Este blog partilha informação sobre o homeschooling e o unschooling - ensino doméstico ou educação domiciliar. Para navegarem o site, usem os links acima e, para os posts de 2011, o botão da pesquisa na barra direita. Facebook: Aprender Sem Escola Email: aprendersemescola@gmail.com

terça-feira, 28 de abril de 2009

Evitar o bullying com o ensino doméstico

Bullying como motivo para educar em casa

Um menino de 11 anos de idade suicidou-se na semana passada. Onze anos! Que tipo de desespero esmagador o teria levado ao suicídio? De acordo com a família, ele era vítima de constantes e repetidas agressões, tanto físicas como emocionais. Onde? Na escola!

Não consigo imaginar o que os pais estarão sentindo. A morte de um filho é sempre trágica e horrível. Os pais nunca deveriam ter de enterrar um filho. Nunca. Mas uma criança matar-se devido ao ambiente social da escola, isso é mais que trágico: é revoltante.

A escola que Jaheem frequentava tinha um programa anti-bullying, e muitas escolas têm uma política de tolerância zero ao assédio moral. Mas é óbvio que aquilo que os adultos vêem e aquilo que as crianças estão experienciando parece ser muito diferente.

Aqui fica o link para o artigo, que é curto, mas reparem, nos comentários, a quantidade de pessoas a recomendar o ensino doméstico para estas preciosas crianças que estão sendo vítimas de bullying.

Que tragédia sem sentido!

Por Melissa Caddell

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Encontro sobre a Educação Intuitiva

No dia 18 tive a oportunidade de ir à reunião da Educação Intuitiva, moderada pela Natália Fialho, em Alcabideche, Cascais.

Como a Isabel (foto abaixo) já disse, em desencontros e encontros, foi tudo muito à última da hora: tinhamos nos encontrado no dia anterior, e foi assim que vim a saber da reunião.

Já agora aproveito para recomendar a todos interessados no ensino doméstico que visitem o blogue da Isabel porque hão-de lá encontrar muita informação e muitos, muitos exemplos desta forma alternativa de educar os nossos filhos.

Mas voltando ao encontro sobre a educação intuitiva, conhecida aqui no Reino Unido como attachment parenting: encontrar a casa da Natália, com tantas obras e desvios nas estradas, não foi assim tão fácil! Parece-me que em Portugal as obras nunca acabam! O esforço valeu bem a pena: que bom que foi ver um grupo de pais tão dedicados à busca de novos caminhos...

Também tive a oportunidade de conhecer a Rute (foto à esquerda), do publicar para partilhar, blogue que recomendo a todos que se interessem pelo vegetarianismo: está cheio de receitas deliciosas!

E já agora aproveito a oportunidade para agradecer à Rute a nomeação para o Lemonade Award, e à Meninheira pelo Prémio Symbelmine!

domingo, 26 de abril de 2009

Crueldade, comparação e educação

Aqui fica mais uma citação de Krishnamurti:

"A crueldade é uma doença infecciosa que é absolutamente necessário evitar. A crueldade tem muitas formas: um olhar, um gesto, uma frase cortante e, acima de tudo, a comparação.

Todo o actual sistema de 'educação' está baseado na comparação. A é melhor que B, e portanto deve ser como A, deve imitá-lo. Isto na sua essência é crueldade, e esta, em última análise, é expressa pelos exames."

Por onde andámos...

Quando estivemos em Portugal passámos uns dias perto de Lisboa

por isso não perdemos a oportunidade de ir até lá e ao Museu Calouste Gulbenkian.

Vimos a colecção do Centro de Arte Moderna e uma exibição de Heimo Zobernig.

Este quadro (na foto acima) fez-me lembrar o meu filho que, aí há uns 3 anos atrás, no primeiro ano do ensino doméstico, durante uma conversa sobre arte conceitual e art bollocks, virou-se para mim e disse: "I'm going to paint a white canvas in white paint, call it 'Emptiness' and sell it for loads of money!"

Gostei de revisitar os jardins. Em Portugal, infelizmente, não é fácil encontrar espaços verdes. Jardins como este, bonitos e agradáveis, são bem raros.

Gostei especialmente do percurso do lago...

sábado, 25 de abril de 2009

Como funciona o ensino doméstico VI

O futuro: universidade ou não?

Continuação: a 1ª parte deste artigo está aqui, a 2ª aqui, a 3ª aqui, a 4ª aqui e a 5ª aqui.

Para os pais que estão a pensar na possibilidade do ensino doméstico para os filhos, uma das maiores preocupações é a universidade. Essa questão aparece quase sempre na lista de "perguntas mais frequentes" dos sites relacionados ao ensino doméstico: "O aluno que seguiu o ensino doméstico entrará na faculdade?" A resposta a esta pergunta parece ser um sonoro "Sim!"

Em vários livros e na internet encontramos muitas estórias de sucesso sobre alunos educados em casa que foram para a universidade dos seus sonhos, incluindo as do grupo 'Ivy League', como Harvard, Yale e Princeton. Tal como qualquer aluno da escola tradicional, os alunos do ensino doméstico devem começar a escolher o curso e a universidade que pretendem frequentar durante o 9º ano (ou seu equivalente). Além disso, podem e devem fazer os exames do 12º ano. Atenção especial deve ser dada à manutenção das fichas destes alunos e cartas de recomendação de mentores, tutores, instrutores e assim por diante devem ser obtidas.

Ainda que a aprendizagem, especialmente a aprendizagem para toda a vida, pareça ser o foco de muitos métodos do ensino doméstico, a universidade não é necessariamente o objectivo de todos os jovens que seguem o ensino doméstico. Sem estarem presos às programações rígidas do ensino tradicional, os jovens que aprendem em casa podem começar a pensar noutras alternativas. Como já seguiram uma metodologia não convencional, hesitam muito menos em continuar a fazê-lo. Para estes jovens de mente aberta para a vida, o "método da não-universidade" pode ser o caminho em frente.

No seu livro "Alternativas à universidade: carreiras incríveis e aventuras surpreendentes fora da universidade", a autora Danielle Wood apresenta várias possibilidades para os jovens que decidem não fazer um curso universitário.

Neste livro bem organizado, aqueles que não estão preparados para abdicar totalmente da experiência universitária encontrarão sugestões para actividades entre o 12º ano e a entrada para a universidade. O livro também inclui muitas informações relativas a programas de aprendizagem alternativa e programas para estagiários.

Aqui fica um exemplo do que se pode fazer em vez da universidade:

Aluno do ensino doméstico torna-se autor mais vendido

Aos 15 anos de idade, Christopher Paolini havia completado o ensino médio e estava pronto para entrar para um colégio e, depois, para uma universidade. Milhares de leitores estão felicíssimos devido ao falhanço dos seus planos.

Em vez de escrever teses para a faculdade, Paolini decidiu escrever a sua primeira obra de ficção: Eragon. O resultado? Obteve um contracto para três livros com a Knopf e vendeu os direitos para o filme à FOX 2000 - o seu futuro não poderia ser mais brilhante. O jovem autor atribui o seu sucesso ao ensino doméstico:

"O que fiz só foi possível porque os meus pais foram dedicados e gostavam de nós o suficiente para matricularem, a mim e à minha irmã, no ensino doméstico.

A minha mãe, uma ex-professora do métido Montessori e autora de vários livros para crianças, arranjou tempo para nos ensinar todos os dias. Além das lições dos livros escolares, ela deu-nos muitos exercícios para estimular a criatividade".


FIM

Flower power

Mais umas fotos (das que tirei no Algarve):

Acho que estas são corriolas-rosadas (Convolvulus althaeoides),

estas duas não sei os nomes,

mas se vocês souberem, digam!

E estas, acho que são malmequeres das praias (Anthemis maritima)...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Toffler fala sobre a educação



Toffler
: "Precisamos de fazer a transição da educação em massa para um modelo mais individual, que ofereça uma diversidade de formas de ensino. Recentemente recebi um e-mail de um jovem asiático muito articulado que dizia: “A escola está a preparar-me para um futuro que não ocorrerá. Deixei de aprender lá. Acho que seria melhor educar-me a mim mesmo. Quero deixar a escola. O que o senhor sugere?”. Esse garoto é realmente inteligente."

Por onde andámos...

e os animais que vimos (fotos tiradas no Algarve, em Alvor):





quinta-feira, 23 de abril de 2009

Instead of Education - John Holt

Aqui fica mais um livro de John Holt, espero que gostem. (Se clicarem no quadradinho de cima mais à direita o livro ficará do tamanho do monitor. Para voltarem ao blogue é só clicar outra vez no mesmo sítio).

A compulsão na educação

Ontem devorei outro livro que trouxe da biblioteca: desta vez foi Escola e Sociedade de Bertrand Russell. Embora o livro não mencione o ensino doméstico, o argumento usado contra o ensino obrigatório é partilhado pelas famílias que optam pelo unschooling. Ora vejam:

"Outro efeito da compulsão na educação é destruir a originalidade e o interesse intelectual. O desejo de saber, pelo menos por uma quantidade razoável de saber, é um fenómeno natural nos jovens, mas que é geralmente destruído pelo facto de lhes ser ministrado mais do que aquele que desejam ou que são capazes de assimilar.

As crianças que são obrigadas a comer em breve adquirem uma forte detestação pela comida, e as crianças que são obrigadas a aprender adquirem de igual modo uma detestação pelo saber.

Quando pensam, não o fazem espontaneamente, da mesma forma que correm, saltam ou gritam; pensam tendo em vista agradar a um adulto e, por conseguinte, tentando fazê-lo de forma correcta mais do que a partir de uma curiosidade natural. Esta destruição da espontaneidade é particularmente desastrosa no domínio das artes."

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Citações: Krishnamurti

Ontem acabei por passar na biblioteca. Saí de lá com alguns livros, entre eles, Cartas às Escolas, de Krishnamurti. Aqui ficam umas passagens:

"O conhecimento não leva à inteligência. Acumulamos muitos conhecimentos sobre muitas coisas, mas parece ser quase impossível agir inteligentemente em relação àquilo que se aprende.

Escolas, institutos, universidades cultivam o conhecimento acerca dos nossos comportamentos, do universo, das ciências e da tecnologia, sob todas as formas.

Esses centros de educação raramente ajudam um ser humano a saber viver a vida de todos os dias."

E esta a seguir, embora não se refira ao unschooling, descreve muito bem o seu espírito:

"Todo o movimento da vida é aprender. Não há tempo nenhum em que não haja aprendizagem. Em toda a acção há esse movimento de aprender, e toda a relação é aprendizagem.

Para aprender a arte de viver é preciso tempo disponível, tempo de observação. Só a mente não ocupada pode observar."

terça-feira, 21 de abril de 2009

O ensino doméstico na sociedade do conhecimento

Tenho andado a ler "O Sistema de Ensino em Portugal", um livro que reune textos de palestras dadas em 1996 num Curso de Verão organisado pelo Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Num dos textos, Roberto Carneiro fala da questão do ensino, dos seus desafios actuais e da emergência de um novo paradigma. O que achei engraçado é que o ensino doméstico daria resposta a muitos destes desafios, embora não tivesse sido mencionado.

A páginas tantas, por exemplo, o autor diz-nos que o Prof. Agostinho da Silva costumava dizer que "o ideal de uma escola é uma instituição que está aberta 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Para quê? Para eu poder lá ir perguntar, a qualquer momento, aquilo que eu não sei."

Pensei imediatamente na internet: qualquer criança ou adolescente que aprenda em casa (e aqui tenho de clarificar que no ensino doméstico a sala de aulas não se limita à casa, ao lar - no ensino doméstico "o mundo é a sala de aulas") e que tenha acesso ilimitado à internet andaria na escola ideal do Prof. Agostinho da Silva!

Mas voltemos ao texto, que fala também da sociedade do conhecimento (ou sociedade cognitiva) em que vivemos e da necessidade de novas competências. A escola actual não ajuda ninguém a desenvolver estas competências porque é baseada no modelo fabril.

"Na sociedade cognitiva, abre-se definitivamente a crise do modelo fabril inspirado na sociedade industrial e na seriação fordiana, em que há uma matéria prima que passa por uma linha de montagem, para se inculcar valor acrescentado."

Os nossos filhos são a matéria prima a ser transformada em capital humano.

"Em termos metafóricos é esta a nossa herança. Trinta crianças numa sala de aula, altamente disciplinadas, passivamente aprendendo aquilo que o professor, senhor da autoridade do conhecimento e do saber, lhe transmite... esta era a forma mais hábil e consentânea com as necessidades da sociedade fabril e industrial, onde o modelo de produção era essencialmente assente numa rotina de trabalhos para a qual se pretendia que as pessoas fossem disciplinadas e obedientes."

A escola tradicional visava formar trabalhadores obedientes. Mas com a globalização as necessidades são outras. O mercado de trabalho exige trabalhadores inovadores e criativos, capazes de imaginar novas possibilidades e alternativas, capazes de resolver problemas, de analisar situações complexas, de fazer mediação de conflitos, de comunicar com pessoas de outras culturas, de desaprender modelos obsoletos e tornar a aprender ao longo de toda a vida.

"Como é que estas novas competências são adquiridas num mundo mergulhado na informação, onde a escola não tem mais o monopólio da sua transmissão? Na verdade, a informação chega hoje por todos os lados: pela TV, pelos novos media, pelos CD ROM's, pelos jornais, pela comunicação global e total que tem lugar no nosso mundo, onde muitas competências são adquiridas individualmente por métodos totalmente não formais. Não estará longe o dia em que qualquer pessoa, pela internet, pode estudar línguas, desenho de máquinas, história, ou qualquer outra disciplina do conhecimento."

Bem, para nós, e para muitas famílias, esse dia já chegou! Através da internet, de grupos de trocas de conhecimentos e recursos educacionais, de redes sociais, de encontros com outras famílias que optaram pelo ensino doméstico, e assim por diante, o acesso à aquisição dessas competências é fácil. Não que o objectivo seja que os filhos venham a ter sucesso trabalhando para corporações multinacionais, pois muitas famílias que optam pelo ensino doméstico estão plenamente conscientes da insustentabilidade da sociedade de consumo e colocam as suas energias, como dizia Gandhi, "sendo a mudança que querem ver no mundo".

Seguidamente, o texto fala do problema da ausência de sistemas de reconhecimento e de acreditação dessas competências porque as instituições académicas e escolares têm o monopólio na emissão de diplomas. Para mim, como para vários outros, a falta de acreditação não é necessariamente um problema. Mas isto dava muito que falar e hoje já não tenho tempo. Está um dia bonito demais para ser desperdiçado na internet! A campainha está a tocar e a sala de aulas para onde vou é a praia!

sábado, 18 de abril de 2009

Teach Your Own: Livro de John Holt

Como hoje, no encontro sobre a educação intuitiva, vi que várias pessoas pareciam estar interessadas nas ideias de John Holt, deixo-vos aqui um dos livros dele, em inglês.

teachyourown

Como funciona o ensino doméstico V

Estilos de aprendizagem

Continuação: a 1ª parte deste artigo está aqui, a 2ª aqui, a 3ª aqui e a 4ª aqui.

Já ficámos com uma ideia geral das várias metodologias que o ensino doméstico pode adoptar. Agora, antes de optarmos por um determinado método, devemos ter em conta o estilo de aprendizagem dos nossos filhos.

Basicamente, existem quatro maneiras de aprender:

* A criança visual é aquela que precisa de ver as coisas para as compreender bem. As crianças visuais respondem bem a diagramas, imagens, gráficos, livros com gravuras e assim por diante. Às vezes gostam de responder a novos conhecimentos criando representações visuais deles.

* A criança auditiva é aquela que aprende ouvindo e falando.
Devido ao seu elemento narrativo, o método de Charlotte Mason é um bom exemplo da metodologia usada para as crianças auditivas.

* A criança táctil é aquela que aprende através do tacto. Uma boa maneira de ocupar estas crianças é através de viagens pelo campo, experiências, projectos artesanais e assim por diante.

* A criança cinestésica precisa de estar intimamente envolvida com aquilo que está a aprender. Por exemplo, se estiver a ler uma história sobre barcos quer ir logo ver os barcos de verdade ou aprender a remar.

Vocês já devem ter uma ideia de qual o tipo de criança os vossos filhos são mas se não a tiverem, comecem a observá-los com atenção. E tentem também descobrir como é que vocês, os pais, melhor aprendem, para estarem conscientes da maneira como influencia a maneira em que vocês naturalmente educam os vossos filhos.

Para os pais, o ensino doméstico é um processo de aprendizagem tanto quanto para os filhos. Vocês não precisam ficar vinculados a um método para sempre. Se resolveram usar o método estruturado mas estão a achá-lo muito rígido, tentem as unidades de estudo. Se essas não derem certo, tentem o método eclético.

De acordo com vários sites e livros sobre o ensino doméstico, muitas famílias avaliam o processo educativo regularmente: nunca é tarde demais nem cedo demais para o ensino doméstico e se não der resultado podem sempre tornar a matricular os vossos filhos numa escola mais tradicional.

Acaba aqui.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Por onde andámos...

Praia da Rocha, Portimão

Casinhas típicas de Alvor

Praia de Alvor

terça-feira, 7 de abril de 2009

Como funciona o ensino doméstico IV

Continuação: a 1ª parte deste artigo está aqui, a 2ª aqui e a 3ª aqui.

Método Charlotte Mason


Este método baseia-se nos princípios de Charlotte Mason, descritos na sua obra em 6 volumes "The Original Home Schooling Series" (abre livro, em inglês).

O estudo das belas artes e da natureza é parte integral deste método, além das matérias mais comuns. O elemento que se destaca nesta obra, porém, não é tanto um método de ensino mas a forma de avaliar os conhecimentos adquiridos. Para quantificar a aprendizagem, em vez de usar a forma comum de perguntas e respostas, utiliza um processo chamado "narração" .

A autora Catherine Levison explica:

Pedimos à criança que nos conte tudo o que sabe a respeito do Canadá, da polinização, do sistema endócrino, da divisão polinomial ou qualquer outro assunto que estudámos durante o dia, semana ou ano. Isto ajuda os pais a saber imediatamente se os filhos compreenderam o material que estão estudando. A ideia principal é que não podemos narrar aquilo que não sabemos e só conseguimos narrar o que realmente sabemos.
Método Waldorf

O método Waldorf baseia-se nas pesquisas e trabalhos do cientista austríaco Rudolf Steiner. Preocupado em educar a "criança completa", Steiner enfatizou uma variedade de tópicos criativos que as escolas tradicionais geralmente consideram secundários, tais como as belas artes (pintura, música e teatro), idiomas estrangeiros, costura e até jardinagem. O estágio de desenvolvimento dos alunos dita os objetos de estudo e os trabalhos de grupo. Algumas pessoas referem-se a este método como o método da "cabeça, coração e mãos".

Aqui ficam umas ligações (livros e palestras de Rudolf Steiner):

The Education of the Child
A Educação Da Criança
Educação na puberdade (O ensino criativo)

Unidades de estudo

As unidades de estudo podem ser consideradas como o método multi-tarefas do ensino doméstico. Um tópico ou tema específico é examinado, durante uma semana ou um semestre, através de várias disciplinas académicas. O tópico ou tema pode ser qualquer coisa: um livro (como "Harry Potter"), um feriado, um desporto ou um animal. Esse tema é pesquisado através de várias disciplinas como a história, literatura, matemática e ciência. Este método pode ser bastante activo; os pais podem encorajar os filhos a decidir as actividades a incorporar à unidade de estudo: experiências científicas, cronologia, visitas a museus, pesquisas em bibliotecas, leitura de livros, programas ou documentários especiais na TV e assim por diante.

Unschooling


Também denominado aprendizagem direccionada pela criança e aprendizagem natural, o termo unschooling foi originalmente usado por John Holt. O método é exatamente esse: nada de escola.

Unschooling é um dos métodos do ensino doméstico, muito bem aceite por famílias norte-americanas e europeias. As crianças que seguem o ensino doméstico não vão à escola para aprender. Toda a aprendizagem é feita a partir de casa. O unschooling é ainda mais livre, apregoando que na aprendizagem as crianças devem seguir os seus próprios ritmos. A aprendizagem torna-se simplesmente uma parte natural da vida. Todos os dias é a criança que decide o que quer fazer, se quer ir à biblioteca ler sobre baleias ou passar o dia fazendo experiências científicas na cozinha.

À medida em que crescem começam geralmente a integrar aulas e cursos externos. O importante é que são os jovens que controlam os seus horários e que fazem os ajustes necessários para os cumprir. Como observa um jovem que não frequentou escola: "estou a planear o que fazer. Tenho um grande sentido de responsibilidade naquilo que faço. Em vez de me forçarem a andar de actividade em actividade e me obrigarem a fazer determinadas coisas em determinados dias e horas, sou eu quem decide". Com esse poder de decisão vem a responsabilidade da gestão do tempo.

Os pais estão sempre à mão para dar apoio. Eles encorajam e ajudam a manter o ambiente de aprendizagem rico e real, respondendo a perguntas e funcionando como uma fonte de ideias, mas seguindo sempre as directrizes dos filhos.

Método eclético

Esta metodologia é como um menu de métodos. Na abordagem eclética, os pais selecionam uma série de elementos de alguns (ou todos) estilos do ensino doméstico e criam um método personalizado. A vantagem desta metodologia é que ela é muito flexivel, podendo ser facilmente adaptada a qualquer estilo de aprendizagem.

Além de todos estes métodos, existem ainda mais possibilidades para quem segue o ensino doméstico. Várias escolas - públicas, privadas e escolas virtuais - oferecem oportunidades de aprender à distância através da internet. Os estudantes do ensino doméstico também podem fazer cursos, por correspondência, disponibilizados por universidades de todo o mundo.

Agora que já têm uma ideia das várias metodologias e de como encontrar mais informações sobre cada uma delas, há ainda um outro elemento crucial em que devem pensar: os estilos de aprendizagem.

Continua aqui.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Como funciona o ensino doméstico III

Continuação: a 1ª parte deste artigo está aqui e a 2ª aqui.

Os primeiros passos

Entrem em contacto com outras famílias que já praticam o ensino ensino doméstico e ponham-se a par da legislação.

Métodos usados no ensino doméstico I

Muitas pessoas, quando pensam no ensino doméstico, imaginam três ou quatro crianças sentadas à volta duma mesa na cozinha escrevendo freneticamente nos seus cadernos com a mãe ali por perto. Embora às vezes esse seja o caso, a verdade é que no ensino doméstico não existe um dia típico. Com tantos ramos do pensamento sobre os processos educativos, existem, no ensino doméstico, tantos métodos didáticos e filosofias de educação quanto famílias que os utilizam. Vamos agora descrever alguns desses métodos.

Ensino doméstico estruturado

Conhecido como homeschooling, escola em casa ou método tradicional, é exatamente o que o nome descreve: um ambiente semelhante ao que o estudante encontraria numa escola tradicional. Os pais desempenham o papel de "professor", utilizando um conteúdo programático que se aproxima ou é igual ao que o aluno estaria seguindo numa escola tradicional pública ou privada. Com este método, os pais podem comprar uma série de materiais didáticos que acompanham o currículo nacional.

Educação clássica

Este método baseia-se em dois princípios fundamentais:
* Há três fases ou estágios de aprendizagem que dependem uns dos outros:

Gramática: alunos com "idade para aprender gramática" concentram-se na memorização e colecção de factos.

Lógica: alunos mais crescidos concentram-se no pensamento crítico, colocando os pedaços de informação que colheram dentro de um contexto.

Retórica: alunos mais velhos avaliam as informações e são capazes, a partir delas, de formular um argumento bem articulado .

* Essas fases de aprendizagem são concentradas na linguagem e dependentes da palavra (escrita e falada), em vez da aprendizagem visual, que utiliza imagens tais como fotos, vídeo ou filmes.

Para uma explanação minuciosa deste método consultem o livro "The Well-Trained Mind: A Guide to Classical Education at Home", de Jessie Wise e Susan Wise Bauer.

O método Montessori


Baseado nas pesquisas e textos de Maria Montessori, este método vê a criança como professor e aluno. A aprendizagem é vista como um processo natural e auto-dirigido. Os princípios deste método concentram-se no que Montessori chamou "mente absorvente". A criança é livre para aprender no seu próprio ritmo, interagindo e respondendo ao ambiente. O pai ou professor, agindo como "guardião do ambiente", tem a função de criar uma situação que encoraja e leva a criança a explorar o ambiente à sua volta. Para os mais pequeninos, isto inclui proporcionar materiais didáticos do tamanho das crianças, por exemplo, pequenas cadeiras e mesas. Aqui fica o livro dela, em inglês.

The Montessori Method

Continua aqui...

domingo, 5 de abril de 2009

Como funciona o ensino doméstico II

A primeira parte do artigo encontra-se aqui.

A decisão de educar os filhos em casa


Educar os filhos em casa é uma decisão importante. Como em qualquer outra decisão, o essencial é pesquisar o tópico falando, idealmente, com pessoas que já têm alguma experiência e perguntando-lhes o que elas gostam - e não gostam - do ensino doméstico. Se não conhecem ninguém, tentem saber se os vossos amigos ou vizinhos conhecem. Também existem vários sites, fórums e grupos-yahoo sobre o ensino doméstico onde podem entrar em contacto com famílias que já praticam o ensino doméstico.


As bibliotecas também podem ser úteis. Além de livros de referência, como o Homeschooling Almanac de Mary e Michael Leppert, e Homeschooling for Success, de Rebecca Kochenderfer e Elizabeth Kanna, pode ser que consigam encontrar livros como Real-Life Homeschooling, de Rhonda Barfield, que conta a história de 21 famílias muito diferentes que praticam o ensino doméstico.

Se estiverem a pensar no ensino doméstico como uma possível via para os vossos filhos, vale a pena reflectir em algumas questões. Se quiserem, podem escrever as vossas respostas para futura referência.

Por que é que querem praticar o ensino doméstico?

Se decidirem optar pelo ensino doméstico, a resposta a esta pergunta vai ajudar-vos a escolher o método ou estilo. Portanto, é boa ideia serem o mais claros possível.

A vossa família tem condições para o ensino doméstico?

Os custos financeiros dos materiais necessários para o ensino doméstico variam muito: entre umas centenas de euros por ano ou muito, muito mais. Normalmente o maior custo é o de um salário perdido. Nas famílias que praticam o ensino doméstico é normal um dos pais ficar encarregado da educação dos filhos. Isso geralmente significa que não terá muito tempo disponível para o trabalho remunerado. Contudo, como cada vez mais pessoas trabalham em casa, este não é o único cenário. Na verdade, há famílias onde ambos os pais conseguem trabalhar, como por exemplo quando trabalham por conta própria a partir de casa. Nesta situação, com uma programação criativa, os pais podem adoptar o papel de "professor" do ensino doméstico e ter também outro emprego.

Sentem-se preparados (as) para educar os vossos filhos?

Notem que a pergunta se concentra no que VOCÊS sentem, e não no que o Estado ou a Direcção Regional de Educação acha. O que VOCÊS sentem é essencial, pois a auto-confiança é muito importante. Se a ideia de assumir responsibilidade pela educação dos vossos filhos vos arrepiar, isso é algo que não devem ignorar.

O que é que os vossos filhos sentem e pensam a respeito do ensino doméstico?

Quer os vossos filhos tenham sete anos de idade quer sejam adolescentes, esta pegunta é importante. Se vocês não têm reservas quanto ao ensino doméstico e se os vossos filhos também concordam, isso já é um grande avanço. Mas se os vossos filhos não estiverem completamente seguros de que é isso que querem, se não estiverem prontos a optar pelo ensino doméstico e a planejar o material, tentem descobrir porquê. Façam uma lista dos prós e contras e, conversando, tentem identificar os pontos que estão influenciando a decisão final. Poderão convencer os vossos filhos de que o ensino doméstico seria a melhor decisão ou eles poderão convencer-vos que não. Pode ser que decidam experimentar por algum tempo. Tomem nota destas discussões iniciais e voltem ao tema no final do primeiro ano do ensino doméstico. Este processo pode ser o vosso primeiro projecto educativo.

A partir de agora, para efeitos deste artigo, vamos supor que vocês optaram pelo ensino doméstico. Qual é o passo seguinte? Identificar os requisitos legais para o ensino doméstico.

Continua...

Por onde andámos...

Domingo de manhã. Corridas de cães, pelo que parece.

Não está muita gente, mas a que aqui está leva isto a sério!

Os ingleses adoram cães... e levá-los a passear...

Também gostam de jogar futebol. Eu não, nem que me pagassem!

Prefiro ver os corvos,

e a paisagem...

A maré estava completamente vazia

mas as árvores já estão em flor.

Bonito, não? Sabem que árvore é?

sábado, 4 de abril de 2009

Como funciona o ensino doméstico I

Tradução livre de um artigo de Katherine Neer sobre o ensino doméstico nos E.U.A.

Introdução

O Centro Nacional de Estatísticas da Educação dos E.U.A. (NCES) diz-nos que em 2003 cerca de 1,1 milhão de estudantes estava no ensino doméstico, aprendendo em casa em vez de frequentarem escolas públicas ou privadas. Várias organizações do ensino doméstico sugerem que na verdade o número é muito maior, chegando a atingir o dobro, pois embora normalmente as famílias tenham de notificar as Direcções Regionais de Educação, em 9 Estados a lei não exige que o façam.

Grupo de ensino doméstico visitando o Serviço Meteorológico

Nos E.U.A., em 2002-2003, 1,1 milhão de alunos era o equivalente a 0,5% da população em idade escolar. A percentagem, embora talvez não pareça, é significativa quando nos apercebemos do que tem vindo a acontecer: há 20 anos o ensino doméstico era ilegal nos Estados Unidos. Em meados da década de 90, graças a algumas famílias muito activas em relação ao ensino doméstico e a alterações na legislação, o movimento acelerou e desde então tem sido uma bola de neve.

No ano lectivo de 1985-1986, o número de alunos inscritos no ensino doméstico em North Carolina era 809. Em 1990-1991 o número aumenta para 4.127, e em 1995-1996 atingiu os 13.801. No ano 2000-2001 já eram 33.860 e em 2003-2004 aumentou para 54.501.

Mas porque é que o ensino doméstico está a ganhar popularidade? Porque é que os pais preferem educar os filhos em casa? Num inquérito ao ensino doméstico realizado pela NCES em 2003, os pais foram questionados sobre os motivos que os levaram a optar pelo ensino doméstico por grau de importância:

31% decisão devido à preocupação com o ambiente das escolas.

30% fazem-no para transmitir valores morais e crenças religiosas.

16% optaram pelo ensino doméstico devido à insatisfação com a qualidade do ensino nas escolas.


Neste artigo vamos falar sobre o significado do ensino doméstico, os vários métodos praticados e o que os pais precisam saber se estiverem a pensar educar os filhos em casa.

O que é o ensino doméstico?


Nos E.U.A., a definição de ensino doméstico, por razões legais, é diferente de Estado para Estado. Em North Carolina, por exemplo, a definição é a seguinte:

"uma escola privada na qual 1 ou mais crianças de não mais de 2 famílias recebe instrução acadêmica dos pais, tutores ou alguém de uma das casas."

Em Portugal, a lei define o ensino doméstico como:

"aquele que é leccionado no domicílio do aluno, por um familiar ou por pessoa que com ele habite."


Como nos E.U.A. a definição muda consoante o Estado, as exigências legais para o estabelecimento de uma “escola privada” para o ensino doméstico também mudam. Essas leis entram geralmente em vigor quando as crianças atingem os 7 ou 8 anos de idade. Por curiosidade, uma pequena lista das coisas que as crianças aprendem no ensino doméstico antes da idade escolar:

falar
andar
correr
brincar
cantar
vestir-se
amarrar sapatos
contar até 10, 20 ou mais
recitar o alfabeto
reconhecer as letras do alfabeto
soletrar o nome

Estas são só algumas coisas básicas. Há muitas crianças que sabem ler, fazer contas, tocar um instrumento musical, nadar, dançar, etc, antes de terem idade para entrar na pré-primária. Geralmente, é um familiar (os pais, avós, irmãos mais velhos) que as ajuda a aprender a fazer essas coisas. Qualquer passeio em contacto com a natureza, mostrando várias plantas, insectos e animais, é uma experiência de aprendizagem. Qualquer ida ao jardim zoológico é uma experiência de aprendizagem. Até as actividades diárias, como fazer compras na mercearia e cozinhar, são experiências de aprendizagem.

Se as crianças aprendem naturalmente em casa, se é em casa que começam a aprender, porque é que há tanta preocupação com a educação? A resposta é simples: o ensino doméstico não é para todos. Mas, para alguns, é a melhor opção.

Jovens em regime de ensino doméstico visitando uma plantação de ananás em Maui

Existem montes de livros na internet demonstrando que o ensino doméstico pode ser uma experiência positiva para toda a família. Porém, como exige um enorme compromisso por parte dos pais e dos filhos, é uma decisão que não deve ser tomada levianamente.

A seguir vamos falar sobre o tipo de coisas que devemos ter em conta se estivermos a pensar seriamente no ensino doméstico.

Continua aqui...

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ensino doméstico: um vídeo


As fotos foram tiradas hoje à tarde, em Ashton Court.
Fizemos uma photostory com informação sobre o ensino doméstico (a que está no cabeçalho e o que diz a lei) e colocámos no nosso canal do YouTube.

A música, Music of the Medieval Pilgrim on the Way to Bethlehem, é sufi, dos "dervixes rodopiantes" do Egipto. Se gostaram podem baixar gratuitamente aqui.

Por onde andámos...





Um cemitério para animais de estimação.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Dia Mundial da Consciencialização do Autismo

Como hoje é o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, vou falar sobre algumas das vantagens do ensino doméstico para as crianças e adolescentes com a síndrome de Asperger.

O ensino doméstico tem muitas vantagens porque, afinal, ninguém conhece melhor os filhos do que os pais. Os pais sabem o que os entristece e o que lhes faz sorrir; as suas dificuldades e os seus fortes. Mas a decisão de os educar em casa nem sempre é fácil, especialmente em Portugal, onde o ensino doméstico é praticamente desconhecido, e no Brasil, onde continua a ser ilegal.

Dan Aykroyd foi diagnosticado com a Síndrome de Aspergers.

No entanto, como a escola pode ter um efeito tão negativo na vida de algumas crianças com a síndrome de Asperger, hoje vou falar sobre algumas das coisas que geralmente passam pela cabeça dos pais e que os leva a assumir a responsibilidade total pela educação dos filhos (embora saiba muito bem que para muitas famílias, pelo menos aqui no Reino Unido, não seja uma verdadeira opção
: ao verem os filhos sofrendo tanto, mas tanto que se tentam suicidar, não têm outro remédio senão tirá-los da escola e tentar ajudá-los a recuperar em casa).

Em relação à
síndrome de Asperger, muitos "especialistas" falam da importância da rotina mas poucos se dão ao trabalho de explicar que essa rotina tem de ir ao encontro das necessidades específicas das crianças porque se não torna-se prejudicial. A ideia que anda por aí é a de reduzir a ansiedade que as crianças sentem através, por exemplo, do uso de horários visuais e histórias sociais. Os pais sabem muito bem que isso não é suficiente. Sim, é verdade que as crianças gostam de saber o que se vai passar... e sabem... sabem que muita coisa se vai passar na escola que prefeririam evitar. O bullying, por exemplo, é normalmente parte da rotina escolar mas lá por fazer parte da rotina não passa a ser terapêutico. E mesmo que incluissem o bullying no horário visual e lessem histórias sociais sobre a violência escolar não tornariam o fenómeno menos destrutivo!

Pip Brown (Ladyhawke) tem a síndrome de Asperger.

No ambiente do lar, os pais podem estabelecer uma rotina que vai ao encontro das necessidades especiais dos filhos. Essa rotina sim, é terapêutica e facilmente mantida: as necessidades das outras crianças, o barulho e as interrupções constantes deixam de ser problemas.
Além disso, em casa, os pais podem focalizar nos pontos fortes e talentos individuais dos filhos, talentos estes que, no sistema escolar, passam facilmente despercebidos. A culpa não é necessariamente dos professores - o problema são as próprias escolas, superlotadas e subfinanciadas, e o seu sistema de ensino, inflexível e incapaz de nutrir o indivíduo.

O ensino doméstico evita completamente o problema do bullying, capaz de arrasar qualquer criança diferente. Hoje em dia já há muita informação disponível, pois já foram feitos muitos estudos nesta área: o bullying nas escolas é um problema enorme para as crianças e jovens com a síndrome de Asperger, ao ponto de ser capaz de as destruir.

Gary Numan também tem a síndrome de Asperger.

Também se fala muito das dificuldades de comunicação e interacção social das crianças com a Síndrome de Asperger. Na escola não sabem como se relacionar com a quantidade enorme de colegas, e acabam muitas vezes por ficar sozinhas no recreio, isoladas e perdidas no meio da multidão. Isto pode trazer muita mágoa às que gostariam de ter amigos mas não sabem como.

No ensino doméstico os pais podem organisar encontros, com uma ou duas crianças de cada vez, no ambiente seguro do lar ou em sítios em que os filhos se sintam bem e à vontade. Os pais também podem controlar a duração desses encontros: sabendo que os "problemas de comunicação e relacionamento" que os filhos têm na companhia de 30 e tal colegas (centenas nos intervalos!) resultam dessas mesmas circunstâncias, organizam encontros que vão ao encontro das suas necessidades especiais - o que importa é a qualidade da interacção e dos relacionamentos e não a quantidade. Aí sim, podem aprender a fazer amizades e a comunicar melhor.

Craig Nicholls (The Vines) tem a síndrome de Asperger

Muitas famílias que educam filhos com a síndrome de Asperger têm blogues onde partilham o seu dia a dia. Aqui ficam uns poucos:

Home Schooling Aspergers
The Voyage: Life, family, autism and home education
Six Home Ed in Kent
By Other Means
Sweet schooling
Home Baked Education

Finalmente, é importante lembrar que existem certos protocolos e requisitos legais em relação ao ensino doméstico. Entrem em contacto com a vossa Direcção Regional de Educação mas não desanimem se o pessoal que lá trabalha nunca ouviu falar do ensino doméstico. Os pais têm de ser activos e arranjar maneira de educar os funcionários públicos, que geralmente nem sequer estão a par da legislação. E têm de ser fortes e lutar pelos seus direitos.

Vernon Smith, Prémio Nobel Economia 2002 tem a síndrome de Asperger.

Resumindo, o ensino doméstico pode ser excelente, evitando os efeitos destrutivos do bullying e de um sistema escolar muitas vezes incapaz de satisfazer as necessidades especiais dos vossos filhos. Mas é claro, se estiverem a pensar seriamente no ensino doméstico, devem pesquisar e aprender o mais possivel sobre o assunto antes de resolverem seguir em frente.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Refugiados educacionais

Família alemã pede asilo aos E.U.A. para poder continuar a educar os filhos em casa

"O ensino doméstico é tão importante para Uwe Romeike, sua esposa e cinco filhos, que o pianista clássico vendeu seus adorados pianos de cauda para pagar a viagem e mudança da Alemanha para Tennessee.

Enquanto esperam que lhes seja dado asilo político vão vivendo num modesto duplex cerca de 40 milhas a nordeste de Knoxville. Dizem que foram perseguidos na Alemanha, onde a frequência escolar é obrigatória, devido à decisão de educar filhos em casa (e às suas crenças religiosas - são cristãos evangélicos).

Quando se recusaram a obedecer às repetidas ordens de obrigar os filhos a frequentar a escola, a polícia foi a casa deles, pegou nas crianças e levou-as chorando numa grande aflição para a escola.

"Tentámos não abrir a porta, mas eles (polícia) continuaram a tocar a campainha durante 15 ou 20 minutos", disse Romeike. "Telefonaram e deixaram uma mensagem dizendo que se não abrissemos a porta a iriam arrombar, e aí eu abri a porta."

Romeike disse que, como muitos pais americanos, queria educar os filhos fora da escola porque os livros da escola alemã continham linguagem e ideias que estão em conflito com os valores da sua família.

Teve de pagar multas de centenas de dólares pela decisão, e receia ser preso pela polícia se voltar à Alemanha; além disso, tem medo que as autoridades governamentais venham tirar-lhe os filhos, que têm entre os 3 e os 11 anos de idade.

Os Romeikes procuram a liberdade de educação que há nos E.U.A. "A Alemanha, ao contrário do resto da Europa Ocidental, é dura na repressão contra os pais", disse Donnelly. "Eles têm a noção de que o ensino doméstico cria uma sociedade paralela e perigosa."

Na Alemanha, a abordagem ao ensino doméstico é muito diferente do que nos E.U.A. e outros países europeus. Nos E.U.A., o número de estudantes em regime de ensino doméstico tem vindo a aumentar cerca de 8% anualmente. Em 2007 o número de crianças e jovens educados em casa já atingia 1,5 milhão. Na Alemanha pensa-se que apenas 500 crianças aprendem em casa.

"Hoje, as escolas públicas são completamente diferentes daquilo que eram nos meus tempos", disse Romeike. "Eles (o Estado) acreditam que as crianças devem ser socializadas, mas socializadas no sentido de que devem ser todas iguais e agir da mesma maneira, senão não se vão encaixar na sociedade."

A constituição alemã exige que as crianças frequentem a escola. Os pais que não obedecem enfrentam penalizações, desde multas a tempo na prisão. Os tribunais decidiram que nos casos mais graves os trabalhadores sociais podem retirar as crianças dos pais.

Mas o interesse no ensino doméstico não desapareceu. Elisabeth Kühnle, da Rede para a Liberdade de Educação, um grupo alemão que campanha pelo ensino doméstico, diz que recentemente 50 famílias participaram num encontro em Baden-Wuerttemberg."

Tradução livre de parte deste artigo.

terça-feira, 31 de março de 2009

Por quê acusar os pais que educam em casa?

Este artigo apareceu hoje no Guardian e resolvi traduzí-lo. Face à última tentativa de demonização do ensino doméstico, por parte do governo britânico, Dr. Bernard Trafford, (director de uma escola secundária e presidente da Associação de Directores de Escola) vem à defesa dos pais que educam os filhos em casa:

"Hoje em dia já muito se fala sobre a sociedade de vigilância. Organização após organização vai-se tornando parte do mecanismo, por isso não nos devemos admirar que o mais recente instrumento de vigia às famílias sejam as escolas.

Cedendo à pressão que, após a sucessão de casos de maus tratos a menores, pôs os mídia numa grande gritaria, exigindo que algo seja feito e levando por sua vez à criação de mais e mais carradas de procedimentos para a protecção de menores, o governo pediu a Graham Badman - presidente da Comissão de Haringey de Protecção das Crianças que veio substituir Sharon Shoesmith, despedida após o inquérito Bebé P, - para examinar a protecção e apoio às crianças e jovens educados em casa.

Um artigo recente citou a ministra das crianças, Delyth Morgan: "Se existem problemas, temos de analisar os factos. O ensino doméstico é uma parte pequena mas importante na adequada manutenção da protecção de menores."

Na tempestade de indignação que se seguiu à tragédia do Bebê P, a procura de um bode expiatório depressa começou. Inexplicavelmente, dedos estão sendo apontados às famílias que optam pelo ensino doméstico. Neste momento, os 20 000 pais que decidiram educar os próprios filhos estão sendo acusados de motivos que são, na melhor das hipóteses, suspeitos, e, na pior, abusivos.

Porque se tornaram subitamente o alvo não é claro. As mais horríficas alegações são feitas e aparentemente aceites sem a devida análise. The Independent descreve o medo que as Direcções Regionais de Educação têm, de que os pais possam estar a usar o ensino doméstico para mascarar o absentismo escolar, ocultar casamentos forçados ou o trabalho forçado (pondo, por exemplo, os filhos mais velhos a tomar conta dos mais novos). Um porta-voz da NSPCC observou: "Não temos nenhuma opinião sobre o ensino doméstico, mas sabemos que para descobrirmos se as crianças estão sendo mal tratadas precisamos ter acesso a elas." A insinuação é feita. A lama pega.

A sugestão é que só nos podemos assegurar de que as crianças não estão sendo mal tratadas pelos pais se elas frequentarem as escolas, mas esse pressuposto moralista e presunçoso é injusto e incorrecto. Victoria Climbié (uma menina torturada pela tia e pelo amante, que a deixaram morrer de fome em 2000), não frequentava a escola nem estava matriculada no ensino doméstico quando morreu. Eunice Spry foi presa depois de maltratar as crianças de quem tomou conta durante 19 anos: dizem que ninguém notou as nódoas negras das crianças porque eram educadas em casa. Mas Eunice nem sequer era a mãe delas... e onde estavam os trabalhadores sociais?

Os pais que educam os filhos em casa merecem um tratamento melhor. Eu sei porque fui um deles. Entre 1991 e 1996, depois de ter sido nomeado director de uma escola secundária, a minha mulher ensinou as nossas duas filhas em casa. Estes cinco anos foram os mais felizes da nossa vida, cheios da alegria da descoberta e da aprendizagem constante. Mais tarde elas próprias resolveram frequentar a escola secundária e hoje são adultas, felizes, cheias de auto-confiança, com boas qualificações e bons empregos.

Funcionou para nós, mas muitos achavam que nós éramos estranhos. Alguns amigos e colegas de trabalho sentiam-se profundamente incomodados com a nossa decisão. As pessoas têm receio do desconhecido, do diferente, mas muitas vezes os pais voltam-se para o ensino doméstico precisamente porque os filhos são diferentes e, como resultado, facilmente se tornam vítimas de bullying na escola. Outros educam os filhos em casa por princípio ou, como nós, porque estão convencidos de que podem oferecer algo melhor. Para nós, o problema era o currículo nacional, que arrasou o ensino básico.

A imagem muitas vezes pintada, de um certo secretismo, é enganosa: a maioria dos pais que praticam o ensino doméstico fazem-no abertamente e estão em contacto com os mais variados grupos. Talvez alguns "escondam" os filhos; também há uns quantos fundamentalistas religiosos entre eles. Eu não gosto dessas duas abordagens mas acho que ninguém tem o direito de as proibir. Talvez uma minoria muito pequena de pais-educadores maltrate os filhos. Estatisticamente, uma percentagem minúscula de juízes, políticos, médicos, advogados, líderes religiosos, professores e até trabalhadores sociais devem também mal tratar os filhos, mas não banimos essas profissões. E lembrem-se: as famílias que praticam o ensino doméstico já são inspeccionadas.

Paranóia sobre os falhanços do sistema na protecção de menores está a levar a sociedade a demonizar alguns espíritos mais livres. Não nos devemos surpreender. Nós vivemos num mundo onde somos filmados em CCTV onde quer que vamos. Entre a reacção histérica aos grandes fracassos na protecção das crianças, os direitos de algumas famílias que se recusam a seguir o rebanho será visto como um sacrifício aceitável no altar da obsessão pela segurança."

Eis um dos comentários:

"Obrigado, obrigado, obrigado. Alguém com bom senso! Eu, como muitos outros pais-educadores, sinto-me incrivelmente perseguida por causa desta campanha contra o ensino doméstico. É bom saber que há alguém disposto a vir à nossa defesa. Obrigado! Eu educo o meu filho em casa porque ele tem necessidades especiais que não foram satisfeitas na escola, apesar de lhe terem dada o estatuto Acção Escolar Plus. Ele teve um esgotamento nervoso e tornou-se violento contra mim devido à frustração que sentia na escola (ele está no espectro autista). Agora, graças ao ensino doméstico, ele é outra vez a criança feliz, curiosa e confiante que era. Em casa, ele pode fazer as coisas ao seu próprio ritmo e conviver com pessoas quando se sente bem. Se alguém o mal tratou foi a escola!"

segunda-feira, 30 de março de 2009

A superstição da socialização

Mais um artigo de Roland Meighan.
Podem ler o original, em inglês, aqui.

H G McCurdey realizou, na Universidade de North Carolina, E.U.A., um estudo sobre os factores que contribuem para o desenvolvimento das pessoas de maior sucesso. O estudo foi relatado no livro Education and Ecstasy, de George Leonard. São pessoas que chegam a ser conhecidas como gênios. Três factores foram identificados. O primeiro foi um elevado grau de atenção individual dado pelos pais e outros adultos, expresso em actividades educativas acompanhadas por muito afecto. O segundo factor foi umambiente que valoriza a imaginação e a fantasia. O terceiro foi o contacto limitado com outras crianças, mas muito contacto com adultos genuinamente interessados.

McCurdey concluiu que a escolaridade obrigatória, uma escola de massas baseada em métodos formais e organização rígida, é o mais prolongado experimento na maior redução possivel destes 3 factores: o resultado é a supressão do alto desempenho.

Bertrand Russell, que havia sido educado em casa, fundou a sua própria escola em Beacon Hill quando se apercebeu que nenhuma das escolas disponíveis tinha o tipo de ambiente que queria não só para os seus filhos mas também para os filhos dos outros. Em retrospecto, porém, disse que a escola não tinha alcançado o sucesso que esperava pois havia seriamente sobre-estimado a quantidade de tempo que as crianças precisam de passar na companhia umas das outras.

15,000 é o número de horas que as forçamos a passar na companhia de um número seleccionado de colegas; no entanto, os adultos continuam a insistir que essa socialização vale a pena. Pode ser socialização, mas a sua qualidade é altamente suspeita.

Aqui estão alguns artigos que apareceram recentemente (os 4 exemplos seguintes foram modificados para reflectirem a realidade portuguesa):

1) Pais preocupados com violência nas escolas - Os alunos agora consideram o bullying como parte integral da vida escolar. De acordo com um estudo conduzido pela psicóloga Sónia Seixas e divulgado na 4ª Conferência Internacional sobre Violência Escolar e Políticas Públicas, o bullying envolve 65% dos alunos.

2) Ministério da Educação tem conhecimento de armas nas escolas - ASPP confirma que já foram apreendidas armas nas escolas: “Já aconteceu a apreensão de armas de fogo em alguns adolescentes”. Sete armas são apreendidas por cada dez dias de aulas. Já em 2005, o relatório da PSP alertava para a dimensão crescente deste fenómeno.

3) Escola Segura: apreendidas 20 mil doses de droga - Há escolas que decidem ignorar o problema e não informar a polícia para proteger a sua reputação. Para os meninos da escola primária, a fonte de informação sobre as drogas são os coleguinhas. Mais tarde, ao crescerem, são eles quem os iniciam no tabaco, álcool, drogas, junk food e a última moda.

4) Professor lança petição para responsibilizar os pais nos casos de absentismo e abandono escolar - A luta contra o absentismo escolar chegou a Portugal. Campanhas deste tipo são muitas vezes vistas como medidas para combater a exclusão social. "Exclusão de quê?", somos tentados a perguntar. "Armas, drogas ou bullying?"

Um dos grandes defensores da escola como meio de socialização foi o pedagogo americano John Dewey, mas ele queria escolas democráticas com elevados níveis de participação e partilha de poder, e não escolas com regimes totalitários baseados na coersão e imposição. O modelo obrigatório das nossas escolas não fazia parte do seu plano.

No entanto, a maior parte da população surpreende-se quando os pais retiram os filhos da escola e começam a educá-los em casa! "E a socialização?" perguntam imediatamente. A resposta, baseada em factos em vez de superstições, é a seguinte: "Exatamente! O melhor é evitá-la!" Porque se surpreendem tanto? Será que somos uma nação de cegos e surdos incapazes de compreender o significado de notícia após notícia após notícia sobre a socialização negativa das escolas?

A verdade é que, ao praticarem uma educação centrada na família, as famílias que optam pelo ensino doméstico proporcionam aos filhos uma vida social de maior qualidade. Como? De três maneiras:

Em primeiro lugar, usam o lar apenas como base para a interacção com a comunidade em que vivem, usando bibliotecas, museus e locais de interesse, seja na cidade ou no campo. No processo, interagem com pessoas de todas as idades enquanto que nas escolas os alunos estão fechados dentro de salas de aula com um número limitado e pouco diversificado de colegas e adultos.

Em segundo lugar, juntam-se aos escoteiros, guias e Woodcraft Folk, vão a aulas de artes marciais e natação, participam em grupos de história natural, e assim por diante.

Em terceiro lugar, entram em contacto com outras famílias que praticam o ensino doméstico, organisam encontros ocasionais ou, como é cada vez mais o caso, actividades semanais. Em Londres, por exemplo, estabeleceram The Otherwise Club, aberto duas vezes por semana a todas as famílias que lá querem ir.

Mas outra questão relacionada com a superstição da socialização é a discriminação contra os introvertidos. Quando vou a festas acabo muitas vezes num canto falando com alguém que também acha a procura de atenção social cansativa e o interminável fluxo de conversa corriqueira cada vez mais chato. Tenho verificado que geralmente os introvertidos são pessoas muito mais interessantes, compostas e reflexivas e que, na verdade, alguns dos mais prolíficos contribuintes de novas ideias têm este temperamento.

Portanto, se os vossos filhos se sentem bem sozinhos, na sua própria companhia e na vossa, isso não é automaticamente motivo de preocupação. Com efeito, a política habitacional do Reino Unido não teve outro remédio senão aceitar o facto de que são cada vez mais as pessoas que decidem viver sozinhas e que a procura de pequenos apartamentos é cada vez maior.

Na escola, os introvertidos tornam-se muitas vezes vítimas de bullying, pois normalmente a expectativa gerada pela superstição da socialização é a de que nos devemos juntar ao grupo. Isto pressupõe que o grupo de colegas criado artificialmente pela escola é um grupo que realmente vale a pena aderir. No liceu em que andei achei que esse grupo não valia a pena e preferi ter o meu círculo de amigos fora da escola. No entanto, o meu jeito para o desporto manteve-me em contacto com o grupo da escola mas sem ser submergido por ele. Outros não tiveram tanta sorte.

Um amigo meu, director de uma escola, oferece uma perspectiva sobre a socialização. Ele diz que o principal motivo que leva os pais a pedir que a escola mantenha o uso obrigatório do uniforme escolar é porque os protege contra a combinação letal das forças do mercado com a pressão dos colegas, que leva os filhos a pedir que os pais comprem os ténis mais caros e as roupas da última moda!