismo para os indivíduos e para a sociedade?

Em que tipo de situações te achas no direito de punir, ameaçar, bater, retirar 'privilégios' e ostracizar os teus filhos a fim de os controlar ou "disciplinar"?

De que formas foste maltratada e desvaloriza quando eras criança?

De que forma perpetuas esse tipo de tratamento?

Se és professor/a, ou educas os teus filhos fora da escola, de que forma perpetuas o adultismo no campo do ensino-aprendizagem?

terça-feira, 22 de março de 2011

Quando o saber não vem da escola

Trecho do artigo de Adriana Czelusniak publicado na Gazeta do povo


“Quem admitir que faz o homeschooling corre o risco de no dia seguinte ter um promotor de Justiça na porta de casa. Estou morrendo de medo de uma denúncia dos meus vizinhos.” A frase é de um pai que prefere educar seus filhos em casa, e não na escola, baseado no método chamado de homeschooling, que não é reconhecido no Brasil. Não há como saber quantas pessoas adotam a prática no país, mas, segundo o doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro João Malheiro, estima-se que existam ao menos 100 famílias adeptas. Porém, como os pais temem ser punidos se descobertos, esse número pode ser muito maior.

Entre as motivações estão razões morais ou religiosas, problemas com experiências escolares anteriores (como o bullying) e distância entre casa e escola. Mas o principal motivo apontado pelos “homeschoolers” é a insatisfação com a qualidade do ensino oferecido pelas instituições públicas e privadas.

***

Método internacional

Inglaterra, França, Canadá e Estados Unidos, onde estima-se que cerca de 2 milhões de crianças estudem em casa, permitem o ensino domiciliar. Nesses países, a formação acontece ao lado dos pais, ou de professores diretamente contratados por eles, com algum auxílio da internet. Segundo especialistas, um modelo semelhante poderia ser implantado no Brasil.

“Qualquer pai no mundo é capaz de amar seu filho, dar contexto e buscar as ajudas necessárias para os conteúdos que a criança tem necessidade”, afirma o especialista em Grupos Operativos e mestre em Educação Claudio Oliver.

Ler na íntegra aqui.

Ver também: educação domiciliar gera divergências entre famílias, professores e a Justiça brasileira

segunda-feira, 21 de março de 2011

Venham conhecer os unschoolers

Parentalidade para mudar o mundo



Quem são vocês?

Teresa, Rob e Martel (9) e Greyson (4). Praticamos o unschooling radical e vivemos em Tucson, Arizona.

A grande paixão de Teresa é o impacto que o estilo de parentalidade que respeita e apoia as crianças pode ter no mundo, especialmente no âmbito da mudança e justiça social.

Rod adora história e adora viajar. Com outras famílias de unschoolers, está planeando uma viagem a Inglaterra para ver a Batalha de Hastings.

O Martel adora jogos de vídeo e coloca seus clipes no seu canal youtube. Greyson adora dinossauros e dragões.
Todos nós adoramos estar juntos em família.

Como defines o unschooling?
Uma vida baseada na busca e investigação de quem somos, na conexão constante com a nossa autoridade e voz interior, combinada com o respeito mútuo, amor e sentido de humor.

Há quanto tempo praticam o unschooling?
Os nossos filhos nunca frequentaram a escola. Começámos a praticar o unschooling radical quando o Martel tinha 5 anos.

Porque optaram pelo unschooling?
Seguimos esta abordagem porque é a que melhor se enquadra na nossa maneira de ser e a que melhor reflete os nossos valores e o modo como queremos viver as nossas vidas.

Quais são as vantagens do unschooling?
O aprofundamento do nosso relacionamento em família, e a oportunidade de des-aprender em adultos as mensagens prejudiciais que aprendemos em criança sobre o que significa ser criança na nossa sociedade.

Como conseguem suster o vosso estilo de vida?
Teresa faz consultoria de ensino superior concentrando-se no diálogo inter-grupo, no planejamento estratégico baseado em valores, e na área da diversidade. Rob é o homem dos sete oficios: arqueologia, construção, carpintaria, etc. Temos a nossa própria empresa.

Se pudesses dar um conselho aos que estão considerando o unschooling, que dirias?
Como pais, o nosso papel é ir além do nosso condicionamento e da nossa socialização. Precisamos de fazer todo um trabalho interior a fim de não obstruirmos o percurso dos nossos filhos. Tomamos decisões em conjunto, gostamos de viajar juntos, mas cada um de nós está seguindo seu próprio percurso.

Link
Parenting for social change

Publicado com permissão da autora.

domingo, 20 de março de 2011

O céu e a lua na véspera do equinócio...

Ontem à tarde...

Sabem que tipo de nuvens são estas?

E a maior lua cheia das últimas duas décadas, vista do quintal :-)

sábado, 19 de março de 2011

Ensino em casa gera polêmica no Brasil

Encontrei hoje este vídeo e resolvi partilhar...



Ver também: O mito dos especialistas

sexta-feira, 18 de março de 2011

quinta-feira, 17 de março de 2011

Punk Rock Homeschoolers



Homeschoolers há muitos, e de todos os tipos!
Desde punk rockers, como estas duas mães e seus filhos,



a famílias que preferem outros tipos de música
o ensino domiciliar está se tornando cada vez mais comum :-)

Estudar em Harvard, ter aulas de francês em grupo, trabalhar voluntariamente no hospital e passar um dia no deserto são apenas algumas das coisas que poderiam ver num dia típico de ensino domiciliar, hoje radicalmente diferente do era há uma década atrás.

Antes considerado um movimento cristão,
o ensino domiciliar está se tornando
cada vez mais comum,
atraindo famílias
de todos os tipos.

Enquanto a maioria dos pais-educadores continuam citando valores éticos e/ou religião como uma das principais razões para manter os filhos fora das escolas públicas, a educação em casa está se tornando cada vez mais atraente para um público cada vez mais amplo.

No ano passado, segundo resultados de pesquisa, o número de alunos que estudam em casa nos EUA ultrapassou os 2 milhões - enquanto que há 10 anos eram apenas cerca de 850.000.

"Tornou-se uma opção dominante para a maioria dos americanos", disse Brian Ray, presidente do National Home Education Research Institute.

Ler o resto aqui.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Há um ano...

Ontem o tema foi o nascimento,

mas hoje lembro a morte

porque há um ano
foi o funeral do meu marido

Para ele,
uma canção

***

terça-feira, 15 de março de 2011

Blogagem colectiva : As fases da vida

Convidada pela Rute, estou participando na blogagem colectiva sobre as fases da vida, começando hoje com o Nascimento.

***

Dizem-me que nasci há 44 anos. Digo-vos que nasço todos os dias, que renasço a cada momento. Recentemente, num grupo de prática da comunicação não violenta, alguém desabafou: como gostaria de viver numa sociedade com um maior nível de literacia emocional!

Numa sociedade em que, em vez de juízos de valor, aprendemos a comunicar o que observamos; em vez de darmos opiniões, exprimimos os nossos sentimentos; em vez de esperarmos que os outros concordem as nossas estratégias, estamos conscientes das necessidades subjacentes, e em vez de fazermos exigências e ameaças, arriscamos fazer pedidos, mesmo sabendo que a resposta pode ser um "não".

Na escola nada aprendemos sobre o nosso mundo interior. Ninguém nos ensina a conectar com "o reino de Deus" que está dentro de nós. Ninguém nos alerta para este mundo de sensações, pensamentos, sonhos, fantasias, emoções e necessidades. O resultado é que vamos crescendo desconectados e alienados de nós mesmos.

A conclusão a que eu cheguei é que se eu não estiver consciente das minhas necessidades como poderei satisfazê-las? As crianças aprendem com o exemplo; fazem o que fazemos, e não o que dizemos. Por isso, se queremos que os nossos filhos aprendam a cuidar de si emocionalmente, temos que dar o exemplo.

O processo começa por estarmos conscientes dos nossos sentimentos, porque são eles que nos indicam o que estamos precisando. Sabendo aquilo que precisamos, podemos então pensar em várias maneiras de satisfazer essas nossas necessidades humanas. E quando nos familiarizamos com este processo, quando vivemos conectados com aquilo que está vivo em nós, desenvolvemos a nossa capacidade de empatia e tornamo-nos capazes de ajudar os nossos filhos a desenvolver sua inteligência emocional.

Quando fazem uma birra, em vez de berrarmos "cala a boca!", ou "pára lá com isso, que já me estás a irritar!", podemos dizer "estás triste porque precisas de brincar?", ou "estás zangada porque precisas de atenção e carinho e eu ando sempre ocupada?", e assim por diante...

Com este tipo de intervenção ajudamos os nossos filhos a identificar as suas emoções, a compreender a ligação entre os sentimentos e as necessidades que revelam, e a comunicar de uma maneira muito carinhosa. E como todos nós adultos vivemos com a nossa criança interior, podemos aprender a ouvi-la e amá-la como deve ser!



Deixo-vos um vídeo - espero que vos inspire a conectar com todas as vossas necessidades, e com as dos vossos filhos, pois nem só de pão vive o homem. Também precisamos cuidar da alma, do espirito, do coração!

Lembrem-se: a gente nasce todos os dias, amanhã é um novo dia, para vocês, e para os vossos filhos. O passado já passou, não passa de uma memória. Não percam tempo com auto-censuras. Ninguém é perfeito.

Em vez disso, tornemos realidade os nossos sonhos. A gente faz-se e refaz-se. Dia novo, vida nova! É só querer renascer! E com o renascer de cada uma de nós contribuimos também para o nascimento de uma nova sociedade :-)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Entrevista com uma unschooler agora adulta II

Parte I aqui.

Mais tarde, sem licenciatura ou estudos nessa área, abri o meu próprio negócio e depressa cheguei à conclusão de que o tempo e dinheiro que se perde para tirar um curso superior teriam sido um desperdício, pois podia aprender sozinha tudo que me ensinariam na universidade, especialmente nesta época em que temos acesso a infindáveis ​​recursos!

Isso não quer dizer que um dia não decida tirar um curso. Mas não sinto a necessidade de uma licenciatura para fazer as coisas que quero fazer na minha vida. Não vejo, e nunca vi, a necessidade de alguém aprovar o que sei ou posso fazer e, a não ser que um dia decida ser médica, não vejo isso mudando.

Estás ganhando dinheiro?
Sim, claro!

Que trabalhos (ou maneiras de ganhar dinheiro) tens ou tiveste?
Durante a minha adolescência tive vários cargos simples, como empregada de loja ou auxiliar de escritório. Nunca duravam muito porque eu não gostava do trabalho ou do dinheiro que estava ganhando e queria algo mais. Quando me apercebi que não precisava de qualificações para arranjar um emprego, depressa percebi que também não preciso de nada que não funcione para mim.

Agora trabalho por conta própria: sou escritora e blogueira, fotógrafa, coach de unschooling, massagista e freelancer. Faço aquilo que adoro e não sinto que preciso ou que deva escolher apenas uma área. O mundo é demasiado grande e há muitas coisas a fazer para me limitar a apenas um dos meus interesses.

Arranjaste trabalho gratificante e agradável?
Claro! Adoro o que faço e tenho certeza que aquilo que faço vai mudar e evoluir, tal como eu.

Achas que o unschooling teve um impacto na facilidade ou dificuldade de arranjar emprego ou ganhar dinheiro?
Nem por isso, não do modo como vejo o unschooling. Eu não acho que o "unschooling" me tenha criado ou dado uma habilidade. Acho que me deu simplesmente a liberdade para eu me criar a mim mesma e que apoiou as minhas habilidades inatas. Enquanto a escolaridade e as mentalidades limitadas entravaram o meu progresso, o unschooling não obstruiu o meu percurso.


Achas que o unschooling teve um impacto nos métodos de ganhar dinheiro ou nos empregos a que te atraiem?
Sim. Eu não acredito que "tenho de" estar presa a algo que não gosto. Não acredito que me devo conformar ou "me sentir grata" a algo que não me preenche. E desejo muita liberdade criativa. Já não trabalho por conta de outrém há pelo menos 10 anos e teria dificuldade em fazê-lo novamente se não tivesse essa liberdade criativa e autonomia.

Que impacto teve o unschooling na tua vida?
Um impacto enorme. Influenciou todas as facetas da minha vida, desde o meu relacionamento com o meu esposo, a minha abordagem à parentalidade, à minha vocação, às minhas perspectivas sobre a política, saúde e questões sociais. Baseio tudo na liberdade, apoio à pessoa inteira e em viver sem condições ou medos.

Se pudesses voltar atrás, mudarias algo na tua aprendizagem ou jornada educacional?
Acho que não, embora me pergunte o que teria sido diferente se tivesse deixado a escola mais cedo ou se me tivesse conectado mais com o mundo depois de ter deixado a escola. Penso que as minhas experiências me influenciaram e que o contraste entre elas me ajudou a crescer.

Praticas o unschooling com o teu filho?
Sim, embora não desde o princípio. O meu filho, que agora tem 11 anos, andou numa escola privada durante 2 anos, e não foi uma experiência saudável para ele. Embora eu tivesse deixado a escola em adolescente, ainda tinha uma visão limitada relativamente a quando uma pessoa podia deixar o sistema, pensando, por exemplo, "claro, a escola não é para todos, mas primeiro temos que aprender as bases." Ainda tinha que desescolarizar a minha mente! :)

Mas a minha experiência ajudou-me a depressa optar pelo unschooling. Depois de o tirarmos da escola, comecei a confiar não só na minha intuição sobre a aprendizagem (escolas livres sempre me atrairam), como também nos interesses e instintos naturais do meu filho.

Que conselhos darias aos jovens que querem deixar o ensino médio?
Confiem nos vossos instintos. Experimentem coisas novas. Conectem-se com pessoas diferentes. Abram-se para o mundo. Relaxem. Apressem-se. A vida é cheia de tantas oportunidades, a maioria delas escondida e exigindo uma busca apaixonada por elas.

Que conselhos darias a quem quer deixar, ou não frequentar, a universidade?
O mesmo conselho que daria a qualquer pessoa tomando qualquer decisão. A universidade é um percurso. Não nega nem garante qualquer outro percurso. Confiem nos vossos instintos. Caminhem em direção aos vossos sonhos. E não caiam na armadilha de ouvir os medos das outras pessoas. Ou, lá por isso, de ouvir os vossos próprios medos!

Que conselho darias aos pais que seguem o unschooling (ou gostariam de o fazer)?
Desacelerem e passem muito mais tempo construindo um bom relacionamento com os vossos filhos e confiando neles do que em qualquer outra coisa. Depois, comecem a a seguir os interesses deles, convidando coisas e pessoas novas nas vossas vidas, e criando um ambiente rico em que toda a família possa prosperar. Não fiquem enredados nos medos dos outros e não projetem os vossos próprios medos, crenças ou desejos nos vossos filhos.


Queres adicionar algo?
Não deixem que um rótulo vos defina. O rótulo do unschooling pode libertar... ou limitar. Em vez de abraçarem um rótulo, abracem a maneira como se querem sentir - felizes, conectados, aventureiros? Focalizem nessas coisas e deixem a confiança, liberdade e compaixão ser os vossos guias.

Original aqui.

domingo, 13 de março de 2011

Entrevista com uma unschooler agora adulta

Tara é mãe, escritora e coach da vida orgânica, especializando-se na aprendizagem da vida, parentalidade orgânica e em como ter uma vida autêntica. Actualmente viaja nos EUA com o marido e o filho num caminhão convertido para funcionar com óleo vegetariano e um RV alimentado por energia solar. Podem encontrá-la no OrganicSister e SustainableBabySteps.


Quando te tornaste unschooler?
Deixei "oficialmente" a escola a meio do 9º ano, mas tinha começado a pesquisar o unschooling alguns anos antes.

Quanto tempo seguiste o unschooling?
Aprendi fora da escola durante o resto do ensino médio. Mais tarde, em vez da faculdade, fui para uma escola de massagem e depois, para o empreendedorismo, escolhi o autodidatismo.

Quantos anos tens agora?
29

Se foram os teus pais que optaram pelo unschooling, por que motivo tomaram essa decisão?
Não foi a minha mãe que decidiu mas ela apoiou a minha decisão, acreditando que "a escola não é para todos" e na minha capacidade de criar o meu próprio sucesso.

O que te levou a essa decisão, e como se desenrolou esse processo (como é que os teus pais, amigos, professores, etc, reagiram? Que desafios enfrentaste e como os conseguiste superar?).
Eu tinha gostado da escola e dos trabalhos escolares até ao 7º ano. Mas a mudança de escola confundiu a administração e colocaram-me em aulas que já tinha feito. Fiquei incrivelmente entediada! Sem ser desafiada, deixei de gostar da escola. Também não gostava da "cena" altamente dramática da escola e sentia-me mais confortável na companhia de adultos.

No 9º ano, a minha disciplina preferida (inglês) passou a ser a que menos gostava. Em vez de fazer o que queria, ler e escrever, estava re-aprendendo a capitalização e tentando convencer o professor que já sabia a diferença entre um ponto de interrogação e um ponto de exclamação desde o 2º ano. (A professora disse que se isso fosse verdade eu não estaria na sua sala de aula e a administração dizia que quem decidia se eu precisava de uma classe diferente era a professora!)

A minha transição para o unschooling começou comigo faltando às aulas, e só indo às que eu gostava ou que me estimulavam (foi aqui que o meu interesse pela ciência e computadores começou). Eles tendem a desaprovar o atendimento seletivo, por isso suspenderam-me.

Acho que perguntei à minha mãe se podia aprender em casa, mas nunca pensámos praticar a "escola em casa". Nunca tínhamos ouvido falar do unschooling e não nos juntámos a nenhum grupo de homeschoolers. Por causa disso, penso que muitas pessoas viam-me como um caso de "abandono escolar", apesar de eu nunca me ter identificado como tal. Sabia que tinha tomado uma decisão consciente e, com o apoio da minha mãe, senti-me empoderada.

Acho que o maior desafio que enfrentei foi ultrapassar a mentalidade dos meus colegas. Como nunca nos juntámos a outros homeschoolers e nunca tinha ouvido falar do unschooling, eu continuava a conviver com os mesmos amigos de antes. A minha perspectiva era limitada pelas deles e não expandiu até anos mais tarde, quando comecei a procurar informação sobre novas ideias e maneiras de viver.

Como para mim o unschooling é um modo de vida, agora eu vejo que durante essa fase eu estava desescolarizando a mente. Cometi muitos erros ​​durante essa tentativa de recuperar a minha autonomia mas com essas experiências aprendi o que não queria como parte da minha vida.

Para ti, qual é a melhor coisa do unschooling ?
A liberdade: a liberdade de criares a tua própria vida, de curar, de crescer sem limites, de investigar sem limitações. Coisas surpreendentes acontecem quando temos liberdade.

E para ti qual é a pior coisa do unschooling (ou a mais difícil)?
Acho que ir contra a norma e fazê-lo sem apoio pode ser muito difícil. Se uma pessoa vive numa zona em que não há nenhum grupo de unschoolers, pode ser mais susceptível a críticas ou pressões para se conformar ao modo de pensar do resto da sociedade.



Decidiste não ir para a faculdade ou universidade? Fala um pouco sobre essa experiência e sobre o que decidiste fazer em vez disso.
Eu não precisava de frequentar a faculdade para fazer o trabalho que queria fazer nessa época (massagem terapêutica). Por isso, em vez de ir para a universidade, decidi inscrever-me numa escola de massagem.

Continua aqui.
Original aqui.

sábado, 12 de março de 2011

EUA: nova lei facilita o ensino domiciliar

Uma nova lei irá dar às famílias de Dakota do Sul a liberdade de educar os filhos em casa sem a intrusão indevida das autoridades.

A nova lei, que entra em vigor em 1 de Julho, permitirá que os pais comecem a educar os filhos logo que queiram, depois de apresentarem a devida documentação às autoridades da sua zona, eliminando a necessidade prévia de receber a aprovação oficial das escolas - que por vezes não eram cooperantes, chegando até a serem antagônicas às necessidades das famílias que optam pelo homeschooling.

Segundo a Home School Legal Defense Association, embora os conselhos escolares não tenham de lei a autoridade para indevidamente recusar a aprovação, alguns tornam as coisas difíceis para os pais que optam pelo ensino domiciliar, com pelo menos duas escolas bloqueando e até se negando a aprovar o homeschooling durante este ano escolar - facto que levou a lei a ser modificada para eliminar esse requisito.

Ler o resto aqui.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A escola não pode ter o monopólio da aprendizagem



Na Espanha, cerca de 2.000 famílias decidiram se responsibilizar pela educação dos filhos em vez de os mandarem para a escola. As razões que os levaram a esta decisão são variadas, desde não acreditarem no sistema educacional, a experiências negativas na escola.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Ensino Doméstico: o medo do desconhecido IV

Como lidar com situações que provocam ansiedade / medo

Precisamos de nos lembrar que:

1. As coisas que acontecem, a nós e/ou aos nossos filhos, são o amadurecer de uma enorme rede de acções individuais e de forças históricas, sociais e económicas. De quando em quando, a vida traz-nos coisas que não queremos, e nós não podemos proteger os nossos filhos, não obstante os cuidados que possamos ter e a orientação que lhes vamos dando. Tudo o que podemos fazer é orientá-los e querer-lhes bem.

2. Para superar o medo dos potenciais problemas temos que não enterrar a cabeça na areia. Em vez de fugirmos do medo, temos que eliminar a falta de informação, os mal-entendidos e a confusão que está causando a ansiedade.

3. Ao trabalharmos para eliminar o medo, continuaremos a experienciar problemas e ansiedade porque os altos e baixos fazem parte da vida. O progresso nunca é linear; às vezes as coisas correm bem e às vezes não.


Métodos para lidar com o medo

1. Lembrar o nosso objectivo de vida, os nossos valores, os nossos ideais, o tipo de educação que queremos proporcionar aos nossos filhos.

2. Ao enfrentar uma situação assustadora, como por exemplo ser denunciado e enfrentar a justiça, imaginar o pior que pode acontecer, o que aconteceria a seguir, e como poderíamos lidar com isso. Isto ajuda a afugentar o medo do desconhecido.

3. Antes de começarmos o ensino domiciliar, ou de optarmos por uma abordagem em particular, pensar em várias alternativas de modo a não ficarmos na situação assustadora de não termos outra forma de alcançar o nosso objectivo caso o plano original falhar. Por exemplo, nem todas as crianças reagem bem à "escola em casa" mas aprenderiam facilmente seguindo a metodologia do unschooling.... ou vice-versa, claro!

4. Lembrar que se pudermos fazer algo, porquê a preocupação; façamos apenas aquilo que podemos fazer. Se não houver nada que possamos fazer, então porquê a preocupação; ela não ajudará em nada!

5. Lembrar que a nossa mente é tão profunda e vasta como o oceano e, quando o medo ou a ansiedade surgirem, deixá-los passar como se fossem ondas na superfície do oceano. As ondas nunca perturbam as profundezas calmas e tranquilas do oceano...

6. Lembrar de conectar com a nossa natureza mais profunda. Somos inteligentes, temos a capacidade de compreender situações difíceis e assustadoras, reconhecer padrões, apreciar a individualidade da situação, e saber como agir (ou não agir, quando vemos que não há nada a fazer).

7. Lembrar que temos muitas qualidades dentro de nós, mesmo que não estejamos conscientes de todas elas.

8. Lembrar que o medo é um evento passageiro.

9. Lembrar que podemos ser inspirados por outros, como o Cleber Nunes, a ter coragem para enfrentar situações assustadoras.

Adaptado de um texto de Berzin

terça-feira, 8 de março de 2011

Ensino Doméstico: o medo do desconhecido III

Na minha perspectiva, sentirmo-nos seguros não envolve:

1. virarmo-nos para especialistas que nos possam dizer o que fazer, uma vez que um dos princípios do homeschooling, e muito especialmente do unschooling, é tomarmos responsibilidade pelo nosso percurso, pela nossa vida, pela nossa aprendizagem;

2. a necessidade de satisfazer os requisitos do Estado e/ou de um currículo obrigatório, nem de fazer compromissos ou sacrifícios a fim evitar potenciais problemas;

3. tornarmo-nos, nós próprios, "especialistas".

Para nos sentirmos seguros, precisamos de:

1. saber do que temos medo e qual é a confusão e/ou a informação cuja ausência está causando o medo;

2. ter uma ideia realista do que significa lidar com aquilo que tememos, especialmente em termos de nos livrarmos da confusão ou falta de informação subjacente;

3. avaliar a nossa capacidade de lidar com aquilo que tememos, tanto agora como a longo prazo, sem a exagerar nem diminuir, e aceitando o estágio actual do nosso desenvolvimento;

4. implementar aquilo que podemos - conscientes que uma viagem de mil milhas começa com o primeiro passo - e alegrarmo-nos com os passos que vamos dando em direção ao nosso objectivo; por outro lado, se vemos que estamos bloqueados, precisamos de tomar a decisão de implementar o nosso plano e dar o primeiro passo;

5. se neste momento não nos sentimos capazes de seguir em frente, precisamos entender como chegar ao ponto em que nos sentiremos capazes de o fazer;

6. ter como objectivo fazer o que seja preciso para chegar a esse ponto;

7. sentir que estamos a seguir uma direcção segura.

O percurso do homeschooling e do unschooling não é passivo, pois requer um envolvimento activo no processo de realizar os nossos ideais e manifestar os nossos sonhos. Para isso, precisamos de nos livrar dos medos que nos paralizam.

Sentimo-nos seguros e protegidos porque sabemos que estamos seguindo um caminho autêntico, em que as nossas acções estão de acordo com os nossos ideais, sabendo que, passo a passo, estamos seguindo uma direção correta na vida, confiando no impacto positivo que terá não só nos nossos filhos como também para as futuras gerações que, em vez de serem reduzidas a mero capital humano terão a oportunidade de viver a plenitude do seu potencial humano.

Continua...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ensino doméstico: o medo do desconhecido II

Infelizmente, em Portugal e no Brasil, o acesso à informação sobre o ensino doméstico é difícil, especialmente em relação à legislação e às potenciais consequências de não a seguirmos tin tin por tin tin! E se há coisas que "desengatilham" o medo, a ausência de informação, ou a informação incorrecta, é uma delas. Qualquer modo distorcido de ver as coisas tem o potencial de deflagar o medo.

Pensarmos que deveríamos ser capazes de controlar tudo, por exemplo, de fazer com que os nossos filhos sejam excelentes estudantes e venham a ter excelentes resultados, revela um modo distorcido de ver as coisas. Também seria um disparate pensarmos que se os nossos filhos não se tornarem aquilo que imaginamos ser o melhor para eles, isso se deve a uma falha pessoal da nossa parte. As coisas não são assim tão simples como isso! Não são o resultado de uma "causa única" mas da conjunção de uma rede de diversas causas e circunstâncias que interagem entre si.

Quando temos medo de não sermos capazes de proporcionar a melhor educação possível aos nossos filhos, isso significa que não estamos conscientes que, tal como qualquer professor em escolas públicas ou privadas, não somos perfeitos e, naturalmente, iremos cometer erros e às vezes falhar...

O medo de sermos incapazes de educar os nossos filhos fora do sistema escolar pode ser um medo de não conseguirmos fazê-lo sozinhos. Muitas vezes, especialmente no inicio, queremos encontrar alguém que possa aliviar a situação. Por vezes, isso pode significar que, no fundo, vemo-nos como incompetentes, inadequados e sem a capacidade de aprender; imaginamos que existe “alguém” melhor do que nós que nos pode salvar.

Podemos estar corretos ao pensar que neste momento não temos conhecimentos suficientes para lidar com algo, por exemplo, não sabemos como transferir os nossos filhos para o ensino domiciliar, e outra pessoa pode ter esse conhecimento e ser capaz de nos ajudar. No entanto, isso não significa que nós não possamos aprender.

Outro medo: o medo de ser denunciado, enfrentar a justiça e ver os nossos filhos raptados pelo Estado... o medo de não conseguirmos controlar as nossas emoções ou a perda dos nossos filhos... mas quais são as probabilidades de isso vir a acontecer? Sim, é algo que aconteceu na Suécia e na Alemanha mas, como diz o Fábio, o Governo não anda por aí à procura de pais que ensinam os filhos em casa!

Quando temos medo de alguém, por exemplo, das autoridades, é porque não os vemos tal como eles são. Os funcionários das escolas, das direcções regionais de educação e dos serviços sociais são seres humanos, tal como nós. Querem ser felizes e não querem problemas, querem ser apreciados e não querem críticas alheias. Têm vidas fora do escritório que afetam o que sentem. Se conseguirmos nos relacionar com eles em termos humanos, mantendo-nos cientes das nossas respectivas posições, teremos menos medo.

Continua...

sábado, 5 de março de 2011

Ensino doméstico: o medo do desconhecido

Muitas pessoas gostariam de educar os filhos fora do sistema escolar, adorariam praticar o ensino domiciliar ou o unschooling, mas não o fazem porque têm medo...

Os medos são muitos: medo do desconhecido, de seguir o "caminho menos trilhado", da crítica alheia, do que os outros vão pensar, de não estar à altura, de não ser capaz de proporcionar a melhor educação possível aos filhos, das autoridades e, no Brasil, medo de ser denunciado e enfrentar a "Justiça".

Os pais que optam por esta via são geralmente pessoas excepcionais, capazes de lidar com os medos que inevitavelmente nos visitam de quando em quando. Como alguém disse, coragem não significa não ter medo, mas enfrentá-los e seguir em frente.

Afinal o que é o medo? O medo é o desconforto físico e emocional que sentimos relativamente a algo, conhecido ou desconhecido, que acreditamos não ter a capacidade de enfrentar. Exageramos as qualidades negativas daquilo que tememos e convencemo-nos que não somos capazes de controlar ou lidar com a situação. Focalizamos então naquilo que receamos com esta perspectiva, que pode estar correta ou incorreta.

Continua...

Para refletir
Quais são os teus medos relativamente ao ensino doméstico?

sexta-feira, 4 de março de 2011

Vídeo sobre o ensino doméstico



Mais de um milhão de crianças americanas são educadas em casa, e esse número está a aumentar. O vídeo, produzido por Natasha Chen, investiga as vantagens e desvantagens do ensino domiciliar.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A morte e o ensino domiciliar

Como hoje foi o primeiro aniversário da morte do meu marido, pensei escrever sobre a morte que é, afinal, a única certeza que temos na vida, embora a maioria de nós ande em negação total desse facto, acreditando que a morte só acontece aos outros, evitando imaginar a morte do nosso cônjuge / companheiro, vivendo como se fossemos imortais... e nunca pensando no impacto que a nossa morte, ou a morte de um dos pais teria na vida dos filhos.

As pessoas que praticam o homeschooling e o unschooling não estão imunes à morte. Às vezes, sabemos de antemão que a morte é inevitável, mas outras vezes a morte vem de repente, inesperadamente, como aconteceu conosco há um ano atrás. E que bom que praticamos o unschooling! Porque pudemos organizar o ritual do funeral à nossa maneira, tal como pudemos organizar o primeiro aniversário da morte, o que muito nos ajudou a processar a perda e a nossa própria mortalidade.

No seu blog, Savannah explica esta vantagem do homeschooling

Tivemos hoje a morte de um nosso familiar e fiquei a pensar como a prática do ensino domiciliar é uma benção em momentos como este. Não temos que dar explicações a professores e directores sobre a ausência da escola nem dos trabalhos de casa. As crianças têm a oportunidade de expressar a sua dor à sua própria maneira sem o escrutínio do pessoal da escola. As crianças não precisam "se conter" até ao fim das aulas. Podemos parar tudo e oferecer o apoio emocional que as crianças precisam assim que elas precisem. O ensino doméstico também nos oferece a oportunidade de falar sobre a pessoa que morreu e reflectir sobre a vida, a morte e a eternidade.

E, aqui, Heather ajuda-nos a considerar aspectos mais práticos,

Em geral, a possibilidade de praticar o unschooling depende de um ordenado e a morte repentina de um dos pais poderia devastar a família. Não só por causa da morte de um dos pais mas porque de repente o outro progenitor precisa de ir trabalhar para apoiar financeiramente a família. Em nossa casa estamos tomando as medidas necessárias para estarmos preparados, pois a morte nem sempre nos avisa que vai chegar. Quer pratiquem a "escola em casa" ou o unschooling, a situação privilegiada de poder ficar com os filhos em casa é algo que não precisa mudar no caso da morte de um dos pais.

Heather sugere o que podemos fazer aqui.

quarta-feira, 2 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

Laura Mascaró fala sobre "la educación en casa"

O que se segue foi retirado do excelente blog La opción de educar en casa.



César Vidal entrevista Laura Mascaró, Presidenta da Asociación para la Libre Educación.

1. Laura respondeu à pergunta de Jose Alejandro Vara, editor da Vocento, "o homeschooling é uma rejeição da escola como instituição ou do nível profissional dos professores?", dizendo que "optar pela educação em casa não significa necessariamente estar contra a escola. E isso é algo em que insistimos muito. Não somos contra a escola e a nossa mensagem não é que o homeschooling é a panacéia para todas as famílias, mas que é para algumas. Nós não rejeitamos completamente a escola ou, pelo menos, nem todas as famílias o fazem."

2.Perante a pergunta de João Muller, director adjunto do El Mundo, com respeito à oferta de educação obrigatória como um remédio para a marginalização e maus tratos infantis, Laura afirma que a escola não pode detectar todos os casos de maus-tratos, "e voltamos à questão da regulamentação legal: se o homeschooling fosse reconhecido na Espanha haveria um certo controle. Eu não tenho problema nenhum em abrir a minha casa aos serviços sociais ou a pessoa correspondente para que compreendam que meu filho está bem. Eu sou a primeira a querer que se comprove que as crianças estão bem."

3. Finalmente, salienta que a flexi-escola, em sua opinião, "seria uma opção desejável em Espanha."

4. Conforme dados do homeschooling na Espanha:
3000 ou 4000 famílias (dobro de crianças)
250 famílias na ALE
50 famílias na Coordenadora