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terça-feira, 18 de agosto de 2009

Citações sobre a aprendizagem

Estou aprendendo o tempo todo. A lápide vai ser o meu diploma. Eartha Kitt

Estamos todos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo. Cora Coralina

Não raras noites, em minhas idas à universidade, o que mais me atingia, na alma, não era o que lá via mas sim o perfume das flores que envolviam ruas inteiras em meus trajetos de volta. Isaac Bianchi

O que realmente importa não pode ser ensinado em salas de aula. Robert Dockson

Aprendizagem Conversational ou Dialógica

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

Bruner (1990) descreve a pedagogia como uma "extensão da conversa". Se há um aspecto da aprendizagem informal no ensino doméstico ( educação domiciliar no Brasil) que sobressai acima todos os outros, comum com a aprendizagem informal dos bebés e adultos, é a conversa. À primeira vista, a maior parte da conversa ocorre no contexto social do dia a dia e é do tipo que passa normalmente despercebido. Mas a quantidade de oportunidades de aprendizagem contida neste tipo de conversa é surpreendente, especialmente porque a conversa é entre uma criança (ou adolescente) e um adulto, cujo conhecimento do mundo e de como descobrir sobre as coisas é obviamente muito maior.

É óbvio que a conversa informal, principalmente em contexto social, não segue qualquer sequência lógica ou linear. É difícil de entender o que leva de um tema a outro, mas é assim que ocorrem as conversas mais naturais. A questão é que (a aprendizagem conversacional) é natural. Tal como em qualquer conversa, quando uma pessoa sabe menos do que a outra sobre o tema que surgiu espontaneamente, ela vai, muito provavelmente, aprender com a outra. Uma pessoa explicar algo a outra é parte natural da conversa. Isto não é "ensinar", no sentido comum da palavra. É simplesmente contribuir para o fluir normal da conversa, oferecendo conhecimentos e respondendo a perguntas.

Obviamente nem tudo ficará gravado na memória, e grande parte será esquecido. Mas isso não é importante. O importante é que algumas coisas vão ser lembradas, e podem vir a ser investigadas noutra altura, mais tarde. Aprender desta forma não é considerado "trabalho" no contexto escolar. É aprender sem saber que se está aprendendo, como se por osmose, como estes dois pais observaram:
A maior parte da educação que dou é falando com eles. É assim que eu faço, na maior parte ... As perguntas que me fazem são, com frequência, de uma enorme profundidade (p. 69).

Tomam o pequeno almoço e depois não param de conversar, conversam o tempo todo. Isso ajuda-lhes a desenvolver ideias (p. 69).
Continua aqui.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Como capturar a aprendizagem informal?

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

É óbvio que não vai ser fácil ver progresso no dia a dia, ou até de mês a mês. Como Cullen et al (1999) observou em relação à educação informal dos adultos: "capturar a aprendizagem informal com a pesquisa exige muito esforço e perseverança. É, pela sua própria natureza, difícil de capturar e não se dispõe facilmente a ser escrutinizada e medida"(p. 7). Henze (1992) também comenta sobre as "qualidades evanescentes da aprendizagem informal e as dificuldades de capturá-la no seu contexto natural [de modo que], é raramente documentada ou estudada" (p. 4). Os pais que seguem a abordagem informal concordariam certamente com isto.
Comecei com muito pouca estrutura, mas com uma ideia do que eles deveriam fazer. Eu tinha um caderno bem espesso onde, durante uns tempos, escrevi o que fazíamos todos os dias. Queria provar que era boa naquilo que estava a fazer e para isso precisava de um registro. Mas foi muito difícil manter o diário. Começávamos num tema, cobríamos um montão de coisas e acabávamos numa outra matéria completamente diferente (p. 70).
Na escola, isto seria, justamente, considerado um descuido e até não-professional. Mas em casa, de algum modo, este "montão de coisas", como descreve a mãe acima, acaba eventualmente se unindo, tal como as peças de um puzzle.

Na escola, o currículo determina o processo de ensino-aprendizagem. Estruturado de forma lógica e sequencial, cada passo fácil de digerir, para facilitar a aprendizagem. Essencialmente, a tarefa do aluno é seguir uma sequência de aprendizagem predeterminada.

Mas quando as crianças aprendem informalmente, elas parecem fazer o contrário pois impõem a sua própria sequência ao que aprendem. A lógica do currículo não corresponde à lógica das crianças e dos jovens. A lógica das crianças e adolescentes é individual e determinada pela complexa e dinâmica interacção entre o nível actual de conhecimentos e a informação que vão recebidas, mediada pelas àreas de interesse, pela motivação, curiosidade e desejo de lidar com desafios. É como se cada criança tivesse a sua própria teoria de aprendizagem. Isto é muito eficiente porque novos conhecimentos e entendimentos só são assimilados quando expandem os conhecimentos existentes.

O oposto também contribui para a eficiência da aprendizagem informal - quando as novas matérias não encaixam no conhecimento existente ou não o expandem elas são ignoradas. Isto contradiz totalmente a aprendizagem escolar convencional, onde a expectativa é que os estudantes perseverem quando não compreendem; estes geralmente acabam por adquirir nada mais que um nível superficial de compreensão, que tem sido denominado aprendizagem superficial (Biggs, 1987).

A aprendizagem informal, portanto, segue uma espécie de lógica fuzzy e não-linear, específica a cada criança. Encontra um paralelo na aquisição da linguagem, que é aprendida pelas crianças de forma semelhante a esta, e igualmente individualizada (Crystal, 1976). Talvez a aprendizagem informal esteja mais adequada às inúmeras ligações e redes no córtex cerebral. Seja qual for o caso, ela funciona, e sem todos os esforços associados à aprendizagem formal, como estes pais descobriram.

[Ele] chega a um certo nível e depois desliga. Depois, quando volta a essa matéria, está num nível superior, sem nada visível ter acontecido (p. 71).
Eles aprendem um monte no dia a dia, com a vida, com o estar na companhia dos outros. Às vezes parece impossível como é que aprenderam tanta coisa. (p. 72)

Isto não significa que os pais nunca tenham momentos de dúvida, pois vivem sem o conforto de saberem que os filhos estão obtendo um curso acreditado formalmente, como nos diz esta mãe:

Ontem à noite dei comigo a pensar que o ensino doméstico não nos está levando a lado nenhum, que tudo que fazemos não passa de um monte de arranques falsos que depois não seguimos, um monte de peças que não estão formando nada em concreto (p. 81).
Continua aqui.

domingo, 16 de agosto de 2009

Sem palavras...

Adaptação da aprendizagem formal

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

Ensino doméstico e educação domiciliar - adaptação da aprendizagem formal

Muitos factores influenciam o afastamento, por parte dos pais, de tentativas de imitar a escola. Em primeiro lugar, como em casa as aulas formais são um-a-um, elas tendem a ser muito intensas. Por isso um dia inteiro de ensino-aprendizagem seria demais. Normalmente a primeira alteração é a redução do tempo dedicado às lições, geralmente a cerca de 2 horas, no período da manhã.

A flexibilidade da aprendizagem em casa significa também que os horários são desnecessários. As lições podem ser tão curtas ou longas quanto for necessário. Se, por algum motivo, a criança não estiver aprendendo porque está cansada, não se consegue concentrar ou não se sente bem, os pais não precisam insistir. Não há nada tão improdutivo como ensinar alguém que não está aprendendo nada. A lição pode ser abandonada e retomada mais tarde. Pelo outro lado, se a criança estiver concentrada e entusiasmada, a lição ou actividade pode continuar durante o tempo que o entusiasmo durar, e isso podem ser horas, dias ou semanas.

Outro aspecto da aprendizagem formal que depressa desaparece é a pesada dependência de exercícios e testes como prova de aprendizagem. Na escola, esta dependência é, obviamente, necessária. Sem ela o professor não seria capaz de acompanhar o progresso ou dar feedback. Em casa é simplesmente desnecessária porque a aprendizagem é muito interactiva. Isso significa que os pais sabem exactamente onde os filhos estão. Não é uma questão de fazer exercícios para verificar o que já foi aprendido e o que ainda não foi compreendido, mas de ultrapassar dificuldades no momento em que estas surgem, como estes pais observaram:
Nós não fazemos testes. Eu fico observando o tempo todo. Se fizerem algo errado eu digo-lhes imediatamente. Se corrigisse mais tarde eles não se iriam lembrar (p. 45).
As pessoas têm a ideia de que os alunos têm de vomitar a matéria. Mas nós não precisamos de fazer testes para ver se a matéria foi compreendida. Alguém me perguntou se nós fazíamos testes. Ao pensar nisso apercebi-me que fazer testes em casa seria uma farsa (Thomas, 2002).
Se pensarem nas diferenças entre o ambiente de casa e o da escola, as adaptações que descrevi até agora fazem sentido. Até aqui, tudo bem. Mas elas podem ir muito mais além. Depois de terem feito estas alterações, os pais parecem tornar-se conscientes de que os métodos escolares não são sagrados mas abertos à mudança.

Tomem o exemplo de um pai-educador bastante típico que reduziu a aprendizagem formal a umas 2 horas no período da manhã. Os filhos estão relativamente livres durante o resto do dia. Mas isso não significa que não estão fazendo nada. Podem ler por prazer, debater todo tipo de coisas com os pais, ir passear, participar em actividades, ajudar nas tarefas domésticas, seguir seus interesses e passatempos, utilizar o computador e assim por diante. À primeira vista, estas coisas não parecem ser mais do que umas “férias” agradáveis das lições “a sério”. No entanto, muitos pais começam a perceber que nessas actividades estão incorporadas oportunidades de aprendizagem. Esta mãe descreve a sua experiência quando ela começou a educar sua filha de 7 anos de idade, que havia retirado da escola:
Depois dos primeiros dois meses ficámos estoiradas. A pressão não era brincadeira... Era praticamente impossível ensiná-la num ambiente formal. Começámos então a dar passeios e a fazer uma série de outras coisas... Seis meses depois elaborei um gráfico em preparação para a próxima visita do inspector. Fiquei boquiaberta com a quantidade de aprendizagem que havia ocorrido através, por exemplo, de conversas e de andar por aqui e ali (p. 76).
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sábado, 15 de agosto de 2009

Por onde andámos...





Mais um passeio em Kings Weston...

Pesquisa sobre o ensino doméstico / educação domiciliar

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

O que me levou a pesquisar o ensino doméstico foi o meu interesse pelo ensino individualizado (Thomas, 1992). A minha introdução à aprendizagem informal surgiu quando fui convidado a passar uma semana "vivendo" com uma família que educa em casa.

O que mais me impressionou durante essa semana foi que, pelo menos à primeira vista, nada de especial parecia estar acontecendo, especialmente comparando com o senso de trabalho propositado que tipicamente observamos nas salas de aula. Não havia um horário nem um programa de actividades educativas programadas sequencialmente dentro de um currículo planejado. Fomos a passeios. É certo que os dois miúdos, com 11 e 13 anos de idade, liam muito e passavam algum tempo trabalhando nos seus próprios projectos. Havia várias actividades fora de casa, incluindo participação numa banda musical. Um deles estava fazendo um projecto sobre desenvolvimento infantil e ajudando uma vizinha com o seu bebé recém-nascido. Amigos vinham visitá-los depois das aulas e um deles participou num musical em uma escola [...] Estas crianças estavam certamente aprendendo, embora, obviamente, não através do tipo de ensino individualizado e organizado que eu esperava observar.

Durante a semana, o que mais me surpreendeu foram as constantes oportunidades de aprendizagem informal, muitas vezes incidental, principalmente através das conversas em grupo. Quer estivessem dando um passeio, sentados à volta da mesa da cozinha, participando em qualquer actividade, desenhando, construindo algo, trabalhando num projecto, comendo, viajando de carro ou lendo, havia uma quantidade incrível de conversas espontâneas e incidentais.

Um dia, por exemplo, estávamos todos sentados ao redor da mesa da cozinha empenhados nas nossas actividades distintas. Temas de conversa, na maioria das vezes não relacionados ao que estavamos fazendo, não paravam de surgir. Entre outras coisas, falámos sobre a escravatura, Nelson Mandela, crocodilos de água salgada e os níveis das águas subterrâneas ... e se havíamos de ir à loja comprar uns bolos. As crianças provavelmente viam isto um mero bate papo. Mas comecei a perguntar-me até onde este tipo de aprendizagem incidental poderia contribuir para a sua educação em geral. Com ou sem ela, eles estavam certamente fazendo progresso. Ambos acabaram estudando part time em escolas pós-ensino-obrigatório para adultos e tendo sucesso em exames públicos (Thomas, 1998, p.4).

Com o objectivo de estudar os processos envolvidos na aprendizagem em casa, eu fiz um estudo investigatório, baseado em entrevistas e num número limitado de observações de 100 famílias, na Austrália e no Reino Unido (Thomas, 1998). As abordagens à educação domiciliar adoptadas por estas famílias eram de uma enorme variedade, desde as do tipo “escola em casa” (uma mãe até tinha uma campainha de escola!) às completamente informais, sem qualquer estrutura que se visse (unschoolers). O que se segue é um breve resumo dessa pesquisa no que toca à aprendizagem informal.

Embora um certo número de pais embarque na aprendizagem informal desde o início, influenciados por autores como John Dewey, John Holt ou pela filosofia libertária, a grande maioria dos pais, certamente durante os primeiros tempos, usam métodos do tipo escolar, como fizeram estes:
No início sentimos a necessidade de seguir a rotina escolar, e ela também. Parecia ser a única maneira. Usámos horários (Thomas, 1998, p. 54).
No entanto, a maioria das famílias que faz no início "escola em casa" descobre que o que funciona na escola não se adapta facilmente ao lar. Por necessidade, os pais-educadores acabam desenvolvendo novas abordagens educativas, quase sempre menos formais. São estes pais, os que mudam de abordagem, que proporcionam a prova mais convincente do potencial da aprendizagem informal, pois descobrem (esse potencial) por si próprios, sem estarem ideologicamente comprometidos a tal. Longe disso:
No princípio eu era muito rigorosa e regimentada, com um horário para o período da manhã. Comprei todos os livros necessários, mas depois apercebi-me que estava sufocando as crianças. Agora sou muito mais flexivel. Aprendemos que "educação em casa" não é “escola em casa”. Tive que abandonar tantos métodos usados na escola ... (p. 55)
Convém salientar que em casa tanto a aprendizagem formal quanto a informal têm significados diferentes em comparação com a da escola. A aprendizagem formal em casa seria provavelmente considerada pela escola como bastante informal. Em contrapartida, a aprendizagem informal em casa é especificamente feita no contexto da família porque pouco ou nada é prescrito (unschooling). As crianças aprendem com a vida, com as experiências quotidianas, tal como haviam aprendido durante a infância. Este tipo de aprendizagem não existe na escola.

Para a maioria das pessoas, a ideia dos pais assumirem o papel profissional do professor e usarem em casa os métodos usados na escola já é bem difícil de aceitar. Quanto mais a ideia de que as crianças possam adquirir informalmente o que a escola ensina de maneira tão formal no ensino obrigatório!

Continua aqui.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Coisas do dia a dia...

Tomatinhos do quintal

e ovos à moda inglesa...

Aprendizagem & crianças em idade escolar

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

Quando os miúdos atingem os 5 anos de idade vão para a escola e embarcam na aprendizagem formal “como deve ser”.

O conteúdo do que aprendem, o currículo, é planejado em detalhe e cuidadosamente sequenciado. O professor despeja este currículo e as crianças aprendem o que lhes dizem que têm de aprender. O progresso é monitorado constantemente de várias formas, desde respostas às perguntas que os professores fazem na sala de aula, à realização regular de exercícios escritos. Podem haver muitas e boas razões - a nível institucional, organizacional e prático - para que a aprendizagem estruturada seja necessária na escola. Mas isso não significa que esta seja a única forma de adquirir uma educação.

Não há nenhuma base científica para o pressuposto quase universal de que este método tradicional de educar as crianças é essencial para o seu progresso depois de atingirem a idade escolar. É simplesmente que estamos tão acostumados à aprendizagem do tipo escolar que é muito difícil imaginar qualquer alternativa.

É verdade que a educação informal, às vezes denominada educação centrada na criança, foi supostamente praticada nas décadas “permissivas” de 1960 e 1970, embora tenha pouco em comum com o tipo de aprendizagem informal aqui descrito (Entwistle, 1970; McKenzie & Kernig, 1975).

Pesquisas incluindo observação directa em salas de aula, feitas no início de 1980, demonstraram que mesmo este tipo de aprendizagem informal limitada não tinha ido muito além da retórica (Bennett et al, 1984; Galton, Simon & Kroll, 1980). A única aprendizagem informal que ocorre nas salas de aula diz respeito à forma de agir enquanto estudante e de desempenhar seu papel da forma aprovada pela instituição e pelos colegas; ao que tem sido chamado currículo oculto.

Então como é que podemos estudar a aprendizagem informal nas crianças e jovens em idade escolar se eles passam os dias na escola?

Bem, em primeiro lugar, eles não estão na escola o dia todo, embora a aprendizagem informal fora da escola ainda não tenha sido estudada em profundidade. Uma excepção fascinante é a pesquisa sobre a "aprendizagem de rua". Por exemplo, Carraher, Carraher & Schliemann, (1985) compararam o que os estudantes brasileiros aprendiam nas aulas de matemática com aquilo que aprendiam manipulando dinheiro durante seu trabalho part-time nas barraquinhas do mercado. Os pesquisadores foram ao mercado e compraram colecções de itens. As crianças não tiveram dificuldade em somar o custo dos itens e calcular o troco. Mas quando estes mesmos cálculos lhes foram apresentados nas lições de matemática, as mesmas crianças acharam-nos difíceis e fizeram muitos erros.

Uma meia dúzia de escolas, tais como Summerhill School, no Reino Unido, onde as aulas não são obrigatórias mas voluntárias, e as escolas Sudbury Valley, estabelecidas pela primeira vez nos E.U.A., onde as aulas não seguem um horário, oferecem oportunidades de aprendizagem informal, principalmente devido à sua proporção muito boa de adultos-alunos, mas até agora têm atraído pouco interesse de investigação séria sobre este aspecto das suas actividades.

É provável que a melhor fonte de conhecimento existente sobre a aprendizagem informal das crianças em idade escolar seja o ensino doméstico. Isto porque muitos pais que educam os filhos em casa descobrem que a aprendizagem informal desempenha pelo menos uma parte, em alguns casos uma grande parte, no crescimento intelectual dos seus filhos.

Continua aqui...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Aprendizagem informal II

Este post é a continuação deste. O início desta série está aqui.

Schaffer (1996) descreve a forma como os pais facilitam essa aprendizagem sem estarem conscientes disso, através da "articulação", que Lloyd (1990) chama de "sistema de apoio comunicativo", indo ao encontro do que a criança está fazendo ou dizendo.

Schaffer propõe que "o crescimento cognitivo ... durante a primeira infância é transmitido mais eficazmente no contexto de "episódios de envolvimento mútuo' [que] implica a cooperação mútua de uma criança participante e um adulto sensível" (p239).

Ainda mais informal é o tipo de aprendizagem que ocorre apenas ao estar "na companhia de", até na aquisição de conhecimentos de matemática - "... no decorrer da vida quotidiana são dadas, às competências cognitivas de lidar com os números - ainda em desenvolvimento nas crianças -, todas as oportunidades de se interligarem com a maneira em que a sociedade utiliza a aritmética" (p. 239).

Este tipo de aprendizagem tem sido descrito como um aprendizado cultural informal, através principalmente da "participação guiada" (Rogoff, 1990), e corresponde bem com os conceitos de "aprendizagem situada" e "participação periférica legítima" aplicados na aprendizagem informal dos adultos (Lave & Wenger, op cit).

Na altura em que atingem a idade escolar, a maioria das crianças está no bom caminho para aprender a ler, tendo sido estabelecida a familiarização com as formas das letras, seus próprios nomes, outras palavras que as rodeiam na sua vida quotidiana e em livros que lhes são lidos.

Elas já têm pelo menos um entendimento básico dos conceitos essenciais da matemática, por exemplo contar, adicionar e subtrair, embora não tenham, obviamente, as habilidades computacionais que irão adquirir posteriormente. Além disso, elas estão constantemente expandindo os seus conhecimentos gerais sempre que ouvem, vêem, fazem perguntam que nunca mais acabam, brincam, participam em actividades domésticas, vão às compras, vão visitar outras pessoas e assim por diante. Essa é uma parte tão normal da vida quotidiana em família que os pais estão raramente conscientes da enorme quantidade de aprendizagem que está ocorrendo.

Um estudo muito famoso, baseado em crianças de 4 anos de idade que frequentavam a pré-primária em part-time (Tizard e Hughes, 1984), compara especificamente este tipo de aprendizagem informal em família com a aprendizagem na escola. Gravaram conversas entre as crianças e suas mães em casa e, para comparar, entre os adultos (professores e trabalhadores infantis) na escola.

Para sua surpresa descobriram que, independentemente do background sócio-econômico das crianças, o lar proporcionava um ambiente de aprendizagem informal muito rico e que ... o contexto em que a aprendizagem era mais frequente era o da vida quotidiana. Simplesmente ao estarem perto de suas mães, conversando, discutindo e fazendo perguntas sem fim, as crianças estavam recebendo uma quantidade enorme de informações relevantes para o crescimento dentro da sua cultura (p.250-251).

Pelo contrário, no infantário ou na creche, bastante informal em relação à escola:
As crianças que havíamos observado, curiosas e cheias de perguntas quando em suas casas, eram totalmente diferentes... em “conversas” com adultos, limitavam-se a responder às perguntas deles em vez de lhes fazerem perguntas e participarem em diálogos ... (p. 9)
A aprendizagem informal é, obviamente, fundamental para o desenvolvimento intelectual durante a infância e tem um papel importante na educação de adultos. Mas o que acontece nos anos intermédios, quando as crianças estão em idade escolar?

Continua aqui.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Estudo confirma sucesso do ensino doméstico

Abrangendo todos os 50 estados dos E.U.A. e cobrindo 11.739 crianças, jovens e suas famílias, Progress Report 2009: Homeschool Academic Achievement and Demographics é o estudo mais completo sobre o sucesso do ensino doméstico feito até hoje.

Os resultados apoiam o grande número de pesquisas já existentes sobre o sucesso acadêmico da educação domiciliar e mostram que os jovens educados em casa atingem, nos testes padronizados, uma média de 37 pontos percentuais acima dos jovens educados na escola.

Mais aqui.

Educar para a sustentabilidade

Educar para a simplicidade e para a quietude.

Nossas vidas precisam ser guiadas por novos valores: simplicidade, austeridade, quietude, paz, saber escutar, saber viver juntos, compartir, descobrir e fazer juntos. Precisamos escolher entre um mundo mais responsável frente à cultura dominante que é uma cultura de guerra, do ruído, de competitividade sem solidariedade, e passar de uma responsabilidade diluída a uma ação concreta, praticando a sustentabilidade na vida diária, na família, no trabalho, na escola, na rua.

A simplicidade não se confunde com a simploriedade e a quietude não se confunde com a cultura do silêncio. A simplicidade tem que ser voluntária como a mudança de nossos hábitos de consumo, reduzindo nossas demandas. A quietude é uma virtude, conquistada com a paz interior e não pelo silêncio imposto.

É claro, tudo isso supõe justiça e justiça supõe que todas e todos tenham acesso à qualidade de vida. Seria cínico falar de redução de demandas de consumo, atacar o consumismo, falar de consumismo aos que ainda não tiveram acesso ao consumo básico. Não existe paz sem justiça.

Diante do possível extermínio do planeta, surgem alternativas numa cultura da paz e uma cultura da sustentabilidade. Sustentabilidade não tem a ver apenas com a biologia, a economia e a ecologia. Sustentabilidade tem a ver com a relação que mantemos conosco mesmos, com os outros e com a natureza.

A pedagogia deveria começar por ensinar sobretudo a ler o mundo, como nos diz Paulo Freire, o mundo que é o próprio universo, por que é ele nosso primeiro educador. Essa primeira educação é uma educação emocional que nos coloca diante do mistério do universo, na intimidade com ele, produzindo a emoção de nos sentirmos parte desse sagrado ser vivo e em evolução permanente.

Trecho do livro Boniteza de um sonho, ensinar e aprender com sentido, de Moacir Gadotti

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A escola não é obrigatória

Aqui está, o primeiro vídeo produzido por Education Otherwise, a associação nacional do ensino doméstico no Reino Unido.



Ainda hei-de traduzir, mas agora não tenho tempo e queria partilhar à mesma...

Aprendizagem informal

Este post é a continuação daqui.

O estudo da aprendizagem informal é geralmente limitado aos adultos e jovens que acabaram recentemente a escola. O principal foco de interesse tem-se centrado na aprendizagem informal como meio de criar atitudes positivas em relação à educação, especialmente em pessoas que foram excluídas do sistema de ensino ou que tiveram más experiências na escola (Smith, 1999).

De uma maneira paralela e não muito diferente, o interesse pela aprendizagem informal na infância, geralmente sob a égide de parentalidade, tem sido tradicionalmente focalizado na forma em que os pais socializam os bebés a adoptar comportamentos culturalmente aprovados e ter atitudes positivas em relação à escola e à comunidade em geral quando um pouco mais crescidos (Collins, Harris & Susman, 1995).

Recentemente tem havido uma mudança em direcção a uma ênfase maior nos aspectos cognitivos da aprendizagem informal tanto de adultos como crianças pré-escolares. No que diz respeito aos adultos, algumas das ideias subjacentes a esta mudança de ênfase estão incluídas em reviews da aprendizagem informal (Smith, 1999; Sommerlad, 1999). De especial interesse é o conceito de "aprendizagem situada" (Lave, 1993). A ideia é que o aluno acumula conhecimentos gradualmente através de uma espécie de aprendizagem informal ao estar com pessoas especializadas ou que simplesmente têm mais conhecimentos.

Por exemplo, Lave & Wenger (1991) descrevem a forma como principiantes adquirem gradualmente competências e conhecimentos especializados, estudando em pormenor o processo dos homens do talho, parteiras, alfaiates e quartermasters. Carraher & Schliemann (2000) descrevem como carpinteiros experientes no Brasil, com pouca escolaridade, adquirem informalmente uma melhor compreensão dos conceitos matemáticos relevantes ao seu trabalho do que os aprendizes de carpinteiro matriculados em classes planeadas e concebidas especificamente para ensinar esses conceitos.

Gear, McIntosh & Squires (1994) mostram como a aprendizagem informal desempenha um papel significativo na aquisição de conhecimentos profissionais avançados em direito, engenharia, medicina e trabalho social. Cullen et al (1999) nota como a aprendizagem informal pode ser um efeito secundário de outra actividade, por exemplo, as pessoas envolvidas em acções comunitárias desenvolvem habilidades na escrita e adquirem competências de advocacia e tecnologias de informação.

Os bebés começam a aprender informalmente desde que nascem (ou até antes), principalmente através da interacção com a mãe e outras pessoas que deles cuidam. Conforme mencionado acima, parte disto é aprender comportamentos culturalmente corretos, por exemplo, a lidar com as emoções, interagir com os outros na família e na comunidade e adquirir valores e atitudes culturais. Só isto requer uma enorme quantidade de conhecimentos e know-how" (Cole, 1992; Super & Harkness, 1997).

Ainda mais impressionante são os entendimentos e as habilidades cognitivas aprendidas informalmente, incluindo a linguagem, literacia e numeracia básicas, o despertar da compreensão c ientífica, osentido de humor, regras de jogos e o começo da compreensão da moral. Como é que tudo isto é aprendido? Com excepção à linguagem, tem havido pouco interesse nos processos através dos quais esta aprendizagem realmente ocorre. A pouca pesquisa que existe tende a comparar diferentes estilos de parentalidade a fim de descobrir quais são os mais eficazes (por exemplo, Wood, 1986).

Como Trevarthen (1995) salienta, este tipo de pesquisa é baseado no "clássico pressuposto de que as crianças aprendem porque são ensinadas" (p. 97). Contudo, é cada vez mais aceite que a maior parte da aprendizagem cognitiva na primeira infância resulta da interacção muito mais informal entre os pais (ou outros adultos) e o infante, (interacção esta) na maior parte indiferenciada do sócio - cultural, ocorrendo através de conversas e actividades no dia a dia (Gauvain, 1995, 2000, Thomas, 1994).

Um exemplo simples seria aprender o significado de "metade" através de encontros fugazes com o conceito, partilhando uma barra de chocolate e comendo metade, ouvindo "estamos quase a meio do caminho", cortando um pedaço de papel ao meio, e assim por diante. Gradualmente o significado completo do conceito torna-se enraizado na psique da criança, sem qualquer consciência da ocorrência da aprendizagem.

Primeira parte aqui.

Continua...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Aprendizagem informal e o ensino doméstico

aprendizagem informal, ensino doméstico, educação domiciliar (home schooling)

A maioria das famílias que começam fazendo "escola" em casa descobrem que o que funciona na escola não se transfere facilmente para o lar. De necessidade, os pais-educadores tornam-se pioneiros de novas abordagens educativas, quase sempre menos formais. Eles dão-nos provas convincentes do potencial da aprendizagem informal. Alan Thomas explora alguns aspectos importantes do fenómeno do ensino doméstico ou educação domiciliar.

Sumário: introdução – ensino doméstico e educação domiciliar – aprendizagem informal - aprendizagem e as crianças em idade escolar - pesquisando o ensino doméstico ou homeschooling - adaptação da aprendizagem formal - como capturar a aprendizagem informal? - aprendizagem dialógica - uma crónica da aprendizagem informal no ensino doméstico - conclusão - outras leituras e referências - Links

introdução – ensino doméstico e educação domiciliar


O ensino doméstico (conhecido às vezes como homeschooling, especialmente nos E.U.A.) é geralmente legal na América do Norte, Australásia e maior parte da Europa. Durante as últimas duas décadas, tornou-se cada vez mais aceite como uma alternativa viável para a escola.

O número de crianças educadas em casa aumentou consideravelmente embora não existam estimativas precisas da sua prevalência por diversas razões (ver Lines, 1998; Petrie, Windrass & Thomas, 1999). Pesquisas feitas nos E.U.A. indicam que poderá haver um milhão de crianças americanas educadas em casa (Lines, 1998).

A Nova Zelândia, onde 1% da população escolar é educada em casa, tem provavelmente a estimativa mais confiável pois o sistema de registo com as autoridades habilita os pais a receberem assistência financeira (Ministério da Educação NZ, 1999).

Falando em termos gerais, os educadores domésticos dividem-se em três grandes grupos: os que são motivados por razões religiosas e morais, os que têm razões filosóficas ou pedagógicas e os que optam pelo ensino doméstico devido aos problemas que os filhos experienciaram na escola, tanto a nível académico como social ( van Galen & Pitman, 1991; Thomas, 1998).

Em relação ao sucesso acadêmico, as crianças educadas em casa encontram-se geralmente à frente das que frequentam a escola. Mas essa diferença não se deve necessariamente ao ensino doméstico - é impossível saber os resultados que essas crianças teriam tido se tivessem frequentado a escola. Com pais interessados como estes elas poderiam ter alcançado o topo na escola também. Existem outros factores que tornam difícil a comparação. Para um debate sobre esta questão, ver Rudner (1999) e a resposta de Welner & Welner (1999).

Sabemos muito pouco sobre o processo da aprendizagem em casa - à excepção dos inúmeros relatos pessoais e guias para pais que estão considerando o ensino doméstico, a maioria dos quais são escritos a partir de uma perspectiva ideológica. [Para uma vasta gama de experiências pessoais ver Dowty (2000). Lowe & Thomas (2002) tentaram escrever um guia imparcial sobre os métodos de educar as crianças em casa.]

Neste artigo, quero concentrar-me na aprendizagem informal das crianças de idade escolar, uma área de estudo que promete e quase totalmente negligenciada (Desforges, 1995). As experiências das crianças educadas em casa proporcionam um insight interessante nesta área.

Continua aqui.
Original aqui.

Regras de ser humano

1. Vais receber um corpo.
Podes gostar dele ou odiá-lo, mas ele será teu enquanto durar teu tempo por aqui.

2. Vais aprender.
Estás inscrito a tempo inteiro numa escola informal chamada Vida. Nesta escola terás a oportunidade de aprender lições todos os dias. Poderás gostar das lições ou achá-las estúpidas e irrelevantes.

3. Não existem erros, apenas lições.
Crescer é um processo de tentativa e erro: experimentação. Os experimentos "fracassados" são parte do processo, tal como os experimentos de "sucesso".

4. Uma lição será repetida até que seja aprendida.
Uma lição ser-te-á apresentada de formas variadas, até que a tenhas aprendido. Quando a tiveres aprendido, poderás passar à lição seguinte.

5. A aprendizagem nunca acaba.
Não há parte da vida que não contenha as suas lições. Enquanto estiveres vivo, haverá lições a serem aprendidas.

6. "Lá" não é melhor do que "aqui".
Quando o teu "lá" tiver se tornado um "aqui", simplesmente obterás outro "lá", que novamente parecerá melhor do que "aqui".

7. Os outros são meramente teus espelhos.
Não podes amar ou odiar algo noutra pessoa, a menos que isso reflita algo que amas ou odeias em ti mesmo.

8. O que fazes da tua vida é escolha tua.
Possuis todas as ferramentas e recursos de que precisas. O que farás com eles depende de ti. A escolha é tua.

9. As respostas estão dentro de ti.
As respostas às questões da vida estão dentro de ti. Tudo que precisas fazer é ver, ouvir e confiar.

10. Vais te esquecer de tudo isto.

Poderás lembrar-te quando quiseres.

Anônimo

Educação ou propaganda?


What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that Washington never told a lie
I learned that soldiers seldom die
I learned that everybody's free
That's what the teacher said to me
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that policemen are my friends
I learned that justice never ends
I learned that murderers die for their crimes
Even if we make a mistake sometimes
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that our government must be strong
It's always right and never wrong
Our leaders are the finest men
So we elect them again and again
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that war is not so bad
I learned about the great ones we have had
We fought in Germany and in France
And someday I might get my chance
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

domingo, 9 de agosto de 2009

Bullying, dislexia e fobia escolar levam ao ensino doméstico

Enquanto alguns pais optam pelo ensino doméstico desde o início, outros retiram da escola os filhos devido a situações fora do seu controlo.


A escritora Roz Barber
, 45, retirou os filhos George, 16, e Charlie, 14, da escola por razões diferentes. Eis o que nos disse:
Com George foi absolutamente necessário. Quando ele foi para a escola secundária, era constantemente agredido, vítima de violência escolar dia após dia. Tirei-lhe da escola no final do ano 8, quando ele tinha 13 anos.

Mais tarde arrependi-me de não o ter tirado de lá antes, mas a verdade é que não estava a par do ensino doméstico. Tínhamo-lo deixado na escola porque receávamos retirá-lo de lá... Eramos pais muito normais, com vidas ocupadas. Mas estou convencida que o ensino doméstico salvou a vida do George. Ele estava tão deprimido. Agora já lhe ofereceram um lugar no City College Brighton and Hove num curso de arte e design, devido apenas à qualidade do seu portfolio.
Charlie, o outro filho da Sra. Barber, também teve problemas na escola devido à dislexia, que embora causasse verdadeiras dificuldades, estas não eram a um nível que pudesse ser apoiado no âmbito do ambiente escolar. A Sra. Barber, que vive em Brighton, disse:
Estavam fazendo com que ele se sentisse um fracasso, e descobrimos que estavamos passando mais tempo apoiando o filho que estava sendo educado na escola do que o que estava aprendendo em casa. A escola não era o ambiente adequado para nenhum deles.
A Sra. Barber também educa Milly, a filha de 5 anos de idade, em casa.


Tasha Middleton
, 26, também retirou o filho Toby da escola quando ele tinha 8 anos, ao vê-lo cada vez mais infeliz. Ela disse:
Ele andava cada vez mais infeliz e quando chegou ao 3º ano começou a odiar a escola. De manhã era sempre a mesma coisa; nunca queria ir para a escola e fartava-se de chorar quando lá chegávamos. Ao regressar da escola passava mais de uma hora sem falar com ninguém.

Faz agora um ano que aprende em casa; está muito mais feliz e recuperando a sua auto-confiança. Ele trabalha muito melhor ao seu próprio ritmo e não gosta de grandes grupos de pessoas. Na escola era muito popular e tinha boas notas, mas a verdade é que a escola não era o melhor sítio para ele.

Com o ensino doméstico ele recuperou a vontade de descobrir e explorar coisas. Gosta de fazer experiências científicas e adora fotografia. Tudo que lhe interessa é aproveitado para o processo de aprendizagem. É por isso que as propostas de planejamento prévio da aprendizagem são impossíveis na aprendizagem autónoma. É impossivel saber o que ele vai estar interessado na semana que vem, quanto mais no ano que vem!



Esta foi a parte final deste artigo. Primeira parte aqui.

sábado, 8 de agosto de 2009

Reportagem da BBC sobre o ensino doméstico

Deixo aqui o vídeo com uma tradução livre.
Esta história também apareceu no jornal, aqui.



As famíliam que educam os filhos em casa manifestaram-se esta tarde contra os planos do governo para uma maior regulamentação do ensino doméstico. Os ministros querem a sua participação num sistema de registro obrigatório e que demonstrem que estão proporcionando aos filhos uma educação adequada - sem essa participação, arriscam-se a ver os filhos sendo forçados a frequentar a escola.

Porém, o grupo de famílias reunido em Brighton diz que o governo devia deixar de os tratar com suspeita e concentrar-se em oferecer maior apoio.

Menino: Eu não vou à escola porque sou autodidacta.

Repórter: O que é que isso quer dizer?

Menino: Quer dizer que sou eu quem me ensina.

Autodidactas e auto-regulados: até agora têm sido as crianças e os pais a controlar o ensino doméstico e apesar do relatório apoiar a educação domiciliar, em Brighton, as ideias do governo não são consideradas necessárias e ninguém as quer.

Nic: Nós temos as nossas próprias ideias sobre o que é importante, nós temos as nossas próprias filosofias da educação e nós assumimos a responsibilidade pela educação dos nossos filhos. O relatório está a tentar forçar-nos a adoptar uma abordagem estruturada e transformar-nos em "escolas" em de casa.

E esse é o problema para estes pais. Dizem que as novas recomendações vão contra o espirito do ensino doméstico e do modo como funciona. Os pais terão que "matricular" os filhos no ensino doméstico e especificar em adiantado o que irão aprender e como irão aprender no ano seguinte. Agora as autarquias locais vão ficar encarregadas da monitorização do ensino doméstico através de visitas ao domicílio.

O governo diz que reconhece o ensino doméstico e que a maioria das famílias faz um trabalho fantástico mas que não se pode dar ao luxo de deixar nenhuma família passar despercebida. Diz que tem de fazer um balanço entre os direitos dos pais e o direito que as crianças têm à melhor educação possível.

Para Ali, a melhor educação possivel não é adquirida quando as crianças estão sentadas numa secretária ou na mesa da cozinha mas lá fora, em contacto com a comunidade onde ensina a filha Freya.

Ali: Está provado que a melhor aprendizagem possível ocorre quando as pessoas aprendem porque elas querem aprender, e esse tipo de aprendizagem é completamente diferente da aprendizagem que segue um horário. Esta é a mensagem que estamos tentando transmitir ao governo antes que estas recomendações se tornem leis.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Famílias vêm à defesa do ensino doméstico

Os residentes de Brighton foram surpreendidos ao ver um grupo de crianças enchendo as ruas de bolhinhas de sabão.

Rapazes e raparigas de todas as idades, muitos vestindo t-shirts dizendo "O mundo é a minha sala de aulas e a vida é o meu currículo", participaram nesta campanha contra propostas do governo que podem vir a mudar a forma como aprendem.

Ali Moir, 44, ajudou a organizar o evento e disse:

Nós escolhemos bolhinhas de sabão porque parte do pretexto usado pelo Governo é que nós somos invisíveis, que vivemos escondidos da sociedade, por isso queriamos algo muito visual para mostrar que estamos aqui, bem à vista de todos, e que somos parte integral da comunidade. Além disso, as bolhinhas de sabão representam a infância e a liberdade. E é essa liberdade que os pais que educam em casa irão fazer o que podem para proteger.
As propostas do Governo poderiam dar às autarquias locais o poder de decidir a que pais dar autorização para educar os próprios filhos, de manter uma base de dados das famílias que optam pelo ensino doméstico e de entrar na casa das famílias e entrevistar as crianças à parte, sem a presença da mãe, do pai ou de um adulto de confiança.

Outra questão que preocupa muitos pais é que teriam de criar antecipadamente um plano anual para a educação dos filhos. Isso, dizem estas famílias, vai contra a maneira em que as crianças aprendem.

A Sra Moir, uma tradutora freelance que educa a filha Freya, 8, desde que ela nasceu, afirmou:

O que Freya aprende vem de dentro dela. Eu diria que 90% do que fazemos é seguir os interesses dela e apenas 10% vem de mim, dizendo "agora vamos experimentar isto". Sou orientada pelos interesses dela e o meu papel é o de organisar actividades que vão ao encontro desses interesses e fazer sugestões. Actualmente, por exemplo, Freya está lendo uma enciclopédia e gosta de estudar o atlas dela.

Estas propostas vão apenas fazer com que as pessoas pensem que o ensino doméstico é mais difícil do que é e seria uma pena se alguns miúdos continuassem a frequentar a escola ou começassem a lá ir quando seriam muito mais felizes se aprendessem em casa.
A Sra Moir acredita que é Freya que deve moldar o seu próprio futuro. E disse:
Se no futuro ela quiser fazer exames ou ir para a escola nós daremos-lhe todo o nosso apoio.

Nic Goodard, 45, bibliotecária assistente, também começou e educar os filhos - Davies, 8, e Scarlett, 6 -, depois de se aperceber que o primeiro não estava pronto para o infantário. Ela disse:
Quando começámos, pensámos, vamos ver o que acontece até à idade escolar, mas quando chegou a altura em que ele fez os 5 anos já não tinhamos dúvidas em relação à educação domiciliar. O nosso método de aprendizagem é completamente natural, não seguimos nenhum currículo nem qualquer estrutura. As crianças, se lhes deixarmos, nunca deixam de perguntar "porquê?", eu adoro isso.

Não posso ensinar-lhes tudo o que eles querem e sou muito honesta acerca disso, mas posso ajudá-los a aprender. As melhores pessoas para ensinar são as que sabem tudo sobre a matéria e são apaixonadas por ela. O Davies, por exemplo, está interessado em arqueologia, então ele juntou-se a um clube de arqueologia.
A Sra Goodard, que vive em Sompting, perto de Lancing, também está preocupada com a sugestão de planos de aprendizagem feitos um ano em adiantado. Eis que nos disse:
Estou absolutamente confiante de que posso convencer qualquer pessoa de que no ano passado proporcionei uma educação fantástica aos meus filhos e eles são prova viva disso. Mas eu não posso dizer o que eles vão estar aprendendo daqui a 9 meses ou um ano.

Lucy Milner-Gulland, 40, que também educou os filhos Ione, 13, Cory, 9 e Kit, 5, em casa desde sempre, disse:
Tomei conhecimento da possibilidade do ensino doméstico quando Ione tinha 2 anos e pareceu-me algo de muito valor. Naquela altura, a ideia dela continuar a viver e aprender como tinha feito até então pareceu-me a coisa mais natural do mundo.

Aos 4 anos de idade as crianças já estão aprendendo com os pais e com as coisas do dia a dia. Elas estão aprendendo o tempo todo e faz sentido continuarem aprendendo da mesma maneira depois dos 5 anos de idade. Nós descobrimos uma maneira óptima de aprender e gozar a vida. Penso que o ensino doméstico não é para todos, mas para funciona para nós e não é uma escolha difícil porque as crianças estão felizes.

Os pais usam vários métodos para ensinar os seus filhos e, em Brighton and Hove, existem vários grupos a que se podem juntar. Nós seguimos a abordagem da aprendizagem autónoma, ou unschooling, por isso toda a aprendizagem é centrada nas crianças e direccionada por elas.
A minha filha participa em todos os grupos. Todos os dias ela participa em várias actividades de grupo. Além de se estar preparando para fazer o exame do 11º ano em Inglês, tem aulas de Francês e toca numa banda. Ela gosta de aprender fora de casa, com outros jovens. Mas o meu filho detesta aprender em grupos e adora fazer tudo sozinho. Farta-se de ler livros, fala muito conosco e faz muitas perguntas. A coisa agradável sobre os miúdos educados em casa é que eles têm a oportunidade de conhecer pessoas de todas as idades, dão-se muito bem com adultos e vêem-nos como mentores e amigos.
Somos totalmente orientados pelos nossos filhos. Uma das propostas sugere a necessidade de um plano sobre o que vamos aprender no ano. Mas a aprendizagem autónoma não funciona assim, não segue de um currículo nem calendários e horários.
Continua aqui. Para a reportagem da BBC, cliquem aqui. Original aqui.