Este blog partilha informação sobre o homeschooling e o unschooling - ensino doméstico ou educação domiciliar. Para navegarem o site, usem os links acima e, para os posts de 2011, o botão da pesquisa na barra direita. Facebook: Aprender Sem Escola Email: aprendersemescola@gmail.com

sábado, 17 de outubro de 2009

Brasil discute projeto que permite ensino domiciliar


Anteontem, "a Comissão de Educação e Cultura realizou uma audiência pública sobre o ensino domiciliar, previsto no Projeto de Lei 3518/08, que permite aos pais ministrar a educação básica (antigos 1º e 2º graus) dos filhos em casa."
Continua aqui.

Para ouvirem a audiência cliquem aqui.

Visualizar também:
Fazer a educação básica em casa?
Projeto de lei permite a educação domiciliar
Ministério da Educação questiona constitucionalidade da educação domiciliar

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Educação domiciliar: Perguntas e Respostas

Estas foram as minhas respostas às perguntas de uma estudante do curso de Pedagogia. Resolvi publicá-las aqui pensando que talvez possam ser úteis a mais alguém...

Como é que este movimento se iniciou?


Esse movimento sempre existiu. A escolarização em massa é que é um fenómeno recente - 150 anos na história da humanidade é um abrir e fechar de olhos. Este artigo fala um pouco sobre este tema.
Antes da criação da escolaridade obrigatória e subsequente criação de instituições públicas de ensino, a maioria da educação em todo o mundo decorria no seio da família ou comunidade, e apenas uma pequena proporção da população se deslocava a escolas ou empregava tutores.

[Em Portugal,] por exemplo, no ano de 1900, já após a Reforma de João Franco e Jaime Moniz (Decretos de 22/12/1894 e 14/8/1895), o "ensino liceal" português contava ainda 247 dos 4606 alunos (5%) em ensino doméstico.

Em relação ao Brasil, estas 2 páginas mostram o número de pessoas matriculadas no ensino doméstico entre 1933 e 1944.

Quais os verdadeiros objectivos da educação em casa?


Isso depende de cada família, mas diria que comum a todas elas está a convicção da importância da liberdade de educação e de que "aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos." (artigo 26° da Declaração Universal dos Direitos Humanos).

Há várias abordagens ao ensino doméstico, desde a "escola em casa" ao unschooling passando pelo eclético. Cada família tem a sua filosofia de educação.

Falando em termos gerais, os educadores domésticos dividem-se em três grandes grupos: os que são motivados por razões religiosas e morais, os que têm razões filosóficas ou pedagógicas e os que optam pelo ensino doméstico devido aos problemas que os filhos experienciaram na escola, tanto a nível académico como social ( van Galen & Pitman, 1991; Thomas, 1998).

As motivações são muitas: várias famílias acreditam que os filhos podem adquirir uma educação de muito maior qualidade em casa do que na escola. Outras viram-se para o ensino doméstico ao verem os filhos sendo destruidos pela escola e agressividade do meio social escolar devido a uma série de problemas como o bullying / violência escolar, a resultante fobia escolar, escolas sem capacidade de lidar com as suas necessidades educativas especiais, alunos dotados passando o tempo entediados na escola, etc. Enfim, as razões são inúmeras...

Há famílias que querem colocar a ênfase no desenvolvimento moral e ético dos filhos, outras que trabalham no estrangeiro em países onde a qualidade de ensino é fraca, e assim por diante. As razões que levam os pais a optar pelo ensino doméstico são tantas quantas as famílias. Embora às vezes as pessoas pensem que a educação domiciliar seja apenas para cristãos evangélicos, essa não é a realidade.

Estão fundamentados em quê?

Depende da filosofia de educação e do método que seguem. Para os unschoolers, por exemplo, a inspiração vem do trabalho de John Holt, Ivan Illich, Raimond e Dorothy Moore.

Os métodos usados pelas famílias revelam seus fundamentos. Esses métodos incluem, entre outros, "escola em casa", educação clássica (trivium e quadrivium), o método Montessori, método de Charlotte Mason, método Waldorf, unschooling, eclético, ensino à distância, etc, etc.

Como é que os pais que não têm um bom nível de instrução podem aderir a essa modalidade educativa?

Como dizia Ivan Illich
, somos frequentemente “escolarizados” a confundir ensino com aprendizagem, progresso nos níveis com educação, e diplomas com competência. Há pessoas sem instrução formal que têm muito mais conhecimentos do que pessoas com cursos superiores. Não há melhor escola que a vida.

Já várias pesquisas demonstraram que, ao contrário do que se passa no sistema de ensino tradicional, no âmbito da educação domiciliar o nível de instrução dos pais não afecta os resultados académicos dos filhos. Traduzi algumas pesquisas neste blogue...

Futuramente essas crianças não se sentirão segregadas? Diferentes?

Geralmente tornam-se adultos capazes de trabalho independente, de espírito crítico e com capacidade de inovação. Pessoas com capacidade de liderança e que trabalham por vocação, capazes de criar - e não apenas encaixar - no mundo em que vivem.

Há um livro interessante que entrevista mais de vinte adultos educados em casa nas décadas de 1970 e 80, quando o movimento do ensino doméstico ainda era pequeno e pouco conhecido no Reino Unido: Those unschooled minds - Home-educated Children Grow Up, por Julie Webb, demonstra que as crianças educadas em casa tornam-se adultos bem ajustados, flexiveis, interessados na educação contínua e capazes de desempenhar uma vasta gama de papéis no mundo do trabalho. Kate Cayley é um exemplo - visualizar aqui.

Há muita informação na internet. Podem visualizar, por exemplo, o National Home Education Research Institute.

Como poderei contactar com famílias que praticam o ensino doméstico?

Associem-se a estes 2 grupos

http://ensinodomestico.ning.com/

http://groups.yahoo.com/group/ensinodomestico/

Na barra direita deste blogue também encontrarão uma lista de blogues em português sobre o ensino doméstico / educação domiciliar.

Dia Mundial da Alimentação

Sabiam que hoje é o Dia Mundial da Alimentação?
Aqui ficam umas fotos, para partilhar o dia com vocês...

Farinha integral para fazer pão pitta com sésamo.

São pãezinhos achatados bem gostosos. Comemos acompanhados com agriões (boa fonte de cálcio, quercetina e betacaroteno) e pesto, um molho de origem italiana feito com folhas de manjericão, queijo parmesão ralado, azeite, pinhões, alho, pimenta e sal. No Brasil parece que fazem com castanha do pará em vez de pinhões. Nós comprámos já feito mas é fácil de fazer em casa, como podem visualizar aqui.

O meu filho preferiu "bolachas" de arroz integral com manteiga de amendoím e maçãs cortadas às rodelas com fatias de queijo.

E para acabar, alguns dos livros que andam por aqui...

Que bom que seria se, assim como temos a liberdade de escolher o que comer e que tipo de dieta seguir, as crianças tivessem a liberdade de escolher o que aprender, onde aprender, quando aprender e com quem aprender!

Link: Receitas culinárias para crianças com alergia alimentar

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Campanha de Proteção à Educação Domiciliar

Mais de 450 famílias que praticam o ensino doméstico manifestaram-se anteontem em frente ao parlamento britânico contra as recentes propostas de alterar a lei sobre a educação domiciliar. Este é o vídeo da reportagem que apareceu ontem no noticiário, com a tradução em baixo.



Os pais que optam por educar os filhos em casa levaram a sua campanha contra os planos governamentais de maior regulamentação e controlo do ensino doméstico ao parlamento. Dizem que a sua capacidade de proporcionar aos filhos uma boa educação está sendo tratada com suspeita por pessoas que simplesmente não percebem nada do assunto. Sara traz-nos as últimas novidades sobre os desafios enfrentados pelos pais que procuram dar a melhor educação possível aos filhos.

Sara: À medida em que se foram reunindo em frente ao parlamento eles transformaram a campanha numa espécie de festa mas a sua mensagem era muito séria - Não interfiram na educação dos nossos filhos!

Dani, de Brighton, já educa os filhos há 5 anos. As regulamentações, segundo ela diz, não vão ao encontro da maneira em que os filhos aprendem.

Dani: Quem deve impôr os objectivos da aprendizagem dos meus filhos não sou eu. Isso é algo que eles próprios devem decidir. E também não está certo que o governo venha para aqui com ditames sobre o método que devo usar na educação dos meus filhos.

Pearl (filha de Dani): A maneira como eu aprendo é muito diferente. Não tenho um horário, como na escola, por isso não começo a aprender a horas marcadas. Eu aprendo à medida em que vou vivendo a minha vida.

Sara: Depois de um relatório ter recomendado que todas as crianças educadas em casa devem ser obrigadas a um registo anual, a ter um plano educativo e a receber visitas em casa para que o governo possa verificar que estão bem e seguras, está decorrendo agora uma consultoria ao público. Muitos dizem que as propostas não passam de interferência desnecessária.

Lord Lucas, que apoia a campanha: Todos nós temos o direito, que na verdade é um dever, de educar os nossos filhos. A maioria delega essa responsibilidade para o Estado mas estas são pessoas exercendo esse direito. Nós deixámo-las fazê-lo durante anos e anos, e agora, de repente, estamos a tratá-las como se estivessem fazendo algo suspeito, algo horrível, e insistindo que precisam de ser controladas e vigiadas.

Mas o governo diz que está comprometido a balançar os direitos dos pais com a necessidade de assegurar que, em casa, as crianças estão a aprender e que estão seguras.

Lucy acredita que há uma grande falta de compreensão em relação à abordagem que famílias como a dela seguem em relação à educação dos filhos.

Lucy: A tendência é de seguir os interesses dos nossos filhos. Damos sugestões, vamos a passeios, fazemos actividades de grupo e assim por diante. Além disso, eles também aprendem sozinhos. Eu faço questão de seguir os seus interesses porque as crianças aprendem muito melhor quando adoram e sentem vocação pelo que fazem.

Sara: A esperança é convencer o governo que as coisas estão bem como estão e que a lei não precisa de ser modificada. BBC, Westminster.

Visualizar mais um slide-show aqui.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Proteger o direito de educar os nossos filhos

Ontem à tarde, em Westminster, Londres

Uma educação adequada aos nossos filhos, e não ao Estado!

em frente ao parlamento britânico

mais de 450 famílias que praticam o ensino doméstico protestando contra as propostas de mudar a lei sobre a educação domiciliar...

Amanhã publicarei a reportagem que apareceu no noticiário - ainda não fiz a tradução... Estas 3 fotos foram retiradas daqui mas podem ver um slide show mais completo aqui.

E para acabar, uma citação do Pe. João Mónica:

"Primeiro a Liberdade a ser usufruída pelos educandos. Sem liberdade não pode haver, sequer, responsabilidade. Não há pessoa. A Liberdade é, antes de mais, um direito fundamental da pessoa. Depois, é a liberdade dos pais. Quem cria tem o dever e o direito de educar. Sem a liberdade de escolherem a educação para os filhos, os pais são espoliados de um direito que é também um dever. A escolha de um projecto educativo exprime a efectiva liberdade educadora dos pais."

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Testemunho de uma adolescente educada em casa

Este testemunho deve ser lido no contexto da actual tentativa por parte do governo britânico de mudar a lei no sentido de limitar a autonomia do ensino doméstico usando toda uma série de pretextos disputados pela grande maioria das famílias que praticam a educação domiciliar no Reino Unido. Aqui vai:

Olá, eu sou a Mirna, tenho 14 anos e aprendo em casa. A minha mãe é tradutora e o meu pai é quem fica em casa tomando conta de nós. Quando eu tinha 7 anos viémos viver para a Inglaterra porque na Holanda é muito difícil educar os filhos em casa.

A escola nunca foi a opção certa para mim. Para o meu irmão mais velho, que tem a síndrome de Asperger, era uma opção ainda pior. Devido a essa forma ligeira de autismo, ele era ignorado ou ameaçado pelos outros alunos e tornou-se o bode expiatório dos professores, que nunca tentaram conhecê-lo nem compreendê-lo. A minha mãe retirou-nos da escola principalmente por essa razão.

Continuámos a viver na Holanda durante uns tempos mas a nossa situação tornou-se difícil. A maior parte das pessoas não concordava com a nossa opção e assim resolvemos vir viver para a Inglaterra, a terra natal do meu pai.

Nos 5 anos que morámos em Penton a minha irmã mais velha começou a trabalhar num hotel aqui perto. Eu e o meu irmão praticámos tiro com arco. O meu irmão praticou judo e juntou-se aos cadetes. Eu comecei a ter aulas de música e a fazer teatro. Através destas actividades e das reuniões semanais das famílias que educam os filhos em casa conhecemos um monte de pessoas incríveis - algumas delas tornaram-se os meus melhores amigos - e através delas vim a conhecer ainda mais pessoas, todas elas maravilhosas.

Depois, há 2 anos, fomos viver para Carlisle, mais perto dos nossos amigos e de várias actividades, e mais fácil para a minha irmã arranjar um bom emprego. Ela já acabou a faculdade e agora trabalha para a Mencap e já tem casa própria.

O meu irmão está estudando Jujitsu com o meu pai. Passou os exames do 11ºano com muito boas notas (com a ajuda de explicações de ciência, biologia e matemática) e vai-se juntar ao exército. Eu já canto (música clássica) há 5 anos e estou a preparar-me para fazer o exame de canto (grau 7) e de educação musical (5º ano). Além disso, também toco flauta e violão. Cantei num casamento e sou frequentemente convidada para cantar em concertos. Os meus dias são passados com aulas de música, canto coral, arte, convivendo com amigos e o meu namorado. Quero começar a estudar japonês e fazer jiujítsu com o meu pai e o meu irmão, e também quero fazer os exames do 11ºano quando me sentir preparada.

Como vêem, somos uma família normalíssima. Não podia ter desejado melhor família, amigos e namorado. Claro que também temos períodos difíceis e que eu também tive experiências desagradáveis na vida, mas quem é que não as tem? A vida não pode ser vivida sem arrependimentos, só quem é muito ignorante e arrogante é que poderia dizer que nunca se arrependeu de nada.

Portanto, ó funcionários públicos, antes de virem para aqui, com os vossos preconceitos sobre a aprendizagem autónoma, invadir a privacidade das pessoas nas suas casas, interrogar as crianças para saber se elas querem realmente ser educadas em casa, por que não pensam nos motivos que vos levam a fazer isso? Porque não vão para as escolas perguntar aos miúdos se eles querem realmente lá estar? Eu tenho montes de amigos que frequentam a escola e não me dizem nada de positivo sobre o ambiente escolar. O que eu ouço sobre a escola é que os professores não têm gosto pelo que fazem, os alunos estão cheios de tédio, não aprendem nada e tornam-se rebeldes e agressivos, agredindo e estereotipando os outros, dividindo-se em grupos fechados a todos que não adoptam as suas maneiras.

E isso tem um efeito no modo como se comportam fora da escola. Alguns dos meus amigos são vistos como "emos" ou "goths" e por causa disso são insultados e agredidos - apenas por se vestirem de certa maneira e gostarem de certo tipo de música. Às vezes até eu sou agredida por ser cantora clássica.

E é isso que o governo está fazendo em relação aos educadores-domésticos, fazendo deles o bode expiatório, tratando-os como se houvesse algo de errado com eles, apenas por terem decidido educar os filhos fora da escola, e apesar dessa decisão ter sido tomada devido à violência escolar que os filhos sofreram na escola, como no caso do meu irmão. E, assim, somos tratados de forma diferente e... muito mal. O governo está esteriotipando as famílias que optam pelo ensino doméstico porque têm o poder; em vez de usarem o poder que têm para intimidar as famílias que se dedicam à educação dos filhos poderiam usá-lo para coisas muito mais construtivas, como ajudar os sem-abrigo, os doentes e as crianças que estão sendo realmente maltratadas?

Nós continuaremos a lutar pelos nossos direitos, como qualquer outra pessoa faria. Lutaremos para manter as coisas como estão. Não há necessidade de mudar a lei porque já existem leis que protegem aqueles que realmente precisam de protecção. E vamos proteger as leis que protegem o nosso direito de aprender em casa e de aprender de forma autónoma.

Governo, gastem o vosso dinheiro em coisas que que mudam as coisas para o melhor, em coisas construtivas, em vez de destrutivas.

Tradução livre e parcial. Original aqui.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Por onde andámos...

Igreja de St. André

Parque de Avonmouth

Rua em frente ao parque
A estação de combóios, para o Alexandre ;-)

E uma turbina eólica lá ao fundo,
captando e transformando a força do vento em energia eléctrica...

domingo, 11 de outubro de 2009

Para começar a pensar

Trecho do Guia Inter (p. 20)

Homeschooling, unschooling & deschooling
Escolarização em casa, não escolarização e des-escolarização...

A crise do sistema escolar provocou algumas respostas radicais que promovem uma oposição activa contra a escolarização obrigatória e a educação institucional. Não apenas a sua natureza obrigatória, mas também os benefícios da instituição escolar em si, têm sido postos em questão por alguns autores, como John Holt e Ivan Illich, promotor do movimento da “escolarização em casa” nos EUA e criador da teoria da “des-escolarização”, respectivamente.

“Consequentemente, depois dos seus próprios anos como professor da escola, ele observou que professores bem intencionados mas esgotados, que programam as crianças para dizer de cor as respostas certas e desencorajam a aprendizagem auto-orientada, atrasam frequentemente a curiosidade natural das crianças. Holt chegou a considerar as escolas como lugares que produzem cidadãos obedientes mas amorfos. Ele viu a carga diária das crianças que vão à escola como preparação para a futura carga adulta de pagar taxas fiscais e subserviência a figuras de autoridade. Holt chegou mesmo a comparar a melancolia do dia escolar à experiência de ter um emprego doloroso a tempo inteiro.”

Finalmente, Holt concluiu que a forma mais humana de educar uma criança era facultando-lhe educação em casa. (...) Holt expôs uma filosofia que poderia ser considerada uma abordagem de laisser faire à educação em casa ou, como ele a designou, “aprender vivendo”. É uma filosofia que os seguidores de Holt têm vindo a descrever como não escolarização.

Lyman, Isabel. Homeschooling: Back to the Future?

“Muitos estudantes, especialmente os que são pobres, sabem intuitivamente o que as escolas fazem por eles. Elas ensinam-nos a confundir processo e substância. Quando estes se confundem, uma lógica nova é assumida: quanto maior o tratamento maior os resultados; ou, a ascensão conduz ao sucesso. O aluno é, por isso, “escolarizado” para confundir ensino com aprendizagem, progresso nos níveis com educação, um diploma com a competência, e fluência com a habilidade de dizer algo de novo. A sua imaginação é “escolarizada” para aceitar serviço em vez de valor.”

Illich, Ivan. Deschooling Society.


Para começar a pensar

Pensa que a escolarização em casa é uma escolha possível?

E o que acha da des-escolarização?

Consegue imaginar qualquer outra alternativa à educação formal obrigatória?

Na sua opinião, quais os objectivos da educação escolar que não preenchem as expectativas das pessoas e as levam a procurar outras alternativas?

sábado, 10 de outubro de 2009

Deixar ir, largar, descartar, abrir mão de...

entre outras coisas, centenas e centenas de livros de quadradinhos! Aqui a expressão é "declutter", em português não sei; é o contrário de atulhamento, aferramento...

Quando praticamos o ensino doméstico (educação domiciliar no Brasil), é muito fácil acumular uma série de recursos educativos. Mas em vez de amontoar e acervar nós damos as coisas que já não usamos, e graças a sistemas como o Freecycle encontramos sempre alguém interessado nas coisas que já não nos fazem falta.

As lojas de caridade também dão muito jeito, mas não sei se em Portugal ou no Brasil já existem ou não - já ouvi falar das Coisas do Vizinho, mas não é bem a mesma coisa... Ainda a semana passada levámos sacos cheios de livros, CDs, cortinas, tecidos, roupas, candeeiros, etc., a uma loja de caridade aqui perto e já temos mais coisas para levar. São coisas que já não usamos regularmente e se não as dermos a alguém acabam por ficar para aqui a atafulhar a casa.

Eu gosto de dar aquilo que já não uso ou já não preciso mas há quem tenha uma enorme dificuldade de se desprender dos objectos e acabe acumulando objectos e "tralha" de uma forma excessiva. Levado ao seu extremo transforma-se em colecionismo ou armazenamento compulsivo e é um dos sintomas do transtorno obsessivo compulsivo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ensino doméstico na Itália

Na Itália, muitas pessoas pensam que se não mandarem os filhos à escola acabam com assistentes sociais e/ou a policia à porta. Na verdade, a educação libertária também é um direito inalienável dos italianos: no entanto, de acordo com estimativas do secretário da rede italiana Educazione Libertaria, apenas cerca de 200 famílias italianas educa os filhos autonomamente.

Sybille Kramer, que optou pelo ensino doméstico quando os filhos terminaram a escola montessoriana, explica que são poucos devido à falta de informação. No seu blogue, Sybille explica que para cumprir os requesitos da lei "é suficiente fazer um pedido à direcção escolar demonstrando o programa que se planeia seguir durante o ano e depois, no final de cada período, apresentar os trabalhos feitos (exercícios de matemática, fotos, etc) para demonstrar o bom andamento dos estudos.

Original aqui (final da página 2).

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Ensino doméstico nos E.U.A.

Nos Estados Unidos, dois milhões de crianças não frequentam a escola; em vez disso, aprendem em casa e são educadas pelos pais. É o homeschooling, um fenômeno em forte crescimento. A educação domiciliar não é praticada apenas por agricultores que vivem em áreas remotas ou por cristãos evangélicos que desconfiam dos programas governamentais - está se tornando cada vez mais popular com a classe média urbana.

Se é verdade que o conhecimento nos traz a liberdade, a verdadeira liberdade só existe quando somos livres de escolher o que queremos aprender. De facto, a experiência diz-nos que o conhecimento adquirido sob compulsão depressa é esquecido. Mas será possível libertarmo-nos do aspecto coercitivo do saber? Para muitos americanos, o mero conceito de escolaridade obrigatória é visto como uma ameaça às liberdades individuais garantidas pela constituição: na “terra da liberdade” o direito à autodeterminação é parte da psique nacional.

Foi precisamente nos Estados Unidos, na década de sessenta, que nasceu o movimento da educação domiciliar, onde a instrução é dada em família e não em escolas, e que é agora um fenómeno social com mais de dois milhões de estudantes e com uma taxa de crescimento anual entre os 7 e os 15%.

Historicamente, nos Estados Unidos e no resto do mundo, sempre houve crianças educadas em casa: os ricos aprendiam com tutores, muitos aprendiam com uma professora contratada por um grupo de vizinhos, e a maioria sob a orientação dos pais (os comerciantes ensinavam matemática e assim por diante).

O ensino obrigatório foi aprovado em Massachusetts em 1852, em plena revolução industrial, para acabar com a exploração das crianças, mas a prática de educar os filhos em casa nunca desapareceu: em zonas como o Alasca, em que as famílias moram longe dos centros urbanos, o ensino doméstico tem sido, desde sempre, a única opção disponível.

No entanto, não há dúvida que a curva dos adeptos do ensino doméstico se acentuou imenso nos anos sessenta e setenta, após a publicação de várias obras sobre pedagogia centradas nos aspectos negativos do ensino compulsório e da agressividade na dinâmica social do ambiente escolar.

Entre os vários autores da época, John Holt continua a ser considerado como o maior defensor da liberdade no campo da educação e do autodidatismo. Segundo este ex-professor, as crianças que frequentam a escola não aprendem porque o medo as paralisa (medo de dar a resposta errada, de ser atacado pelos colegas e/ou professores, etc). Holt argumentou que a curiosidade é sufocada quando tentamos controlá-la e que “a aprendizagem não resulta do ensino, a aprendizagem resulta da actividade dos alunos. " Milhares de famílias seguiram o seu conselho: retiraram os filhos da escola e dedicaram-se ao unschooling, um método em que os jovens tomam responsabilidade pela sua educação, em que o mundo e a vida é a sala de aulas e, acima de tudo, onde as crianças/jovens decidem o que aprender, quando aprendem e como aprendem, sob uma supervisão que é o mais discreta possível.

Durante os anos oitenta deu-se uma reviravolta quando as escolas "cristãs" (na sua maioria pertencentes à corrente evangélica) viram os seus subsídios desaparecer. Centenas de instituições religiosas fecharam as portas e grande parte da população resistente à educação secular (que inclui a teoria da evolução e a educação sexual) optou pela “escola em casa”. Quem fez essa escolha por razões de fé tende, ao contrário dos unschoolers, a instaurar um regime semelhante à escola, com horários, disciplinas, testes e avaliações: a diferença está apenas na orientação do conteúdo.

No entanto, como afirmou Brian Ray, presidente da National Home Education Research Institute, "muitas pessoas pensam que o homeschooling é para fundamentalistas que andam sempre agarrados à Bíblia ou para libertários do tipo 'vamos para o campo pastar cabras' com sandálias nos pés. Em vez disso há de tudo, desde cristãos que vivem no campo e fazem criação de cabras a libertários que crêem que eles, e não o Estado, devem doutrinar os filhos. Os estereótipos são falsos, mesmo que contenham alguma "verdade".

Entre estes dois extremos existe de facto uma grande parte da população que não está satisfeita com as escolas públicas e privadas e que chegou à conclusão que o ensino doméstico é a melhor opção para os filhos, muitas vezes superdotados. Cada família escolhe a abordagem que mais lhe agrada: o mercado de currículos pré-embalados (com montes de cadernos, lápis e fichas de avaliação) está mais próspero do que nunca, mas muitos pais combinam livros didáticos para as disciplinas consideradas principais com livros produzidos em casa pelos filhos sobre temas que lhes despertam o interesse, desde a história da música à classificação de todas as plantas da zona em que moram.

Quanto à socialização, eles são rápidos a defender a educação domiciliar: as famílias que praticam o ensino doméstico estão conectadas umas às outras através de incontáveis redes sociais, boletins, reuniões, excursões, etc. Muitas têm blogues onde oferecem ou pedem ajuda prática ("sabem onde poderei encontrar olhos de vaca para a minha filha, que quer ser veterinária quando crescer, dissecar numa experiência de anatomia?"), camaradagem (anedotas do tipo quantos educadores-domésticos são precisos para mudar uma lâmpada? Consulte a página anterior") ou para apoio moral ( "acham que deveria fazê-lo estudar trigonometria em vez de deixá-lo fazer origami o dia todo?"). E porque não defenderiam a aprendizagem em família? Afinal, estão a par das estatísticas que comprovam que 80% das crianças educadas em casa estão acima da média obtida pelas que frequentam a escola.

De acordo com as projecções actuais, 2% da população de idade escolar nos E.U.A. é educada em casa, e a tendência é para aumentar. Helen Hegener, fundadora da Home Education Magazine, revista de referência a nivel internacional, lembra àqueles que pretendem empecilhar o movimento com decretos-lei e regulamentos intrusivos que cada homeschooler é legalmente inocente até prova em contrário", e que não têm que dar satisfações a ninguém.

Original aqui. Tradução livre e parcial.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Pais franceses educam os filhos em casa


"Quinta-feira, 3 de Setembro, os três filhos de Axelle Rousse não pegaram o caminho para a escola. Eles não arrumaram a mochila, nem estão inquietos para saber se sua professora será simpática ou severa. Eles ficaram em casa, no vilarejo de Crésangignes (Aube), a cerca de vinte quilômetros de Toryes. Eles fazem parte dos cerca de três mil estudantes franceses de 6 a 16 anos cujos pais optaram pela educação em casa."

Podem ler o resto aqui.
Original aqui.

Vídeo: a família Kelly aprendendo em casa

The Kelly Family são uma banda pop / folk / rock com mais de 30 anos de carreira e vários milhões de discos vendidos na Europa, constituída por um grupo de irmãos e irmãs nascidos nos Estados Unidos, Espanha, Irlanda e Alemanha (informação daqui).



Devido à sua infância e adolescência pouco convencional, a maioria dos membros da família Kelly nunca foi à escola. Os pais davam-lhes aulas em casa e todos os anos faziam um exame internacional para garantir que estavam a par dos estudantes da sua idade. Todos eles falam fluentemente inglês, alemão, espanhol e francês. Alguns falam ainda neerlandês e italiano. Aqui estão eles, aprendendo em família na década de 1980:



Sabiam que um dos seus primeiros singles foi Estudiantina Portuguesa? Para visualizar mais vídeos deles cliquem aqui.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ensino doméstico na Irlanda

Maior qualidade de vida apesar de menos dinheiro é o título de um artigo publicado hoje num jornal irlandês. Aqui fica a tradução.


"Ideologicamente fomos sempre a favor da educação domiciliar, desde os tempos em que ainda não tinhamos filhos mas, obviamente, não sabíamos se iríamos avante com isso", diz Léan.

Actualmente, a carreira de Léan está em pausa, enquanto ela educa os 2 filhos, Oisin e Fiachra, de 5 e quase 2 anos, em casa.

"A abordagem do ensino doméstico que nos seguimos é o unschooling'", diz ela. "É muito centrada na criança. Trata-se de facilitar a aprendizagem em vez de ensinar um currículo - como Oisin está fascinado com a matemática, nós agora fazemos muita matemática. Mas imagino que daqui a 2 meses há-de ser algo diferente. Conversamos muito, respondemos às suas perguntas e damos-lhe os livros, jogos e DVDs que lhe possam interessar. Essencialmente, ele está explorando o mundo e nós estamos facilitando a aprendizagem".

O ensino doméstico não foi a principal razão que levou Lean a afastar-se do seu trabalho como revisora de textos. Uns meses depois de Oisin ter nascido ela recomeçou a trabalhar mas chegou à conclusão que se estava a dirpersar demasiado. Depois de um ano resolveu fazer uma pausa.

"Na minha vida só havia tempo para o trabalho e a parentalidade", diz ela. "Eu precisava encontrar uma maneira de equilibrar as várias facetas da minha vida de uma forma que combina comigo. Na verdade, ter filhos foi o que finalmente me forçou a ver quais eram eram as minhas prioridades. Antes disso, tudo era feito nos pedacinhos de tempo que restavam depois de ter feito tudo que tinha de fazer. As coisas que eu adorava fazer tinham de ser feitas no pouquíssimo tempo que me sobrava.

Depois desse ano, que foi difícil, percebi que não tinha tempo para nada e senti a necessidade de organisar a minha vida de uma forma que me permitiria fazer as coisas que me fazem feliz. E se eu fizer uma lista das coisas que são importantes para mim, trabalhar num escritório em troca de dinheiro não está nem perto no topo da lista".

Quando Fiachra nasceu, decidiu fazer uma pausa ainda maior na carreira e agora está feliz com a situação.

"Irrita-me que o meu estatuto seja frequentemente posto em causa" diz ela. "Mas quero lá saber que alguém pense menos de mim por agora não ganhar dinheiro. Acho que a contribuição das mães que ficam em casa a educar os filhos é enorme mas muitíssimo desvalorizada. Irrita-me que oficialmente a nossa contribuição para a sociedade só seja válida quando contribuimos em termos fiscais e pagamos a alguém para cuidar dos nossos filhos."

Embora a família agora dependa do salário do marido, Léan descobriu que o tempo livre que agora tem permite-lhe fazer um orçamento e fazer compras de uma maneira mais sensata.

"E por isso não sentimos que temos menos dinheiro. O que mais me impressionou foi como a qualidade da minha vida aumentou apesar do nosso rendimento ter diminuido imenso".

Ser mãe forçou Léan a confrontar seus próprios preconceitos.

"Descobri que fazia uma série de suposições completamente erradas sobre as mulheres que ficam em casa", diz ela. "Tinha assimilado a ideia de que é uma opção fácil, que não é trabalho a sério. Apercebi-me que quando vemos mães com os filhos no café, elas não estão de folga. Antes de ter tido filhos, ir ao café ou ir almoçar fora era tempo de lazer. Mas quando estamos fora de casa com as crianças nós somos responsáveis pelo seu comportamento, alimentação e limpeza. Há uma quantidade enorme de trabalho invisível que está ocorrendo. Essa foi uma grande realização. "

O direito à educação domiciliar está consagrado na Constituição, mas as famílias que desejam praticar o ensino doméstico devem inscrever os filhos no National Education Welfare Board (NEWB) aos 6 anos. Oisin tem 5 e teria começado a escola este ano se os pais tivessem optado pela via tradicional.

Por agora, Léan e a família estão levando a educação domiciliar de ano a ano, observando o que funciona para os filhos.

"A maioria das famílias que faz o ensino doméstico teve os filhos na escola em várias fases", diz ela. "Nós ainda estamos levando isto de ano a ano, pelo menos por enquanto".

E embora faça planos de regressar ao mundo do trabalho, sente-se feliz com as coisas tal como são.

"A pesquisa mostra que o desenvolvimento das crianças é muito melhor quando os pais estão felizes com suas escolhas. Não se trata de optar por trabalhar ou não, trata-se de estarmos felizes com a nossa situação."

Para mais informações, visitem o site Home Education Network.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

domingo, 4 de outubro de 2009

Crianças defendem os seus direitos

Na Inglaterra, crianças e jovens educados em casa juntaram-se e formaram o Movimento de Libertação dos Menores contra a escolaridade obrigatória e as propostas do Homem Mau, ou seja, Mr. Badman - o nome diz mesmo tudo!

Eis a sua canção de protesto:



We don't need your registration
We don't need your yearly goals
No right of entry to our houses
Badman leave home ed alone
Hey Badman leave us kids alone
All in all you're just another brick in the wall
All in all you're just another pawn for Ed Balls

Como já vos tinha dito aqui, Mr. Badman recomenda que as famílias que educam os filhos em casa sejam vigiadas e que as autoridades possam ter o direito de entrada em suas casas sem o seu consentimento e de questionar as crianças na ausência dos pais - isto apesar de nem a polícia nem os serviços sociais terem o direito de violar o domicílio sem a obtenção de uma autorização especial do tribunal e apenas quando existem suspeitas sérias e justificadas. Bem vindos à distopia pós-democrática!

Ensino doméstico na India II

Encontrei o link para o artigo de hoje no site de Shikshantar. Um dos aspectos do seu trabalho é a aprendizagem em família (fotos retiradas dessa página).

A escola em casa

Annapurni é uma menina de 3 anos cheia de vida e energia. Fala à vontade em 4 línguas e adora recitar a sua estória preferida sobre o fazendeiro que derrama manteiga na relva.

Os pais, Ganesh Subramanium e Sarita Pungaliya, são completamente dedicados ao meio ambiente e não a mandaram para a escola. Fazem parte de um movimento cada vez maior de pais que decidiram dizer não à educação formal, à paranóia do processo de admissões em escolas e faculdades e à corrida de ratos no laboratório educacional.

Sampat e Vidya Shetty, pais de Sanskriti, uma menina muito viva de 4 anos, também acreditam firmemente na “escola em casa”. De acordo com Sampat:

"O actual sistema de educação tem mais a ver com o estresse, pressão e aprendizagem mecânica do que com a aquisição de conhecimento. Hoje em dia a educação não passa de um mecanismo de produção de clones em massa. Submetidas à pressão da competição, as crianças perdem completamente a sua originalidade."

Os Shettys são dois jornalistas que ao longo das suas carreiras descobriram o nível de corrupção nas instituições do ensino superior.

Yashodhara Kundaji e Kanwarjit Nagi leram bastante sobre os vários sistemas educacionais antes de decidirem não colocar Anant, o filho de 6 anos, num uniforme.

"Ainda hoje me lembro dos meus primeiros anos na escola. Foram anos muito traumatizantes, custava-me muito estar separada dos meus pais", diz Yashodhara. "Não quero colocar Anant nessa situação."

Fora da estrutura limitante da sala de aula estas famílias têm muito mais liberdade para investigar e praticar outros métodos educacionais, tais como visitas de estudo, excursões, passeios e viagens.

A mãe de Sanskriti leva-a onde quer que ela vá. Ganesh e Sarita já levaram a filha a Chhattisgarh, Rajasthan, Kerala, Chennai, Pune e a uma fazenda em Kutch. Não é de surpreender que as duas meninas já tenham visto mais do mundo do que a maioria das outras crianças da sua idade. Annapurni aprendeu o alfabeto inglês através de jogos e estórias, e também já aprendeu o alfabeto marata.

"Sempre que nos faz uma pergunta nós aproveitamos para investigar a questão a fundo", diz Sarita.

Recentemente, a filha perguntou o que era um globo. Ganesh explicou e agora Annapurni já sabe o nome dos planetas. Os pais de Sanskriti deixam que ela decida por si própria quando quer dormir e se deve ou não comer fast food; assim, ela tem a oportunidade de aprender a pensar por si própria e a tomar responsibilidade pelas suas acções.

Alguns pais chegam ao ponto de elaborar um sistema alternativo para os filhos. Sejal e Anil Shah, que têm 3 filhos, juntaram-se a um grupo de casais que partilham a mesma perspectiva e formaram Gurukulam, um centro de aprendizagem onde as crianças desenvolvem várias competências, desde a música, dança e arte à matemática, sânscrito e guzerate. O que começou como um grupo de 4 famílias depressa se transformou num verdadeiro movimento: agora Gurukulam já assiste 80 crianças.

Mas o que é que acontece quando estas crianças crescem e querem ser engenheiros, médicos ou advogados?

Ganesh tem planos de equipar a filha com todas as competências necessárias para uma carreira:

"Se um dia Annapurni quiser ir para medicina, nós temos bastante amigos que dão formação em medicina alternativa. Não precisamos mandá-la para uma universidade tradicional dirigida por uma cambada de aldrabões".

Shetty diz que acredita mais no valor da experiência de trabalho do que em cursos acadêmicos:

"Actualmente, o mercado de trabalho está atolhado e o que há por aí a mais são pessoas com cursos superiores que não conseguem arranjar emprego. Naturalmente, os pais que optam pela educação domiciliar enfrentam uma pressão enorme dos familiares e amigos, que querem que se eles conformem ao sistema. Mas quando se apercebem que não nos vão mudar de ideias desistem".

Ganesh e Sarita continuam a ser criticados e até já foram acusados de estar cometendo um crime contra a filha por não enviá-la para a escola. Yashodhara e Kanwarjit também enfrentam criticismos.

"As pessoas perguntam-me se o meu filho tem algo de errado"
, diz Yashodhara.

Seguir o caminho menos percorrido não é fácil.

"Educar os filhos em casa é um trabalho fisicamente exigente. É muito mais fácil mandá-los para a escola e no final obter um autômato feito numa fábrica de produção em massa. No entanto, ideologicamente, somos absolutamente contra a educação formal. O sistema de ensino encoraja o consumismo e a sociedade consumista resulta na destruição do meio ambiente. As pessoas das tribos e das vilas, que têm muito menos educação, preocupam-se muito mais com a conservação ambiental"
, acrescenta Sarita.

Ganesh abandonou o emprego e a posição de director do Greenpeace na Índia a fim de se tornar pai-educador a tempo inteiro. O fluxo de dinheiro, porém, é muitas vezes irregular. No entanto, a sua experiência de activismo ambiental ensinou-lhe que a firmeza das suas convicções os sustentará.

Tradução livre; original aqui.

sábado, 3 de outubro de 2009

Ensino doméstico na televisão inglesa

Cathy, uma mãe-educadora inglesa, foi entrevistada na semana passada pelo canal de notícias de Manchester. Deixo-vos aqui o vídeo e uma tradução livre, como sempre.



James: Como vêem, podíamos estar em qualquer sala de aulas. Temos livros nas prateleiras, posters nas paredes, brinquedos para brincar, etc. Mas não estamos numa escola primária. Estamos numa garagem que foi convertida neste espaço que Cathy agora utiliza para educar os filhos em casa. Cathy, o que te fez optar pelo ensino doméstico?

Cathy: Bem, eu não estava nada satisfeita com as escolas aqui da zona. Na altura em que os meus filhos estavam a atingir a idade escolar várias amigas minhas já tinham retirado os filhos devido aos problemas que existem nessas escolas. Por isso tive de pensar noutras alternativas e uma delas foi a educação domiciliar.

James: O governo está neste momento a rever a sua posição em relação ao ensino doméstico, dizendo que algumas crianças podem não estar recebendo a educação que precisam em casa. O que dirias sobre isso?

Cathy: Acho que é uma pena que tantas crianças acabam por ser educadas em casa precisamente por não estarem recebendo a educação que precisam nas escolas. Não vejo razões para alterar a lei sobre o ensino doméstico. É uma modalidade que tem tido muito sucesso e esse sucesso tem sido confirmado por várias pesquisas.

James: E que dirias em relação ao criticismo de que crianças como os teus filhos podem estar perdendo as oportunidades que teriam se estivessem sendo educadas no ambiente escolar?

Cathy: Acho que têm muito mais oportunidades fora da escola porque podem participar em mais actividades, expandir o currículo e seguir os seus interesses. Além disso, podem receber apoio a nível individual e a total atenção de um adulto, o que na escola seria impossível.

James: Cathy, muito obrigada. Existem pelo menos 50 000 crianças / jovens educados em casa. O governo não tem planos de remover o direito que os pais têm de educar os filhos mas quer assegurar que as crianças que não frequentam a escola recebem a educação que precisam.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Gandhi educou os filhos em casa

Hoje é o dia em que Gandhi nasceu, em 1869.

Sabiam que Gandhi era contra o sistema de ensino e a escola tradicional? Que acreditava que as crianças aprendem muito mais com os pais e no mundo real do que nas escolas?

Sabiam que Gandhi rejeitou a aprendizagem formal e resolveu educar os filhos em casa? Como é óbvio, sua esposa Kasturba também desempenhou seu papel na educação dos quatro filhos (ver foto abaixo).

Estava na África do Sul quando resolveu juntar-se com outros pais-educadores e tomar responsibilidade pela educação dos filhos. [1] Em suas palavras:

Uma aprendizagem acadêmica, não baseada na prática, é como um cadáver embalsamado, talvez para ser visto, mas que não inspira nem nobilita nada.

A educação que Gandhi deu aos filhos era tradicional em algumas áreas mas dava muita importância à humildade, que os filhos aprendiam através do trabalho manual e de várias tarefas domésticas. Aprendiam, por exemplo, a cultivar vegetais e operar máquinas. Aprendiam também sobre a importância dos relacionamentos humanos e a dignidade do trabalho, não importa quão humilde pareça. [2]

Ver também:
Ensino doméstico na India
India Homeschooling

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Ensino doméstico na China

Como hoje é o Dia Nacional da China (a República Popular da China celebra hoje 60 anos), traduzi um artigo sobre a educação domiciliar na China. Incrível, não é? O ensino doméstico está em todo o lado, um verdadeiro fenómeno global! E o que dizem os especialistas educacionais chineses? Que é sinal do avanço educacional da China! Mas primeiro, um vídeo: dois adolescentes chineses educados em casa falam sobre as suas futuras carreiras.



Segue-se a tradução parcial e livre deste artigo.

Em comparação às outras crianças da mesma idade, Li Jingci passa menos tempo em salas de aulas mas aprende mais. O pai, Li Tiejun, ensina-lhe chinês, matemática, pintura, música e até astrologia e arte da guerra.

E Li Jingci não é a única. Embora ainda não haja estatísticas precisas sobre a educação domiciliar na China, o número crescente de casos aparecendo nos meios de comunicação sugere que o número está aumentando.


Ensino doméstico: como e por quê?

A maioria dos pais opta por educar os filhos em casa por não acreditar que os filhos podem aprender aquilo que realmente precisam na escola.

"A maioria das disciplinas que a escola oferece são inúteis para o futuro da minha filha", disse Li Tiejun. "Prefiro ensinar-lhe algo de útil do que desperdiçar dinheiro na escola".

O que ele quer dizer com "algo de útil" torna-se aparente quando entramos em sua casa. O teto e as paredes estão cobertas com gráficos cheios de estrelinhas, e pautas de música clássica chinesa estão penduradas na parede ao lado da janela. As posses que a família mais valoriza são dois violinos e um teclado eletrônico.

Li Tiejun só frequentou a escola primária, mas agora é o único professor de sua filha. Acha que aprendeu o suficiente para ensinar a filha de 9 anos e que, se precisar, pode sempre contratar professores particulares.

Yuan Wei, professor no Instituto Guangzhou Baiyun, é outro pai que pratica o ensino doméstico. Decidiu educar a filha Wei Xiaoxi depois de ter chegado à conclusão que o ensino público tinha demasiadas falhas. Wei disse o seguinte a um jornalista:

"Uma das principais razões que nos levou a optar pela educação domiciliar foi a nossa decepção em relação aos métodos de ensino nas escolas primárias e secundárias. Os métodos de ensino são estupidificantes. Os miúdos têm de fazer somas após somas, repetidamente, e não estão autorizados a expressar-se abertamente quando escrevem composições. E também acho que não precisamos de 9 ou 12 anos para cumprir o currículo da escola primária e secundária. Metade do tempo seria suficiente; as crianças aprendem muito depressa quando o ensino é eficiente".

Wei comprou uma série de livros e começou a ensinar chinês, inglês e informática. Sua esposa ficou encarregada da matemática, música, arte e desporto. Armados com um horário detalhado, embarcaram na sua ousada missão. Wei Xiaoxi aprendeu depressa; num ano e meio completou os cursos do primeiro ano do ensino médio.

"Nós não queremos criar um gênio", disse Yuan Wei. "Nós educamo-la em casa porque acreditamos que os métodos de ensino devem ser adaptados às necessidades individuais das crianças."

Mas Ding Wenjun espera produzir um gênio com o ensino doméstico. Ding Wenjun, ex-empresário ficou famoso depois do filho Ding Junhui (18 anos) ter derrotado 7 vezes Stephen Hendry, o campeão mundial de snooker.

Ding Junhui deixou a escola aos 10 anos. O pai acreditava que o filho era um gênio no snooker e disse-lhe para se concentrar no jogo.

"A vida é uma aposta", disse Ding Wenjun. "Mesmo frequentando a escola, é uma aposta. Falhar não importa desde que acreditemos que aquilo que estamos fazendo vale a pena."

Educação domiciliar e a lei

Li Ansu, mãe de Li Jingci e ex-namorada de Li Tiejun, processou-o por violar a Lei da Educação Obrigatória e a Lei da Protecção de Menores. O caso provocou grande controvérsia.

A Lei de Educação Obrigatória afirma que a comunidade, as escolas e as famílias devem salvaguardar o direito à educação obrigatória. Quando as crianças atingem a idade escolar, os pais devem enviá-las para a escola.

"No nosso país, a lei diz que o ensino fundamental e médio são obrigatórios. Os pais e encarregados de educação devem mandar os filhos para a escola. Se não cumprirem as obrigações, devem ser forçados a cumprá-las"", disse Tan Zongze, professor universitário de Ciências Políticas e Direito, numa entrevista à TV Chongqing.

Xu Jiangyong, vice-director de uma Escola Primária na Província de Sichuan, não concorda com Tan.

"A lei diz que os pais devem enviar os filhos de idade escolar à escola", disse Xu. "Mas isso diz respeito principalmente àqueles que não educam os filhos. E a maioria dos pais que opta pelo ensino doméstico tem como objectivo uma educação de melhor qualidade para os filhos. Tanto a motivação e a prática são diferentes. Não se trata de negligência educacional."

O tribunal decidiu contra Li Tiejun, pedindo-lhe para enviar Li Jingci para a escola. Ele respondeu dizendo que nunca mandaria a filha para a escola.

Mas também há especialistas que defendem uma atitude aberta a esta nova forma de educação. Meng Siqing, um erudito da Academia de Ciências da Educação em Tianjin , escreveu num artigo sobre o ensino doméstico:

"É sinal do avanço educacional da China. Pensando a longo prazo, é necessário estabelecer leis e dar apoio às pessoas envolvidas no ensino doméstico para que o direito à aprendizagem que as crianças educadas em casa têm e o direito dos pais de escolher o tipo de educação a dar aos filhos possam ser protegidos".

Links
O Despertar da China (vídeo)
Home schooling gains favour
Homeschooling From Abroad
Chinese Homeschooling (YouTube)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Passeio de Outono





Fotos: esta manhã, Combe Dingle.

Ensino doméstico na Jamaica II

Enquanto a grande maioria das crianças na Jamaica veste seus uniformes e corre para as suas respectivas escolas, umas quantas vão calmamente do quarto para uma sala de aulas improvisada.

Essa é a rotina normal de Kuti e Ruwenzori Ra, de 9 e 7 anos, respectivamente. Para eles a escola é em casa, onde são ensinados por sua mãe, Kamau Mahakoe.

Mahakoe, professora particular, jornalista e autora, e o marido, Omari Ra, conhecido pelos amigos por "African", decidiram educar os 4 filhos em casa, pelo menos durante a primária. African é artista e professor de artes cênicas e visuais.

A opção de educar os filhos em casa é reforçada pelo sucesso de Tchakamau, a filha mais velha que também foi educada em casa antes de entrar para Escola Secundária da Imaculada Conceição, uma prestigiada instituição para raparigas onde ela agora é uma estudante de honra.

Tchakamau entrou para a prestigiada escola devido aos excelentes resultados que teve nos exames a que se candidatou. Para entrar na Escola Secundária da Imaculada Conceição os estudantes têm de ter uma média de 90% nos exames.

"O sistema de ensino não tem qualidade nenhuma. Os miúdos têm de ter aulas extras aos sábados e domingos", disse Mahokoe, que é uma das professores particulares que dá aulas extras de preparação para os exames. Depois de completar o secundário em 1993, Mahakoe, uma verdadeira autodidacta, trabalhou no Banco Comercial Nacional por um ano e deu aulas na pré-primária antes dos filhos nascerem.

A educação domiciliar é apenas uma das várias opções não-convencionais da família, que escolheu nomes africanos para os filhos, tem uma dieta vegetariana e resolveu não aderir a nenhuma religião organizada. Mahakoe, no entanto, descreve-se como uma pessoa muito espiritual.

A família também está perturbada pelo nível de violência e mau comportamento que os jovens estão expostos na escola. Dizem que o ensino doméstico permite-lhes proteger os filhos da obscenidade nos meios de comunicação, transportes públicos e amizades destrutivas.

"A escola de hoje é um lugar perigoso. Há jovens que são mortas e violadas na escola", disse Mahaoke.

Ela não está preocupada com a possibilidade dos filhos estarem a perder oportunidades para participar em actividades artísticas, culturais e desportivas:

"Acho que as escolas colocam demasiada ênfase no desporto, que pode tornar-se uma grande distração. Embora seja importante que os nossos filhos conheçam a sua cultura, os meus filhos não perdem oportunidades disso. O pai trabalha na área das artes, eles entram em várias competições e lêem muito", disse ela.

Uma impressionante colecção de troféus que ganharam em competições de leitura e outras áreas reforça o seu ponto.

"Nós promovemos a ciência de uma maneira muito prática. Por exemplo, em vez de nos limitarmos a mostrar-lhes fotografias de instrumentos que aparecem nos livros, tentamos obtê-los para que eles os possam utilizar. Temos microscópios, telescópios e várias outras coisas para eles ligarem a teoria à prática", disse a mãe.

Africano, que estava no trabalho quando o inspector educacional visitou sua casa, deixou um relatório onde explicou:

"Introduzimos ciência, tecnologia e história bem cedo. Queremos que as crianças negras saibam que podem inventar, criar e transformar as suas vidas através da mobilização de recursos naturais e humanos para a sua sobrevivência. Como povo, não podemos escapar a marginalização sócio-cultural pelo desporto e entretenimento que são, na melhor das hipóteses, subprodutos dos ricos e ociosos, e na pior, um obstáculo ao desenvolvimento do povo negro."

Esta rejeição de desporto e entretenimento está bem enraizada na família. As crianças quase não assistem televisão e usam a internet apenas para fazer pesquisas.

Kuti e Ruwenzori mostram-se interessados em demonstrar o que sabem e deram ao inspector uma breve mas detalhada palestra sobre répteis antigos e dinossauros, os seus tamanhos, dietas e os períodos em que viveram.

"A minha ambição é ser paleontólogo, zoólogo, biólogo marinho ou um arqueólogo", disse Kuti, antes de se sair com definições precisas de cada uma dessas opções.

Achamos que temas importantes como a matemática, as ciências e a história negra não são adequadamente investigados, principalmente nos primeiros anos de escola. O sistema de ensino tem muito poucas expectativas das nossas crianças", opina African, depois de explicar que nestes últimos 15 anos o homeschooling cresceu imenso nos Estados Unidos precisamente porque o sistema de ensino público está em crise.

Quanto à falta de interacção social, cooperação e aprendizagem em grupo, Mahakoe diz que os filhos interagem com as crianças e jovens que vêm ter aulas extras e, claro, "têm-se uns aos outros".

O Ministério da Educação está ciente de que a educação domiciliar existe na Jamaica e actualmente não está acompanhando o processo.

O porta-voz do Ministério de Educação disse que na Jamaica não existe nenhuma política em relação ao homeschooling; a política do governo é assegurar que todas as crianças recebam uma educação. Observou também que a Convenção sobre os Direitos da Criança e outras leis relacionadas falam do direito que as crianças têm à educação mas que não há nada contra a educação domiciliar.

"Desde que as crianças não sejam vítimas de abusos e maus tratos e não precisem de cuidados e proteção especiais, o governo deve evitar intervir na vida privada da família. A não ser que as crianças manifestem comportamentos desviantes que possam estar directamente relacionados à sua educação, nós não podemos interferir. Os pais são os responsáveis pelos filhos e o Estado só interfere em casos de negligência e abuso", disse ele.

Embora o ministério não disponha de dados sobre o número de crianças educadas em casa, o porta voz disse que "ficaria surpreendido se houvesse mais de 50 jovens" ao nível do secundário, mas que o número de crianças educadas em casa ao nível da primária é maior, embora se tenha recusado a sugerir uma estimativa.

Mahakoe e African admitem prontamente que a educação domiciliar não é para todos; muitos pais podem não ter condições por causa do empregos, outras responsabilidades e recursos. Mas dizem que o cepticismo inicial dos familiares e vizinhos depressa se transformou em admiração.

"Nós não acreditamos em fazer as coisas de uma maneira normal. Os nossos objectivos têm de ser excepcionais", disse Mahakoe.

Tradução livre e parcial. Original aqui.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ensino doméstico na Jamaica

Na Jamaica, a educação domiciliar parece ir de vento em popa!
Este artigo, que passo a traduzir, saiu ontem no jornal. Podem ver o original aqui. No fim deste post coloquei um link para outro artigo de jornal sobre o ensino doméstico na Jamaica.

Homeschooling - uma alternativa à escola tradicional

Há um ano, Tricia e Julian optaram por retirar os filhos da escola e educá-los em casa. Dez meses depois, estão muito satisfeitos com o progresso que os filhos estão fazendo.

No ensino doméstico, a educação é dirigida pelos pais. São eles que decidem como é que os filhos devem ser educados, com base nas suas personalidades únicas. A atenção que as crianças recebem é muito superior à que receberiam numa sala de aulas.

Tricia explica: "As crianças, quando pequenas, ainda não têm a capacidade de atenção desenvolvida. Quando [o ensino] é feito um-a-um, podemos adaptar o método de ensino-aprendizagem para se adequar à capacidade das crianças.

Zachary, por exemplo, que tem 5 anos, tem dificuldades de se sentar quietinho quando alguém lhe está contando uma estória. Ele gosta de ouvir e colorir ao mesmo tempo. Os professores não poderiam permitir que isso acontecesse numa sala cheia de alunos pois a situação poderia tornar-se caótica."

A família usa um currículo chamado Sonlight, que consiste num ano lectivo de 36 semanas e 16 semanas de férias. Eles têm aulas 5 dias por semana, das nove ao meio-dia, embora também haja oportunidade para aprender durante os fins de semana. Tricia ensina seus filhos, concentrando-se na religião, história, matemática, leitura, línguas, arte e ciências. Sonlight fornece todo o material necessário para completar o currículo anual, juntamente com orientações sobre o modo de estruturar a sua implementação. Foram atraidos pelo Sonlight por ser baseado em literatura e ensinar os alunos a pensarem por si mesmos.

Depois de Tricia ler uma estória aos filhos, eles discutem cada faceta e fazem pesquisas na internet sobre o país em que a estória ocorre. Às vezes, brincando, imitam partes das estórias, como fizeram com a estória de uma criança que ficou cega devido a um acidente com fogo de artifício. Brincaram “às cegas” andando pela casa com os olhos tapados para terem uma ideia do que seria se não pudessem ver.

Às vezes as pessoas pensam que estes miúdos perdem oportunidades essenciais para socialização, mas a verdade é que as crianças e os jovens não precisam estar rodeados de outras crianças e jovens de manhã à noite. Tricia conhece outras famílias que educam em casa; elas juntam-se e organizam excursões e passeios para as 12 crianças do seu grupo. Além disso, os miúdos também brincam regularmente com os amigos deles que andam na escola.

As famílias que optam pela educação domiciliar têm a vantagem de poupar dinheiro que podem depois usar para uma variedade de actividades extra-curriculares. A sua filha Gabrielle, por exemplo, anda no balé, tênis, francês, piano, natação e ginástica. Através destas actividades ela criou muitas amizades com crianças da sua idade.

Temos muitas vezes a percepção errada de que o ensino doméstico produz filhos estranhos e anti-sociais. Este não é o caso. Na verdade o mais provável é serem muito bem-educados. Quando as crianças passam 6 horas por dia e 5 dias por semana rodeadas por uma multidão de alunos, acabam assimilando uma série de maus hábitos. No ambiente familiar eles são influenciados pelos valores dos pais. Além disso, não estão sob pressão para comprar os itens que os colegas levam para a escola, como celulares e iPods.

Tricia diz que os filhos "estão felizes com o que têm e apreciam as coisas que têm. Não são vítimas de bullying e violência escolar. Continuam a ir a festas de aniversário e actividades com crianças que frequentam a escola. Não têm saudades nenhumas da escola."


As pessoas às vezes pensam que é preciso ser-se um tipo especial de pessoa para ter a paciência de fazer o que Tricia faz, mas ela insiste que não:

"Eu andava muito mais estressada quando os meus filhos andavam na escola. Tínhamos de nos levantar antes das 6 da manhã e era sempre uma correria louca para sairmos de casa às 7:15hrs. Agora eles acordam entre as 7 e as 7: 30 e podem preparar-se e tomar o pequeno almoço sem pressas. "

Os filhos de Tricia e Julian estão a ser muito bem educados. São inteligentes e curiosos sem serem arrogantes,e as suas habilidades sociais são impecáveis. Pelo que observei, a educação domiciliar tem ajudado estas crianças a crescer e a tornarem-se pessoas íntegras e maravilhosas.

Parece que afinal existe uma verdadeira alternativa, e de maior qualidade, às escolas privadas / particulares.

Links: Homeschooling works for Jamaican family

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ensino doméstico na Estónia

Na Estónia, a educação em casa ainda é um fenômeno relativamente recente, e graças a um certo Ministro da Educação a situação das famílias que praticam o ensino doméstico melhorou bastante nos últimos 4 anos.

A lei permitia a educação domiciliar até ao final do ano 6 (até aos 12 anos). Em 2005 o Centro Estoniano do Ensino Doméstico foi estabelecido. Este centro de apoio à educação em casa tem organizado conferências e publicado uma série de artigos desde então.

O seu objectivo inicial era mudar a lei para que os jovens pudessem ser educados em casa. Porém, o governo surpreendeu o grupo ao publicar um documento que tornou o ensino doméstico possível até aos 16 anos, ou seja, até ao final da escolaridade obrigatória. Essa lei entrou em vigor em Setembro de 2008.

Se quiserem saber mais sobre a educação em casa na Estônia, podem visitar o site aqui. As fotos que aqui vêem foram retiradas desse site, e o artigo é uma adaptação deste.

domingo, 27 de setembro de 2009

Ensino doméstico na Alemanha

Na Alemanha, o ensino doméstico é considerado ilegal desde os tempos de Hitler, e as famílias que optam pela educação domiciliar continuam sendo perseguidas. São ameaçadas com multas exorbitantes, remoção do direito à custódia dos filhos e até prisão.

Mal agarrou o poder, uma das primeiras coisas que Hitler fez foi criar o Ministério da Educação e dar-lhe o controle das escolas e de todas as questões relacionadas com a educação.

Em 1937, Hitler disse:

“A juventude de hoje é sempre o povo de amanhã. Por essa razão, colocamos diante de nós a tarefa de inocular a nossa juventude com o espírito da nossa comunidade em tenríssima idade, numa idade em que os seres humanos ainda não foram pervertidos nem moldados. Este Reich ergue-se sobre a sua juventude e está sendo construido para o futuro. E este novo Reich não dará suas crianças a ninguém mas ele próprio tomará conta de sua juventude e dará aos jovens a sua própria educação e formação”.

Documentário a não perder: Hitler's Children - Education

Recentemente, um juiz na Alemanha permitiu que um adolescente educado em casa permanecesse sob a custódia dos pais - por enquanto... Mas os defensores do ensino doméstico, na sua constante batalha com as autoridades sobre a legitimidade da prática da educação domiciliar, dizem que isso representa uma grande victória.

Este é o primeiro vídeo de Educating Germany, um grupo de apoio às famílias que optam pela educação em família. O grupo procura reformar a lei alemã; querem que o ensino doméstico seja reconhecido como direito humano que é. A tradução abaixo é livre.



Todos sonhamos com um mundo melhor. Para nós, primeiro foi o muro de Berlim; agora é o sistema educacional que precisa mudar. Na Alemanha, os pais querem ter a mesma liberdade de educar os filhos que as gerações passadas tiveram.

"Tudo aquilo que valorizamos na sociedade humana depende das oportunidades de desenvolvimento dadas ao indivíduo."
Albert Einstein

Para que isso aconteça precisamos de ter acesso às pessoas que fazem a lei. Elas também são humanas; são filhos e filhas, homens e mulheres. Comem e dormem, trabalham e brincam, pensam e sentem.

Cada região tem o seu Comité de Educação, cuja função é debater e chegar a uma conclusão sobre a lei. São 242 membros em 16 regiões. Estas são as suas fotos.

"Acção não surge apenas do pensamento mas de se estar disposto a assumir responsibilidade." Dietrich Bonhoeffer

Precisamos da vossa ajuda. Estamos a fazer uma campanha para educar os membros do comité sobre as vantagens do ensino doméstico através de livros, folhetos, cartas, emails e videos. Ajudem-nos a mudar a lei. Escrevam aos membros do comité e partilhem as vossas experiências da educação em família. Apreciamos a vossa ajuda, por mais pequena que seja.

"Sempre me agarrei firmemente à ideia de que cada um de nós pode fazer um pouco para acabar pelo menos com parte do sofrimento."
Albert Schweitzer

Juntos, podemos fazer toda a diferença.

sábado, 26 de setembro de 2009

Como ajudar os alunos com fobia escolar?

Informem os pais sobre a educação domiciliar!

"Sabias que te podemos obrigar a ir à escola?" Foi isso o que as autoridades educacionais me perguntaram, depois de todos os outros métodos terem falhado. Perguntei-lhes como. "Mandamos alguém vir-te buscar e levar-te à escola, ficar à tua espera fora da sala de aulas para se assegurar que ficas ali o dia inteiro e acompanhar-te no regresso a casa."

Na altura tinha 11 anos e depois de pensar um pouco sobre isso perguntei-lhes se tinham alguém disposto a lutar fisicamente comigo dia inteiro, dia após dia, durante cada passo a caminho da escola. Disse-lhes também que enquanto eu tinha a liberdade de fazer o que queria, o infeliz cujo trabalho seria arrastar-me para a escola não tinha permissão de me magoar. Eu era apenas uma criança, mas as autoridades perceberam que eu estava falando a sério. Olharam uns para os outros, pensaram sobre isso, e sugeriram que a minha mãe entrasse em contacto com a Associação Nacional do Ensino Doméstico, Education Otherwise.

A maior parte dos pais e professores supõe que a escola é obrigatória e que a única forma viável de educar as crianças e jovens é através do sistema de ensino formal. Porém, existem casos em que é óbvio que a frequência escolar não é do melhor interesse da criança. Os meus problemas na escola começaram quando a minha professora teve um grave acidente de carro. Apesar de estar tomando medicamentos e fazendo tratamentos de diálise todas as semanas, ela recomeçou a dar aulas e resolveu fazer de mim o "aluno problema". A minha primeira experiência de bullying - assédio moral - veio desta professora, que fez de mim bode expiatório. A minha mãe foi à escola protestar e o pessoal que lá trabalhava admitiu que a professora estava demonstrando uma mudança de carácter e fazendo julgamentos de valor estranhos, mas disseram que em tempos difíceis tinham de apoiar a equipe.

A única opção era mudar de escola; mas como eu era o "garoto novo", os outros miúdos depressa fizeram de mim o alvo. Como o meu avô era treinador de boxe e tinha me inscrito em aulas de artes marciais, quando os outros miúdos me agrediam fisicamente e eu tentava defender-me o resultado era eu ser rotulado de "aluno-problema" uma vez mais. Quando fui para a escola secundária, continuei sendo vítima de violência escolar. A escola nada fez excepto dizer-me que o facto de eu gostar de ler tornava-me diferente dos outros miúdos e por isso faziam de mim o alvo. Eu, naturalmente, desenvolvi uma fobia e comeceia recusar a ir à escola, preferindo estudar história, inglês, geografia, ciência e filosofia em casa.

Só quando me juntei à Associação Nacional do Ensino Doméstico, Education Otherwise, e começei a conviver com outros jovens que se recusavam a ir à escola e eram educados em casa, é que a minha experiência de educação melhorou. Candidatei-me aos exames do 11º e 12º ano, tive boas notas em inglês, direito e sociologia, e aos 17 anos tornei-me o técnico jurídico mais novo do Reino Unido.

Também obtive a faixa preta no karaté e começei a dar aulas, coisa que fiz até que o meu interesse pela escrita se transformou numa ocupação profissional por conta própria. Outras pessoas que conheci através da educação alternativa tornaram-se músicos e cineastas de sucesso; um dos miúdos que conheci tornou-se professor de línguas antigas. No entanto, a única pessoa que conheço que obteve sucesso através da educação convencional frequentou uma escola privada em Wilmslow.

A educação domiciliar não é para todos; as famílias em que ambos os pais trabalham podem não ter o tempo disponível nem os recursos necessários, e algumas crianças que têm necessidades especiais - embora não todas - podem precisar de apoio especializado que os pais, sozinhos, podem não ter a capacidade de dar. No entanto, para muitas crianças, o ensino doméstico proporciona o ambiente ideal para desenvolver os seus interesses criativos. As crianças sobredotadas, em particular, são mal servidas pela educação sistematizada que só pode acomodar os alunos medianos.

É obvio que a suposição de que a fobia escolar só pode ser tratada na escola é falaciosa; a aprendizagem e a socialização são primeiramente o domínio da família, e é no contexto familiar que as crianças aprendem as competências necessárias para prosperar na vida adulta.

Podem ler o original, por Samuel Jones, aqui.

Link: Primary school teacher who bullied pupils suspended