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domingo, 17 de outubro de 2010

A doença dos diplomas

Diploma disease é um termo desenvolvido por Ronald Dore como parte da sua crítica à excessiva dependência quanto ao processo de seleção das instituições educacionais formais (e, portanto, das qualificações) como prova de habilidade, treino e mérito para entrada em certas profissões, carreiras ou no mercado de trabalho interno. Este fenómeno é por vezes chamado inflação de credenciais (ou qualificações) acadêmicas.

Como consequência não-intencional da crença de que as qualificações acadêmicas são essenciais para se conseguir os empregos mais bem pagos e mais seguros, os indivíduos esforçam-se continuamente por obter qualificações acadêmicas cada vez mais altas a fim de conseguirem empregos que anteriormente não exigiam estas qualificações, e para os quais a educação que adquiriram nem sequer os prepara.

A educação torna-se assim um mero processo ritualista de acumular qualificações.


Fonte: GORDON MARSHALL. "diploma disease." A Dictionary of Sociology. 1998.

Vale a pena ler:
Healing Ourselves from the Diploma Disease (abre ebook)
Healing Diploma Disease

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Programa sobre John Holt

O Instituto Ludwig von Mises apresenta The Libertarian Tradition, um podcast semanal com Jeff Riggenbach. Podem acompanhar o programa aqui.


Entretanto, deixo-vos aqui a tradução de uma passagem sobre a disciplina.

Em Freedom & Beyond, Holt escreveu:

"Quando as pessoas falam sobre a importância dos filhos aprenderem a ser disciplinados, o que é que realmente querem que eles aprendam? Provavelmente, a maioria ou todos do seguinte:

1. Faz o que te digo, sem questionar nem resistir, sempre que eu, ou qualquer outra autoridade, te diga para fazer algo.

2. Continua a fazer o que te digo durante o tempo que eu disser, mesmo que a tarefa seja maçante, desagradável ou inútil. Quem decide não és tu.

3. Faz tudo que nós queremos que tu faças, de bom grado, e sem que eu precise dizer-te que o faças. Faz tudo que nós achamos que deves fazer.

4. Se não fizeres, vais ser castigado e merecer o castigo.

5. Aceita a tua vida sem reclamar, mesmo que consigas muito pouco ou nada do que achas que queres, mesmo que a tua vida não tenha alegria, sentido ou satisfação. A vida é assim.

6. Toma os medicamentos, os castigos, e tudo que os teus superiores te fizerem, sem reclamar ou resistir.

7. Viver assim é bom para a tua alma e o teu carácter."

terça-feira, 5 de outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

Livro: Armas de instrução em massa

Já vos tinha falado deste livro aqui: agora está disponivel online! Outro verdadeiro achado! Aqui fica um "saborzinho":

"Será que precisamos realmente da escola? Não me refiro à educação, apenas à escolaridade compulsória e obrigatória: seis aulas por dia, cinco dias por semana, nove meses por ano, durante doze anos. Será que esta rotina mortal é realmente necessária?

E, se for, é necessária para quê? Não me venham com a justificativa de ensinar leitura, escrita e aritmética, porque 2 milhões de crianças educadas em casa nos EUA provam que a frequência escolar não é necessária para isso."

Weapons of Mass Instruction by John Taylor Gatto

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Documentário: Escolarizar o Mundo



O que farias se quisesses mudar uma antiga cultura numa geração?
Mudarias a forma de educar os seus filhos.

O Governo dos E.U.A. sabia disto no século XIX, quando forçou as nativas crianças índias a frequentar as escolas públicas. Hoje, voluntários constroem escolas nas sociedades tradicionais de todo o mundo, convencidos de que a escola é a única forma de "melhorar" a vida das crianças indígenas.

Mas será que isso é mesmo verdade? O que é que realmente acontece quando substituímos a forma de aprender e compreender o mundo da cultura tradicional com a nossa? Escolarizar o Mundo investiga os efeitos da educação moderna nas últimas culturas indígenas do mundo.

"Um dia iremos olhar para trás e dizer:
Como é que poderíamos ter feito uma coisa destas?"

Fonte: Schooling the World

sábado, 4 de setembro de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

Gever Tulley: Re-imaginar a Educação

Gever Tulley exorta-nos a deixar de pensar sobre a educação como algo que fazemos a outras pessoas e começar a pensar nas pessoas como "aprendentes" vorazes e auto-direcionados. A não perder.

domingo, 29 de novembro de 2009

A corrida dos ratos

O termo “Corrida dos Ratos” refere-se à gaiola onde os ratos correm dentro dela até ficarem estoirados mas sem nunca chegarem a lugar nenhum.



“Se você observar a vida das pessoas de instrução média, trabalhadoras, você verá uma trajetória semelhante. A criança nasce e vai para a escola. Os pais se orgulham porque o filho se destaca, tira notas boas ou altas e consegue entrar na universidade. O filho se forma, talvez faça uma pós-graduação, e então faz exatamente o que estava determinado: procura um emprego ou segue uma carreira segura e tranquila. Encontra esse emprego, quem sabe de médico ou de advogado, ou entra para as Forças Armadas ou para o serviço público. Geralmente, o filho começa a ganhar dinheiro, obtém um monte de cartões de crédito e começam as compras, se é que já não tinham começado.

Com dinheiro para torrar, o filho vai aos mesmos lugares aonde vão os jovens, conhece alguém, namora e às vezes casa. A vida é então maravilhosa porque actualmente marido e mulher trabalham. Dois salários são uma benção. Eles sentem-se bem-sucedidos, seu futuro é brilhante, e decidem comprar uma casa, um carro, uma televisão, tirar férias e ter filhos. O desejo se concretiza. A necessidade de dinheiro é imensa.

O feliz casal concluiu que suas carreiras são da maior importância e começam a trabalhar ainda mais arduamente, tornam-se funcionários melhores. Voltam a estudar para obter especialização e ganhar mais dinheiro. Talvez arrumem mais um emprego. Seus salários aumentam, mas também aumentam o imposto de renda, o imposto predial da casa, as contribuições para a Segurança Social e os outros impostos. Eles se perguntam para onde todo esse dinheiro vai. Aplicam em alguns fundos mútuos e pagam cinco ou seis anos e é necessário poupar não só para os aumentos das mensalidades escolares, mas também para a velhice.

O feliz casal, nascido há 35 anos, está agora preso na armadilha da Corrida dos Ratos pelo resto de seus dias."

Robert Kiyosaki, trecho do livro “Pai Rico Pai Pobre”.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ensino doméstico: acesso ao ensino superior

Uma das perguntas mais frequentes em relação ao ensino doméstico, especialmente em relação ao unschooling, é: mas, e as qualificações? se não fizerem os exames do 11º e 12º ano como é que podem entrar para a universidade? Bem, uma das opções é usar um College.

Colleges são instituições de ensino para maiores de 16 anos (embora vários já ofereçam algumas opções para jovens dos 14 aos 16) que oferecem vários cursos a vários níveis (mais ou menos do 10º/11º ano ao bacharelato), part time ou full time, que se podem fazer de dia ou de noite.

As fotos que aqui vêem são do Bristol City College. Fomos lá a semana passada fazer a matrícula para o curso de PC Servicing que vai começar em Janeiro.

Para ficarem com uma ideia, este College tem 8 departamentos e oferece mais de 1,000 cursos. Tem mais de 30.000 alunos e destes 7000 são jovens dos 16 aos 18 anos.

Em Colleges como este podemos fazer os cursos de preparação /entrada para a Universidade, úteis para quem optou pelo unschooling e quer ter acesso ao ensino superior sem ter que seguir a via tradicional do 11ºano e 12ºano. Estes cursos de acesso ao ensino superior podem ser feitos num ano full time ou em 2 anos part-time.

Há, no entanto, várias pessoas educadas em casa que entram para a universidade simplesmente através do seu portfolio e da entrevista inicial. Mas isso, claro, é aqui no Reino Unido. Em Portugal e no Brasil não sei...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Distúrbios de Aprendizagem

Uma Rosa com Outro Nome, por Jan Hunt, Psicóloga e Directora do "The Natural Child Project"

Imagine por um instante que está visitando um viveiro de plantas. Você percebe uma agitação lá fora, vai investigar e encontra um jovem assistente lutando contra uma roseira, tentado forçar as pétalas da rosa a se abrirem, e resmungando insatisfeito. Você lhe pergunta o quê está fazendo e ele explica: "meu chefe quer que todas estas rosas floresçam nesta semana, então na semana passada eu cortei todas as precoces e hoje estou abrindo as atrasadas". Você protesta dizendo que cada rosa floresce a seu tempo, que é absurdo tentar retardar ou apressar esse processo, que não importa quando a rosa vai desabrochar pois as rosas desabrocham sempre no momento mais oportuno para elas. Você olha novamente para a rosa e vê que ela está murchando, mas quando você o alerta, ele responde: "Ah, isso é mau, ela tem um problema de desabrochamento congênito. Vamos ter que chamar um especialista". Você diz: "Não, não! Foi você quem fez a rosa murchar! Você só precisaria satisfazer as exigências de água e luz da planta e deixar o resto por conta da natureza!" Você mal consegue acreditar no que está acontecendo. Por quê o chefe dele é tão mal informado e tem expectativas tão irreais em relação às rosas?

Essa cena nunca teria se passado num viveiro, é claro, mas acontece todos os dias nas nossas escolas. Professores pressionados por seus chefes seguem calendários oficiais que exigem que todas as crianças aprendam no mesmo ritmo e da mesma maneira. No entanto, as crianças não diferem das rosas em seu desenvolvimento: elas nascem com a capacidade e o desejo de aprender, e aprendem em ritmos diferentes e de modos diferentes. Se formos capazes de satisfazer suas necessidades, proporcionar um ambiente seguro e propício e evitar nos intrometer com dúvidas, ansiedades e calendários arbitrários, aí então - como as rosas - as crianças irão desabrochar cada uma a seu tempo.

Meu coração gela quando penso nas crianças diagnosticadas com 'ADHD' (sigla norte-americana para 'distúrbio de hiperactividade e falta de atenção'), o tipo mais recente de "distúrbio de aprendizagem". Muitos educadores e pesquisadores acreditam que as crianças e suas famílias têm sido cruelmente enganadas por esse diagnóstico. O Dr. Thomas Armstrong, que já foi especialista em dificuldades de aprendizagem, mudou de profissão quando começou a ver "como essa noção de distúrbios de aprendizagem estava prejudicando os nossos filhos, colocando a culpa da dificuldade de aprender em misteriosas deficiências neurológicas, em vez de apontar para as necessárias reformas no nosso sistema educacional".

O Dr. Armstrong voltou-se então para o conceito de diferenças de aprendizagem e escreveu "In Their Way" ("Do modo deles"), um guia prático e fascinante para os sete "estilos pessoais de aprendizagem" inicialmente propostos por Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard. O Dr. Armstrong nos instiga a abandonar rótulos convenientes mas nocivos tais como "dislexia" e prestar atenção ao problema real do "disensino". Ele adverte que "as nossas escolas estão desvalorizando milhões de crianças ao taxá-las de insuficientes quando na realidade elas estão sendo incapacitadas por métodos de ensino ruins". Como Armstrong explica, "as crianças são sobrecarregadas com diagnósticos tais como dislexia, disgrafia, discalculia e assim por diante, dando a impressão de que sofrem de doenças muito raras e exóticas. Embora o termo dislexia seja apenas uma expressão latina para 'dificuldade com palavras', centenas de testes e programas se propõem a identificar e tratar tais 'disfunções neurológicas'. Mas os médicos ainda não conseguiram determinar qualquer tipo de lesão cerebral detectável na maior parte das crianças com esses "sintomas". Parece evidente para mim, depois de quinze anos de pesquisa e prática no campo da educação, que as escolas são as principais culpadas pelo fracasso e pelo tédio enfrentado por milhões de crianças..."

As classificações de distúrbios de aprendizagem seriam "as novas roupas do imperador" das escolas? Os filósofos têm um recurso interessante chamado "Navalha de Occam", um expediente prático para liquidar com teorias absurdas: "para resolver um problema, deve-se escolher a teoria mais simples que explique os factos". Quais são os factos? É facto que muitos escolares, principalmente do sexo masculino, têm dificuldades de aprendizagem. Mas também é facto que existem centenas de milhares de crianças no mundo, meninos e meninas, entre os quais esse defeito "genético" está ausente: são as crianças educadas em casa. Nesse grupo, praticamente não existem dificuldades de aprendizagem.

Se os "distúrbios de aprendizagem" estão presentes apenas no ambiente escolar e ausentes em outros lugares, o problema deve estar no ambiente de aprendizagem das escolas e não em algum "distúrbio neurológico" misterioso e não-detectável das crianças, ou estariam igualmente presentes nas crianças que optam pelo ensino doméstico / educação domiciliar. Afinal não é segredo que as escolas não estão conseguindo cumprir sua tarefa: em muitas regiões, os níveis de alfabetização caíram e não chegaram a atingir os níveis prévios à existência de escolas públicas (nos Estados Unidos). Quando John Gatto, eleito Professor do Ano do Estado de Nova York, chama a escolarização obrigatória de "sentença de doze anos de prisão", percebemos que algo está muito errado e que o erro não é das crianças.

Será que as classificações de "hiperactividade", "fobia escolar" e "dificuldade de aprendizagem" são na verdade uma cortina de fumaça para a incapacidade da escola de entender e aceitar o verdadeiro processo de aprendizagem? Uma especialista do porte de Mary Poplin, ex-editora de uma revista sobre distúrbios de aprendizagem ('Learning Disabilities Quarterly'), concluiu recentemente que "apesar de toda a pesquisa quantitativa... não há provas de que os distúrbios de aprendizagem possam ser identificados objetivamente... as tentativas de se estabelecer critérios objectivos para avaliar problemas humanos são uma ilusão que serve para encobrir nossa incompetência pedagógica".

O educador John Holt relata em 'Teach Your Own' ('Ensine a Si Mesmo') que o presidente de uma importante associação para tratamento de distúrbios de aprendizagem admitiu que há "poucas provas para confirmar os diagnósticos de distúrbios de aprendizagem". John Holt alerta os pais de crianças em idade escolar para serem "extremamente cépticos em relação a qualquer coisa que as escolas e seus especialistas digam sobre a condição e as necessidades de seus filhos". Acima de tudo, eles devem compreender que é quase certo que a própria escola, com todas as suas fontes de tensão e ansiedade, esteja causando as dificuldades e que o melhor tratamento provavelmente seja tirar o filho da escola de uma vez por todas.

As famílias que fazem isso ficam aliviadas ao descobrir que seus filhos recuperam o interesse que tinham pela aprendizagem quando eram mais novos. Ao contrário dos professores escolares, que têm apenas uma visão parcial de várias crianças, os pais que educam em casa observam a aprendizagem dos filhos ao longo de vários anos, aprendendo assim a respeitar o estilo singular de aprendizagem de cada filho, a confiar no ritmo do desenvolvimento de cada filho e a reconhecer que os erros são uma componente normal e passageira do processo de aprendizagem de qualquer pessoa. (Não há pressa, de qualquer forma: muitas crianças educadas em casa que começam a ler aos 10 ou 12 anos e saíram-se muito bem na faculdade).

Essa atitude descontraida dos pais que educam em casa mantém intacto o valor próprio da criança, torna os diagnósticos e rótulos insignificantes e permite que a aprendizagem seja tão fácil quanto entre os pré-escolares: crianças educadas em casa costumam superar aquelas que frequentam a escola em termos de desempenho acadêmico, socialização, confiança e auto-estima. John Gatto afirma que "em termos da capacidade de pensar, as crianças educadas em casa parecem estar cinco a dez anos adiante daquelas que frequentam a escola".

Durante alguns anos John Holt desafiou várias escolas a "explicarem a diferença entre uma dificuldade de aprendizagem (que todos nós temos numa ou outra ocasião) e um distúrbio de aprendizagem". Perguntou aos professores como é que distinguem entre causas inerentes ao sistema nervoso do aluno e factores externos - o ambiente escolar, o modo de explicar do professor, o professor em si ou o material didático. Ele relata: "nunca recebi uma resposta coerente a essas perguntas... [apesar disso,] essa distinção é tão fundamental que não sei como podemos falar de modo construtivo sobre os problemas de aprendizagem de uma criança sem ela".

Mas como é que os professores têm tanta certeza da existência tão disseminada de distúrbios neurológicos? Talvez eles estejam apenas confundindo causa e efeito: como John Holt observa, "os professores dizem que deve ser difícil ler, ou não haveria tantas crianças com dificuldade de ler". John Holt argumenta que "as crianças têm dificuldade de ler porque partimos do pressuposto que ler é difícil... com nossa preocupação, 'simplificação' e pedagogia, tudo o que conseguimos é tornar a leitura cem vezes mais difícil para a criança do que deveria ser... quando estamos nervosos ou com medo temos dificuldade ou ficamos até impossibilitados de pensar e até de perceber... quando amedrontamos as crianças, bloqueamos totalmente a sua aprendizagem".

De facto, algumas pesquisas mostram que as expectativas do professor sobre a capacidade de aprendizagem da criança influenciam muito o seu desempenho acadêmico. Outras pesquisas mostram a relação entre a ansiedade da criança e sua dificuldade de percepção - e ainda que o alívio da ansiedade (e o tratamento de alergias alimentares, quando elas existem) reduz em muito a incidência dessas dificuldades. Mas não precisamos que especialistas e pesquisadores nos digam o que está errado. Precisamos apenas de ouvir as crianças e jovens, que estão há anos tentando expressar sua dor, frustração, confusão e raiva. Quando as crianças se voltam para as drogas, auto-mutilação e suicídio, é evidente que estão tentando comunicar algo muito importante.

Será que as dificuldades de aprendizagem são uma reacção compreensível de crianças normais obrigadas a conformar-se às condições anormais das salas de aula convencionais? Por outras palavras, será que as escolas são incapazes de perceber a diferença entre simples relatos de erros de aprendizagem passageiros, agravados pelo estresse, e uma conclusão científica? Embora as supostas anomalias neurológidas nunca tenham sido identificadas, não é difícil detectar condições anormais no ambiente escolar: competitividade feroz, inactividade física (particularmente difícil para os meninos), matérias fragmentadas que têm pouca relação com os interesses e as experiências individuais da criança, frequentes avaliações e testes do progresso da aprendizagem, falta de tempo para o convívio familiar, pouca oportunidade de conhecer pessoas de outras idades, falta de sossego para a privacidade e a reflexão, pouca oportunidade de receber a atenção exclusiva dos professores, desencorajamento de compartilhar ideias e trabalho com os colegas (uma oportunidade valiosa sendo desperdiçada), crianças frustradas caçoando das outras, o desencorajamento de atitudes de auto-valorização e acima de tudo a indignidade de ser um incapaz, uma "não-pessoa", cujas necessidades legítimas e tentativas de expressar essas necessidades são abafadas pela defensiva institucional. Todas essas dificuldades podem ser evitadas com a educação domiciliar - desde que o governo permita autonomia suficiente.

Classificações são incapacitantes, porque as crianças acreditam no que lhes dizemos. Se tivermos de classificar algo, que seja o ambiente de ensino e não o aluno: em vez de "criança hiperactiva", vamos nos preocupar com as escolas "restritivas de actividade"; em vez de alunos com "falta de atenção", deveríamos pensar nas aulas "sem inspiração"; em vez de "criança com fobia escolar" deveríamos usar palavras mais honestas como "ansiosa" e "amedrontada", e ter o cuidado de pesquisar o motivo da ansiedade.

Usando a Navalha de Occam, vamos procurar a teoria mais simples que explique os factos e não a mais complicada e obscura. Um ambiente estressante, punitivo e ameaçador é mais do que suficiente para explicar os problemas de aprendizagem. Não precisamos nos confundir com termos técnicos, teorias sem comprovação científica e bodes expiatórios para preservar uma instituição social que falhou com nossos filhos.

Como devemos agir então? Norman Henchey, professor da Universidade MacGill, recomenda "repensar totalmente a escolaridade obrigatória". Norman Henchey defende o regresso ao ensino doméstico e a "outras vias de amadurecimento... programas de formação de aprendizes, serviços de ensino formais e informais, servico público". Talvez assim possamos honrar o estilo individual de aprendizagem de cada criança e, como pede o Dr. Armstrong, "dar às crianças a motivação de que necessitam para se sentirem seres humanos competentes e bem-sucedidos".

As crianças nasceram para aprencer. Elas merecem ter um ambiente de aprendizagem seguro e estimulante, onde possam aprender numa atmosfera de paciência, respeito, delicadeza e confianca, sem ameaças, coerção ou cinismo. Como Einstein nos alertou muitos anos atrás, "é um grave erro acreditar que o prazer de observar e pesquisar possam ser incutidos pela coerção".

Todas as crianças são dotadas.

sábado, 5 de setembro de 2009

Porque é que os alunos não gostam da escola?

Tradução livre e parcial deste artigo de Peter Gray, professor de psicologia na faculdade de Boston que tem realizado e publicado várias pesquisas no campo da psicologia do desenvolvimento e psicologia educacional.

Porque é que os alunos não gostam da escola? Bem, não é óbvio?

Perguntem a qualquer aluno porque é que não gosta da escola e ele depressa dirá que a escola é uma prisão. Pode ser que não use estas palavras, talvez por ter sido bem educado em casa ou por já lhe ter sido feita uma lavagem ao cérebro em relação à escola, e ter passado a acreditar que a escola é para seu bem e, assim sendo, não poderia ser uma prisão.

Mas se decifrarmos bem a resposta a tradução geralmente é: "A escola é prisão". Deixem-me dizer isto mais umas vezes: A escola é uma prisão. A escola é uma prisão. A escola é uma prisão. A escola é uma prisão. A escola é uma prisão.

Qualquer pessoa que tenha frequentado a escola sabe que a escola é uma prisão, mas praticamente ninguém o diz. Não é “bonito” dizer-se isso. Andamos todos evitando dizer esta verdade, que a escola é uma prisão, porque dizer a verdade nos faz parecer tão horríveis. Como poderíamos nós, pessoas de bem, enviar os filhos para a prisão durante a maior parte dos primeiros 18 anos das suas vidas? Como poderia o nosso governo democrático, que se baseia nos princípios de liberdade e auto-determinação, fazer leis exigindo que todas as crianças e adolescentes passem grande parte dos seus dias numa prisão? Seria impensável, por isso esforçamo-nos tanto para evitar pensar nisso. Ou, se pensamos, pelo menos não o dizemos. Quando falamos sobre o que está errado nas escolas, fingimos não nos aperceber desta realidade e em vez disso falamos sobre outras coisas.

Mas eu acho que está na hora de dizermos em voz bem alta. A escola é uma prisão. Se acham que não então expliquem por favor qual é a diferença. A única diferença que consigo pensar é que para irmos parar à prisão temos que cometer um crime, mas devido apenas à nossa idade somos forçados a ir para a escola. Nos outros aspectos a escola e a prisão são iguais. Em ambas somos despojados da nossa liberdade e dignidade. Em ambas dizem-nos exactamente o que fazer, e somos punidos se não obedecermos. A verdade é que na escola passamos mais tempo fazendo exactamente aquilo que nos dizem para fazer do que nas prisões para adultos, por isso, nesse sentido, a escola é pior do que a prisão.

Todos nós que frequentámos a escola sabemos que ela é uma prisão. Como poderíamos não o saber? Mas racionalizamos a situação, dizendo (geralmente não com estas palavras) que as crianças necessitam deste tipo específico de prisão e que até poderão vir a gostar dela desde que esteja bem organizada. De acordo com esta racionalização, se as crianças não gostam da escola não é por a escola ser uma prisão mas porque os guardas não são suficientemente gentis, divertidos ou inteligentes para manter as mentes das crianças adequadamente ocupadas.

Mas quem sabe um mínimo sobre crianças e tem a coragem de pensar honestamente deveria ser capaz de não se deixar iludir por esta racionalização. As crianças, tal como todos os seres humanos, anseiam pela liberdade. Elas odeiam ter a sua liberdade restringida. E em grande medida usam essa liberdade precisamente para se educarem. Estão biologicamente preparadas para fazer isso. Brincando e investigando livremente elas aprendem sobre o mundo físico e social em que estão crescendo. Na escola, pelo contrário, dizem-lhes que têm que parar de seguir os seus interesses e em vez disso fazer apenas o que o professor lhes disser que têm de fazer. É por isso que não gostam da escola.

Como sociedade, poderíamos, talvez, racionalizar o modo como forçamos as crianças a irem para a escola se pudéssemos demonstrar que elas precisam deste tipo específico de prisão a fim de adquirir as competências e os conhecimentos necessários para se tornarem bons cidadãos, para serem felizes na vida adulta e para arranjarem bons empregos. Muitas pessoas, talvez a maioria, pensam que isso foi provado cientificamente, pois o estabelecimento de ensino fala como se isso tivesse sido provado. Mas a verdade é que nunca ninguém provou essa teoria.

A verdade é que há décadas que as famílias que optaram por "não escolarizar” os filhos ou por enviá-los para escolas como a Sudbury Valley School (que é, essencialmente, uma “não-escola”) têm vindo provando o contrário.

As crianças a quem são dadas ferramentas para a aprendizagem, incluindo acesso a várias outras pessoas com quem possam aprender, aprendem o que precisam de saber - e muito mais - através de brincadeiras e pesquisas que elas próprias iniciam. Não há prova absolutamente nenhuma de que as crianças que são enviadas para a prisão saem de lá melhores do que aquelas a quem são fornecidas as ferramentas e a permissão de as usar livremente.

Como podemos então continuar a racionalizar o facto de que mandamos as crianças para prisões? Julgo que o estabelecimento de ensino deliberadamente evita analisar com honestidade as experiências dos unschoolers e de escolas como Sudbury Valley porque tem medo do que iria encontrar. Se as escolas-prisões não são necessárias, o que aconteceria a este enorme empreendimento, que dá emprego a tanta gente e que está tão profundamente enraizado na nossa cultura?

Todas as tentativas de melhorar o sistema falharam, e nenhuma há-de ter sucesso até as pessoas enfrentarem a realidade: as crianças odeiam a escola porque na escola elas não têm liberdade. Na aprendizagem não há alegria sem liberdade.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Alan Watts: a vida é para dançar



Em música, o objectivo de uma composição não é o seu final. Se assim fosse, os melhores maestros seriam aqueles que conduzem mais depressa, e haveriam compositores que escreveriam apenas o “finale”. As pessoas iriam a concertos só para ouvir o último acorde – aqui está, o “finale”!

Mas nós não vemos isto como algo trazido pela nossa educação à nossa conduta diária. Nós temos um sistema de escolarização que nos dá uma impressão completamente diferente. Nele, tudo é avaliado, classificado, hierarquizado, sequenciado linearmente...

O que fazemos é, pomos a criança no corredor deste sistema sequencial e aliciamo-la com a ideia da recompensa. Vai para o infantário, “ó, que bom, porque depois podes ir para a 1ª classe, e depois... anda, anda, que depois da 1ª classe podes ir para a 2ª” e assim por diante. “E depois sais da escola primária e vais para o secundário”, e as coisas começam a acelerar, a recompensa está mais próxima...

“E depois vais fazer o 12º ano, para poderes ir para a universidade, e quando acabares, juntar-te ao mundo dos adultos.”

E depois dás contigo numa empresa onde vendes talvez seguros, e tens sempre metas a alcançar e datas a cumprir. Todo o tempo a recompensa parece estar cada vez mais perto, quase, quase a chegar, estás quase, quase a atingir essa coisa sublime, esse sucesso para o qual trabalhas...

E um dia acordas, aos quarenta e tal anos, e exclamas: Meu Deus, cheguei! Estou aqui, finalmente!

Mas não te sentes diferente do que sempre sentiste e há uma certa desilusão, como se te tivessem pregado uma partida. E foi, foi um terrível embuste, em que te fizeram perder tudo.

Pensámos a vida como se ela fosse semelhante a uma viagem, a uma peregrinação com uma meta muita séria no final, e o objectivo era alcançar essa meta, seja ela o sucesso, a salvação, ou seja lá o que for.

O tempo todo não percebemos que era uma peça musical e que éramos suposto cantar ou dançar enquanto a música estava tocando...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O Verão faz mal ao cérebro dos miúdos?

A semana passada, um jornal perguntava se o Verão fazia mal ao cérebro dos miúdos. Ontem, um membro fundador do grupo online da educação domiciliar Acção para o Ensino Doméstico explicou, aqui, que para ele o problema não era o Verão....

"Não era o Verão que nos preocupava. Era o resto do ano. Foi o Verão entre a pré-primária e o início do ensino primário que nos levou para o ensino doméstico. Foi ver o meu filho durante essas férias devorando tudo que lhe despertava a curiosidade que cimentou a nossa decisão.

O meu filho lutava contra a escola. Dizia que gostava do professor e dos colegas, mas não conseguia expressar porque resistia à escola. A sua “resistência” consistia em argumentos diários na altura de se aprontar para ir para a a escola, que podiam levar a uma crise de gritos, ataques de asma e vómitos. Depois de um ano todos nós detestávamos as manhãs.

No entanto, os professores diziam que ele era esperto, embora não fosse de uma inteligência de espantar: quieto durante as aulas, suficientemente alegre mas facilmente distraído.

Só que em casa ele era voraz e aproveitava todas as oportunidades para aprender algo novo. Sim, é verdade que nós fazíamos questão de arranjar tempo para engajarmos em "oportunidades de aprendizagem", como ir a passeios, ler livros em voz alta para eles ou ver programas de televisão educativos e conversar sobre eles. Isso são coisas que os professores não podem fazer, é certo. Nós geralmente pensamos: mas eles são especialistas com formação e possuem técnicas que compensam a falta disso, não é?

No final da pré-primária deram-nos uma lista de palavras para as crianças aprenderem. Não achei bem darem trabalhos de casa a miúdos de 5 anos para fazerem durante as férias.... mas lá fomos de férias e com um pouco de atenção que ele aprendeu as palavras a tempo, antes da escola recomeçar.

Com orgulho, dissemos ao novo professor que ele tinha aprendido as palavras... Ah! Mas não, nós tinhamos entendido mal. Essas eram as palavras que ele iria aprender durante este período. No final das próximas 10 semanas pelo menos metade dos alunos deveriam ter aprendido mais de metade das palavras. Oh, então podemos ver a lista seguinte? Não, só no final do período.

Começámos a ficar confusos com os relatórios de leitura. À noite, em casa, o nosso filho lia o livro indicado pela escola de uma ponta à outra. Mas vinham relatórios da escola dizendo "a leitura está indo bem, já lemos quase metade do livro". Quando lhe perguntámos por que é na escola ele só lia metade do livro que já tinha acabado de ler em casa, ele disse: "Se eu ler o livro todo depois tenho que ficar sentar sozinho à espera que os outros acabem e eu não quero ficar sentado sozinho."

Como previsto nos livros de John Holt (autor do famoso livro How Children Fail, que propõe que na escola as crianças não são incentivadas a aprender mas a se conformarem), ele tinha-se tornado perito em manipular os professores para sua vantagem. Como não gostava de matemática, aprendeu a fingir que estava tentando resolver problemas, quando na verdade nem sequer estava olhando para eles, porque as crianças que parecem estar trabalhando obtêm ajuda enquanto que as que ficam a olhar para os problemas com ar de quem não os compreende são ignoradas. Decidimos então retirá-lo da escola, pensando que podíamos sempre matriculá-lo outra vez. Afinal, não tínhamos nada a perder. Mas a verdade é que nunca olhámos para trás.

O meu filho tem agora 10 anos e continua a surpreender-me regularmente com o que ele aprende sem eu reparar. Tem uma auto-confiança enorme e é bem educado quando fala com pessoas de todas as idades. Quando for grande quer ser director de cinema. Quando eu tinha 10 anos eu nem sequer sabia que isso existia.

Se conseguires criar, para os teus filhos, um Verão feliz, educativo, cheio de actividades, podes dar contigo pensando: regressar à escola? para quê?"

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Citações - Lauro de Oliveira Lima

Trechos do livro ESCOLA NO FUTURO, de Lauro de Oliveira Lima

"A escola é um campo de concentração com mil controles, fichas, horários, torres de observação, representados pelo mecanismo desumano dos processos de verificação, pelo esoterismo lotérico e pitagórico dos processos de promoção através de médias “ponderadas” (sic!) pelo inspetor federal, o homem da moralidade escolar, pelo diretor, o déspota para quem o regulamento “c’est moi”, pelos inspetores de alunos, os “SS” eternamente redivivos, sempre prontos a atirar no trânsfuga ou no rebelde e agora mais (me Hércules!), por um psicólogo escolar encarregado da “lavagem cerebral” de conversão e ajustamento de um homem livre a um sistema de autômatos..."

"Para conturbar a quietude em que forma o pensamento reflexivo, temos ainda quatro ou cinco professores de línguas, cada um com seus métodos antidiluvianos e nomenclaturas contraditórias; cinco ou seis professores de ciências, de temperamentos contraditórios e métodos antagônicos, exigindo os 36 nomes das anfractuosidades do fêmur ... ou a decoração de 30, 40, 50 teoremas; temos alguns professores de artes , canto, desenho, trabalhos, sem atelier , sem campos de esperte, sem auditórios, sem oficinas , sem laboratórios, numa comédia pedagógica que repugna os adolescentes inteligentes.Temos novos algozes – encarregados de estudos dirigidos, promotores de atividades extracurriculares que não interessam aos alunos e não têm sintonia com a atividade escolar... verdadeiro inferno de Dante para os jovens que se empenham em “cumprir o dever”! Se daí sai a “cola” sistemática para “salvar-se do dilúvio”, se explodem atritos e revoltas; se a “gazeta” se institucionaliza, se os jovens se fecham em razoável atitude de autoproteção para pensar um pouco, para viver seus próprios sonhos, para aprender a pensar por si mesmo – há um dispositivo na máquina para expulsar o produto que não corresponde às especificações."

"Deixar uma classe passiva “ouvindo discursos” não é só uma crueldade: é um atentado às conquistas definitivas da psicogenética. Classe não é auditório para os alunos e tribuna para o professor. É oficina em que se pensa, debate, manipula, pesquisa, constrói. Meditar é a forma mais sublime da atividade, a atividade específica do ser humano. Meditar – não decorar. Refletir. Ensinamos a nossos alunos como se fossem animais. Como se não tivessem razão."

"Por que um jovem que sente na carne todo empolgamento da era atômica, dos teleguiados, da eletrônica, dos foguetes à Lua, um mundo todo de maravilhas, de cinemas espetaculares, de velocidade, de pistas sem fim de asfalto, de televisão, de construções ciclópicas, haveria de se conformar em passar horas sentado num banco terrivelmente incômodo, ouvindo discursos indigestos sobre os Medas e os Persas, sobre o binômio de Newton que ele não sabe para que serve, sobre a ordem indireta na construção latina, sobre o autor do Hino Nacional? É ou não inteligente quem escapa dessa roda viva?"

"O ser humano exige finalidade em tudo que faz. Não agimos sem objetivo claro e reconhecido como válido. Se o que ensinamos não parece ter utilidade para os adolescentes, eles fogem de nós, julgando-nos num mundo irreal que eles não encontram lá fora."

"Deixemos de recriminar a juventude por não querer ouvir discursos, se nós mesmos não os toleramos. Sejamos autênticos, realistas e leais para com a juventude. Ela não está perdida. Está sendo lograda. Fechemos as malhas da peneira, senão, amanhã não teremos dirigentes."

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Citações - Carlos Drummond de Andrade

Poeta brasileiro, foi expluso em 1919 do Colégio por causa de sua "insubordinação mental"...


"Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem."

sábado, 22 de agosto de 2009

Criatividade e o Cérebro

Trecho de uma palestra de Tony Buzan, o escritor inglês responsável pela sistematização dos mapas mentais:

Cada criança é brilhante e nós temos de aprender a desenvolver esse brilho. O professor fornece os nutrientes para alimentar este brilho. A criatividade é absolutamente essencial para isso. Temos ensinado o oposto. Nos últimos 150 anos estamos ensinando "currículo". Isto é considerado normal na nossa sociedade, mas a verdade é que não é natural.

Como seres humanos, primeiro temos que aprender a aprender, depois definir o que aprender. Não nascemos com um cérebro pronto, nascemos com um potencial, tal como um jardim maravilhoso, com milhares de sementes. Quando o ambiente é fértil, quando a criança é alimentada, existe dentro das células cerebrais um movimento de conexão e relacionamento entre si. Quando o potencial do cérebro não é cultivado, as células cerebrais não se ligam, elas literalmente se desconectam.

O professor ajuda a criança a construir a arquitectura interna de seu pensamento. Quando nós estimulamos as crianças a criarem, elas tornam-se fisicamente e biologicamente complexas e capazes. Quando linearizamos o ensino e enfatizamos a rotina estamos desconectando os seus cérebros.

Que trabalho é mais importante para o planeta do que envolver as crianças criativamente?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Guerra contra as crianças

The War On Kids é um documentário sobre a opressão das crianças e como a atitude da sociedade e dos mídia, assim como as resultantes acções punitivas, se estão se tornando cada vez mais abusivas. Foi considerado o melhor filme educativo do ano pelo New York International Independent Film and Video Festival.

Deixo-vos aqui o trailer e, em baixo, uma tradução livre.



1) Sabes, quando estamos na escola nada faz sentido. No Verão sinto-me tão livre e feliz e tudo corre bem... mas depois volto para a escola e tudo deixa de fazer sentido. Sinto-me como se já não tivesse motivo para viver...

2) A escola, o sistema de ensino público, é a antítese à democracia. Nós vivemos numa sociedade democrática, construida em liberdades pessoais. No entanto, mal os nossos filhos atingem a idade de ir para a creche ou para o infantário fechamo-los numa prisão durante 13 anos das suas vidas, regimentamos todos os aspectos dos seus corpos físicos, das suas emoções, seus contactos sociais e, pior ainda, das suas mentes... regimentamos o que eles podem e não podem aprender, e até o modo como podem aprender... e depois, aos 18 anos, destrancamos a porta e libertamo-los na sociedade. De repente, é suposto saberem pensar por si próprios, serem indivíduos com iniciativa, inovativos, criativos e imaginativos, e capazes de participar no processo democrático. Impossivel! Seria como mandar os miúdos para um país fascista durante 13 anos e depois trazê-los de volta e explicar o que é a democracia! E no entanto é o que fazemos a todas as gerações desde que a escolaridade obrigatória foi instituida no século XIX.

3) John Taylor Gatto: Se quiserem saber qual é o objectivo único da escola, ele é simplesmente o de preparar as pessoas para aceitarem a sua classe social e a relação correcta com a autoridade... (as escolas) são laboratórios de indoutrinação psicológica, o resto é trivial.

4) Não há pesquisa que demonstre que o ensino obrigatório dê resultado, que mostre que colocar todos os miúdos da mesma idade na mesma sala de aula, ao mesmo tempo, e ensiná-los as mesmas coisas com o mesmo professor seja a melhor maneira de aprender. Não há pesquisa que demonstre isso, mas foi o que decidiram por volta de 1850, e depois, vivendo com esse sistema, ele se tornou a norma... Perguntam: como é que Shakespeare aprendeu? Dizem: Ah, ele foi à escola. Respondo: Pois foi, mas só foi à escola 12 semanas por ano.

5) John Taylor Gatto: Quem administra este sistema nas suas várias manifestações tem um objectivo em mente, e esse objectivo é infantilizar a mente das massas, condicioná-las, doutriná-las a obedecer ordens de maneira dócil ou, se um indíviduo se sentir rebelde, fazer com que ele ou ela não tenha a informação ou a prática necessárias para se revoltar de maneira eficaz.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ensino doméstico no Canadá II

Lembrando os tempos do unschooling

Kate Cayley cresceu sem escola, aprendendo de uma forma natural e informal, sem qualquer estrutura. Hoje é escritora, professora e directora teatral. Aqui, ela reflete sobre a sua experiência de aprendizagem fora de instituições formais e sobre a importância de estimular a diferença e individualidade. A entrevista foi gravada pela Radio Free School, em Toronto, em 2007.



"No ensino doméstico há um modelo, não que seja um mau modelo, mas que tende a replicar a escola, em que há um currículo fixo e certas coisas a aprender, enquanto que nós não seguimos nenhuma estrutura.

A minha memória talvez seja romantizada mas pelo que me lembro, ensinaram-me a ler e deixaram-me em paz... não que não tivesse recebido bastante orientação, é óbvio que recebi. Os meus pais estavam muito envolvidos, mas a ideia era de que quando alguém desenvolve um grande interesse numa certa área ela vai aprender tudo que precisa aprender sobre isso.

Acho que é muito interessante refletir que a aprendizagem é um processo individual e que se nós soubermos qual é a nossa paixão, mesmo se não soubermos um bocadinho de uma série de outras coisas, talvez isso seja muito mais interessante e muito melhor para a sociedade, no sentido do desenvolvimento da individualidade através da educação.

O modelo da escola parece ser preparar as pessoas para viverem num sistema durante a vida toda e acho que isso destrói por completo qualquer tipo de pensamento independente.

Sinto que há uma grande paranoia educacional à volta da ideia de que se as pessoas não aprenderem os requesitos do currículo obrigatório elas vão perder algo essencial. Mas não, essa é a grande mentira que está a ser propagada às pessoas, que se não seguirem o sistema de ensino haverá um grande vazio nas suas vidas. Acho que todos estes modelos do Estado estão limitando a possibilidade da liberdade e que o desenvolvimento social, artístico e político está sendo espezinhado devido aos níveis cada vez maiores de padronização.

Desde os 13 anos que tenho uma paixão pelo teatro. Li imenso sobre isso e também trabalhei voluntariamente como assistente de stage management quando tinha 14, 15 anos.

Conversávamos imenso. Tinha conversas incriveis com os meus pais e outras pessoas. Ivan Illich era amigo dos meus pais e costumávamos ir aos colóquios que ele organizava. Esse foi o período entre os meus 10 e 13, 14 anos. Ficava sentada nas escadas com um livro, meio a ler, meio a ouvir, e era incrível, aquele ambiente vitoriano, de algo que parecia ser de uma época diferente.

A minha mãe tinha jeito para sugerir projetos. Dizia-me, se estás mesmo interessada nesta ou naquela área, lê tudo que encontrares sobre isso e depois escreve sobre o que leste e descobriste.

Viver na cidade foi muito interessante porque quando era um pouco mais velha explorava bastante. Os meus pais encorajavam-me e eu lá ía descobrir áreas diferentes da cidade, com os meus amigos ou sozinha.

Foi muito interessante quando entrei para a universidade porque muitas pessoas que lá conheci, embora se tivessem divertido, estavam profundamente esgotamentas por terem andado na escola há tanto tempo, alguns desde os 3 anos. Estou convencida que se as pessoas não estivessem num sistema de ensino padronizado retirariam mais, e não menos, do ensino pós-secundário."

A primeira parte, exemplificando um modelo mais estruturado do ensino doméstico, está aqui.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Por onde andámos...

e uma citação de Edgar Faure:

Não estará na altura de procurarmos, nos sistemas de educação, algo completamente diferente?

Aprender a viver, aprender a aprender,
aprender a pensar de uma forma livre e crítica;

aprender a amar o mundo e a torná-lo mais humano;

aprender a evoluir através do trabalho criativo?

Edgar Faure et al., Learning to be: The world of today and tomorrow (1972) Fotos tiradas durante um passeio até Kings Weston, Bristol.