quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Distúrbios de Aprendizagem
Imagine por um instante que está visitando um viveiro de plantas. Você percebe uma agitação lá fora, vai investigar e encontra um jovem assistente lutando contra uma roseira, tentado forçar as pétalas da rosa a se abrirem, e resmungando insatisfeito. Você lhe pergunta o quê está fazendo e ele explica: "meu chefe quer que todas estas rosas floresçam nesta semana, então na semana passada eu cortei todas as precoces e hoje estou abrindo as atrasadas". Você protesta dizendo que cada rosa floresce a seu tempo, que é absurdo tentar retardar ou apressar esse processo, que não importa quando a rosa vai desabrochar pois as rosas desabrocham sempre no momento mais oportuno para elas. Você olha novamente para a rosa e vê que ela está murchando, mas quando você o alerta, ele responde: "Ah, isso é mau, ela tem um problema de desabrochamento congênito. Vamos ter que chamar um especialista". Você diz: "Não, não! Foi você quem fez a rosa murchar! Você só precisaria satisfazer as exigências de água e luz da planta e deixar o resto por conta da natureza!" Você mal consegue acreditar no que está acontecendo. Por quê o chefe dele é tão mal informado e tem expectativas tão irreais em relação às rosas?
Essa cena nunca teria se passado num viveiro, é claro, mas acontece todos os dias nas nossas escolas. Professores pressionados por seus chefes seguem calendários oficiais que exigem que todas as crianças aprendam no mesmo ritmo e da mesma maneira. No entanto, as crianças não diferem das rosas em seu desenvolvimento: elas nascem com a capacidade e o desejo de aprender, e aprendem em ritmos diferentes e de modos diferentes. Se formos capazes de satisfazer suas necessidades, proporcionar um ambiente seguro e propício e evitar nos intrometer com dúvidas, ansiedades e calendários arbitrários, aí então - como as rosas - as crianças irão desabrochar cada uma a seu tempo.
Meu coração gela quando penso nas crianças diagnosticadas com 'ADHD' (sigla norte-americana para 'distúrbio de hiperactividade e falta de atenção'), o tipo mais recente de "distúrbio de aprendizagem". Muitos educadores e pesquisadores acreditam que as crianças e suas famílias têm sido cruelmente enganadas por esse diagnóstico. O Dr. Thomas Armstrong, que já foi especialista em dificuldades de aprendizagem, mudou de profissão quando começou a ver "como essa noção de distúrbios de aprendizagem estava prejudicando os nossos filhos, colocando a culpa da dificuldade de aprender em misteriosas deficiências neurológicas, em vez de apontar para as necessárias reformas no nosso sistema educacional".
O Dr. Armstrong voltou-se então para o conceito de diferenças de aprendizagem e escreveu "In Their Way" ("Do modo deles"), um guia prático e fascinante para os sete "estilos pessoais de aprendizagem" inicialmente propostos por Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard. O Dr. Armstrong nos instiga a abandonar rótulos convenientes mas nocivos tais como "dislexia" e prestar atenção ao problema real do "disensino". Ele adverte que "as nossas escolas estão desvalorizando milhões de crianças ao taxá-las de insuficientes quando na realidade elas estão sendo incapacitadas por métodos de ensino ruins". Como Armstrong explica, "as crianças são sobrecarregadas com diagnósticos tais como dislexia, disgrafia, discalculia e assim por diante, dando a impressão de que sofrem de doenças muito raras e exóticas. Embora o termo dislexia seja apenas uma expressão latina para 'dificuldade com palavras', centenas de testes e programas se propõem a identificar e tratar tais 'disfunções neurológicas'. Mas os médicos ainda não conseguiram determinar qualquer tipo de lesão cerebral detectável na maior parte das crianças com esses "sintomas". Parece evidente para mim, depois de quinze anos de pesquisa e prática no campo da educação, que as escolas são as principais culpadas pelo fracasso e pelo tédio enfrentado por milhões de crianças..."
As classificações de distúrbios de aprendizagem seriam "as novas roupas do imperador" das escolas? Os filósofos têm um recurso interessante chamado "Navalha de Occam", um expediente prático para liquidar com teorias absurdas: "para resolver um problema, deve-se escolher a teoria mais simples que explique os factos". Quais são os factos? É facto que muitos escolares, principalmente do sexo masculino, têm dificuldades de aprendizagem. Mas também é facto que existem centenas de milhares de crianças no mundo, meninos e meninas, entre os quais esse defeito "genético" está ausente: são as crianças educadas em casa. Nesse grupo, praticamente não existem dificuldades de aprendizagem.
Se os "distúrbios de aprendizagem" estão presentes apenas no ambiente escolar e ausentes em outros lugares, o problema deve estar no ambiente de aprendizagem das escolas e não em algum "distúrbio neurológico" misterioso e não-detectável das crianças, ou estariam igualmente presentes nas crianças que optam pelo ensino doméstico / educação domiciliar. Afinal não é segredo que as escolas não estão conseguindo cumprir sua tarefa: em muitas regiões, os níveis de alfabetização caíram e não chegaram a atingir os níveis prévios à existência de escolas públicas (nos Estados Unidos). Quando John Gatto, eleito Professor do Ano do Estado de Nova York, chama a escolarização obrigatória de "sentença de doze anos de prisão", percebemos que algo está muito errado e que o erro não é das crianças.
Será que as classificações de "hiperactividade", "fobia escolar" e "dificuldade de aprendizagem" são na verdade uma cortina de fumaça para a incapacidade da escola de entender e aceitar o verdadeiro processo de aprendizagem? Uma especialista do porte de Mary Poplin, ex-editora de uma revista sobre distúrbios de aprendizagem ('Learning Disabilities Quarterly'), concluiu recentemente que "apesar de toda a pesquisa quantitativa... não há provas de que os distúrbios de aprendizagem possam ser identificados objetivamente... as tentativas de se estabelecer critérios objectivos para avaliar problemas humanos são uma ilusão que serve para encobrir nossa incompetência pedagógica".
O educador John Holt relata em 'Teach Your Own' ('Ensine a Si Mesmo') que o presidente de uma importante associação para tratamento de distúrbios de aprendizagem admitiu que há "poucas provas para confirmar os diagnósticos de distúrbios de aprendizagem". John Holt alerta os pais de crianças em idade escolar para serem "extremamente cépticos em relação a qualquer coisa que as escolas e seus especialistas digam sobre a condição e as necessidades de seus filhos". Acima de tudo, eles devem compreender que é quase certo que a própria escola, com todas as suas fontes de tensão e ansiedade, esteja causando as dificuldades e que o melhor tratamento provavelmente seja tirar o filho da escola de uma vez por todas.
As famílias que fazem isso ficam aliviadas ao descobrir que seus filhos recuperam o interesse que tinham pela aprendizagem quando eram mais novos. Ao contrário dos professores escolares, que têm apenas uma visão parcial de várias crianças, os pais que educam em casa observam a aprendizagem dos filhos ao longo de vários anos, aprendendo assim a respeitar o estilo singular de aprendizagem de cada filho, a confiar no ritmo do desenvolvimento de cada filho e a reconhecer que os erros são uma componente normal e passageira do processo de aprendizagem de qualquer pessoa. (Não há pressa, de qualquer forma: muitas crianças educadas em casa que começam a ler aos 10 ou 12 anos e saíram-se muito bem na faculdade).
Essa atitude descontraida dos pais que educam em casa mantém intacto o valor próprio da criança, torna os diagnósticos e rótulos insignificantes e permite que a aprendizagem seja tão fácil quanto entre os pré-escolares: crianças educadas em casa costumam superar aquelas que frequentam a escola em termos de desempenho acadêmico, socialização, confiança e auto-estima. John Gatto afirma que "em termos da capacidade de pensar, as crianças educadas em casa parecem estar cinco a dez anos adiante daquelas que frequentam a escola".
Durante alguns anos John Holt desafiou várias escolas a "explicarem a diferença entre uma dificuldade de aprendizagem (que todos nós temos numa ou outra ocasião) e um distúrbio de aprendizagem". Perguntou aos professores como é que distinguem entre causas inerentes ao sistema nervoso do aluno e factores externos - o ambiente escolar, o modo de explicar do professor, o professor em si ou o material didático. Ele relata: "nunca recebi uma resposta coerente a essas perguntas... [apesar disso,] essa distinção é tão fundamental que não sei como podemos falar de modo construtivo sobre os problemas de aprendizagem de uma criança sem ela".
Mas como é que os professores têm tanta certeza da existência tão disseminada de distúrbios neurológicos? Talvez eles estejam apenas confundindo causa e efeito: como John Holt observa, "os professores dizem que deve ser difícil ler, ou não haveria tantas crianças com dificuldade de ler". John Holt argumenta que "as crianças têm dificuldade de ler porque partimos do pressuposto que ler é difícil... com nossa preocupação, 'simplificação' e pedagogia, tudo o que conseguimos é tornar a leitura cem vezes mais difícil para a criança do que deveria ser... quando estamos nervosos ou com medo temos dificuldade ou ficamos até impossibilitados de pensar e até de perceber... quando amedrontamos as crianças, bloqueamos totalmente a sua aprendizagem".
De facto, algumas pesquisas mostram que as expectativas do professor sobre a capacidade de aprendizagem da criança influenciam muito o seu desempenho acadêmico. Outras pesquisas mostram a relação entre a ansiedade da criança e sua dificuldade de percepção - e ainda que o alívio da ansiedade (e o tratamento de alergias alimentares, quando elas existem) reduz em muito a incidência dessas dificuldades. Mas não precisamos que especialistas e pesquisadores nos digam o que está errado. Precisamos apenas de ouvir as crianças e jovens, que estão há anos tentando expressar sua dor, frustração, confusão e raiva. Quando as crianças se voltam para as drogas, auto-mutilação e suicídio, é evidente que estão tentando comunicar algo muito importante.
Será que as dificuldades de aprendizagem são uma reacção compreensível de crianças normais obrigadas a conformar-se às condições anormais das salas de aula convencionais? Por outras palavras, será que as escolas são incapazes de perceber a diferença entre simples relatos de erros de aprendizagem passageiros, agravados pelo estresse, e uma conclusão científica? Embora as supostas anomalias neurológidas nunca tenham sido identificadas, não é difícil detectar condições anormais no ambiente escolar: competitividade feroz, inactividade física (particularmente difícil para os meninos), matérias fragmentadas que têm pouca relação com os interesses e as experiências individuais da criança, frequentes avaliações e testes do progresso da aprendizagem, falta de tempo para o convívio familiar, pouca oportunidade de conhecer pessoas de outras idades, falta de sossego para a privacidade e a reflexão, pouca oportunidade de receber a atenção exclusiva dos professores, desencorajamento de compartilhar ideias e trabalho com os colegas (uma oportunidade valiosa sendo desperdiçada), crianças frustradas caçoando das outras, o desencorajamento de atitudes de auto-valorização e acima de tudo a indignidade de ser um incapaz, uma "não-pessoa", cujas necessidades legítimas e tentativas de expressar essas necessidades são abafadas pela defensiva institucional. Todas essas dificuldades podem ser evitadas com a educação domiciliar - desde que o governo permita autonomia suficiente.
Classificações são incapacitantes, porque as crianças acreditam no que lhes dizemos. Se tivermos de classificar algo, que seja o ambiente de ensino e não o aluno: em vez de "criança hiperactiva", vamos nos preocupar com as escolas "restritivas de actividade"; em vez de alunos com "falta de atenção", deveríamos pensar nas aulas "sem inspiração"; em vez de "criança com fobia escolar" deveríamos usar palavras mais honestas como "ansiosa" e "amedrontada", e ter o cuidado de pesquisar o motivo da ansiedade.
Usando a Navalha de Occam, vamos procurar a teoria mais simples que explique os factos e não a mais complicada e obscura. Um ambiente estressante, punitivo e ameaçador é mais do que suficiente para explicar os problemas de aprendizagem. Não precisamos nos confundir com termos técnicos, teorias sem comprovação científica e bodes expiatórios para preservar uma instituição social que falhou com nossos filhos.
Como devemos agir então? Norman Henchey, professor da Universidade MacGill, recomenda "repensar totalmente a escolaridade obrigatória". Norman Henchey defende o regresso ao ensino doméstico e a "outras vias de amadurecimento... programas de formação de aprendizes, serviços de ensino formais e informais, servico público". Talvez assim possamos honrar o estilo individual de aprendizagem de cada criança e, como pede o Dr. Armstrong, "dar às crianças a motivação de que necessitam para se sentirem seres humanos competentes e bem-sucedidos".
As crianças nasceram para aprencer. Elas merecem ter um ambiente de aprendizagem seguro e estimulante, onde possam aprender numa atmosfera de paciência, respeito, delicadeza e confianca, sem ameaças, coerção ou cinismo. Como Einstein nos alertou muitos anos atrás, "é um grave erro acreditar que o prazer de observar e pesquisar possam ser incutidos pela coerção".
Todas as crianças são dotadas.
Olena Pchilka & Educação em Família
Olena Pchilka é o pseudônimo de Olha Petrivna Dragomanova-Kosach, autora ucraniana e mãe de Lesia Ukrainka.Esta figura notável da história da cultura ucraniana, escritora (poesia e prosa), investigadora e tradutora, versada no folclore e etnografia ucranianos, recebeu sua educação básica de seu pai.
Devido à sua experiência de "escola em casa", prestou mais tarde grande atenção à educação dos seus filhos. A família Kosach não estava satisfeita com o sistema de ensino da época, principalmente com seu viés em direcção à russificação, e por isso decidiu educar seus filhos próprios.
Olha Kosach / Pchilka assumiu a responsabilidade total pela educação elementar de seus filhos e demonstrou grande talento pedagógico, responsabilidade e competência. Assim, tal como os seus irmãos e irmãs, Lesia Ukrainka recebeu uma educação enciclopédica sem ir à escola.
Na sua autobiografia Pchilka escreveu: "Pareceu-me na altura que a escola iria imediatamente arruinar todo o meu esforço de ensinar os meus filhos usando a língua ucraniana. Seria um caminho que não levaria a lugar nenhum; mais tarde verifiquei que as crianças devidamente educadas em casa não poderiam ser arruinadas pela escola. "
Erykah Badu educou o filho em casa
Erykah Badu, uma das cantoras afro-americanas de melhor gosto estético dos últimos tempos, diz que se sentiu compelida a educar o filho em casa desde que ele nasceu até ao fim da 1ª classe.
"Eu queria dar uma atenção especial à sua educação para lhe dar uma vantagem a nível académico", disse ela.
Os resultados? Seven "aprendeu a resolver problemas de uma maneira não-tradicional", o que lhe serviu muito bem agora que está matriculado numa escola tradicional.
Fonte: aqui e aqui.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Citações - Terry Deary - Escolas
Foto: Alguns dos nossos livros dessa série."Recebo 200 solicitações por ano e a resposta é sempre não. Detesto escolas com paixão. Preferia cortar o meu braço esquerdo e comê-lo com Marmite do que entrar numa escola. E não gosto nada de Marmite.
As escolas são um desperdício total da vida dos jovens. Aprendem coisas que nunca terão qualquer utilidade. A única razão da sua existência é manter as crianças fora da rua. Foram uma invenção da época vitoriana. A Revolução Industrial retirou os filhos das famílias e fez os pais trabalharem em fábricas durante longas horas. Depois verificaram que não podiam ter essas criançinhas todas trabalhando nas fábricas e tiveram que decidir o que fazer com elas. Então resolveram fechá-las todas na mesma sala todos os dias e chamar a isso de escola. Passei horas aprendendo trigonometria e física, e nenhuma dessas disciplinas me preparou para a vida. Relacionamentos, conversar com as pessoas, lidar com dinheiro, planejar sua carreira, ajudar alguém que partiu a perna... tudo isso são coisas que tive de aprender sozinho.
Daqui a 25 anos já não haverão escolas. Haverão mentores, pessoas mais velhas passando suas competências aos jovens. Os professores não sabem nada sobre a vida nem sobre as verdadeiras necessidades dos alunos."
Fonte: aqui.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
O gênio musical que aprende em casa
Matt e a irmã mais nova são educados em casa. Apesar da sua tenra idade, do autismo e da falta de instrução formal em composição musical, Matt é um músico e compositor com bastante sucesso.
Matt Savage é o que parece, um Harry Potter entre savants, mas quando era pequenino o mais pequeno som fazia-lhe chorar e não tolerava o toque nem da sua mãe. Aos 6 anos, Matt confessou à mãe que tinha o cérebro cheio de problemas matemáticos. Pouco depois disso descobriu a lógica das 88 teclas do piano. Da noite para o dia aprendeu a tocar, sozinho. Seis meses mais tarde já tocava sonatas de Schubert e aos 7 anos começou a compôr peças de jazz.
Na noite do seu 13º aniversário, Matt toca no clube de jazz mais famoso de Nova Iorque. Praticamente todas as peças que interpretou são composições suas, incluindo El Fuego.
(...)
Dianne (mãe): Ele diz-nos que a música já está nele, que não precisa de praticar. Explicámos que precisa aperfeiçoar sua técnica, e ele compreende isso, mas a parte musical, essa já está lá dentro dele.Matt começou a compor por "engano". Um dia, quando estava tocando uma sonata de Schubert, a professora de piano chamou-lhe a atenção para um erro. Matt insistiu que a sua versão era melhor e, assim, decidiu começar a compôr suas próprias peças.
Dr. Darold: Matt nasceu com conhecimentos de música intrínsecos, que pré-datam tudo que aprendeu. Quanto mais trabalho com crianças-prodígio mais me apercebo que elas já nascem com software instalado, seja de música, línguas ou matemática.(...)
Matt impressiona não só a mãe e os neurologistas que o conheceram como também o actor Robert de Niro.
Dianne: Nós colocámos Matt num Jardim de Infância mas no 2º dia recebemos uma chamada dizendo para o irmos buscar porque não aguentavam com ele. Foi literalmente expulso do Jardim de Infância, por isso nós sabíamos que algo não estava certo.Nos dias em que tudo corre bem é difícil perceber que Matt é diferente, mas os pais, que vivem com ele diariamente, sabem bem as suas dificuldades.
Matt não frequenta a escola. Ele e a irmã, que também é autista, aprende em casa. Para Matt, aprender é brincadeira de criança. Lembra-se de tudo, desde que lhe interesse.
Dianne: Ele aprende praticamente tudo sozinho. É bom a geografia, excelente em matemática e sabe tudo sobre montanhas-russas. Ele lê, absorve tudo e pronto!
Matt: Se me pedisses para improvisar uma montanha russa, eu faria isto...Se quiserem, podem ver outro vídeo de Matt tocando outra das suas peças aqui.
domingo, 6 de setembro de 2009
Entrevista sobre o unschooling
Fox News: Esta semana, por todo o país, estudantes estão de regresso às aulas mas há crianças e jovens que não se vão juntar a eles: seguem uma abordagem não estruturada à aprendizagem, conhecida por "unschooling". Mas será que esta abordagem os prepara para o futuro? Vamos debater este tema com Pat Farenga, Presidente de Holt Associates que adoptou esta abordagem com suas filhas, e Webb Egerton, psicóloga.
Pat, obrigada pela tua presença. Qual é a diferença entre o unschooling, que tu fazes com as tuas 3 filhas, e o homeschooling?
Pat Farenga: Bem, nós não transformamos a nossa casa numa escola em miniatura, não seguimos o currículo escolar nem prescrições sobre o que deve acontecer a determinada altura. Em vez disso, seguimos os interesses das nossas filhas, as suas paixões, e trabalhamos com isso, buscando materiais, recursos e professores que lhes ajudarão a desenvolver esses aspectos das suas personalidades.
Fox News: Descobrir os interesses dos nossos filhos e estimulá-los faz sentido mas o que acontece se as tuas filhas não estiverem interessadas, por exemplo, na história dos E.U.A.? Como é que elas irão obter esses conhecimentos?
Pat Farenga: Em primeiro lugar, a história dos E.U.A. não é algo que pertence às escolas; a história dos E.U.A. é um facto da vida, está lá fora, não a podemos evitar. Nós encontramos a história dos E.U.A. passeando pelas ruas de Boston por isso lá porque o aluno rejeita educação formal numa sala de aulas isso não quer dizer que não vai aprender de outras formas. Esta é uma das grandes vantagens do unschooling, poder usar as múltiplas inteligências e todos os tipos de métodos para ajudar os nossos filhos a aprender, e essa aprendizagem não tem que ser do mesmo escopo nem seguir a mesma sequência. Lá porque os miúdos aprendem história dos E.U.A. no 3º ano isso não quer dizer que não possam aprender no 8ºano ou até mais tarde.
Fox News: Bem, apresentas bons argumentos. Então qual é o problema com o unschooling?
Webb Egerton: Deixem-me começar por dizer que existe uma diferença enorme entre o homeschooling e o unschooling. Todos os anos, neste país, mais de 1 milhão de adolescentes abandonam a escola por não terem recebido educação ou preparação suficiente e não há nenhuma estrutura, por isso é muito difícil para muitos miúdos não-escolarizados obterem essa preparação para a vida mais tarde. Se nunca aprenderem matemática como é que poderão vir a ser astronautas? Poderão vir a ser astronautas mais tarde?
Fox News: Pat, por que razão optaste por não mandar as tuas filhas para uma escola tradicional?
Pat Farenga: Por causa da minha experiência de escola. Apercebi-me que a maior parte das coisas que aprendi depressa esqueci e... bem, só essa razão é suficiente. Afinal, não é esse o objectivo da escola? Tornarmo-nos mais espertos que um miúdo do 5º ano?
Webb Egerton: Bem, isso não é totalmente verdade porque à noite, quando vamos dormir, tudo que aprendemos durante o dia, quer tenhamos consciência de ter aprendido ou não, é trabalhado pela nossa psique. À noite, durante o sono, nós processamos tudo aquilo que aprendemos durante o dia, à noite o nosso cérebro continua acordado, por isso podemos não usar algo que aprendemos durante o dia até muito mais tarde...
Fox News: Mas está lá, na nossa psique.
Pat Farenga: E o mesmo é verdade em relação ao que aprendemos informalmente. Gostaria de fazer a distinção entre o abandono escolar e o unschooling. No abandono escolar, os jovens frequentaram a escola e decidiram abandoná-la. Deixem-me dizer que trabalho com 2 centros de aprendizagem para crianças e adolescentes no ensino doméstico. No entanto, o que estamos a descobrir é que esses jovens - que abandonaram a escola por volta dos 16 anos e cujas famílias não estão interessadas na sua educação -, querem aprender e por isso vêm ter conosco nestes centros criados especificamente para dar apoio ao ensino doméstico.
Webb Egerton: E muitos jovens não escolarizados precisam de uma aprendizagem estruturada...
Fox News: Bem, isso depende da abordagem que os miúdos seguem, se têm iniciativa própria, e assim por diante. Obrigado Pat por teres aberto este debate e obrigada Webb pela tua presença. Concerteza teremos no futuro outra oportunidade para continuar o debate.
sábado, 5 de setembro de 2009
Porque é que os alunos não gostam da escola?
Porque é que os alunos não gostam da escola? Bem, não é óbvio?
Perguntem a qualquer aluno porque é que não gosta da escola e ele depressa dirá que a escola é uma prisão. Pode ser que não use estas palavras, talvez por ter sido bem educado em casa ou por já lhe ter sido feita uma lavagem ao cérebro em relação à escola, e ter passado a acreditar que a escola é para seu bem e, assim sendo, não poderia ser uma prisão.Mas se decifrarmos bem a resposta a tradução geralmente é: "A escola é prisão". Deixem-me dizer isto mais umas vezes: A escola é uma prisão. A escola é uma prisão. A escola é uma prisão. A escola é uma prisão. A escola é uma prisão.
Qualquer pessoa que tenha frequentado a escola sabe que a escola é uma prisão, mas praticamente ninguém o diz. Não é “bonito” dizer-se isso. Andamos todos evitando dizer esta verdade, que a escola é uma prisão, porque dizer a verdade nos faz parecer tão horríveis. Como poderíamos nós, pessoas de bem, enviar os filhos para a prisão durante a maior parte dos primeiros 18 anos das suas vidas? Como poderia o nosso governo democrático, que se baseia nos princípios de liberdade e auto-determinação, fazer leis exigindo que todas as crianças e adolescentes passem grande parte dos seus dias numa prisão? Seria impensável, por isso esforçamo-nos tanto para evitar pensar nisso. Ou, se pensamos, pelo menos não o dizemos. Quando falamos sobre o que está errado nas escolas, fingimos não nos aperceber desta realidade e em vez disso falamos sobre outras coisas.
Mas eu acho que está na hora de dizermos em voz bem alta. A escola é uma prisão. Se acham que não então expliquem por favor qual é a diferença. A única diferença que consigo pensar é que para irmos parar à prisão temos que cometer um crime, mas devido apenas à nossa idade somos forçados a ir para a escola. Nos outros aspectos a escola e a prisão são iguais. Em ambas somos despojados da nossa liberdade e dignidade. Em ambas dizem-nos exactamente o que fazer, e somos punidos se não obedecermos. A verdade é que na escola passamos mais tempo fazendo exactamente aquilo que nos dizem para fazer do que nas prisões para adultos, por isso, nesse sentido, a escola é pior do que a prisão.
Todos nós que frequentámos a escola sabemos que ela é uma prisão. Como poderíamos não o saber? Mas racionalizamos a situação, dizendo (geralmente não com estas palavras) que as crianças necessitam deste tipo específico de prisão e que até poderão vir a gostar dela desde que esteja bem organizada. De acordo com esta racionalização, se as crianças não gostam da escola não é por a escola ser uma prisão mas porque os guardas não são suficientemente gentis, divertidos ou inteligentes para manter as mentes das crianças adequadamente ocupadas.
Mas quem sabe um mínimo sobre crianças e tem a coragem de pensar honestamente deveria ser capaz de não se deixar iludir por esta racionalização. As crianças, tal como todos os seres humanos, anseiam pela liberdade. Elas odeiam ter a sua liberdade restringida. E em grande medida usam essa liberdade precisamente para se educarem. Estão biologicamente preparadas para fazer isso. Brincando e investigando livremente elas aprendem sobre o mundo físico e social em que estão crescendo. Na escola, pelo contrário, dizem-lhes que têm que parar de seguir os seus interesses e em vez disso fazer apenas o que o professor lhes disser que têm de fazer. É por isso que não gostam da escola.
Como sociedade, poderíamos, talvez, racionalizar o modo como forçamos as crianças a irem para a escola se pudéssemos demonstrar que elas precisam deste tipo específico de prisão a fim de adquirir as competências e os conhecimentos necessários para se tornarem bons cidadãos, para serem felizes na vida adulta e para arranjarem bons empregos. Muitas pessoas, talvez a maioria, pensam que isso foi provado cientificamente, pois o estabelecimento de ensino fala como se isso tivesse sido provado. Mas a verdade é que nunca ninguém provou essa teoria.
A verdade é que há décadas que as famílias que optaram por "não escolarizar” os filhos ou por enviá-los para escolas como a Sudbury Valley School (que é, essencialmente, uma “não-escola”) têm vindo provando o contrário.
As crianças a quem são dadas ferramentas para a aprendizagem, incluindo acesso a várias outras pessoas com quem possam aprender, aprendem o que precisam de saber - e muito mais - através de brincadeiras e pesquisas que elas próprias iniciam. Não há prova absolutamente nenhuma de que as crianças que são enviadas para a prisão saem de lá melhores do que aquelas a quem são fornecidas as ferramentas e a permissão de as usar livremente.
Como podemos então continuar a racionalizar o facto de que mandamos as crianças para prisões? Julgo que o estabelecimento de ensino deliberadamente evita analisar com honestidade as experiências dos unschoolers e de escolas como Sudbury Valley porque tem medo do que iria encontrar. Se as escolas-prisões não são necessárias, o que aconteceria a este enorme empreendimento, que dá emprego a tanta gente e que está tão profundamente enraizado na nossa cultura?
Todas as tentativas de melhorar o sistema falharam, e nenhuma há-de ter sucesso até as pessoas enfrentarem a realidade: as crianças odeiam a escola porque na escola elas não têm liberdade. Na aprendizagem não há alegria sem liberdade.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Eu aprendo em casa
"Eu aprendo em casa em vez de ir para a escola porque quando costumava andar na escola estava sempre a ser agredido e não encaixava com as outras crianças.A maior diferença entre aprender em casa e frequentar a escola é que agora tenho mais amigos, embora não tenha uma classe grande! Os meus irmãos também aprendem em casa. Os trabalhos que faço são flexíveis. Ser educado em casa significa que posso escolher as coisas que aprendo e o meu horário, por isso não preciso acordar sempre à mesma hora!
Em vez de ter um professor, os meus pais ensinam-me a fazer os trabalhos; eles ajudam-me com a ortografia e mostram-me sites úteis. Eu não aprendo por disciplinas mas por temas. E posso escolher quando aprendo!
Fazemos parte de um grupo aqui na zona em que moramos; o grupo tem 250 famílias que fazem o ensino doméstico, por isso conheço montes de crianças que também aprendem em casa. Reunimo-nos muitas vezes e visitamos vários sítios, desde estações de energia a Royal Mews - por isso não estamos sempre dentro de casa!
Acho que as vantagens do ensino em casa são que eu já não sou vítima de violência escolar e não tenho que estar sempre sentado sem me mexer (na sala de aula eu não conseguia ficar parado o tempo todo por isso estavam sempre ralhando comigo!). Também não tenho de acordar cedo e posso escolher o que quero aprender.
As coisas ruins? Eu não consigo pensar em nada de ruim sobre a não ir à escola! "
Tradução livre daqui.
Menina com PDD-NOS educada em casa
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Ensino doméstico e necessidades educativas especiais
Olá! Eu sou Linda Woolridge, uma mãe-educadora. Já educo os meus filhos em casa há mais de 10 anos.E já que Linda Woolridge menciona o déficit de atenção e a hiperactividade, decidi embutir o vídeo seguinte para vos mostrar como, em casa, características consideradas problemáticas no contexto escolar podem ser usadas a favor da aprendizagem. Eis como Maya e Millian abordam a tabuada, aproveitando a necessidade natural de movimento para facilitar o processo da aprendizagem.
Sabiam que os professores de Thomas Edison disseram que ele era estúpido demais para frequentar a escola? A mãe não concordou e decidiu levá-lo para casa. Todos sabemos como essa estória terminou.
Há pais que têm filhos com necessidades especiais que não se dão bem no sistema escolar; querem educá-los em casa mas não sabem bem o que fazer ou como ingressar no ensino doméstico. (...)
Escolham o que funciona e ignorem o resto. Façam amizades com outras pessoas que têm filhos com as mesmas necessidades especiais que os vossos; podem saber de recursos que vocês desconhecem.
Se decidirem educá-los em casa, juntem-se a um grupo de apoio ao ensino doméstico: poderão encontrar outros pais que estão enfrentando os mesmos desafios e, se eles tiverem mais experiência, se os filhos deles forem mais velhos que os vossos, podem partilhar as coisas que já aprenderam.
Façam também pesquisas na internet. Há currículos que foram feitos especificamente para crianças com necessidades especiais e que podem ser úteis.
Além disso, há sítios que mostram diferentes métodos que podem utilisar. Uma escritora chamada Carol Barnier escreveu vários livros sobre como educar crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em casa.
Independentemente do vosso método de preferência, a educação domiciliar é uma viagem maravilhosa e os vossos filhos não fariam melhor do que em casa convosco.
Termino este post pensando em Howard Gardner, inteligências multiplas e diferentes estilos de aprendizagem, perguntando a mim mesma: "qual será o efeito a curto, médio e longo prazo da frequência escolar nas crianças de grande inteligência físico-cinestésica (ou corporal) cujo estilo de aprendizagem é o cinestésico?"
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Do homeschooling ao unschooling
"Sabes, eu fiz a 1ª classe e depois os meus pais tiraram-me da escola e começaram a educar-me em casa. Tínhamos uma estrutura, um currículo, fazíamos problemas de matemática, etc.
Depois de alguns anos fui para a co-op e quando começámos o unschooling eu senti um certo receio: "bem, agora não tenho que resolver problemas de matemática mas tenho de assumir a responsibilidade pela minha educação, por isso vou ter que estudar imenso senão ainda acabo trabalhando no McDonalds, viciada em drogas ou qualquer coisa assim... tive todas essas preocupações comuns."
Isso durou uns tempos mas depois apercebi-me que podia relaxar um pouco, que não precisava de ler 7 horas por dia, pois ía aprender com as coisas que viessem ter à minha vida e que iria experienciar naturalmente. Então a partir daí fiquei muito mais tranquila e deixei de pensar que tinha de estudar tão árduamente para adquirir uma educação."
No vídeo seguinte, ela fala sobre o "erro" que muitos pais fazem.
"Outro conselho que daria aos pais é que não podem presumir que certas actividades têm intrinsecamente mais valor do que outras. As pessoas que não estão familiarizadas com o unschooling vêm à nossa casa e o meu irmão, bem, ele agora já deixou essa fase, mas ele adorava jogar o World of Warcraft (WOW), e eu estou muito envolvida na cerâmica...
Então as pessoas vinham à nossa casa e viam o meu irmão jogando WoW e eu fazendo chaleiras, pratos e coisas dessas, e partem do princípio que a minha actividade tem mais valor do que a dele. Eu diria que esse não é necessariamente o caso, que ele está desenvolvendo uma série de competências da mesma maneira que eu, mas que essas competências são diferentes. Por isso não devem partir do princípio que uma actividade é necessariamente melhor do que outra."
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Alan Watts: a vida é para dançar
Em música, o objectivo de uma composição não é o seu final. Se assim fosse, os melhores maestros seriam aqueles que conduzem mais depressa, e haveriam compositores que escreveriam apenas o “finale”. As pessoas iriam a concertos só para ouvir o último acorde – aqui está, o “finale”!
Mas nós não vemos isto como algo trazido pela nossa educação à nossa conduta diária. Nós temos um sistema de escolarização que nos dá uma impressão completamente diferente. Nele, tudo é avaliado, classificado, hierarquizado, sequenciado linearmente...
O que fazemos é, pomos a criança no corredor deste sistema sequencial e aliciamo-la com a ideia da recompensa. Vai para o infantário, “ó, que bom, porque depois podes ir para a 1ª classe, e depois... anda, anda, que depois da 1ª classe podes ir para a 2ª” e assim por diante. “E depois sais da escola primária e vais para o secundário”, e as coisas começam a acelerar, a recompensa está mais próxima...
“E depois vais fazer o 12º ano, para poderes ir para a universidade, e quando acabares, juntar-te ao mundo dos adultos.”
E depois dás contigo numa empresa onde vendes talvez seguros, e tens sempre metas a alcançar e datas a cumprir. Todo o tempo a recompensa parece estar cada vez mais perto, quase, quase a chegar, estás quase, quase a atingir essa coisa sublime, esse sucesso para o qual trabalhas...
E um dia acordas, aos quarenta e tal anos, e exclamas: Meu Deus, cheguei! Estou aqui, finalmente!
Mas não te sentes diferente do que sempre sentiste e há uma certa desilusão, como se te tivessem pregado uma partida. E foi, foi um terrível embuste, em que te fizeram perder tudo.
Pensámos a vida como se ela fosse semelhante a uma viagem, a uma peregrinação com uma meta muita séria no final, e o objectivo era alcançar essa meta, seja ela o sucesso, a salvação, ou seja lá o que for.
O tempo todo não percebemos que era uma peça musical e que éramos suposto cantar ou dançar enquanto a música estava tocando...
O Direito ao Ensino em Casa no Brasil
Palavras-chave: Direitos fundamentais. Direito à educação. Educação e Lberdade. Proteção constitucional à família. Dever de educar. Ensino em casa. Monopólio estatal da educação. Etc.
SUMÁRIO
1. Introdução
2. Educação, Liberdade e Família
2.1. A educação como direito fundamental do indivíduo
2.2. A formação da pessoa.
2.3 A proteção constitucional dispensada à família e seu papel educador.
2.4. Os pais como os primeiros responsáveis pela educação dos filhos.
3. A Prática do Ensino em Casa
3.1. O monopólio estatal da educação e os riscos do totalitarismo.
3.2. A que estão sujeitas as crianças nas escolas brasileiras.
3.3. O direito à educação nas Constituições brasileiras anteriores e a educação doméstica.
3.4. Os tratados internacionais e a legislação estrangeira.
4. Ensino em casa no Brasil: análise da jurisprudência e possíveis soluções.
4.1. O Mandado de Segurança n. 7.407/DF.
4.1.1. O Parecer n. 34, de 04 de dezembro de 2000, do Conselho Nacional de Educação - CNE.
4.1.2. A petição inicial do mandado de segurança n. 7.407.
4.1.3. O Parecer do Ministério Público Federal.
4.1.4. A decisão do Superior Tribunal de Justiça.
4.2. O caso de Timóteo – MG
4.3. As possíveis soluções advindas do Poder Legislativo.
4.3.1. O Projeto de Lei n. 6.001/2001.
4.3.2. O Projeto de Lei n. 6.484/2002.
4.3.3. O Projeto de Lei n. 3.518/2008.
4.4. Perspectivas para o ensino em casa no Brasil.
5. Considerações finais
6. Revisão Bibliográfica
7. Referências bibliográficas
ANEXOS
ANEXO A
ANEXO B
ANEXO C
ANEXO D
ANEXO E
ANEXO F
ANEXO G
ANEXO H
ANEXO I
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Carnaval de blogs - Viver a diferença
Ao ler o tema proposto para este “Carnaval Educando en Familia”, a primeira coisa que me veio à cabeça foi uma citação de E E Cummings, onde ele diz mais ou menos o seguinte:“Não ser ninguém excepto você mesmo, num mundo que se esforça dia e noite para torná-lo igual a todos os outros, é lutar uma das mais difíceis batalhas que todo ser humano poderia enfrentar, e que nunca deveria deixar de lutar.”Para nós, viver a diferença é algo muito positivo e, na verdade, a única opção que nos parece possível, pois “viver o igual” seria uma espécie de morte, uma vez que implicaria sermos “outro” e, portanto, vivermos alienados de nós próprios.
Lembro-me de uma conversa, já faz uns 3 anos, em que às tantas alguém perguntou:
“Achas que deveríamos fingir ser como os outros?”
O meu filho imediatamente perguntou: “Para quê?”
Depois de um silêncio, retorquiram:
“Para nos juntarmos ao rebanho?”
Ao que o meu filho respondeu:
“Mas a respeito de quê é que eu quereria fazer isso?”
Viver a diferença, ou seja, ser quem realmente somos e viver a vida que realmente queremos viver, é algo absolutamente essencial para o bem estar emocional e saúde mental de todos nós, independentemente da idade que tenhamos.
O ensino doméstico oferece às crianças e jovens o espaço que tanto necessitam para crescer, um espaço relativamente livre da constante pressão de grupo típica da “socialização” escolar. Digo relativamente livre porque essa pressão não existe apenas nas escolas; ela permeia a sociedade em que vivemos, e as famílias que optam pela educação em família, ao contrário do que muitos possam pensar, são parte integral dessa sociedade.
Viver a diferença é essencial não só para o bem estar do indivíduo como também para o da sociedade. Assim como a nossa saúde depende do bom funcionamento de todas as partes - se eu tiver um problema nos rins toda eu me sinto mal -, o estado da sociedade em que vivemos depende do estado de cada um de nós. E em que triste estado estaríamos se não tivéssemos a liberdade de ser quem somos! Viver a diferença torna-se, assim, um dever.
Porque tal como a biodiversidade é uma das maiores riquezas do planeta e a melhor medida da saúde dos sistemas biológicos, a maior riqueza da humanidade é a nossa unicidade. Viver o igual seria então não só cometer uma espécie de suicídio psicológico, emocional e espiritual como também contribuir para a propagação da normose, essa patologia da normalidade que está encaminhando a humanidade à sua auto destruição e à destruição do planeta.
Voltando então à questão inicial, como é que nós vivemos a diferença? O meu filho vive-a como se fosse a coisa mais natural do mundo. Está bem consigo e sente-se bem na sua pele. O ensino doméstico proporciona-lhe o tempo necessário para se conhecer a si próprio, para se "aprender" a si mesmo, e uma atmosfera de aceitação em que pode expressar todas as facetas do seu ser, ou melhor, do seu "sendo" em constante transformação.
Quanto a mim, eu vivo a diferença com gratidão, apreciação e um certo sentido de responsibilidade universal, de ser a mudança que quero ver no mundo, como dizia Gandhi. Vivo-a consciente da inter-dependência de tudo e todos, e de que a sociedade somos nós pois somos nós que a co-criamos. Vivo-a também consciente da importância da "edu-diversidade" e da liberdade de educação para a sustentabilidade da humanidade.
Estou cada vez mais convencida de que, assim como todas as monoculturas acabam produzindo enormes desiquilíbrios ambientais, a escolarização das mentes através de um currículo global será um verdadeiro desastre para a humanidade. Talvez seja por isso que o ensino doméstico está incluido na flôr da permacultura...
LINKS
XII carnaval de blogs EeF
XII edición Carnaval de blogs Educando en Familia: vivir la diferencia
domingo, 30 de agosto de 2009
Michael Leunig fala sobre o ensino doméstico
R: Os teus filhos, que penso que têm 7 e 11 anos... mencionaste que os estás educando em casa. O que é que lhes ensinas?
ML: Bem, eles aprendem, entendes? Todos os miúdos querem aprender e estou convencido que é impossível fazer com que crianças saudáveis parem de aprender. Assim, temos de proporcionar... é uma questão de proporcionarmos e criarmos um ambiente em que elas estão interessadas, entusiasmadas e cheias de curiosidade.
Por exemplo, a minha filha Mina adora cavalos. Ela tem dois cavalos e (quando ela está com) os cavalos, naquele momento os cavalos são os professores; quando estão passeando no cercado, o cercado é o professor, a cobra que atravessa em frente deles é o professor, quando me ajuda a reparar a cerca ou a arranjar a bomba, esses são os professores.
Os olhos das crianças vão até às coisas e brilham quando vêem algo; então dizemos, tudo bem, vamos ver, e seguimos isso, seguimos os seus interesses.
R: Preocupas-te que talvez não lhes consigas dar uma educação abragente, que vá mais além das tuas visões sobre o mundo?
ML: Não podemos controlar as situações a esse nível. O mundo vem até nós, ele nos rodeia, entra por baixo da porta, cai do céu, nos permeia... Se amamos os nossos filhos não queremos vê-los se tornando ignorantes, obtusos, de vistas estreitas... e se quiserem ir para a escola, tudo bem, se chegar a altura em que queiram ir, então podem ir.
R: A outra coisa sobre a escola é que ela proporciona uma comunidade, esse senso de aprender a trabalhar com os colegas, construir amizades, todas essas coisas...
ML: E agredirem-se uns aos outros até mais não, e serem arrastados pelo chão...
R: Todas essas coisas também.
ML: Submeterem-se, serem controlados, ficarem incrivelmente confusos sobre todas essas coisas que lhes ensinam...
R: Estas coisas que, quando os teus filhos forem à sua vida, quando forem mais crescidos, vão ter que descobrir uma maneira de lidar com elas, porque não os podemos enclausurar de tudo isso.
ML: Não, estamos a abri-los...
R: Não podemos fugir a essas coisas.
ML: Absolutamente, e é por isso que os educamos em casa, de modo a que se tornem fortes no seu interior, porque lá fora o mundo é grande e selvagem. Não tenho nenhuma teoria sublime sobre isso; mas nós agimos de acordo com a nossa intuição e os interesses dos nossos filhos, (pensando no que é melhor para a) sua saúde, imaginação, mente e espírito...
E temos a coragem de fazê-lo, temos a coragem de ir contra todo esse conformismo, obediência, submissão, pressão de grupo, de os transformar em forragem para a economia, para entrarem numa economia - e não numa comunidade -, de os tornar uma unidade económica, das 9 às 5, nos autocarros. Isso não me agrada...
sábado, 29 de agosto de 2009
Católica educa os filhos em casa e prepara-se para as Olimpíadas 2010
Com 29 anos de idade, Rebecca Dussault não é uma atleta olímpica comum. Ela competiu nos Jogos Olímpicos de Inverno em 2006, onde causou um pouco de agitação nos mídia quando o marido e o filho acompanharam-na em todas as corridas preparatórias (aproximadamente 60), e nos Jogos Olímpicos de Turim, Itália.Rebecca está actualmente preparando-se para competir nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010 em Vancouver, Columbia Britânica. Com dois filhos, está competindo em muitas corridas sem a família ao seu lado, mas até agora tem-se saído muito bem. Já ganhou num Campeonato do Mundo e conseguiu várias outras victórias.
Rebecca, tal como o marido, é uma católica praticante que foi educada em casa e tem planos de manter a tradição familiar e educar os seus próprios filhos em casa.
Quando não está viajando por todo o mundo preparando-se para as próximas Olimpíadas, Rebecca vive em Gunnison, Colorado, com a família.
No site dos Dussaultskis, Rebecca lista as suas ambições. Entre elas, ter mais filhos e educá-los em casa. Curiosos? Cliquem aqui.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
O Verão faz mal ao cérebro dos miúdos?
"Não era o Verão que nos preocupava. Era o resto do ano. Foi o Verão entre a pré-primária e o início do ensino primário que nos levou para o ensino doméstico. Foi ver o meu filho durante essas férias devorando tudo que lhe despertava a curiosidade que cimentou a nossa decisão.
O meu filho lutava contra a escola. Dizia que gostava do professor e dos colegas, mas não conseguia expressar porque resistia à escola. A sua “resistência” consistia em argumentos diários na altura de se aprontar para ir para a a escola, que podiam levar a uma crise de gritos, ataques de asma e vómitos. Depois de um ano todos nós detestávamos as manhãs.
No entanto, os professores diziam que ele era esperto, embora não fosse de uma inteligência de espantar: quieto durante as aulas, suficientemente alegre mas facilmente distraído.
Só que em casa ele era voraz e aproveitava todas as oportunidades para aprender algo novo. Sim, é verdade que nós fazíamos questão de arranjar tempo para engajarmos em "oportunidades de aprendizagem", como ir a passeios, ler livros em voz alta para eles ou ver programas de televisão educativos e conversar sobre eles. Isso são coisas que os professores não podem fazer, é certo. Nós geralmente pensamos: mas eles são especialistas com formação e possuem técnicas que compensam a falta disso, não é?
No final da pré-primária deram-nos uma lista de palavras para as crianças aprenderem. Não achei bem darem trabalhos de casa a miúdos de 5 anos para fazerem durante as férias.... mas lá fomos de férias e com um pouco de atenção que ele aprendeu as palavras a tempo, antes da escola recomeçar.
Com orgulho, dissemos ao novo professor que ele tinha aprendido as palavras... Ah! Mas não, nós tinhamos entendido mal. Essas eram as palavras que ele iria aprender durante este período. No final das próximas 10 semanas pelo menos metade dos alunos deveriam ter aprendido mais de metade das palavras. Oh, então podemos ver a lista seguinte? Não, só no final do período.
Começámos a ficar confusos com os relatórios de leitura. À noite, em casa, o nosso filho lia o livro indicado pela escola de uma ponta à outra. Mas vinham relatórios da escola dizendo "a leitura está indo bem, já lemos quase metade do livro". Quando lhe perguntámos por que é na escola ele só lia metade do livro que já tinha acabado de ler em casa, ele disse: "Se eu ler o livro todo depois tenho que ficar sentar sozinho à espera que os outros acabem e eu não quero ficar sentado sozinho."
Como previsto nos livros de John Holt (autor do famoso livro How Children Fail, que propõe que na escola as crianças não são incentivadas a aprender mas a se conformarem), ele tinha-se tornado perito em manipular os professores para sua vantagem. Como não gostava de matemática, aprendeu a fingir que estava tentando resolver problemas, quando na verdade nem sequer estava olhando para eles, porque as crianças que parecem estar trabalhando obtêm ajuda enquanto que as que ficam a olhar para os problemas com ar de quem não os compreende são ignoradas. Decidimos então retirá-lo da escola, pensando que podíamos sempre matriculá-lo outra vez. Afinal, não tínhamos nada a perder. Mas a verdade é que nunca olhámos para trás.
O meu filho tem agora 10 anos e continua a surpreender-me regularmente com o que ele aprende sem eu reparar. Tem uma auto-confiança enorme e é bem educado quando fala com pessoas de todas as idades. Quando for grande quer ser director de cinema. Quando eu tinha 10 anos eu nem sequer sabia que isso existia.
Se conseguires criar, para os teus filhos, um Verão feliz, educativo, cheio de actividades, podes dar contigo pensando: regressar à escola? para quê?"
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Ensino doméstico na Suécia
O vídeo (10mns) está em sueco, com legendas em inglês.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Maria Montessori, sua vida e seu legado
Há um século, Maria Montessori fundou um movimento educacional que continua vivo ainda hoje. Este filme apresenta a história da sua vida, entrelaçada com informação sobre a sua filosofia e os princípios básicos da prática educativa que continua sendo praticada nas escolas montessorianas (abre vídeo em português).
Descobrimos que educação não é algo que o professor faz mas um processo natural que ocorre espontaneamente no ser humano. Não é adquirida ouvindo palavras mas através de experiências em que a criança actua no seu ambiente.
Maria Montessori acreditava que a criança constrói conhecimento a partir das suas experiências no mundo. Dizia ela que aprender não é algo que precisa ser forçado ou incentivado mas algo que os seres humanos fazem naturalmente. Os primeiros anos de vida em especial são de grande crescimento mental, com a criança assimilando impressões do mundo à sua volta. Uma unificação das energias físicas e mentais ocorre quando as crianças se tornam aborvidas no trabalho. Montessori chamou a isto "normalização", e dizia que a concentração era o essencial.
O ambiente cuidadosamente preparado das escolas montessorianas proporciona às crianças oportunidades de desenvolvimento físico e emocional. Na área da matemática, as crianças trabalham com representações concretas de conceitos matemáticos e dirigem-se gradualmente em direcção a uma internalização de factos matemáticos abstratos sem confusão, receio ou fastio, e ao seu próprio ritmo.
Elas podem escolher as actividades que querem fazer mas não podem perturbar os outros nem trabalhar com materiais que não sabem usar, ou estragá-los.
Maria Montessori nasceu em 1870 na Itália. Filha única, era uma rapariga cheia de vida e energia. Decidiu estudar numa escola em que a maioria eram rapazes e mais tarde resolveu estudar medicina. Foi a primeira mulher na Itália a fazê-lo. Seu pai, muito tradicional, teve muita dificuldade de aceitar esta decisão.
Bonita e inteligente, dava discursos sobre a educação das mulheres e suas condições de trabalho. No seu 2º discurso abordou um tema que ainda hoje não foi totalmente solucionado: pagamento igual para trabalho igual.
Links
Vida e obra de Maria Montessori (excertos)
The Montessori Method, por Maria Montessori
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Um retrato do homeschooling
Não coloco meus filhos na escola!
Pedagogo, filósofo, professor universitário, mestre e doutor em Educação, o carioca Luiz Carlos Faria da Silva, 51 anos, está disposto a entrar na Justiça para ter o direito de educar os filhos em casa, de 10 e 8 anos.Ler mais aqui.
Citações - Lauro de Oliveira Lima
"A escola é um campo de concentração com mil controles, fichas, horários, torres de observação, representados pelo mecanismo desumano dos processos de verificação, pelo esoterismo lotérico e pitagórico dos processos de promoção através de médias “ponderadas” (sic!) pelo inspetor federal, o homem da moralidade escolar, pelo diretor, o déspota para quem o regulamento “c’est moi”, pelos inspetores de alunos, os “SS” eternamente redivivos, sempre prontos a atirar no trânsfuga ou no rebelde e agora mais (me Hércules!), por um psicólogo escolar encarregado da “lavagem cerebral” de conversão e ajustamento de um homem livre a um sistema de autômatos...""Para conturbar a quietude em que forma o pensamento reflexivo, temos ainda quatro ou cinco professores de línguas, cada um com seus métodos antidiluvianos e nomenclaturas contraditórias; cinco ou seis professores de ciências, de temperamentos contraditórios e métodos antagônicos, exigindo os 36 nomes das anfractuosidades do fêmur ... ou a decoração de 30, 40, 50 teoremas; temos alguns professores de artes , canto, desenho, trabalhos, sem atelier , sem campos de esperte, sem auditórios, sem oficinas , sem laboratórios, numa comédia pedagógica que repugna os adolescentes inteligentes.Temos novos algozes – encarregados de estudos dirigidos, promotores de atividades extracurriculares que não interessam aos alunos e não têm sintonia com a atividade escolar... verdadeiro inferno de Dante para os jovens que se empenham em “cumprir o dever”! Se daí sai a “cola” sistemática para “salvar-se do dilúvio”, se explodem atritos e revoltas; se a “gazeta” se institucionaliza, se os jovens se fecham em razoável atitude de autoproteção para pensar um pouco, para viver seus próprios sonhos, para aprender a pensar por si mesmo – há um dispositivo na máquina para expulsar o produto que não corresponde às especificações."
"Deixar uma classe passiva “ouvindo discursos” não é só uma crueldade: é um atentado às conquistas definitivas da psicogenética. Classe não é auditório para os alunos e tribuna para o professor. É oficina em que se pensa, debate, manipula, pesquisa, constrói. Meditar é a forma mais sublime da atividade, a atividade específica do ser humano. Meditar – não decorar. Refletir. Ensinamos a nossos alunos como se fossem animais. Como se não tivessem razão."
"Por que um jovem que sente na carne todo empolgamento da era atômica, dos teleguiados, da eletrônica, dos foguetes à Lua, um mundo todo de maravilhas, de cinemas espetaculares, de velocidade, de pistas sem fim de asfalto, de televisão, de construções ciclópicas, haveria de se conformar em passar horas sentado num banco terrivelmente incômodo, ouvindo discursos indigestos sobre os Medas e os Persas, sobre o binômio de Newton que ele não sabe para que serve, sobre a ordem indireta na construção latina, sobre o autor do Hino Nacional? É ou não inteligente quem escapa dessa roda viva?"
"O ser humano exige finalidade em tudo que faz. Não agimos sem objetivo claro e reconhecido como válido. Se o que ensinamos não parece ter utilidade para os adolescentes, eles fogem de nós, julgando-nos num mundo irreal que eles não encontram lá fora."
"Deixemos de recriminar a juventude por não querer ouvir discursos, se nós mesmos não os toleramos. Sejamos autênticos, realistas e leais para com a juventude. Ela não está perdida. Está sendo lograda. Fechemos as malhas da peneira, senão, amanhã não teremos dirigentes."
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Citações - Carlos Drummond de Andrade

"Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem."
domingo, 23 de agosto de 2009
Educação: do passado ao futuro
É possível identificar, pelo menos, três cenários de evolução dos sistemas de ensino que, apesar de distintos, são portadores de visões semelhantes da educação. Não se tratam hipóteses futuristas, na medida em que estão, já hoje, bem presentes na nossa realidade quotidiana.
O primeiro cenário aponta para o regresso a formas de educação familiar. A partir de argumentos que vão desde a responsabilidade educativa primordial dos pais até à necessidade de preservar os valores de uma determinada comunidade local constroem-se propostas que põem em causa a dimensão pública da educação. A ideia de que cada família ou comunidade deve ter a sua própria escola, reservada aos seus e protegida dos outros, situa-se nos antípodas do projecto de uma escola pública que assegura a presença de todos e a construção de uma identidade partilhada. Uma das formas mais evidentes deste cenário é a expansão do ensino doméstico, em casa, que se vem desenvolvendo através de redes familiares, culturais e religiosas, com recurso às novas tecnologias."
Educação 2021: Para uma história do futuro, António Nóvoa
Perspectivas sobre o ensino doméstico
"A “crise da escola” tem dado origem a reacções várias que procuram “recolher” ou “proteger” as crianças em espaços privados, justificadas ora com argumentos sociais (ausência de valores e violência crescente nas escolas), ora com argumentos académicos (ensino deficiente e professores medíocres) . ...
O ensino doméstico
O regresso a práticas de ensino doméstico (home schooling), à maneira da educação das elites no século XIX, é um dos fenómenos mais curiosos dos últimos anos. A partir de preocupações de “coerência” e de “protecção” dos herdeiros, estas práticas têm-se desenvolvido a um ritmo muito significativo, dando origem, nalguns países, à emergência de um verdadeiro sistema educativo paralelo.
Nos Estados Unidos da América, mais de um milhão de crianças e jovens, entre os 5 e os 17 anos de idade, são educados em casa. É uma situação limite de “clausura social” que tem duas estruturas principais de suporte: um conjunto de empresas privadas que elaboram programas de formação e de “supervisão pedagógica” dos pais e lhes fornecem materiais curriculares e didácticos; uma rede muito activa de “comunidades religiosas” que enquadram e legitimam, do ponto de vista moral e social, grande parte destes processos (Spring, 2002). As associações religiosas, nomeadamente as redes das “escolas cristãs”, desempenham um papel essencial na criação de uma mundividência que define estas formas de educar."
O Espaço Público da Educação: Imagens, Narrativas e Dilemas, Antônio Nóvoa.
sábado, 22 de agosto de 2009
Criatividade e o Cérebro
Cada criança é brilhante e nós temos de aprender a desenvolver esse brilho. O professor fornece os nutrientes para alimentar este brilho. A criatividade é absolutamente essencial para isso. Temos ensinado o oposto. Nos últimos 150 anos estamos ensinando "currículo". Isto é considerado normal na nossa sociedade, mas a verdade é que não é natural.
Como seres humanos, primeiro temos que aprender a aprender, depois definir o que aprender. Não nascemos com um cérebro pronto, nascemos com um potencial, tal como um jardim maravilhoso, com milhares de sementes. Quando o ambiente é fértil, quando a criança é alimentada, existe dentro das células cerebrais um movimento de conexão e relacionamento entre si. Quando o potencial do cérebro não é cultivado, as células cerebrais não se ligam, elas literalmente se desconectam.
O professor ajuda a criança a construir a arquitectura interna de seu pensamento. Quando nós estimulamos as crianças a criarem, elas tornam-se fisicamente e biologicamente complexas e capazes. Quando linearizamos o ensino e enfatizamos a rotina estamos desconectando os seus cérebros.
Que trabalho é mais importante para o planeta do que envolver as crianças criativamente?
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Aprendizagem informal e o ensino doméstico - conclusão
Desde o nascimento, as crianças estão motivadas a aprender sobre a cultura que as rodeia, incluindo os aspectos culturais que exigem uma compreensão cognitiva. Durantes os primeiros anos os mediadores da maior parte dessa aprendizagem são os pais. Não há razão para este tipo de aprendizagem não continuar depois das crianças terem alcançado a “idade escolar”. Afinal, a essência da educação primária e do início da secundária não passa de conhecimentos comuns que são facilmente acessíveis, pelo menos para a maioria das crianças.
Não é possível, neste documento, fazer muito mais do que abordar superficialmente o que é um fenómeno extremamente complexo. A intenção é simplesmente chamar a atenção para o potencial da aprendizagem informal para os miúdos de idade escolar e inspirar um interesse pela sua pesquisa no futuro. Poderão haver implicações para o futuro desenvolvimento da escolaridade, mas há muitas outras coisas que precisam ser estabelecidas de antemão. Será que a aprendizagem informal é mais adequada a algumas crianças do que a outras? Será que a aprendizagem acontece espontaneamente ou será que os pais têm constantemente de tirar partido de todas as situações e transformá-las em fontes de aprendizagem?
Será que na verdade há ainda mais “ensino” directo do que na escola, só que transmitido de uma maneira muito súbtil? Até que ponto é que a aprendizagem auto-direccionada desempenha o seu papel, especialmente quando as crianças crescem e se tornam mais independentes? Em relação às crianças que frequentam a escola, até que ponto a aprendizagem informal fora da escola, em casa e na comunidade em geral, contribui para o sucesso escolar? E a um nível mais profundo, como é que os “bocados” de aprendizagem informal aparentemente não-relacionados entre si acabam por se transformar numa educação que é, na pior das hipóteses, tão boa como a que se adquire na escola?
Muito poucos educadores profissionais e, muito poucas pessoas em geral, esperariam que muita aprendizagem fosse acumulada a partir das experiências quotidianas que a vida tem para oferecer. Não há dúvida, porém, que as crianças em idade escolar que aprendem informalmente conseguem adquirir os conhecimentos e as competências académicas que, de outra forma, teriam de aprender na escola com muito esforço, pelo menos até os primeiros anos do ensino secundário. Eis o que nos disse uma mãe:
A escolarização não é um processo natural. Com um esforço enorme, muitos custos e por vezes muito sofrimento, tentam forçar o que aconteceria naturalmente (p. 128).
Thomas, A. (2002) 'Informal learning, home education and homeschooling', the encyclopaedia of informal education.
Dr. Alan Thomas ensina no Institute of Education, University of London. Também ensinou na Northern Territory University em Darwin, na Australia. Agora é Fellow da British Psychological Society.
Publicado com permissão do autor. © Alan Thomas 2002
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Dia Internacional da Liberdade de Educação
Caros amigos do ensino doméstico e da liberdade na educação,O 3 º Dia Internacional da Liberdade de Educação (IFED) na Europa terá lugar no dia 15 de Setembro. O foco das actividades vai ser na terça-feira, 15 de Setembro de 2009. Outros eventos acontecerão durante a semana em muitos países do mundo.
O objectivo da IFED é promover a importância da liberdade de escolha do tipo de educação que queres dar aos teus filhos e divulgar informações sobre as formas alternativas de aprendizagem que se encontram disponíveis ou cuja existência estamos tentando proteger.
Liberdade de escolha no âmbito da educação é importante, e nós convidamos todos os movimentos educativos alternativos, todas as organizações dedicadas à aprendizagem, escolas e, naturalmente, os pais e filhos, a participarem neste evento mundial.
Iremos publicar neste site todas as informações e / ou links para os eventos da semana (conferências, encontros, feiras da educação, etc), onde quer que ocorram e em todos os idiomas. Enviem-nos por favor informação sobre os eventos que vão organisar.
Alguns exemplos de eventos passados incluem piqueniques e mesinhas com informação, debates em cafés na França, uma demonstração sobre a liberdade de educação na Suécia, uma conferência sobre o ensino doméstico na Escócia, um passeio para famílias-educadoras na Califórnia, e uma palestra & debate sobre a liberdade de educação na Áustria.
IFED foi originalmente estabelecida por pais-educadores, o que em si já inclui uma grande variedade de abordagens em relação à educação e a métodos de aprendizagem. Esta opção é legal mas não é muito conhecida na maioria dos países, e encontra-se sob constante ataque por parte daqueles que pensam que apenas o Estado deve decidir o conteúdo e o local de aprendizagem das crianças, ou seja, o que elas devem aprender e onde devem aprender. Neste momento os governos da Suécia e da Inglaterra estão planejando impor severas restrições ao ensino doméstico.
Iremos também colocar links para outros sites e anúncios em outros países. Então, por favor, informem-nos sobre os eventos que irão organisar, mesmo que vos pareçam pequenos! Juntos seremos muitos!
Por favor, não hesitem em difundir a informação sobre o IFED.
Queremos que esta mensagem chegue a todos os cantos do planeta!
Atenciosamente,
A equipe da IFED
jipli@free.fr
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Um exemplo de aprendizagem informal no ensino doméstico
Uma das mães que participou na minha pesquisa era fora do comum: tinha tentado manter um diário detalhado dos “bocados e pedaços” de aprendizagem da filha durante 5 anos, dos 7 aos 12. Fiz uma análise detalhada dos “bocados” de matemática, que ocupam menos de 5% do diário. A maioria deles são parte integrante das actividades diárias, como cozinhar, descobrir quanto tempo é preciso esperar para se ver determinado programa de televisão, ler os números dos autocarros, calcular distâncias rodoviárias, economizar dinheiro, fazer compras, jogar jogos.
O único ensino formal que a mãe tentou foi o da tabuada, e teve muito pouco sucesso. No entanto, a filha aprendeu a tabuada dos 20 antes da dos 2 porque coleccionava entusiasticamente moedas de 20 centavos que encontrava nos carrinhos abandonados nos parques de estacionamento dos supermercados, especialmente quando estava a chover.
Mesmo com a sua assiduidade em relação ao diário, apesar de ter incluido os “bocados” de matemática mais pequenos, como dizer os números dos autocarros e encher “meia chávena com farinha”, a aprendizagem informal é tão elusiva que ela esqueceu-se de registar o progresso de aprender a dizer as horas. Fez apenas uma breve referência a tal. No entanto, de uma maneira ou outra, a filha aprendeu a dizer as horas no decurso das actividades do dia a dia.
À medida que ela foi crescendo a matemática tornou-se mais sofisticada, mas continuou a decorrer das actividades quotidianas; por exemplo, durante os saldos, calculava as percentagens de redução dos preços, nos supermercados comparava os preços diferentes do mesmo produto (os preços dos vários pacotes de arroz, por exemplo), vendendo produtos numa barraquinha para uma organisação sem fins lucrativos, medindo uma série de coisas em actividades de artesanato, cozinhando, e assim por diante. Aos 12 anos o seu nível de matemática foi avaliado independentemente como acima da média.
Muitas crianças que aprendem informalmente embarcam na aprendizagem formal ou iniciam / voltam para a escola quando atingem a idade do secundário ou dos exames a nível nacional. Mas não são todas. Eis o exemplo de uma rapariga cuja educação foi, na sua grande maioria, informal: ela entrou directamente para o 12º ano e depois foi para a universidade. Sua mãe reflete sobre o período quando a filha tinha 17 anos e começou a escola:
A educação dela foi muito informal e teve muito pouca estrutura. Quando penso nisso, fazíamos coisas, mas não eram planeadas... Então entrámos em pânico na altura do 10º ano. Todo o mundo dizia que para se arranjar emprego é preciso isto e aquilo. Fiquei preocupada, mas a verdade é que continuámos praticamente na mesma. Trabalhávamos a sério durante uns dias mas depressa voltávamos à aprendizagem informal. Não conseguíamos manter o estudo formal. E continuamos a não conseguir... disseram-me que devia escrever no diário tudo o que ela fazia. Mas não mantive um diário; o mais importante, para nós, era o fazer.Sua filha acrescentou:
Na escola, existe uma pressão para se saber tudo o que é ensinado; aprende-se tomando apontamentos. Com o ensino doméstico, aprende-se um montão de coisas sem se ser ensinado (p. 78).Acaba aqui.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Citações sobre a aprendizagem
Estamos todos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo. Cora Coralina
Não raras noites, em minhas idas à universidade, o que mais me atingia, na alma, não era o que lá via mas sim o perfume das flores que envolviam ruas inteiras em meus trajetos de volta. Isaac Bianchi
O que realmente importa não pode ser ensinado em salas de aula. Robert Dockson
Aprendizagem Conversational ou Dialógica
Bruner (1990) descreve a pedagogia como uma "extensão da conversa". Se há um aspecto da aprendizagem informal no ensino doméstico ( educação domiciliar no Brasil) que sobressai acima todos os outros, comum com a aprendizagem informal dos bebés e adultos, é a conversa. À primeira vista, a maior parte da conversa ocorre no contexto social do dia a dia e é do tipo que passa normalmente despercebido. Mas a quantidade de oportunidades de aprendizagem contida neste tipo de conversa é surpreendente, especialmente porque a conversa é entre uma criança (ou adolescente) e um adulto, cujo conhecimento do mundo e de como descobrir sobre as coisas é obviamente muito maior.
É óbvio que a conversa informal, principalmente em contexto social, não segue qualquer sequência lógica ou linear. É difícil de entender o que leva de um tema a outro, mas é assim que ocorrem as conversas mais naturais. A questão é que (a aprendizagem conversacional) é natural. Tal como em qualquer conversa, quando uma pessoa sabe menos do que a outra sobre o tema que surgiu espontaneamente, ela vai, muito provavelmente, aprender com a outra. Uma pessoa explicar algo a outra é parte natural da conversa. Isto não é "ensinar", no sentido comum da palavra. É simplesmente contribuir para o fluir normal da conversa, oferecendo conhecimentos e respondendo a perguntas.
Obviamente nem tudo ficará gravado na memória, e grande parte será esquecido. Mas isso não é importante. O importante é que algumas coisas vão ser lembradas, e podem vir a ser investigadas noutra altura, mais tarde. Aprender desta forma não é considerado "trabalho" no contexto escolar. É aprender sem saber que se está aprendendo, como se por osmose, como estes dois pais observaram:
A maior parte da educação que dou é falando com eles. É assim que eu faço, na maior parte ... As perguntas que me fazem são, com frequência, de uma enorme profundidade (p. 69).Continua aqui.
Tomam o pequeno almoço e depois não param de conversar, conversam o tempo todo. Isso ajuda-lhes a desenvolver ideias (p. 69).
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Como capturar a aprendizagem informal?
É óbvio que não vai ser fácil ver progresso no dia a dia, ou até de mês a mês. Como Cullen et al (1999) observou em relação à educação informal dos adultos: "capturar a aprendizagem informal com a pesquisa exige muito esforço e perseverança. É, pela sua própria natureza, difícil de capturar e não se dispõe facilmente a ser escrutinizada e medida"(p. 7). Henze (1992) também comenta sobre as "qualidades evanescentes da aprendizagem informal e as dificuldades de capturá-la no seu contexto natural [de modo que], é raramente documentada ou estudada" (p. 4). Os pais que seguem a abordagem informal concordariam certamente com isto.
Comecei com muito pouca estrutura, mas com uma ideia do que eles deveriam fazer. Eu tinha um caderno bem espesso onde, durante uns tempos, escrevi o que fazíamos todos os dias. Queria provar que era boa naquilo que estava a fazer e para isso precisava de um registro. Mas foi muito difícil manter o diário. Começávamos num tema, cobríamos um montão de coisas e acabávamos numa outra matéria completamente diferente (p. 70).Na escola, isto seria, justamente, considerado um descuido e até não-professional. Mas em casa, de algum modo, este "montão de coisas", como descreve a mãe acima, acaba eventualmente se unindo, tal como as peças de um puzzle.
Na escola, o currículo determina o processo de ensino-aprendizagem. Estruturado de forma lógica e sequencial, cada passo fácil de digerir, para facilitar a aprendizagem. Essencialmente, a tarefa do aluno é seguir uma sequência de aprendizagem predeterminada.
Mas quando as crianças aprendem informalmente, elas parecem fazer o contrário pois impõem a sua própria sequência ao que aprendem. A lógica do currículo não corresponde à lógica das crianças e dos jovens. A lógica das crianças e adolescentes é individual e determinada pela complexa e dinâmica interacção entre o nível actual de conhecimentos e a informação que vão recebidas, mediada pelas àreas de interesse, pela motivação, curiosidade e desejo de lidar com desafios. É como se cada criança tivesse a sua própria teoria de aprendizagem. Isto é muito eficiente porque novos conhecimentos e entendimentos só são assimilados quando expandem os conhecimentos existentes.
O oposto também contribui para a eficiência da aprendizagem informal - quando as novas matérias não encaixam no conhecimento existente ou não o expandem elas são ignoradas. Isto contradiz totalmente a aprendizagem escolar convencional, onde a expectativa é que os estudantes perseverem quando não compreendem; estes geralmente acabam por adquirir nada mais que um nível superficial de compreensão, que tem sido denominado aprendizagem superficial (Biggs, 1987).
A aprendizagem informal, portanto, segue uma espécie de lógica fuzzy e não-linear, específica a cada criança. Encontra um paralelo na aquisição da linguagem, que é aprendida pelas crianças de forma semelhante a esta, e igualmente individualizada (Crystal, 1976). Talvez a aprendizagem informal esteja mais adequada às inúmeras ligações e redes no córtex cerebral. Seja qual for o caso, ela funciona, e sem todos os esforços associados à aprendizagem formal, como estes pais descobriram.
[Ele] chega a um certo nível e depois desliga. Depois, quando volta a essa matéria, está num nível superior, sem nada visível ter acontecido (p. 71).
Eles aprendem um monte no dia a dia, com a vida, com o estar na companhia dos outros. Às vezes parece impossível como é que aprenderam tanta coisa. (p. 72)
Isto não significa que os pais nunca tenham momentos de dúvida, pois vivem sem o conforto de saberem que os filhos estão obtendo um curso acreditado formalmente, como nos diz esta mãe:
Ontem à noite dei comigo a pensar que o ensino doméstico não nos está levando a lado nenhum, que tudo que fazemos não passa de um monte de arranques falsos que depois não seguimos, um monte de peças que não estão formando nada em concreto (p. 81).Continua aqui.
domingo, 16 de agosto de 2009
Adaptação da aprendizagem formal
Ensino doméstico e educação domiciliar - adaptação da aprendizagem formal
Muitos factores influenciam o afastamento, por parte dos pais, de tentativas de imitar a escola. Em primeiro lugar, como em casa as aulas formais são um-a-um, elas tendem a ser muito intensas. Por isso um dia inteiro de ensino-aprendizagem seria demais. Normalmente a primeira alteração é a redução do tempo dedicado às lições, geralmente a cerca de 2 horas, no período da manhã.
A flexibilidade da aprendizagem em casa significa também que os horários são desnecessários. As lições podem ser tão curtas ou longas quanto for necessário. Se, por algum motivo, a criança não estiver aprendendo porque está cansada, não se consegue concentrar ou não se sente bem, os pais não precisam insistir. Não há nada tão improdutivo como ensinar alguém que não está aprendendo nada. A lição pode ser abandonada e retomada mais tarde. Pelo outro lado, se a criança estiver concentrada e entusiasmada, a lição ou actividade pode continuar durante o tempo que o entusiasmo durar, e isso podem ser horas, dias ou semanas.
Outro aspecto da aprendizagem formal que depressa desaparece é a pesada dependência de exercícios e testes como prova de aprendizagem. Na escola, esta dependência é, obviamente, necessária. Sem ela o professor não seria capaz de acompanhar o progresso ou dar feedback. Em casa é simplesmente desnecessária porque a aprendizagem é muito interactiva. Isso significa que os pais sabem exactamente onde os filhos estão. Não é uma questão de fazer exercícios para verificar o que já foi aprendido e o que ainda não foi compreendido, mas de ultrapassar dificuldades no momento em que estas surgem, como estes pais observaram:
Nós não fazemos testes. Eu fico observando o tempo todo. Se fizerem algo errado eu digo-lhes imediatamente. Se corrigisse mais tarde eles não se iriam lembrar (p. 45).
As pessoas têm a ideia de que os alunos têm de vomitar a matéria. Mas nós não precisamos de fazer testes para ver se a matéria foi compreendida. Alguém me perguntou se nós fazíamos testes. Ao pensar nisso apercebi-me que fazer testes em casa seria uma farsa (Thomas, 2002).Se pensarem nas diferenças entre o ambiente de casa e o da escola, as adaptações que descrevi até agora fazem sentido. Até aqui, tudo bem. Mas elas podem ir muito mais além. Depois de terem feito estas alterações, os pais parecem tornar-se conscientes de que os métodos escolares não são sagrados mas abertos à mudança.
Tomem o exemplo de um pai-educador bastante típico que reduziu a aprendizagem formal a umas 2 horas no período da manhã. Os filhos estão relativamente livres durante o resto do dia. Mas isso não significa que não estão fazendo nada. Podem ler por prazer, debater todo tipo de coisas com os pais, ir passear, participar em actividades, ajudar nas tarefas domésticas, seguir seus interesses e passatempos, utilizar o computador e assim por diante. À primeira vista, estas coisas não parecem ser mais do que umas “férias” agradáveis das lições “a sério”. No entanto, muitos pais começam a perceber que nessas actividades estão incorporadas oportunidades de aprendizagem. Esta mãe descreve a sua experiência quando ela começou a educar sua filha de 7 anos de idade, que havia retirado da escola:
Depois dos primeiros dois meses ficámos estoiradas. A pressão não era brincadeira... Era praticamente impossível ensiná-la num ambiente formal. Começámos então a dar passeios e a fazer uma série de outras coisas... Seis meses depois elaborei um gráfico em preparação para a próxima visita do inspector. Fiquei boquiaberta com a quantidade de aprendizagem que havia ocorrido através, por exemplo, de conversas e de andar por aqui e ali (p. 76).Continua aqui.


